Família

Os Domingos do Seu Josué

03 de dezembro de 202514 min de leitura3 a 5 anos3 visualizações

Um avô ensina aos netos que as melhores coisas da vida não custam dinheiro.

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Os Domingos do Seu Josué

O sol de domingo apareceu bem cedinho na Vila do Ipê. A rua ainda estava quietinha. Só dava para ouvir os passarinhos cantando: piu-piu, piu-piu!

Na casa de portão azul, morava o Seu Josué. Ele era um vovô de bigode grande, bem branco, e tinha um sorriso que parecia abraço.

Todo domingo era dia especial. Era o “domingo do Seu Josué”.

E lá vinham os netos correndo, correndo, correndo!

— Vovô Josué! Vovô Josué! — gritou a Bia, com duas maria-chiquinhas pulando.

— Vovô! Eu cheguei primeiro! — disse o Dudu, fazendo “vruuum” com um carrinho na mão.

Seu Josué abriu os braços.

— Ô, meus passarinhos! Entrem, entrem! Domingo é dia de coisa boa… e coisa boa não precisa de dinheiro, não.

A Bia arregalou os olhos.

— Não precisa? Nem de moedinha?

— Nem de moedinha — respondeu o vovô, piscando.

Na cozinha, tinha cheiro de café e de pão na chapa. Tchiii… tchiii… a frigideira fazia barulhinho.

— Hoje nós vamos ter um domingo de aventuras — falou Seu Josué. — Mas é aventura simples. Aventura de coração.

Dudu perguntou, bem sério:

— Tem dinossauro?

Seu Josué deu uma risada gostosa.

— Tem formiga gigante e vento que assobia. Já serve?

— Serve! — disseram os dois.

Depois do lanche, Seu Josué pegou um chapéu de palha. Bia colocou um vestidinho amarelo. Dudu levou o carrinho. E lá foram os três, de mãos dadas.

A primeira parada foi na calçada, bem em frente à casa. Tinha uma árvore de ipê que fazia sombra grandona.

— Olhem! — disse o vovô. — O primeiro presente do domingo: sombra fresquinha.

Bia abriu os braços como se abraçasse a sombra.

— Uau! Ela é geladinha!

Dudu encostou a bochecha no tronco.

— Árvore é dura. Toc-toc! — ele bateu com os dedos.

Seu Josué falou baixinho:

— A árvore dá sombra, dá flor, dá lugar para passarinho. E ela não cobra ingresso.

Os netos riram.

— Ingresso! — repetiu Bia, achando a palavra engraçada.

Eles seguiram andando até a pracinha do bairro. Era uma pracinha brasileira, com banco de cimento, escorregador vermelho e um campinho de terra. Um cachorro caramelo dormia esticado no sol.

— Olha o cachorro pãozinho! — falou Dudu.

— Shhh… ele está descansando — disse Seu Josué.

No balanço, Bia pediu:

— Vovô, empurra!

Seu Josué empurrou devagar.

— Vai, vai… uhuu! — Bia fazia “uhuu” e dava risada.

Dudu foi no escorregador.

— Lá vou eu! Wheeee! — e desceu rapidinho.

O vovô ficou olhando os dois brincarem e falou:

— Olha aí. Balanço, escorregador, correr na grama… isso tudo é de graça. O corpo brinca. O coração sorri.

Bia parou um pouquinho, ofegante.

— Vovô, então a pracinha é um presente?

— É sim. Presente do bairro. Presente do domingo.

Depois, eles caminharam até a feira livre que acontecia numa rua perto. Tinha barracas coloridas, gente conversando, e cheiro de fruta. Um moço gritava:

— Olha a banana! Olha a laranja docinha!

Bia apontou para uma melancia enorme.

— Vovô, eu quero aquela bola gigante!

Seu Josué riu.

— Aquela “bola” é melancia, minha flor.

Dudu ficou olhando um senhor tocando um pandeiro na esquina. Plim-plim-plim!

— Vovô, música é comprada?

— Música pode ser de graça, sim. É só escutar — respondeu Seu Josué. — Fecha o olho e ouve.

Bia fechou o olho. Dudu fechou o olho. O som do pandeiro fez cosquinha no ouvido.

— Plim-plim! — Dudu repetiu.

Seu Josué abaixou perto deles.

— Ouvindo juntos, fica ainda melhor.

A Bia então perguntou, com a testa franzida:

— Mas vovô… as melhores coisas não custam dinheiro mesmo?

Seu Josué coçou o bigode.

— Vamos fazer um teste.

Ele puxou os dois para um cantinho com menos barulho, perto de um muro com uma pintura de arara azul.

— Cadê o dinheiro do vovô? — perguntou ele, fazendo cara de surpresa.

Dudu olhou nos bolsos do vovô.

— Não tem!

Bia olhou na bolsinha dela.

— Eu tenho uma moeda! Brilhante!

Seu Josué fez cara de mistério.

— Então tá. Vamos ver o que ganha mais: a moeda… ou as coisas de graça.

Eles seguiram para o caminho de casa, mas por um atalho: uma ruazinha com muitas plantas e um canteiro de flores.

