Família

A Colcha de Retalhos da Família

16 de janeiro de 202615 min de leitura9 a 12 anos2 visualizações

Uma menina costura uma colcha usando tecidos de cada membro da família, resgatando memórias e histórias.

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A Colcha de Retalhos da Família

Na casa amarela de esquina, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, havia uma varanda com samambaias penduradas e uma janela que sempre parecia ouvir tudo. Era ali que Lia, de onze anos, costumava ficar quando o mundo parecia barulhento demais. O som dos ônibus, as conversas atravessadas dos adultos, a pressa dos dias… Tudo isso virava um zumbido distante quando ela se sentava com um caderno no colo e um pensamento insistente na cabeça: “Quem eu sou, afinal, além de filha de alguém?”

Naquela semana, a avó Dalva chegara de Taubaté com uma mala pequena e um olhar grande, cheio de saudade. Trazia também um cheiro de lavanda e guardava, como quem protege um segredo, uma caixa de costura antiga — daquelas de madeira, com gavetinhas que rangiam e botões que pareciam moedas.

— Isso aqui já passou por muita mão — disse a avó, abrindo a caixa na mesa da cozinha. — E cada mão deixou um pedaço de história.

Lia esticou o pescoço, curiosa. Havia linhas de todas as cores, agulhas brilhando, carretéis, rendinhas, e um dedal que parecia uma coroa minúscula.

— Vó, você acha que a gente é feito de pedaços? — Lia perguntou, sem saber direito por que aquelas palavras saíram.

Dalva sorriu, como se já esperasse a pergunta.

— A gente é feito de memórias. E memória, minha filha, é igual retalho: às vezes pequeno, às vezes rasgado, mas sempre serve pra alguma coisa bonita.

Naquela noite, enquanto o pai assistia ao jornal e a mãe ajeitava a mochila do dia seguinte, Lia ficou olhando para a caixa de costura em cima da estante. Uma ideia começou a costurar outra dentro dela, até virar um plano inteiro.

No dia seguinte, no café, Lia anunciou:

— Eu quero fazer uma colcha de retalhos… com tecidos de cada pessoa da família.

O pai, Bruno, ergueu a sobrancelha.

— Uma colcha? Tipo aquelas de novela antiga?

— Tipo as que aquecem e contam história — respondeu Lia, firme.

A mãe, Renata, largou a colher, surpresa.

— E você sabe costurar?

— Ainda não. Mas posso aprender.

A avó Dalva deu uma risadinha curta e satisfeita.

— Aprende, sim. Eu ensino o ponto atrás e o ponto caseado. O resto é coragem e paciência.

Lia sabia que não era só sobre costura. Era sobre juntar gente que, às vezes, vivia na mesma casa e mesmo assim parecia morar em planetas diferentes. Nos últimos meses, ela tinha sentido isso com força: o pai trabalhando demais, a mãe preocupada com contas, o irmão mais velho, Caio, trancado no quarto com fone de ouvido, como se o mundo fosse um incômodo. E ela… ela tentando entender seu lugar no meio de tantos silêncios.

A missão começou no sábado, com sol batendo no quintal e o cheiro de feijão vindo da panela de pressão. Lia pegou uma sacola e foi atrás dos “retalhos” como quem recolhe pistas.

O primeiro foi do pai. Bruno abriu o guarda-roupa e mostrou uma camisa xadrez antiga, já desbotada.

— Eu usava quando trabalhava de ajudante num depósito — contou, segurando o tecido. — Era pesado, mas foi lá que eu aprendi a não depender de sorte. Aprendi a chegar cedo, a cumprir promessa.

Lia passou a mão no pano áspero e imaginou o pai mais novo, suado, firme. Não era a imagem que ela costumava guardar dele.

— Pai, posso cortar um pedaço? — pediu, com cuidado, como se estivesse pedindo um pedacinho da vida dele.

— Pode. Só… não corta torto — brincou ele, mas havia um orgulho discreto no olhar.

Depois foi a vez da mãe. Renata escolheu um pedaço de um vestido azul, daqueles que ela usava em festas.

— Esse vestido foi do meu primeiro emprego. Eu fui entrevistada com ele — contou a mãe, e a voz ganhou um tom sério. — Eu estava morrendo de medo. Mas eu fui mesmo assim. Às vezes, coragem é só ir com medo.

