Família

A Receita Secreta da Vovó

27 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos2 visualizações

Uma neta tenta fazer o bolo da avó e descobre que o ingrediente secreto é o amor com que se faz.

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A Receita Secreta da Vovó

Numa cidade bem brasileira, com rua de paralelepípedo e cheiro de pão saindo da padaria da esquina, morava a pequena **Lia**. Ela tinha bochechas redondinhas e um sorriso que aparecia rapidinho, como um sol: plim!

Todo sábado de manhã, Lia ia para a casa da **Vovó Nena**. A casa da vovó tinha um quintal com goiabeira, um varal cheio de roupas balançando e uma cozinha que parecia abraçar a gente. Na cozinha, tinha panela brilhando, pote de farinha, e um relógio que fazia: tic-tac, tic-tac.

E tinha também o melhor cheiro do mundo.

O cheiro do **bolo da Vovó Nena**.

— Vovó, hoje tem bolo? — perguntou Lia, já ficando na pontinha do pé.

— Tem sim, meu docinho! — respondeu a vovó, com avental florido e cabelo preso num coque fofinho. — Bolo quentinho, pra gente comer com café e leite.

Lia bateu palminhas.

— Eu quero aprender! Eu quero fazer sozinha! — disse ela.

Vovó Nena riu baixinho.

— Fazer bolo é coisa séria e gostosa, viu? — ela falou. — Tem medida, tem mexida e tem paciência.

Lia fez uma carinha bem decidida.

— Eu tenho! Eu tenho! Eu sou grande!

— Então vamos lá — disse a vovó. — Hoje você vai me ajudar. E um dia você faz sozinha.

A vovó pegou um caderninho antigo, com capa amarela e um elástico segurando.

— Aqui está a receita do meu bolo. — Vovó Nena falou devagar. — É uma receita especial.

Lia arregalou os olhos.

— Especial como tesouro?

— Como tesouro — confirmou a vovó.

Na mesa, a vovó colocou os ingredientes: ovos, açúcar, farinha, leite, manteiga e um potinho de fermento. E tinha também uma tigela grande, uma colher de pau e uma forma redonda.

— Pronto, Lia. Agora repete comigo: “bolo, bolo, bolo!” — brincou a vovó.

— Bolo, bolo, bolo! — Lia repetiu, rindo.

E começou a aventura.

A vovó quebrou os ovos com cuidado: **toc!**

— Um… dois… três! — contou Lia.

— Isso, minha ajudante — disse a vovó.

Lia colocou o açúcar.

— Chuuuuuva! — ela falou, vendo os grãozinhos caírem.

— Agora mexe — pediu a vovó.

Lia mexeu com a colher de pau. Mexe, mexe, mexe. O braço dela ficou cansadinho.

— Ai… — ela reclamou.

— Devagar. Bolo gosta de calma — disse a vovó.

Depois veio a farinha.

— Pózinho branco! — falou Lia.

— Cuidado pra não fazer tempestade — avisou a vovó.

Mas Lia foi animada demais: **puf!** Subiu uma nuvem de farinha.

— Atchim! — espirrou Lia.

— Atchim! — espirrou a vovó também.

As duas caíram na risada.

— Parece neve! — Lia disse.

— Neve de cozinha — brincou a vovó.

Elas limparam a mesa. Depois colocaram o leite. **Ploc, ploc.** Colocaram a manteiga. **Plim.** E por último, o fermento.

— Agora é a hora mágica — falou a vovó. — Mexe com carinho.

Lia mexeu. Mexe, mexe. A massa ficou lisinha.

— Vovó, por que seu bolo fica mais gostoso do que o bolo de todo mundo? — perguntou Lia, bem séria.

A vovó olhou para o teto, como se estivesse pensando.

— Hmmm… tem um segredo.

— Eu sabia! — Lia quase pulou da cadeira. — Qual é? Qual é?

Vovó Nena sorriu e pegou o caderninho. Lia viu que a vovó tinha colocado uma fita vermelha numa página.

