Família

O Avô que Morava nas Estrelas

27 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos1 visualizações

Uma criança que perdeu o avô aprende a lidar com a saudade olhando para o céu e lembrando dos momentos felizes.

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O Avô que Morava nas Estrelas

Bia tinha quatro anos e morava com a mamãe numa casa pequena, com quintal e um pé de goiaba. Quando o vento passava, as folhas faziam “shiii… shiii…”. E, quando a goiaba caía no chão, fazia “ploc!”.

Bia gostava de correr descalça na grama. Gostava de bolhas de sabão. “Póóó!”, faziam as bolhas quando estouravam. E Bia ria alto: “Hahaha!”.

Mas, naquele mês, Bia ria menos.

O vovô Zeca não vinha mais visitar.

Antes, ele chegava batendo palmas no portão: “Ô de casa!”. E Bia corria: “Vovô!”. Ele tinha bigode branco, sorriso grandão e um chapéu de palha amassado. Trazia sempre uma bala de coco no bolso e dizia: “É segredo nosso, viu?”. Bia respondia: “Segredo!”.

Agora, o portão ficava quieto.

Numa tarde morna, Bia sentou no degrau da varanda com o ursinho de pano no colo. O céu estava azul, azulzinho. Um passarinho cantou “piu-piu”. A mamãe varria o quintal: “vish-vish, vish-vish”.

Bia falou baixinho: — Mamãe… cadê o vovô?

A mamãe parou a vassoura. Seus olhos ficaram molhados, mas sua voz ficou macia. — O vovô Zeca virou estrela, meu amor.

Bia franziu a testa. — Estrela? Igual lá em cima?

A mamãe apontou o céu. — Igual. Ele não mora mais aqui. Mas a gente pode lembrar dele. A saudade é um aperto no peito… mas também é um jeito de dizer “eu amo”.

Bia colocou a mão no peito. — Tá apertado.

A mamãe sentou junto. Abraçou Bia devagar. — Quando apertar, a gente faz uma coisa. A gente olha pro céu e conta lembranças boas. Uma de cada vez.

Bia piscou. — Lembrança boa… é tipo brincadeira?

— É. É uma brincadeira do coração.

Naquela noite, a mamãe fez mingau de aveia. “Blup-blup”, a panela falou. Bia assoprou: “fffuuu…”. Depois do banho, ela vestiu o pijama com desenhos de nuvens e estrelinhas.

— Vamos lá fora? — perguntou a mamãe.

Elas foram para o quintal. O ar estava fresquinho. A goiabeira parecia um guarda-chuva grande. Os grilos faziam “cri-cri, cri-cri”.

No céu, um monte de pontinhos brilhava.

Bia abriu a boca. — Uau… tem muita estrela.

A mamãe pegou uma cadeira e colocou uma toalha no chão. Bia sentou, abraçada ao ursinho.

— Como eu sei qual é o vovô? — Bia perguntou.

A mamãe sorriu de um jeito pequeno. — A gente pode escolher uma estrela bem brilhante e dizer: “Ali é o vovô Zeca”. O importante é sentir ele pertinho.

Bia procurou. Seus olhos foram passeando pelo céu. De repente, apontou: — Aquela! Aquela que pisca!

— Então pronto — disse a mamãe. — Aquela é a Estrela do Vovô.

Bia ficou olhando. A estrela parecia fazer “pisc-pisc”.

— Vovô… — Bia falou baixinho, como se o vento fosse levar a palavra. — Você tá me ouvindo?

A mamãe apertou a mão da Bia. — Vamos contar uma lembrança boa.

Bia pensou, com a língua para fora, concentrada. — Lembrei! O vovô me levava na praça.

A mamãe pediu: — Conta como era.

Bia começou, devagarzinho. — Tinha um sorveteiro… “sorvete, sorvete!”. E o vovô comprava de morango.

— E você ficava com a boca rosinha — a mamãe completou.

Bia deu risada. — E o vovô falava: “Cuidado pra não pingar!” Mas pingava. “Plim!”

As duas riram juntinhas. Bia sentiu o peito menos apertado.

Na outra noite, o aperto voltou. Bia estava montando um quebra-cabeça, mas as peças pareciam difíceis. Ela largou tudo e fez bico.

— Mamãe… tô com saudade de novo.

A mamãe limpou as mãos no pano de prato. — Então vamos lá fora de novo, minha estrela pequena.

No quintal, o céu estava escuro e bonito. “Cri-cri…”. A Estrela do Vovô estava lá, piscando.

Bia falou: — Hoje eu quero lembrar do rádio do vovô.

A mamãe riu. — Ah, o rádio!

Bia abriu os braços. — Era grandão. E fazia “tchiii…”. E aí tocava música.

Ela começou a balançar o corpo. — O vovô dançava comigo. Um, dois, um, dois.

— E ele dizia: “Dança, minha flor!” — a mamãe lembrou.

Bia tentou imitar a voz grossa do vovô: — “Dança, minha flor!”

As duas dançaram no quintal. Bia rodopiou. O pijama girou. “Vuuu!”. Ela caiu sentada e deu gargalhada.

Depois, Bia ficou quieta por um pouquinho.

— Mamãe… a estrela não desce.

A mamãe beijou a testa dela. — Não desce. Mas o amor desce. Ele entra no nosso abraço, na nossa lembrança, na nossa risada.

Bia encostou a cabeça no ombro da mamãe. — Então o vovô tá aqui… um pouquinho.

— Isso. Um pouquinho bem grande.