Lia guardou aquele retalho como quem guarda um conselho.

Caio, o irmão, foi o mais difícil. Ele estava no quarto, um universo de pôsteres e livros empilhados. Quando Lia entrou, ele tirou um fone, desconfiado.

— O que foi?

— Preciso de um tecido seu pra colcha.

— Colcha? — Caio riu, curto. — Eu não tenho nada pra isso.

Lia notou uma camiseta preta no canto, com uma estampa de banda já rachada.

— E essa?

Caio hesitou.

— Essa foi do show que eu fui com a Júlia… — ele parou no meio da frase, como se engolisse um pedaço de lembrança. — A gente era amigo. Agora ela nem fala comigo.

Lia percebeu, pela primeira vez, que o silêncio do irmão tinha nomes.

— Você sente falta? — perguntou, baixinho.

Caio olhou para a janela, como se fosse mais fácil falar com o vidro.

— Sinto. Mas tenho vergonha de pedir desculpa. Parece que eu perdi o direito.

Lia não respondeu de imediato. Só estendeu a mão.

— Posso pegar um pedacinho? Não precisa ser grande.

Caio pegou a tesoura, cortou com precisão e entregou o retalho. Antes de Lia sair, ele disse:

— Se ficar feio, não fala que foi meu.

— Se ficar bonito, eu vou falar — Lia respondeu, e Caio quase sorriu.

Ainda faltava o retalho da avó. Dalva abriu a mala e puxou uma renda amarelada, bem guardada.

— Isso aqui era da cortina da casa onde eu cresci. A gente era pobre, mas a minha mãe dizia que dignidade não depende de dinheiro.

Lia sentiu um nó na garganta.

— Vó, a senhora sente saudade?

— Sinto. Mas saudade, quando vira história, vira ponte. Não vira buraco.

Com os retalhos reunidos, Lia preparou o “atelier” na mesa grande da cozinha. A avó ensinou como enfiar a linha sem se furar, como dar nó pequeno, como segurar o tecido sem enrugar. No começo, Lia picou o dedo, fez ponto torto, puxou a linha com força demais e enrugou um quadrado inteiro.

— Eu não sirvo pra isso — ela reclamou, irritada.

Dalva colocou a mão sobre a dela.

— Você tá confundindo “não sirvo” com “ainda não aprendi”. Costura é paciência. E paciência é um tipo de coragem.

Lia respirou fundo e recomeçou. A cada quadrado unido, ela ouvia de novo a voz de alguém, lembrava uma frase, sentia uma emoção. Parecia que a colcha, aos poucos, ficava mais pesada — não de tecido, mas de significado.

Só que nem tudo se costura sem rasgar. Numa tarde chuvosa, enquanto Lia trabalhava sozinha, o pai chegou apressado do trabalho e largou a mochila em cima da mesa. A caixa de costura caiu no chão, botões se espalharam como pequenas gotas de plástico.

— Pai! — Lia gritou, e sua voz saiu mais forte do que ela queria. — Você estragou tudo!

Bruno parou, surpreso, com a testa franzida.

— Eu não vi. Desculpa, Lia. Tô cansado.

— Todo mundo tá sempre cansado — ela disparou, com lágrimas quentes. — E ninguém vê o que eu tô tentando fazer!

O silêncio ficou pesado. O pai abriu a boca, fechou, respirou. Então se agachou e começou a recolher os botões devagar.

— Eu vejo — disse ele, sem levantar a cabeça. — Só não sei demonstrar. Eu fico preocupado em pagar as coisas, e parece que o resto… fica pra depois.

Lia sentiu que aquilo era uma confissão. A raiva, aos poucos, foi virando outra coisa, algo parecido com responsabilidade.

— Eu não quero que fique pra depois — ela falou, mais calma. — Eu quero que a gente esteja junto agora.

Bruno assentiu.

— Então me ensina como eu posso ajudar.

Naquela noite, Lia pediu que todos sentassem na sala. Ela trouxe a colcha quase pronta, ainda com linhas penduradas, e colocou no sofá. A luz do abajur deixava os retalhos vivos: o xadrez do pai, o azul da mãe, o preto do irmão, a renda da avó. Faltava apenas um quadrado no centro.

