O Avô que Morava nas Estrelas
Uma criança que perdeu o avô aprende a lidar com a saudade olhando para o céu e lembrando dos momentos felizes.

Bia tinha quatro anos e morava com a mamãe numa casa pequena, com quintal e um pé de goiaba. Quando o vento passava, as folhas faziam “shiii… shiii…”. E, quando a goiaba caía no chão, fazia “ploc!”.
Bia gostava de correr descalça na grama. Gostava de bolhas de sabão. “Póóó!”, faziam as bolhas quando estouravam. E Bia ria alto: “Hahaha!”.
Mas, naquele mês, Bia ria menos.
O vovô Zeca não vinha mais visitar.
Antes, ele chegava batendo palmas no portão: “Ô de casa!”. E Bia corria: “Vovô!”. Ele tinha bigode branco, sorriso grandão e um chapéu de palha amassado. Trazia sempre uma bala de coco no bolso e dizia: “É segredo nosso, viu?”. Bia respondia: “Segredo!”.
Agora, o portão ficava quieto.
Numa tarde morna, Bia sentou no degrau da varanda com o ursinho de pano no colo. O céu estava azul, azulzinho. Um passarinho cantou “piu-piu”. A mamãe varria o quintal: “vish-vish, vish-vish”.
Bia falou baixinho: — Mamãe… cadê o vovô?
A mamãe parou a vassoura. Seus olhos ficaram molhados, mas sua voz ficou macia. — O vovô Zeca virou estrela, meu amor.
Bia franziu a testa. — Estrela? Igual lá em cima?
A mamãe apontou o céu. — Igual. Ele não mora mais aqui. Mas a gente pode lembrar dele. A saudade é um aperto no peito… mas também é um jeito de dizer “eu amo”.
Bia colocou a mão no peito. — Tá apertado.
A mamãe sentou junto. Abraçou Bia devagar. — Quando apertar, a gente faz uma coisa. A gente olha pro céu e conta lembranças boas. Uma de cada vez.
Bia piscou. — Lembrança boa… é tipo brincadeira?
— É. É uma brincadeira do coração.
Naquela noite, a mamãe fez mingau de aveia. “Blup-blup”, a panela falou. Bia assoprou: “fffuuu…”. Depois do banho, ela vestiu o pijama com desenhos de nuvens e estrelinhas.
— Vamos lá fora? — perguntou a mamãe.
Elas foram para o quintal. O ar estava fresquinho. A goiabeira parecia um guarda-chuva grande. Os grilos faziam “cri-cri, cri-cri”.
No céu, um monte de pontinhos brilhava.
Bia abriu a boca. — Uau… tem muita estrela.
A mamãe pegou uma cadeira e colocou uma toalha no chão. Bia sentou, abraçada ao ursinho.
— Como eu sei qual é o vovô? — Bia perguntou.
A mamãe sorriu de um jeito pequeno. — A gente pode escolher uma estrela bem brilhante e dizer: “Ali é o vovô Zeca”. O importante é sentir ele pertinho.
Bia procurou. Seus olhos foram passeando pelo céu. De repente, apontou: — Aquela! Aquela que pisca!
— Então pronto — disse a mamãe. — Aquela é a Estrela do Vovô.
Bia ficou olhando. A estrela parecia fazer “pisc-pisc”.
— Vovô… — Bia falou baixinho, como se o vento fosse levar a palavra. — Você tá me ouvindo?
A mamãe apertou a mão da Bia. — Vamos contar uma lembrança boa.
Bia pensou, com a língua para fora, concentrada. — Lembrei! O vovô me levava na praça.
A mamãe pediu: — Conta como era.
Bia começou, devagarzinho. — Tinha um sorveteiro… “sorvete, sorvete!”. E o vovô comprava de morango.
— E você ficava com a boca rosinha — a mamãe completou.
Bia deu risada. — E o vovô falava: “Cuidado pra não pingar!” Mas pingava. “Plim!”
As duas riram juntinhas. Bia sentiu o peito menos apertado.
Na outra noite, o aperto voltou. Bia estava montando um quebra-cabeça, mas as peças pareciam difíceis. Ela largou tudo e fez bico.
— Mamãe… tô com saudade de novo.
A mamãe limpou as mãos no pano de prato. — Então vamos lá fora de novo, minha estrela pequena.
No quintal, o céu estava escuro e bonito. “Cri-cri…”. A Estrela do Vovô estava lá, piscando.
Bia falou: — Hoje eu quero lembrar do rádio do vovô.
A mamãe riu. — Ah, o rádio!
Bia abriu os braços. — Era grandão. E fazia “tchiii…”. E aí tocava música.
Ela começou a balançar o corpo. — O vovô dançava comigo. Um, dois, um, dois.
— E ele dizia: “Dança, minha flor!” — a mamãe lembrou.
Bia tentou imitar a voz grossa do vovô: — “Dança, minha flor!”
As duas dançaram no quintal. Bia rodopiou. O pijama girou. “Vuuu!”. Ela caiu sentada e deu gargalhada.
Depois, Bia ficou quieta por um pouquinho.
— Mamãe… a estrela não desce.
A mamãe beijou a testa dela. — Não desce. Mas o amor desce. Ele entra no nosso abraço, na nossa lembrança, na nossa risada.
Bia encostou a cabeça no ombro da mamãe. — Então o vovô tá aqui… um pouquinho.
— Isso. Um pouquinho bem grande.
Os dias passaram. Teve chuva. “Tum-tum” no telhado. Teve sol. Teve cheiro de terra molhada. E sempre tinha um momento em que Bia sentia saudade.
Um sábado, a mamãe disse: — Vamos visitar a vovó Lúcia?
Bia gostava da vovó Lúcia. A casa dela tinha cheiro de bolo de fubá. Tinha pano de prato com galinha desenhada. E tinha um retrato do vovô Zeca na sala, com o chapéu de palha.
Quando chegaram, a vovó abriu os braços. — Minha Bia! Minha menina!
— Vovó! — Bia pulou no colo dela.
A vovó ficou um pouco silenciosa, olhando o retrato.
Bia apontou: — Vovó… o vovô mora nas estrelas.
A vovó respirou fundo. — Mora sim. E mora nas nossas histórias também.
Na cozinha, a vovó mostrou uma caixa. — Isso aqui é a Caixa das Memórias do Vovô.
Bia arregalou os olhos. — Caixa?
A vovó abriu. Dentro tinha um apito de metal, uma foto na praia, uma concha, e um pedaço de barbante colorido.
Bia pegou o apito. — Faz barulho?
— Faz, mas bem baixinho — a vovó avisou.
Bia soprou: “piii!”. E depois riu.
— O vovô usava isso quando a gente ia pescar — contou a vovó. — Pra chamar a gente.
Bia encostou o apito no coração. — Eu vou guardar um também.
A mamãe perguntou: — Que tal a gente fazer uma caixa aqui em casa? A Caixa da Saudade Boa.
Bia bateu palmas. — Eu quero!
Na volta, a mamãe achou uma caixa de sapato. Bia colou papel colorido. Colou estrelinhas douradas. “Plic-plic”, a cola fazia.
— O que vai entrar na caixa? — a mamãe perguntou.
Bia pensou. — Um desenho do vovô.
Ela desenhou um rosto redondo com bigode enorme. Desenhou um chapéu de palha e um sorriso que ocupava quase o papel todo.
— E uma bala de coco? — sugeriu a mamãe.
— Siiim! — Bia respondeu.
Elas colocaram uma bala de coco, uma pedrinha que o vovô tinha dado um dia na praia, e um bilhetinho.
A mamãe escreveu e leu em voz alta: — “Vovô Zeca, a gente te ama. Você brilha na nossa vida.”
Bia completou: — E você pisca! “pisc-pisc”!
Numa noite bem especial, o vento ficou calmo. O céu parecia uma coberta preta cheia de furinhos de luz. A mamãe levou Bia e a Caixa da Saudade Boa para o quintal.
— Hoje a saudade tá grande? — perguntou.
Bia abraçou a caixa. — Tá grandona.
— Então hoje a gente faz a coisa mais forte: a gente fala com a Estrela do Vovô e conta tudo de uma vez.
Bia olhou para cima. A Estrela do Vovô estava mais brilhante. Ou parecia mais brilhante.
Bia levantou a caixa. — Vovô! Eu fiz uma caixa pra você!
A mamãe sussurrou: — Conta pra ele.
Bia falou com coragem, como se estivesse chamando no portão: — Ô de casa, vovô!
O coração dela bateu “tum-tum”. A garganta ficou apertadinha.
— Eu sinto sua falta… — Bia disse, e os olhos encheram de água.
A mamãe abraçou Bia por trás. Bem apertado.
E Bia continuou: — Mas eu lembro do sorvete “plim”. Eu lembro do rádio “tchiii”. Eu lembro do seu bigode. Eu lembro da sua risada. Eu amo você.
A estrela pareceu piscar mais rápido.
Nesse momento, um risco de luz cortou o céu, rapidinho, como um rabisco brilhante: uma estrela cadente.
Bia abriu os braços e gritou, feliz e chorando ao mesmo tempo: — Vovô!

