Família

Mudança de Casa, Mudança de Coração

27 de janeiro de 202615 min de leitura6 a 8 anos2 visualizações

Uma família se muda para uma cidade nova e descobre que lar é onde está quem amamos.

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Mudança de Casa, Mudança de Coração

O caminhão de mudança chegou numa manhã quentinha, com cheiro de pão na chapa vindo da padaria da esquina. A rua era diferente de tudo o que Luna conhecia: tinha um ipê-amarelo bem na frente da casa nova, e as folhas brilhavam como se tivessem tomado banho de sol.

Luna tinha sete anos, dois dentinhos de leite moles e um coração apertadinho. Ela segurava um saquinho com três coisas importantes: uma pedra lisa que tinha achado na praia da cidade antiga, um lápis de cor azul (o favorito) e o caderno onde desenhava histórias.

— Mãe… — Luna chamou baixinho, puxando a blusa de Marina. — Aqui vai ser… estranho.

Marina se agachou para ficar da altura dela, limpou uma gotinha de suor da testa e sorriu com calma.

— Vai ser diferente, minha estrelinha. Estranho é só diferente com um pouco de medo misturado.

O pai, Ricardo, apareceu carregando uma caixa enorme escrita “COZINHA — FRÁGIL”. Ele fez careta e brincou:

— Se eu derrubar essa caixa, a gente vai jantar… ar!

Luna soltou uma risadinha curta, mas logo lembrou do quarto antigo, do corredor onde ela corria com o chinelo fazendo “ploc ploc”, e da janela de onde via o céu mudando de cor no fim da tarde.

Dentro da casa nova, tudo estava meio vazio e com eco. Quando Luna falou “alô”, o som voltou para ela, devolvido pelas paredes brancas.

— Alô… alô… — ela testou, e o eco pareceu uma voz repetindo: “Você não conhece ninguém aqui.”

— Para com isso, eco bobo — Luna resmungou.

O irmão mais velho, Davi, de dez anos, já corria pela sala como se fosse um explorador.

— Achei um lugar perfeito pra montar minha base secreta! — ele anunciou, apontando para um cantinho embaixo da escada.

— Base secreta? — Luna cruzou os braços. — Aqui não tem nada secreto. Todo mundo sabe que é aí.

Davi riu.

— Então vai ser uma base… quase secreta.

Luna subiu as escadas devagar, observando. As janelas tinham grades desenhadas como rendas de ferro. O vento entrava e carregava cheiro de terra úmida, porque à direita da casa havia um quintal com um pedacinho de jardim.

O quarto de Luna era menor do que o antigo, e isso fez um friozinho subir do estômago até a garganta.

— Mãe, meu quarto encolheu — ela disse, encarando o espaço vazio.

— Mas o que cabe aqui dentro… — Marina encostou a mão no coração de Luna, com delicadeza. — Isso não encolhe.

Luna não respondeu. Ela estava ocupada tentando não chorar. Chorar na mudança parecia fazer o caminhão ficar mais pesado.

Naquela primeira tarde, enquanto os adultos organizavam pratos e roupas, Luna ficou na varanda olhando o ipê. As flores amarelas caíam como confetes. Do outro lado da rua, um menino com camiseta verde chutava uma bola. A bola bateu na guia e veio rolando, devagar, até os pés de Luna.

Ele correu e parou, sem saber se falava ou se apenas pegava a bola.

— Oi — disse Luna, bem baixinho.

— Oi… você é nova aqui? — perguntou o menino.

— Sou. Me chamo Luna.

— Eu sou o Caio. Quer devolver a bola… ou quer chutar também?

Luna olhou para a bola como se ela fosse um convite embrulhado em papel. Seus pés queriam chutar, mas o coração ainda estava com mala pronta para ir embora.

— Hoje não — ela respondeu, educada. — Tô… cansada.

Caio deu de ombros, mas sorriu.

— Tudo bem. Amanhã eu passo aqui. Tem uma pracinha perto do rio. É legal.

Ele saiu correndo, e Luna ficou pensando: “Perto do rio.” Na cidade antiga, havia praia. Aqui, o som que chegava era de um rio distante e de passarinhos diferentes.

À noite, a família sentou no chão da sala para comer pizza em pratos de papel, porque as panelas ainda estavam perdidas em alguma caixa.

