A Receita Secreta da Vovó
Uma neta tenta fazer o bolo da avó e descobre que o ingrediente secreto é o amor com que se faz.

Numa cidade bem brasileira, com rua de paralelepípedo e cheiro de pão saindo da padaria da esquina, morava a pequena **Lia**. Ela tinha bochechas redondinhas e um sorriso que aparecia rapidinho, como um sol: plim!
Todo sábado de manhã, Lia ia para a casa da **Vovó Nena**. A casa da vovó tinha um quintal com goiabeira, um varal cheio de roupas balançando e uma cozinha que parecia abraçar a gente. Na cozinha, tinha panela brilhando, pote de farinha, e um relógio que fazia: tic-tac, tic-tac.
E tinha também o melhor cheiro do mundo.
O cheiro do **bolo da Vovó Nena**.
— Vovó, hoje tem bolo? — perguntou Lia, já ficando na pontinha do pé.
— Tem sim, meu docinho! — respondeu a vovó, com avental florido e cabelo preso num coque fofinho. — Bolo quentinho, pra gente comer com café e leite.
Lia bateu palminhas.
— Eu quero aprender! Eu quero fazer sozinha! — disse ela.
Vovó Nena riu baixinho.
— Fazer bolo é coisa séria e gostosa, viu? — ela falou. — Tem medida, tem mexida e tem paciência.
Lia fez uma carinha bem decidida.
— Eu tenho! Eu tenho! Eu sou grande!
— Então vamos lá — disse a vovó. — Hoje você vai me ajudar. E um dia você faz sozinha.
A vovó pegou um caderninho antigo, com capa amarela e um elástico segurando.
— Aqui está a receita do meu bolo. — Vovó Nena falou devagar. — É uma receita especial.
Lia arregalou os olhos.
— Especial como tesouro?
— Como tesouro — confirmou a vovó.
Na mesa, a vovó colocou os ingredientes: ovos, açúcar, farinha, leite, manteiga e um potinho de fermento. E tinha também uma tigela grande, uma colher de pau e uma forma redonda.
— Pronto, Lia. Agora repete comigo: “bolo, bolo, bolo!” — brincou a vovó.
— Bolo, bolo, bolo! — Lia repetiu, rindo.
E começou a aventura.
A vovó quebrou os ovos com cuidado: **toc!**
— Um… dois… três! — contou Lia.
— Isso, minha ajudante — disse a vovó.
Lia colocou o açúcar.
— Chuuuuuva! — ela falou, vendo os grãozinhos caírem.
— Agora mexe — pediu a vovó.
Lia mexeu com a colher de pau. Mexe, mexe, mexe. O braço dela ficou cansadinho.
— Ai… — ela reclamou.
— Devagar. Bolo gosta de calma — disse a vovó.
Depois veio a farinha.
— Pózinho branco! — falou Lia.
— Cuidado pra não fazer tempestade — avisou a vovó.
Mas Lia foi animada demais: **puf!** Subiu uma nuvem de farinha.
— Atchim! — espirrou Lia.
— Atchim! — espirrou a vovó também.
As duas caíram na risada.
— Parece neve! — Lia disse.
— Neve de cozinha — brincou a vovó.
Elas limparam a mesa. Depois colocaram o leite. **Ploc, ploc.** Colocaram a manteiga. **Plim.** E por último, o fermento.
— Agora é a hora mágica — falou a vovó. — Mexe com carinho.
Lia mexeu. Mexe, mexe. A massa ficou lisinha.
— Vovó, por que seu bolo fica mais gostoso do que o bolo de todo mundo? — perguntou Lia, bem séria.
A vovó olhou para o teto, como se estivesse pensando.
— Hmmm… tem um segredo.
— Eu sabia! — Lia quase pulou da cadeira. — Qual é? Qual é?
Vovó Nena sorriu e pegou o caderninho. Lia viu que a vovó tinha colocado uma fita vermelha numa página.
— O segredo está aqui — disse a vovó. — Mas é segredo de família.
