Os Domingos do Seu Josué
Um avô ensina aos netos que as melhores coisas da vida não custam dinheiro.

O sol de domingo apareceu bem cedinho na Vila do Ipê. A rua ainda estava quietinha. Só dava para ouvir os passarinhos cantando: piu-piu, piu-piu!
Na casa de portão azul, morava o Seu Josué. Ele era um vovô de bigode grande, bem branco, e tinha um sorriso que parecia abraço.
Todo domingo era dia especial. Era o “domingo do Seu Josué”.
E lá vinham os netos correndo, correndo, correndo!
— Vovô Josué! Vovô Josué! — gritou a Bia, com duas maria-chiquinhas pulando.
— Vovô! Eu cheguei primeiro! — disse o Dudu, fazendo “vruuum” com um carrinho na mão.
Seu Josué abriu os braços.
— Ô, meus passarinhos! Entrem, entrem! Domingo é dia de coisa boa… e coisa boa não precisa de dinheiro, não.
A Bia arregalou os olhos.
— Não precisa? Nem de moedinha?
— Nem de moedinha — respondeu o vovô, piscando.
Na cozinha, tinha cheiro de café e de pão na chapa. Tchiii… tchiii… a frigideira fazia barulhinho.
— Hoje nós vamos ter um domingo de aventuras — falou Seu Josué. — Mas é aventura simples. Aventura de coração.
Dudu perguntou, bem sério:
— Tem dinossauro?
Seu Josué deu uma risada gostosa.
— Tem formiga gigante e vento que assobia. Já serve?
— Serve! — disseram os dois.
Depois do lanche, Seu Josué pegou um chapéu de palha. Bia colocou um vestidinho amarelo. Dudu levou o carrinho. E lá foram os três, de mãos dadas.
A primeira parada foi na calçada, bem em frente à casa. Tinha uma árvore de ipê que fazia sombra grandona.
— Olhem! — disse o vovô. — O primeiro presente do domingo: sombra fresquinha.
Bia abriu os braços como se abraçasse a sombra.
— Uau! Ela é geladinha!
Dudu encostou a bochecha no tronco.
— Árvore é dura. Toc-toc! — ele bateu com os dedos.
Seu Josué falou baixinho:
— A árvore dá sombra, dá flor, dá lugar para passarinho. E ela não cobra ingresso.
Os netos riram.
— Ingresso! — repetiu Bia, achando a palavra engraçada.
Eles seguiram andando até a pracinha do bairro. Era uma pracinha brasileira, com banco de cimento, escorregador vermelho e um campinho de terra. Um cachorro caramelo dormia esticado no sol.
— Olha o cachorro pãozinho! — falou Dudu.
— Shhh… ele está descansando — disse Seu Josué.
No balanço, Bia pediu:
— Vovô, empurra!
Seu Josué empurrou devagar.
— Vai, vai… uhuu! — Bia fazia “uhuu” e dava risada.
Dudu foi no escorregador.
— Lá vou eu! Wheeee! — e desceu rapidinho.
O vovô ficou olhando os dois brincarem e falou:
— Olha aí. Balanço, escorregador, correr na grama… isso tudo é de graça. O corpo brinca. O coração sorri.
Bia parou um pouquinho, ofegante.
— Vovô, então a pracinha é um presente?
— É sim. Presente do bairro. Presente do domingo.
Depois, eles caminharam até a feira livre que acontecia numa rua perto. Tinha barracas coloridas, gente conversando, e cheiro de fruta. Um moço gritava:
— Olha a banana! Olha a laranja docinha!
Bia apontou para uma melancia enorme.
— Vovô, eu quero aquela bola gigante!
Seu Josué riu.
— Aquela “bola” é melancia, minha flor.
Dudu ficou olhando um senhor tocando um pandeiro na esquina. Plim-plim-plim!
— Vovô, música é comprada?
— Música pode ser de graça, sim. É só escutar — respondeu Seu Josué. — Fecha o olho e ouve.
Bia fechou o olho. Dudu fechou o olho. O som do pandeiro fez cosquinha no ouvido.
— Plim-plim! — Dudu repetiu.
Seu Josué abaixou perto deles.
— Ouvindo juntos, fica ainda melhor.
A Bia então perguntou, com a testa franzida:
— Mas vovô… as melhores coisas não custam dinheiro mesmo?
Seu Josué coçou o bigode.
— Vamos fazer um teste.
Ele puxou os dois para um cantinho com menos barulho, perto de um muro com uma pintura de arara azul.
— Cadê o dinheiro do vovô? — perguntou ele, fazendo cara de surpresa.
Dudu olhou nos bolsos do vovô.
— Não tem!
Bia olhou na bolsinha dela.
— Eu tenho uma moeda! Brilhante!
Seu Josué fez cara de mistério.
— Então tá. Vamos ver o que ganha mais: a moeda… ou as coisas de graça.
Eles seguiram para o caminho de casa, mas por um atalho: uma ruazinha com muitas plantas e um canteiro de flores.