— Amanhã vocês começam na escola nova — disse Ricardo, com voz de quem queria parecer animado.

Davi fez uma cara de “tanto faz”.

Luna apertou a borda do prato.

— E se ninguém gostar de mim? — ela perguntou.

Marina mordeu um pedaço de pizza e respondeu com calma:

— A gente não controla o que os outros sentem. Mas controla o que a gente faz. Você sabe fazer amizade. Você sabe escutar. E sabe… desenhar mundos.

Luna lembrou do caderno no saquinho e se sentiu um pouco mais firme.

No dia seguinte, a escola tinha muro pintado com desenhos de arara, jabuti e tucano. O sol batia forte no pátio e o cheiro era de merenda e giz.

Luna entrou agarrada na mão da mãe. Na porta da sala, a professora Soraya, com cabelos cacheados presos num coque, falou sorrindo:

— Bom dia! Você deve ser a Luna. Seja bem-vinda.

— Bom dia — respondeu Luna, quase sussurrando.

A sala parecia grande demais. As crianças falavam ao mesmo tempo. Uma menina com laço vermelho observou Luna e apontou uma cadeira vazia.

— Senta aqui. Eu sou a Bia — ela disse, simples.

Luna sentou devagar.

— Eu… sou Luna.

Bia olhou para o caderno que Luna segurava.

— Você desenha?

— Um pouco.

— Eu gosto de desenhar também. Mas faço mais flor e coração.

Luna sentiu uma pontinha de calor no peito, como se alguém acendesse uma luz pequena.

No recreio, Caio apareceu com a bola, como se fosse dono das manhãs.

— Eu falei que ia passar! — ele gritou. — Você veio pra escola também.

Davi, que estava do outro lado, ouviu e fez uma careta de irmão.

— Lá vem esse goleiro de meia-tigela — ele murmurou.

— Davi! — Luna se assustou. — Não fala assim.

Mas Davi estava nervoso também, só que nervoso de um jeito diferente: ele fingia que não se importava.

Naquela semana, as coisas foram se ajeitando… e desajeitando. Luna descobriu o caminho da escola, aprendeu o nome da moça da cantina que sempre dizia “minha filha” e viu que na praça perto do rio vendiam caldo de cana com pastel.

Mesmo assim, em algumas noites, Luna acordava com saudade. Saudade tem um barulho quieto, como chuva fina no telhado. Ela sentava na cama e pensava na cidade antiga: no cheiro de sal, no vento da praia, no portão azul da casa que já não era dela.

Num sábado, Ricardo decidiu:

— Vamos fazer um piquenique na pracinha do rio. A gente precisa conhecer a cidade com calma.

Marina levou uma toalha xadrez, suco de caju e sanduíches de queijo. Davi levou um skate. Luna levou o caderno.

A pracinha era bonita. O rio passava um pouco adiante, brilhando como uma fita. Havia crianças brincando, e um senhor tocando violão baixinho perto de uma árvore.

Caio e Bia apareceram, como se a cidade estivesse dizendo: “Você não está sozinha.”

— Oi, Luna! — Bia acenou. — Sua família tá aqui também?

— Tá sim — Luna respondeu, e apresentou todo mundo, meio sem jeito.

Enquanto Davi tentava fazer manobras no skate, Luna e Bia desenhavam sentadas na grama. Caio chutava a bola contra uma trave improvisada.

De repente, um vento mais forte soprou. Foi um vento esperto, daqueles que gostam de bagunçar.

A toalha do piquenique levantou uma ponta, as folhas do ipê distante dançaram, e o caderno de Luna… escapou.

— Meu caderno! — Luna gritou.

O caderno deslizou pela grama, como se tivesse ganhado pernas, e foi direto para a direção do rio.

Luna correu. O coração dela batia como tambor em festa junina. Ela alcançou o caderno por um segundo, mas o vento empurrou de novo, e ele foi parar na beiradinha, pertinho demais da água.

— Cuidado! — Marina gritou.

Luna se esticou. O tênis escorregou na terra úmida. Ela sentiu o corpo inclinar, os braços abrirem no ar, e o rio pareceu crescer na frente dela.

Ilustração da história Mudança de Casa, Mudança de Coração

— Luna! — Davi berrou.