— Eu sou da família! — Lia falou, colocando a mão no peito.
— Então você pode saber… — a vovó cochichou. — Só não pode esquecer.
Lia chegou bem pertinho, com o ouvido atento.
Mas, bem nessa hora, tocou o telefone na sala.
— Trim-trim! — fez o telefone.
Vovó Nena suspirou.
— Deve ser sua tia. Já volto, Lia. Não mexa na receita, tá?
— Tá! — Lia respondeu.
A vovó saiu correndo devagarzinho, do jeito de vó, dizendo “já vou, já vou!”.
Lia ficou sozinha na cozinha. E a cozinha parecia ainda mais cheirosa. Ela olhou para a tigela. Olhou para a forma. Olhou para o caderninho.
O coração dela fez: tum-tum.
— Eu vou fazer sozinha agora… — sussurrou Lia. — Eu consigo.
Ela pegou a forma e tentou passar manteiga, como a vovó fazia. Passou um pouco demais. A manteiga escorregou: **shluuup!**
— Opa! — Lia falou.
Ela pegou farinha pra polvilhar. De novo, a farinha subiu: **puf!**
— Atchim! — espirrou Lia.
Lia riu e ficou com o nariz branquinho.
Aí ela pegou a tigela com as duas mãos para despejar a massa na forma.
Mas a tigela era grande.
E Lia era pequena.
A massa começou a cair… e uma parte caiu na mesa.
— Nããão… — Lia fez uma carinha triste.
Ela tentou empurrar a massa de volta, com a colher. Mas a massa grudou.
— Grude, grude! — reclamou.
Nessa hora, Lia olhou para o caderninho outra vez.
— Vou achar o segredo e vou fazer o bolo perfeito — disse.
Ela abriu o caderno. As letras pareciam dançar um pouco, porque eram muitas e bem juntinhas.
Lia não sabia ler tudo. Ela só reconhecia algumas coisas. “Ovo”, “açúcar”… e via uns risquinhos.
— Cadê o segredo? Cadê? — ela perguntou, apertando os olhos.
A cozinha ficou silenciosa por um segundo. Só o relógio: tic-tac, tic-tac.
Lia sentiu um aperto no peito.
— Eu quero fazer igual a vovó… — ela disse baixinho. — Eu quero que ela fique feliz.
O olho dela encheu d’água.
E bem nesse momento, a vovó voltou.
Ela entrou na cozinha e viu a mesa com um pouco de massa, farinha no ar e Lia com o nariz branco.
— O que aconteceu aqui, minha florzinha? — perguntou Vovó Nena, com voz doce.
Lia respirou fundo.
— Vovó… eu tentei fazer sozinha. Mas eu derramei. Eu baguncei. Eu não achei o segredo. — E ela começou a chorar: — Buááá!
Vovó Nena foi até ela e deu um abraço grande, grande.
— Shhh… shhh… — ela acalmou, passando a mão no cabelo de Lia. — Não tem problema. Cozinha é lugar de aprender.
Lia ainda soluçava.
— Eu queria que o bolo ficasse perfeito… — disse ela, com a voz tremida.
Vovó Nena se agachou, ficou bem na altura de Lia, e olhou nos olhos dela.
— Lia, você quer mesmo saber o ingrediente secreto do meu bolo?
Lia enxugou as lágrimas.
— Quero.
Vovó Nena pegou a mãozinha de Lia e colocou sobre o coração dela.
— Tum-tum — falou a vovó.
Depois colocou a mão sobre o próprio coração.
— Tum-tum.
E disse, devagarinho, bem claro:
— O ingrediente secreto é **amor**. É fazer com carinho. É pensar na pessoa que vai comer. É ter paciência. É não desistir quando cai um pouco na mesa.
Lia ficou quietinha. O choro parou. O rosto dela foi ficando calmo.
— Então… eu posso colocar amor? — perguntou.
— Pode. E você já colocou — a vovó respondeu.