De repente, o céu ficou meio cinza. Um vento passou fazendo “fiuuuuu!”

— Vento assobiando! — falou Dudu.

— Fiuuu… fiuu… — Bia repetiu, rindo.

O vento pegou uma folha seca e fez ela correr pelo chão: tcha-tcha-tcha!

E aí… aconteceu.

A moeda da Bia escorregou da mão.

— Opa! — disse Bia.

A moeda rolou. Rolou, rolou, rolou…

— Tlim-tlim-tlim! — fez a moeda batendo no chão.

Ela rolou bem para perto de uma boca de lobo, bem na beiradinha.

Bia arregalou os olhos.

— Minha moedinha!

Dudu se abaixou.

— Eu pego! Eu pego!

— Devagar, meus netos — falou Seu Josué, firme e calmo. — Aqui é perigoso. Não coloca a mão.

Bia começou a fazer biquinho.

— Eu perdi…

Dudu ficou com a cara triste.

— Cadê a moedinha brilhante?

Seu Josué respirou fundo e olhou para os dois.

— Vamos fazer juntos. Sem pressa.

Ele tirou do bolso um gravetinho comprido que sempre levava para mexer na terra do jardim.

— Dudu, segura minha mão. Bia, segura minha mão. Ninguém chega perto sozinho.

Os dois seguraram.

O vovô esticou o graveto, com cuidado.

— Vai, gravetinho… empurra… empurra…

A moeda estava quase caindo. Quase, quase!

Bia prendeu a respiração.

— Ai… ai… ai…

Dudu fez “shhh” sem querer.

Seu Josué empurrou mais um pouquinho.

— Agora!

A moeda deu uma voltinha e saiu da beiradinha.

— Tlim! — ela parou no chão, segura.

Ilustração da história Os Domingos do Seu Josué

Bia pulou.

— Voltou! Voltou!

Dudu bateu palmas.

— Viva! Viva!

Seu Josué pegou a moeda e colocou na mão da Bia.

— Pronto. Mas o mais importante… não foi a moeda.

Bia olhou para a moeda. Depois olhou para o vovô.

— Não foi?

— Não — disse Seu Josué. — O mais importante foi a gente ficar junto. Foi a mão dada. Foi o cuidado. Foi o amor.

Dudu abraçou a perna do vovô.

— Eu gostei quando você falou “ninguém sozinho”.

Seu Josué beijou a testa do Dudu.

— É isso. Domingo é dia de lembrar: as melhores coisas da vida não custam dinheiro.

Bia pensou um pouquinho e falou:

— Tipo… abraço?

— Tipo abraço — respondeu o vovô.

— Tipo brincadeira na pracinha? — perguntou Dudu.

— Tipo brincadeira na pracinha.

— Tipo ouvir música na rua? — disse Bia.

— Isso mesmo.

Eles voltaram para casa devagarinho. O sol voltou a aparecer, amarelinho.

No quintal do Seu Josué, tinha um varal com lençol balançando, e umas plantinhas em lata de tinta pintada.

— Agora é a parte mais gostosa do domingo — falou o vovô.

— Qual? — perguntaram os dois.

Seu Josué pegou um pote de plástico e uma colher.

— Bolha de sabão!

— Ebaaaa! — gritou Bia.

O vovô soprou.

— Fuuuu!

Surgiu uma bolha grande. Depois duas. Depois três.

— Ploc! — estourou uma.

— Ploc-ploc! — estouraram outras.

Dudu correu atrás delas.

— Eu vou pegar! Eu vou pegar!

Bia girou com os braços abertos.

— Bolha voa! Bolha voa!

Seu Josué ria, com os olhos brilhando.

— E olha só: vento, sol, bolha, risada… tudo isso custa quanto?

Dudu pensou e disse, bem alto:

— Custa zero!

Bia levantou a moeda.

— E a moeda… ela pode guardar. Mas o abraço eu quero agora.

E ela abraçou o vovô apertado.

Dudu entrou no abraço também.

— Abraço de sanduíche! — disse ele.

— Abraço de sanduíche! — repetiu o vovô.

Os três ficaram juntinhos. O domingo cheirava a casa, a brincadeira e a carinho.

E, lá longe, um passarinho cantou de novo:

— Piu-piu, piu-piu!

Seu Josué sussurrou:

— Tá vendo? As melhores coisas da vida… a gente guarda no peito.

E assim, todo domingo, a família lembrava: o que é mais valioso não é o que brilha na mão. É o que brilha no coração.

✨ Moral da História

As melhores coisas da vida são o carinho, a companhia e as brincadeiras simples, que não custam dinheiro.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você gosta de ir na pracinha? Qual brinquedo você mais gosta lá?
  • 2Você já viu bolha de sabão? Você gosta quando faz “ploc”?
  • 3Qual som você achou mais divertido: “piu-piu”, “fiuuu” ou “tlim-tlim”?
  • 4Você tem um vovô ou uma vovó? O que você gosta de fazer com eles?
  • 5Se você encontrasse uma moeda no chão, você chamaria um adulto para ajudar?

O que achou desta história?

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Raposinha

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