Fantasia

O Relógio que Parou o Tempo

27 de janeiro de 202615 min de leitura6 a 8 anos1 visualizações

Uma menina encontra um relógio mágico e descobre que parar o tempo não resolve nossos problemas.

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O Relógio que Parou o Tempo

Na rua de paralelepípedos do bairro do Pelourinho, em Salvador, as casas coloridas pareciam ter sido pintadas com lápis de cor gigantes. O sol da tarde esquentava o ar, e o cheiro de acarajé vinha de algum tabuleiro ali perto, misturado com música que escapava de uma janela: um pandeiro, um violão, e uma voz cantando baixinho.

Lia tinha sete anos, um laço amarelo prendendo o cabelo cacheado e um olhar curioso que parecia pegar detalhe em tudo: o brilho das fitas do Bonfim, o desenho das pedras no chão, até o jeito que as sombras dançavam nos muros.

— Mãe, eu posso ir até a lojinha do seu Zé? — pediu ela, segurando uma moeda no punho fechado. — Prometo que vou e volto rapidinho.

A mãe, Dona Cida, ajeitou a sacola de compras e respondeu com aquele tom de quem confia, mas não descuida:

— Pode, Lia. Mas vai com calma, olha os degraus e não atravessa correndo. E lembre: rapidinho não é voando.

Lia riu.

— Tá bom!

A “lojinha do seu Zé” era na verdade uma vendinha pequenininha e apertada, com prateleiras cheias de balas, cadernos, elásticos de cabelo, lápis e brinquedos simples. Mas a parte que Lia mais gostava ficava lá no fundo: uma caixa de coisas antigas, que seu Zé chamava de “caixa das lembranças”.

— Oxe, Lia! — saudou seu Zé, com bigode branco e sorriso grande. — Veio comprar bala de coco de novo?

— Hoje eu vim… só olhar — confessou Lia, já se esticando para ver a caixa.

Seu Zé fingiu que ficou bravo:

— Olhar não gasta, né? Mas cuidado pra não levar o olhar embora.

Lia abriu a caixa das lembranças devagar, como quem abre um tesouro. Tinha botão de casaco, chave sem porta, foto amarelada, uma pulseira quebrada… e, lá no meio, um relógio de bolso prateado, com riscos fininhos como se alguém tivesse dançado com ele na areia.

Quando Lia pegou o relógio, sentiu um friozinho gostoso na palma da mão, como uma brisa escondida.

— Seu Zé… isso aqui funciona? — perguntou.

Seu Zé coçou a cabeça.

— Esse relógio apareceu aqui faz tempo. Dizem que é antigo, bem antigo. Eu nunca vi abrir sozinho.

Lia apertou o botão da tampa e… “clac!” A tampa abriu com um som redondinho. Dentro, os números brilhavam como se tivessem acabado de acordar. Os ponteiros estavam parados no 3 e no 12.

— Tá parado — disse Lia, meio desapontada.

Mas então o relógio fez um “tic” bem baixinho. Só um. E a voz de seu Zé pareceu longe, como se estivesse em outra rua:

— Lia? Tá me ouvindo?

Lia piscou. Ela olhou para o balcão e viu uma coisa estranha: seu Zé estava com a mão no ar, segurando uma sacolinha, mas… não se mexia. A sacolinha parecia congelada no meio de um balanço.

Lia deu um passo. O mundo continuava quieto. Quieto demais. A música lá fora tinha virado um silêncio sem fim, como se alguém tivesse fechado uma porta gigante.

— Ué… — Lia sussurrou, e a própria voz ficou enorme no ar, ecoando em volta dela.

Ela correu até a porta e espiou a rua: uma pomba estava com a asa aberta, parada no meio do bater. Um menino segurava um ioiô que não descia nem subia. Uma senhora com um saco de laranjas estava com o pé no ar, como se fosse fazer um passo e desistiu.

— Eu… eu parei o tempo? — Lia falou, e os olhos arregalaram tanto que quase tocaram as sobrancelhas.

O coração dela deu um pulo que parecia querer escapar pelo laço amarelo.

“Se eu posso parar o tempo… então eu posso resolver as coisas sem ninguém me apressar!”, pensou.

Naquele dia, Lia estava com um problema bem chato: na escola, tinha uma apresentação de leitura. Ela tinha ensaiado em casa, mas travava nas palavras compridas. E ainda por cima, tinha brigado com a melhor amiga, Bia, por causa de um lápis rosa com glitter.