— Eu coloquei? — Lia ficou surpresa.
— Colocou sim. Você queria me ver feliz. Isso é amor. — Vovó Nena sorriu. — Agora vamos arrumar tudo juntas.

As duas começaram a limpar a mesa. Lia pegou um paninho e fez movimentos pequenos: esfrega, esfrega. A vovó pegou a colher e juntou o que dava da massa.
— Vovó, a gente pode fazer de novo? — pediu Lia.
— Pode. Vamos fazer outra massa. Mas primeiro: respira — ensinou a vovó. — Puxa o ar… solta o ar.
Lia fez: “fuuuu…”.
— Muito bem — disse a vovó. — Agora, sem pressa.
Elas recomeçaram.
— Um… dois… três ovos! — contou Lia.
— Açúcar, chuvinha — falou a vovó.
— Chuuuuuva! — repetiu Lia.
E dessa vez, Lia colocou a farinha bem devagar.
— Sem tempestade — ela falou, concentrada.
A vovó piscou.
— Isso! Você está crescendo.
Lia mexeu a massa com a colher de pau.
— Mexe, mexe, mexe — cantou ela.
— Mexe com carinho — respondeu a vovó.
Quando a massa ficou pronta, Lia segurou a tigela com ajuda da vovó.
— Juntas! — disse Lia.
— Juntas — confirmou a vovó.
A massa caiu certinho na forma. Sem derramar.
— Uhuu! — Lia comemorou.
A vovó ligou o forno. A luzinha acendeu. A forma entrou.
— Agora esperamos — disse a vovó.
— Esperar é difícil — Lia confessou.
— A gente espera brincando — falou a vovó. — Vamos cantar.
E na cozinha, com cheiro de manteiga e casa de vó, elas cantaram uma musiquinha simples:
— “Bolo no forno, quentinho vai ficar… tum-tum, tum-tum, amor vai ajudar!”
O tempo passou devagar, como passeio no quintal. O relógio fazia: tic-tac.
De repente, um cheiro doce tomou conta de tudo.
— Cheirinho! — Lia gritou.
A vovó abriu o forno com cuidado. Uma nuvem quentinha subiu.
— O bolo cresceu! — Lia falou, com os olhos brilhando.
— Cresceu porque tinha fermento… — disse a vovó.
— E amor! — completou Lia.
— Isso — respondeu Vovó Nena.
Elas esperaram esfriar um pouquinho. Depois a vovó desenformou. O bolo ficou redondinho e dourado.
— Parece um sol! — disse Lia.
— Um sol de comer — riu a vovó.
Sentaram na mesa. A vovó cortou uma fatia. Lia soprou: “fuuuu…”.
— Está quente? — perguntou a vovó.
— Tá morninho — disse Lia.
Ela mordeu. Mastigou devagar. Os olhos dela ficaram grandes.
— Hummm! — Lia falou. — Tá gostoso!
— Sabe por quê? — perguntou a vovó.
Lia respondeu, orgulhosa:
— Porque eu fiz com você. Porque a gente fez com amor.
A vovó beijou a testa de Lia.
— Minha neta cozinheira.
E naquele sábado, na cozinha da casa brasileira, com quintal de goiabeira e risadas de vó e neta, Lia descobriu um segredo que não cabe em caderno: o amor.
E sempre que Lia via um bolo depois, ela lembrava:
— “Mexe com carinho… mexe, mexe, mexe.”
✨ Moral da História
“Quando fazemos com carinho e paciência, o amor vira o ingrediente mais gostoso de todos.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já comeu bolo na casa da vovó ou do vovô?
- 2Qual sabor de bolo você mais gosta: chocolate, fubá ou cenoura?
- 3Você gosta de mexer a massa com a colher? Mexe, mexe, mexe!
- 4Se você derramar um pouquinho na mesa, o que você faz: chora ou limpa e tenta de novo?
- 5Quem você gostaria de abraçar bem forte, igual a Lia abraçou a vovó?
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