A mamãe falou baixinho: — Você viu? Parece que ele respondeu.
Bia limpou as bochechas com a manga do pijama. — Eu vi! Ele fez “fiiiiu”!
A mamãe riu com os olhos molhados. — Fez sim.
Bia respirou fundo. O peito ainda tinha saudade, mas agora a saudade tinha uma almofadinha macia em volta.
— Mamãe… quando eu sentir saudade, eu posso olhar pro céu e abrir minha caixa?
— Pode. E pode também contar pra mim. A gente lembra junto.
Bia encostou a cabeça na mamãe. — Então tá.
Naquela noite, antes de dormir, Bia foi até a janela. O céu estava lá. A Estrela do Vovô também.
— Boa noite, vovô — ela falou. — Brilha pra mim.
E, no escuro do quarto, Bia sentiu uma coisa quentinha: o amor, que não vai embora. A saudade ainda vinha, sim. Mas agora Bia sabia o caminho.
Era um caminho que ia do coração… pro céu.
E o céu, bem lá em cima, piscava: “pisc-pisc”.
✨ Moral da História
“Quando a saudade aperta, lembrar dos momentos felizes e dividir o amor com quem está perto ajuda o coração a ficar mais calmo.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já olhou para o céu de noite? O que você viu lá?
- 2Qual lembrança você colocaria na sua “Caixa da Saudade Boa”?
- 3Você tem alguém que você ama muito? Quem é?
- 4Qual parte você mais gostou: o sorvete, o rádio ou a estrela cadente?
- 5Você já viu uma estrela piscando “pisc-pisc”?
O que achou desta história?
Histórias Relacionadas
Comentários (0)

Deixe seu comentário
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!