Num pulo rápido, Davi largou o skate e segurou a irmã pela cintura, puxando com força para trás. Caio, sem pensar duas vezes, deitou no chão e esticou o braço.

— Me dá a mão! — Caio falou.

Bia segurou a camiseta de Caio, para ele não escorregar também.

Luna, com o rosto quente e os olhos arregalados, esticou o braço o máximo que pôde. Seus dedos tocaram o caderno, que estava preso numa pedrinha na margem. Ela puxou com cuidado, como quem puxa uma borboleta sem machucar.

Quando finalmente segurou o caderno no peito, Luna ficou parada, tremendo.

— Tá tudo bem? — perguntou Marina, chegando e abraçando Luna forte.

Luna respirou fundo. O susto era grande, mas dentro dele havia algo novo: uma sensação de ser segurada por vários lados.

— Eu… eu quase caí… — Luna disse, com a voz falhando.

Davi apertou o ombro dela, ainda ofegante.

— Você é doida, Luna! — ele falou, mas a voz dele estava cheia de cuidado. — Não faz isso de novo.

— Desculpa… — Luna respondeu, e olhou para Caio e Bia. — Obrigada.

Caio deu um sorriso meio torto.

— Ué. A gente não deixa o caderno de ninguém ir embora assim.

Bia completou:

— Ainda mais um caderno de desenhos. Nele mora um monte de coisa.

Luna apertou o caderno e sentiu uma coisa diferente da saudade: era como se uma porta tivesse sido aberta dentro do peito.

Mais tarde, sentados de novo na toalha xadrez (agora com pedras nos cantos para o vento não levar), Luna abriu o caderno. Algumas páginas estavam amassadinhas, mas inteiras.

— Eu posso desenhar uma coisa? — Luna perguntou.

— Claro — disse Marina.

Luna desenhou a pracinha, o rio, o ipê, a toalha xadrez. Desenhou Davi puxando ela, Caio esticado, Bia segurando. Desenhou até o vento, como uma linha enrolada fazendo bagunça.

— Esse desenho tá muito legal — Caio comentou, espiando.

— Parece até foto — falou Davi, impressionado sem querer.

Ricardo, olhando por cima, disse:

— Sabe o que esse desenho mostra?

Luna pensou. E então respondeu, devagar, como quem encontra a palavra certa no meio de muitas:

— Que… aqui tem gente que segura a gente.

Marina beijou a testa dela.

— Isso, filha. Casa não é só parede e telhado. Casa é quem chama seu nome quando você está com medo. Quem puxa você pra perto. Quem senta ao seu lado pra desenhar.

Luna olhou ao redor: o irmão implicante e protetor, os pais com olhos atentos, os amigos novos. E o rio, que continuava passando, como se dissesse: “As coisas mudam, mas seguem.”

Naquela noite, já na casa nova, Luna colocou o desenho na parede do quarto, preso com fita. O quarto era menor, sim. Mas agora ele parecia ter crescido por dentro.

Antes de dormir, Davi apareceu na porta.

— Ei, Luna… — ele coçou a cabeça. — Amanhã você quer me ajudar a decorar a base quase secreta?

Luna sorriu, com o coração mais leve.

— Quero. Mas só se tiver espaço pra um cantinho de desenho.

— Fechado — Davi disse.

Luna se deitou e ouviu o som da casa: um copo sendo guardado, um passo no corredor, um “boa noite” baixinho. O eco não parecia mais dizer “você não conhece ninguém aqui”. Parecia dizer: “Você está em casa.”

E, pela primeira vez desde a mudança, Luna dormiu com a saudade mais quieta, como um bichinho que se encolhe para caber no colo, enquanto o coração aprende um endereço novo: perto de quem a gente ama.

✨ Moral da História

Lar não é apenas um lugar: é o cuidado e o amor das pessoas que caminham com a gente, mesmo quando tudo muda.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que a Luna ficou com o coração apertado quando chegou na casa nova?
  • 2O que você acha que fez a Luna se sentir mais segura na escola e na pracinha?
  • 3Se o seu caderno favorito estivesse indo em direção ao rio, o que você faria primeiro?
  • 4Como o Davi mostrou que se importava com a Luna, mesmo implicando com ela?
  • 5Que coisa você colocaria na parede do seu quarto para lembrar que você está em casa?

O que achou desta história?

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