— O segredo está aqui — disse a vovó. — Mas é segredo de família.

— Eu sou da família! — Lia falou, colocando a mão no peito.

— Então você pode saber… — a vovó cochichou. — Só não pode esquecer.

Lia chegou bem pertinho, com o ouvido atento.

Mas, bem nessa hora, tocou o telefone na sala.

— Trim-trim! — fez o telefone.

Vovó Nena suspirou.

— Deve ser sua tia. Já volto, Lia. Não mexa na receita, tá?

— Tá! — Lia respondeu.

A vovó saiu correndo devagarzinho, do jeito de vó, dizendo “já vou, já vou!”.

Lia ficou sozinha na cozinha. E a cozinha parecia ainda mais cheirosa. Ela olhou para a tigela. Olhou para a forma. Olhou para o caderninho.

O coração dela fez: tum-tum.

— Eu vou fazer sozinha agora… — sussurrou Lia. — Eu consigo.

Ela pegou a forma e tentou passar manteiga, como a vovó fazia. Passou um pouco demais. A manteiga escorregou: **shluuup!**

— Opa! — Lia falou.

Ela pegou farinha pra polvilhar. De novo, a farinha subiu: **puf!**

— Atchim! — espirrou Lia.

Lia riu e ficou com o nariz branquinho.

Aí ela pegou a tigela com as duas mãos para despejar a massa na forma.

Mas a tigela era grande.

E Lia era pequena.

A massa começou a cair… e uma parte caiu na mesa.

— Nããão… — Lia fez uma carinha triste.

Ela tentou empurrar a massa de volta, com a colher. Mas a massa grudou.

— Grude, grude! — reclamou.

Nessa hora, Lia olhou para o caderninho outra vez.

— Vou achar o segredo e vou fazer o bolo perfeito — disse.

Ela abriu o caderno. As letras pareciam dançar um pouco, porque eram muitas e bem juntinhas.

Lia não sabia ler tudo. Ela só reconhecia algumas coisas. “Ovo”, “açúcar”… e via uns risquinhos.

— Cadê o segredo? Cadê? — ela perguntou, apertando os olhos.

A cozinha ficou silenciosa por um segundo. Só o relógio: tic-tac, tic-tac.

Lia sentiu um aperto no peito.

— Eu quero fazer igual a vovó… — ela disse baixinho. — Eu quero que ela fique feliz.

O olho dela encheu d’água.

E bem nesse momento, a vovó voltou.

Ela entrou na cozinha e viu a mesa com um pouco de massa, farinha no ar e Lia com o nariz branco.

— O que aconteceu aqui, minha florzinha? — perguntou Vovó Nena, com voz doce.

Lia respirou fundo.

— Vovó… eu tentei fazer sozinha. Mas eu derramei. Eu baguncei. Eu não achei o segredo. — E ela começou a chorar: — Buááá!

Vovó Nena foi até ela e deu um abraço grande, grande.

— Shhh… shhh… — ela acalmou, passando a mão no cabelo de Lia. — Não tem problema. Cozinha é lugar de aprender.

Lia ainda soluçava.

— Eu queria que o bolo ficasse perfeito… — disse ela, com a voz tremida.

Vovó Nena se agachou, ficou bem na altura de Lia, e olhou nos olhos dela.

— Lia, você quer mesmo saber o ingrediente secreto do meu bolo?

Lia enxugou as lágrimas.

— Quero.

Vovó Nena pegou a mãozinha de Lia e colocou sobre o coração dela.

— Tum-tum — falou a vovó.

Depois colocou a mão sobre o próprio coração.

— Tum-tum.

E disse, devagarinho, bem claro:

— O ingrediente secreto é **amor**. É fazer com carinho. É pensar na pessoa que vai comer. É ter paciência. É não desistir quando cai um pouco na mesa.

Lia ficou quietinha. O choro parou. O rosto dela foi ficando calmo.

— Então… eu posso colocar amor? — perguntou.

— Pode. E você já colocou — a vovó respondeu.