De repente, o céu ficou meio cinza. Um vento passou fazendo “fiuuuuu!”
— Vento assobiando! — falou Dudu.
— Fiuuu… fiuu… — Bia repetiu, rindo.
O vento pegou uma folha seca e fez ela correr pelo chão: tcha-tcha-tcha!
E aí… aconteceu.
A moeda da Bia escorregou da mão.
— Opa! — disse Bia.
A moeda rolou. Rolou, rolou, rolou…
— Tlim-tlim-tlim! — fez a moeda batendo no chão.
Ela rolou bem para perto de uma boca de lobo, bem na beiradinha.
Bia arregalou os olhos.
— Minha moedinha!
Dudu se abaixou.
— Eu pego! Eu pego!
— Devagar, meus netos — falou Seu Josué, firme e calmo. — Aqui é perigoso. Não coloca a mão.
Bia começou a fazer biquinho.
— Eu perdi…
Dudu ficou com a cara triste.
— Cadê a moedinha brilhante?
Seu Josué respirou fundo e olhou para os dois.
— Vamos fazer juntos. Sem pressa.
Ele tirou do bolso um gravetinho comprido que sempre levava para mexer na terra do jardim.
— Dudu, segura minha mão. Bia, segura minha mão. Ninguém chega perto sozinho.
Os dois seguraram.
O vovô esticou o graveto, com cuidado.
— Vai, gravetinho… empurra… empurra…
A moeda estava quase caindo. Quase, quase!
Bia prendeu a respiração.
— Ai… ai… ai…
Dudu fez “shhh” sem querer.
Seu Josué empurrou mais um pouquinho.
— Agora!
A moeda deu uma voltinha e saiu da beiradinha.
— Tlim! — ela parou no chão, segura.

Bia pulou.
— Voltou! Voltou!
Dudu bateu palmas.
— Viva! Viva!
Seu Josué pegou a moeda e colocou na mão da Bia.
— Pronto. Mas o mais importante… não foi a moeda.
Bia olhou para a moeda. Depois olhou para o vovô.
— Não foi?
— Não — disse Seu Josué. — O mais importante foi a gente ficar junto. Foi a mão dada. Foi o cuidado. Foi o amor.
Dudu abraçou a perna do vovô.
— Eu gostei quando você falou “ninguém sozinho”.
Seu Josué beijou a testa do Dudu.
— É isso. Domingo é dia de lembrar: as melhores coisas da vida não custam dinheiro.
Bia pensou um pouquinho e falou:
— Tipo… abraço?
— Tipo abraço — respondeu o vovô.
— Tipo brincadeira na pracinha? — perguntou Dudu.
— Tipo brincadeira na pracinha.
— Tipo ouvir música na rua? — disse Bia.
— Isso mesmo.
Eles voltaram para casa devagarinho. O sol voltou a aparecer, amarelinho.
No quintal do Seu Josué, tinha um varal com lençol balançando, e umas plantinhas em lata de tinta pintada.
— Agora é a parte mais gostosa do domingo — falou o vovô.
— Qual? — perguntaram os dois.
Seu Josué pegou um pote de plástico e uma colher.
— Bolha de sabão!
— Ebaaaa! — gritou Bia.
O vovô soprou.
— Fuuuu!
Surgiu uma bolha grande. Depois duas. Depois três.
— Ploc! — estourou uma.
— Ploc-ploc! — estouraram outras.
Dudu correu atrás delas.
— Eu vou pegar! Eu vou pegar!
Bia girou com os braços abertos.
— Bolha voa! Bolha voa!
Seu Josué ria, com os olhos brilhando.
— E olha só: vento, sol, bolha, risada… tudo isso custa quanto?
Dudu pensou e disse, bem alto:
— Custa zero!
Bia levantou a moeda.
— E a moeda… ela pode guardar. Mas o abraço eu quero agora.
E ela abraçou o vovô apertado.
Dudu entrou no abraço também.
— Abraço de sanduíche! — disse ele.
— Abraço de sanduíche! — repetiu o vovô.
Os três ficaram juntinhos. O domingo cheirava a casa, a brincadeira e a carinho.
E, lá longe, um passarinho cantou de novo:
— Piu-piu, piu-piu!
Seu Josué sussurrou:
— Tá vendo? As melhores coisas da vida… a gente guarda no peito.
E assim, todo domingo, a família lembrava: o que é mais valioso não é o que brilha na mão. É o que brilha no coração.
✨ Moral da História
“As melhores coisas da vida são o carinho, a companhia e as brincadeiras simples, que não custam dinheiro.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você gosta de ir na pracinha? Qual brinquedo você mais gosta lá?
- 2Você já viu bolha de sabão? Você gosta quando faz “ploc”?
- 3Qual som você achou mais divertido: “piu-piu”, “fiuuu” ou “tlim-tlim”?
- 4Você tem um vovô ou uma vovó? O que você gosta de fazer com eles?
- 5Se você encontrasse uma moeda no chão, você chamaria um adulto para ajudar?
O que achou desta história?
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