Os dias passaram. Teve chuva. “Tum-tum” no telhado. Teve sol. Teve cheiro de terra molhada. E sempre tinha um momento em que Bia sentia saudade.

Um sábado, a mamãe disse: — Vamos visitar a vovó Lúcia?

Bia gostava da vovó Lúcia. A casa dela tinha cheiro de bolo de fubá. Tinha pano de prato com galinha desenhada. E tinha um retrato do vovô Zeca na sala, com o chapéu de palha.

Quando chegaram, a vovó abriu os braços. — Minha Bia! Minha menina!

— Vovó! — Bia pulou no colo dela.

A vovó ficou um pouco silenciosa, olhando o retrato.

Bia apontou: — Vovó… o vovô mora nas estrelas.

A vovó respirou fundo. — Mora sim. E mora nas nossas histórias também.

Na cozinha, a vovó mostrou uma caixa. — Isso aqui é a Caixa das Memórias do Vovô.

Bia arregalou os olhos. — Caixa?

A vovó abriu. Dentro tinha um apito de metal, uma foto na praia, uma concha, e um pedaço de barbante colorido.

Bia pegou o apito. — Faz barulho?

— Faz, mas bem baixinho — a vovó avisou.

Bia soprou: “piii!”. E depois riu.

— O vovô usava isso quando a gente ia pescar — contou a vovó. — Pra chamar a gente.

Bia encostou o apito no coração. — Eu vou guardar um também.

A mamãe perguntou: — Que tal a gente fazer uma caixa aqui em casa? A Caixa da Saudade Boa.

Bia bateu palmas. — Eu quero!

Na volta, a mamãe achou uma caixa de sapato. Bia colou papel colorido. Colou estrelinhas douradas. “Plic-plic”, a cola fazia.

— O que vai entrar na caixa? — a mamãe perguntou.

Bia pensou. — Um desenho do vovô.

Ela desenhou um rosto redondo com bigode enorme. Desenhou um chapéu de palha e um sorriso que ocupava quase o papel todo.

— E uma bala de coco? — sugeriu a mamãe.

— Siiim! — Bia respondeu.

Elas colocaram uma bala de coco, uma pedrinha que o vovô tinha dado um dia na praia, e um bilhetinho.

A mamãe escreveu e leu em voz alta: — “Vovô Zeca, a gente te ama. Você brilha na nossa vida.”

Bia completou: — E você pisca! “pisc-pisc”!

Numa noite bem especial, o vento ficou calmo. O céu parecia uma coberta preta cheia de furinhos de luz. A mamãe levou Bia e a Caixa da Saudade Boa para o quintal.

— Hoje a saudade tá grande? — perguntou.

Bia abraçou a caixa. — Tá grandona.

— Então hoje a gente faz a coisa mais forte: a gente fala com a Estrela do Vovô e conta tudo de uma vez.

Bia olhou para cima. A Estrela do Vovô estava mais brilhante. Ou parecia mais brilhante.

Bia levantou a caixa. — Vovô! Eu fiz uma caixa pra você!

A mamãe sussurrou: — Conta pra ele.

Bia falou com coragem, como se estivesse chamando no portão: — Ô de casa, vovô!

O coração dela bateu “tum-tum”. A garganta ficou apertadinha.

— Eu sinto sua falta… — Bia disse, e os olhos encheram de água.

A mamãe abraçou Bia por trás. Bem apertado.

E Bia continuou: — Mas eu lembro do sorvete “plim”. Eu lembro do rádio “tchiii”. Eu lembro do seu bigode. Eu lembro da sua risada. Eu amo você.

A estrela pareceu piscar mais rápido.

Nesse momento, um risco de luz cortou o céu, rapidinho, como um rabisco brilhante: uma estrela cadente.

Bia abriu os braços e gritou, feliz e chorando ao mesmo tempo: — Vovô!

Ilustração da história O Avô que Morava nas Estrelas

A mamãe falou baixinho: — Você viu? Parece que ele respondeu.

Bia limpou as bochechas com a manga do pijama. — Eu vi! Ele fez “fiiiiu”!

A mamãe riu com os olhos molhados. — Fez sim.

Bia respirou fundo. O peito ainda tinha saudade, mas agora a saudade tinha uma almofadinha macia em volta.

— Mamãe… quando eu sentir saudade, eu posso olhar pro céu e abrir minha caixa?

— Pode. E pode também contar pra mim. A gente lembra junto.

Bia encostou a cabeça na mamãe. — Então tá.

Naquela noite, antes de dormir, Bia foi até a janela. O céu estava lá. A Estrela do Vovô também.

— Boa noite, vovô — ela falou. — Brilha pra mim.

E, no escuro do quarto, Bia sentiu uma coisa quentinha: o amor, que não vai embora. A saudade ainda vinha, sim. Mas agora Bia sabia o caminho.

Era um caminho que ia do coração… pro céu.

E o céu, bem lá em cima, piscava: “pisc-pisc”.

✨ Moral da História

Quando a saudade aperta, lembrar dos momentos felizes e dividir o amor com quem está perto ajuda o coração a ficar mais calmo.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você já olhou para o céu de noite? O que você viu lá?
  • 2Qual lembrança você colocaria na sua “Caixa da Saudade Boa”?
  • 3Você tem alguém que você ama muito? Quem é?
  • 4Qual parte você mais gostou: o sorvete, o rádio ou a estrela cadente?
  • 5Você já viu uma estrela piscando “pisc-pisc”?

O que achou desta história?

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