— Eu coloquei? — Lia ficou surpresa.

— Colocou sim. Você queria me ver feliz. Isso é amor. — Vovó Nena sorriu. — Agora vamos arrumar tudo juntas.

Ilustração da história A Receita Secreta da Vovó

As duas começaram a limpar a mesa. Lia pegou um paninho e fez movimentos pequenos: esfrega, esfrega. A vovó pegou a colher e juntou o que dava da massa.

— Vovó, a gente pode fazer de novo? — pediu Lia.

— Pode. Vamos fazer outra massa. Mas primeiro: respira — ensinou a vovó. — Puxa o ar… solta o ar.

Lia fez: “fuuuu…”.

— Muito bem — disse a vovó. — Agora, sem pressa.

Elas recomeçaram.

— Um… dois… três ovos! — contou Lia.

— Açúcar, chuvinha — falou a vovó.

— Chuuuuuva! — repetiu Lia.

E dessa vez, Lia colocou a farinha bem devagar.

— Sem tempestade — ela falou, concentrada.

A vovó piscou.

— Isso! Você está crescendo.

Lia mexeu a massa com a colher de pau.

— Mexe, mexe, mexe — cantou ela.

— Mexe com carinho — respondeu a vovó.

Quando a massa ficou pronta, Lia segurou a tigela com ajuda da vovó.

— Juntas! — disse Lia.

— Juntas — confirmou a vovó.

A massa caiu certinho na forma. Sem derramar.

— Uhuu! — Lia comemorou.

A vovó ligou o forno. A luzinha acendeu. A forma entrou.

— Agora esperamos — disse a vovó.

— Esperar é difícil — Lia confessou.

— A gente espera brincando — falou a vovó. — Vamos cantar.

E na cozinha, com cheiro de manteiga e casa de vó, elas cantaram uma musiquinha simples:

— “Bolo no forno, quentinho vai ficar… tum-tum, tum-tum, amor vai ajudar!”

O tempo passou devagar, como passeio no quintal. O relógio fazia: tic-tac.

De repente, um cheiro doce tomou conta de tudo.

— Cheirinho! — Lia gritou.

A vovó abriu o forno com cuidado. Uma nuvem quentinha subiu.

— O bolo cresceu! — Lia falou, com os olhos brilhando.

— Cresceu porque tinha fermento… — disse a vovó.

— E amor! — completou Lia.

— Isso — respondeu Vovó Nena.

Elas esperaram esfriar um pouquinho. Depois a vovó desenformou. O bolo ficou redondinho e dourado.

— Parece um sol! — disse Lia.

— Um sol de comer — riu a vovó.

Sentaram na mesa. A vovó cortou uma fatia. Lia soprou: “fuuuu…”.

— Está quente? — perguntou a vovó.

— Tá morninho — disse Lia.

Ela mordeu. Mastigou devagar. Os olhos dela ficaram grandes.

— Hummm! — Lia falou. — Tá gostoso!

— Sabe por quê? — perguntou a vovó.

Lia respondeu, orgulhosa:

— Porque eu fiz com você. Porque a gente fez com amor.

A vovó beijou a testa de Lia.

— Minha neta cozinheira.

E naquele sábado, na cozinha da casa brasileira, com quintal de goiabeira e risadas de vó e neta, Lia descobriu um segredo que não cabe em caderno: o amor.

E sempre que Lia via um bolo depois, ela lembrava:

— “Mexe com carinho… mexe, mexe, mexe.”

✨ Moral da História

Quando fazemos com carinho e paciência, o amor vira o ingrediente mais gostoso de todos.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você já comeu bolo na casa da vovó ou do vovô?
  • 2Qual sabor de bolo você mais gosta: chocolate, fubá ou cenoura?
  • 3Você gosta de mexer a massa com a colher? Mexe, mexe, mexe!
  • 4Se você derramar um pouquinho na mesa, o que você faz: chora ou limpa e tenta de novo?
  • 5Quem você gostaria de abraçar bem forte, igual a Lia abraçou a vovó?

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