“Se eu tiver tempo infinito, eu vou ensaiar até ficar perfeito. E depois eu conserto com a Bia”, decidiu.

Lia voltou para dentro da lojinha, olhou para seu Zé congelado e disse, como se ele pudesse ouvir:

— Eu já volto, tá?

Ela apertou o relógio de novo. “Tic.” Nada mudou. Apertou mais uma vez. “Tic.” E o silêncio continuou.

— Deve ser assim mesmo… — murmurou.

Lia saiu andando pela rua parada. Foi estranho passar por pessoas sem que elas piscassem. Parecia que o mundo tinha virado uma fotografia gigante.

Chegando em casa, encontrou a mãe com a panela aberta, uma colher suspensa no ar e o cheiro do feijão… parado. Até o vapor parecia uma nuvem presa.

— Mãe? — Lia chamou, mas a mãe não respondeu.

Lia engoliu seco. Pela primeira vez, a ideia de “tempo parado” ficou menos divertida.

Mesmo assim, ela pegou o caderno e abriu na leitura da apresentação. Começou a ensaiar.

— “O jabuti… cami… cami…” — tentou.

Ela respirou fundo.

— “Caminhava devagar…”

Ensaiou de novo, e de novo. Em pouco tempo, percebeu uma coisa: sem a mãe para dizer “muito bem!” e sem o barulho da casa, ela se sentia sozinha. E, quando errava uma palavra, não tinha ninguém para rir junto e tentar de novo.

Depois de repetir muitas vezes, Lia ficou boa na leitura. Mas o peito dela continuou apertado.

— Tá. Agora eu vou falar com a Bia — disse para si mesma.

Lia foi até a casa da amiga, ali perto. A porta estava encostada. Lá dentro, Bia estava sentada com o lápis rosa na mão, olhando para o caderno. Mas Bia estava parada, como se fosse uma boneca.

— Bia… — Lia falou baixinho. — Eu queria pedir desculpa. Eu não devia ter puxado o lápis.

Bia não respondeu.

Lia sentiu uma vontade enorme de chorar. Pedir desculpa sem ouvir “tudo bem” era como dar um abraço e abraçar o ar.

— Isso não vale — sussurrou Lia, e uma lágrima escorreu, quente, no rosto.

Ela apertou o relógio muitas vezes.

— Anda! Desanda! Volta! — implorou.

“Tic. Tic. Tic.”

Nada.

O relógio continuava com os ponteiros no 3 e no 12, como se estivesse teimando.

Lia correu de volta para a vendinha, com o coração batendo apressado, mesmo que o mundo não se apressasse. Encontrou seu Zé do mesmo jeito, parado.

— Seu Zé! — disse, quase gritando. — Eu… eu acho que eu estraguei tudo!

Ela olhou ao redor e viu que, no chão, uma vela pequena de enfeite — que seu Zé acendia às vezes quando faltava luz — estava caída perto de um monte de papéis velhos. E, mesmo com o tempo parado, havia uma pontinha de fogo bem pequenininha, tremendo como uma língua laranja.

Lia sentiu o gelo virar pedra no estômago.

“Se isso pegar fogo, ninguém vai correr. Ninguém vai jogar água. Ninguém vai ajudar. E… e eu vou ficar sozinha com um incêndio parado… que talvez não esteja tão parado assim.”

O fogo deu uma lambidinha em um papel, como se estivesse acordando.

Lia arregalou os olhos e segurou o relógio com tanta força que os dedos ficaram brancos.

— Por favor… — ela chorou, com a voz falhando. — Eu só queria ter tempo pra consertar as coisas… mas eu preciso das pessoas pra consertar comigo!

Nesse exato momento, o papel começou a escurecer na pontinha, e uma fumacinha fina subiu, teimosa. Lia pegou um pano do balcão, mas ele estava duro, pesado, como se também estivesse congelado. Tentou abrir a torneirinha do filtro, mas a água não caía.

O fogo cresceu um pouquinho.

Ilustração da história O Relógio que Parou o Tempo

Lia sentiu um medo enorme, daqueles que fazem a gente pensar rápido. Ela lembrou de uma coisa que a mãe dizia quando Lia queria fazer tudo sozinha:

“Pedir ajuda também é coragem.”

— Então… eu vou pedir ajuda — disse Lia, soluçando.