— Falta um — Lia anunciou. — E eu quero que esse seja… meu.

Ela pegou um tecido amarelo, cortado de uma camiseta antiga que ela usava para brincar na rua, manchada de tinta de quando pintou um cartaz na escola. Era um amarelo cheio de marcas, e mesmo assim bonito.

— Eu pensei em usar um tecido perfeito — ela confessou. — Mas percebi que eu não sou perfeita. Eu tenho medo, eu fico com raiva, eu erro. Só que eu também tento consertar.

A mãe se aproximou, com os olhos úmidos.

— Lia, isso é maturidade — disse Renata. — Você tá aprendendo a se olhar de verdade.

Caio pigarreou.

— Posso… posso fazer um ponto? — ele perguntou, quase envergonhado.

Lia olhou para a avó, e Dalva fez que sim. Lia entregou a agulha ao irmão. Ele segurou como se fosse uma ferramenta desconhecida e, com paciência desajeitada, deu dois pontos.

— Não tá tão ruim — Caio comentou, e uma risada pequena nasceu na sala.

O pai fez um nó. A mãe alinhou as pontas. A avó guiou a agulha com firmeza, e Lia, por fim, fechou a última costura. Naquele instante, quando o quadrado amarelo se encaixou no centro e a colcha ficou inteira, parecia que algo dentro deles também se ajeitava.

Ilustração da história A Colcha de Retalhos da Família

Lia abriu a colcha no chão da sala, como quem abre um mapa. Os retalhos se tocavam, diferentes e unidos. Ela percebeu que identidade não era escolher um único pedaço e abandonar os outros. Era aceitar as origens, entender as dores, reconhecer as responsabilidades e, mesmo assim, costurar um futuro.

— Então… é isso que é família? — Lia perguntou, olhando de um rosto ao outro.

Dalva respondeu primeiro:

— Família é onde a gente aprende a remendar sem esconder o rasgo.

Bruno passou o braço pelos ombros da filha.

— E onde a gente assume quando erra.

Renata completou:

— E onde a gente divide o peso.

Caio respirou fundo, como quem decide algo.

— Amanhã eu vou mandar mensagem pra Júlia. Se ela não responder, tudo bem. Mas eu vou tentar.

Lia sorriu, sentindo que aquela colcha também aquecia escolhas.

Na semana seguinte, Lia levou a colcha para a escola, numa apresentação sobre “memória e identidade”. Alguns colegas riram no início, achando “coisa de velho”. Mas quando Lia contou as histórias de cada retalho, a sala ficou quieta. Uma colega levantou a mão.

— Dá pra fazer isso com amigos também?

— Dá — Lia respondeu. — E dá pra começar com qualquer pedaço. O importante é não deixar as histórias se perderem.

Em casa, a colcha ganhou lugar no sofá. Às vezes servia de abrigo em noites frias, às vezes de pano de piquenique no quintal. Mas, principalmente, servia como lembrete: cada um ali tinha seus retalhos — alguns bonitos, outros doloridos — e todos eram responsáveis por costurar respeito, escuta e justiça dentro do próprio lar.

E quando Lia voltava à varanda, com o mundo barulhento lá fora, ela já não se perguntava com tanta angústia quem era. Ela sabia: era o retalho amarelo no centro, segurando pontas diversas, escolhendo todos os dias como unir, sem apagar ninguém — nem a si mesma.

✨ Moral da História

Nossa história ganha sentido quando acolhemos as diferenças, reconhecemos erros e costuramos, juntos, um jeito mais justo de viver em família.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Qual retalho da história você achou mais significativo e por quê? O que ele revela sobre a pessoa que o doou?
  • 2Você concorda com a reação da Lia quando o pai derrubou a caixa de costura? Como você teria expressado seus sentimentos nessa situação?
  • 3O que a colcha ensina sobre identidade: ela é uma coisa só ou uma mistura? Como isso se parece com a vida real?
  • 4Caio decidiu pedir desculpas para a Júlia. Por que assumir um erro pode ser difícil? O que pode acontecer de bom quando a gente tenta?
  • 5Se você fosse fazer uma colcha de retalhos da sua vida, quais três tecidos escolheria e quais histórias eles contariam?

O que achou desta história?

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Raposinha

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