Ela abriu o relógio e falou com ele como se fosse alguém que escuta:

— Relógio, eu não quero mandar em você. Eu quero voltar. Eu quero o tempo andando, com as pessoas vivendo. Eu prometo que eu vou enfrentar minhas coisas do jeito certo.

Ela respirou fundo e, ao invés de apertar de qualquer jeito, girou a coroinha do relógio bem devagar, como tinha visto o pai fazer com um relógio antigo uma vez. Girou uma vez. Duas. Três.

O relógio tremeu levemente, como um passarinho na mão.

E então… “TIC-TAC. TIC-TAC.”

O som foi crescendo, enchendo a vendinha como música.

De repente, o mundo deu um solavanco de vida. Seu Zé piscou, a sacolinha balançou e caiu no balcão.

— Ô menina! — ele falou, assustado. — Que cara é essa? Parece que viu um fantasma.

— Seu Zé! O fogo! — Lia apontou.

Seu Zé virou rápido. O tempo agora corria, e o fogo também. Ele pegou um balde que guardava atrás do balcão, correu até a torneira — agora a água veio! — e jogou com cuidado em cima dos papéis. “Pshhh!” O fogo sumiu, deixando só um cheirinho de queimado.

Lia respirou tão fundo que parecia que estava bebendo ar.

— Você salvou a loja, Lia — disse seu Zé, sério, mas com o olhar gentil. — E foi esperta em chamar atenção. Agora me diga… de onde apareceu esse relógio?

Lia olhou para o relógio na mão. Os ponteiros tinham voltado a mexer. Ela fechou a tampa com cuidado.

— Eu achei na caixa. E… eu apertei… e o tempo parou. Eu achei que ia ser bom. Mas foi ruim. Eu fiquei sozinha.

Seu Zé pegou o relógio com delicadeza.

— Coisa poderosa demais pra mão pequena — falou ele. — O tempo é igual maré: a gente aprende a nadar nele, não a prender.

Lia não entendeu todas as palavras, mas entendeu o principal: não dava para congelar a vida.

Mais tarde, na escola, chegou a hora da apresentação. Lia sentiu o friozinho na barriga, mas, dessa vez, não tentou fugir. Olhou para a professora, olhou para os colegas e viu Bia sentada na primeira fileira.

Antes de começar a leitura, Lia caminhou até Bia.

— Bia… eu quero te pedir desculpa pelo lápis. Eu fiquei com ciúme porque achei ele lindo e… eu não pensei — disse Lia, com a voz baixinha.

Bia mordeu o lábio, depois soltou o ar.

— Eu também fui teimosa — respondeu. — A gente pode dividir. Você usa hoje e eu amanhã.

Lia sorriu, e o sorriso dela parecia empurrar a coragem para frente.

Quando chegou a vez de ler, Lia ainda tropeçou em uma palavra comprida. Mas ela parou, respirou e tentou de novo. Ouviu uns cochichos, mas também ouviu a professora dizendo:

— Vai com calma, Lia. Você consegue.

E ela conseguiu.

Na volta para casa, o sol já estava mais baixo, e o Pelourinho parecia dourado. Lia passou pela vendinha do seu Zé. Ele estava na porta.

— E aí, menina do tempo? — ele brincou.

Lia riu, com um riso leve.

— Eu prefiro ser menina do “agora” — respondeu. — Porque o agora tem gente. E tem chance de consertar.

Seu Zé piscou.

— Aí sim.

Lia seguiu caminho, sentindo que o coração dela estava no ritmo certo: nem correndo demais, nem parando. Apenas vivendo.

E, lá dentro da vendinha, guardado no fundo da caixa das lembranças, o relógio de bolso ficou quietinho, fazendo “tic-tac” bem baixo, como se aprovasse a escolha dela.

✨ Moral da História

Ter tempo a mais não substitui coragem: os problemas se resolvem vivendo o agora e contando com as pessoas ao nosso redor.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que a Lia achou que parar o tempo ia ajudar ela com a apresentação e com a briga com a Bia?
  • 2Como você acha que a Lia se sentiu quando percebeu que ninguém se mexia e ninguém respondia?
  • 3O que você teria feito se visse uma pontinha de fogo começando perto de papéis, como aconteceu na vendinha?
  • 4Por que pedir ajuda pode ser uma atitude corajosa, como a mãe da Lia dizia?
  • 5Quando a Lia voltou a falar com a Bia, o que ela fez de diferente para resolver o problema sem ‘parar o tempo’?

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Raposinha

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