O Pintor das Estações
Um menino descobre que pode pintar as estações do ano e aprende sobre equilíbrio e ciclos da vida.

No alto de uma ladeira tranquila de **Ouro Preto**, onde as casas coloridas parecem abraçar as ruas de pedra, morava um menino chamado **Miguel**. Ele tinha oito anos e um jeito curioso de olhar o mundo, como se cada cantinho escondesse um segredo pronto para ser descoberto.
Miguel gostava de duas coisas mais do que tudo: **observar o céu** e **pintar**. Pintava em folhas de caderno, em papelão de caixa, em pedaços de papel embrulhado que a mãe guardava na gaveta. Ele pintava montanhas com sombras roxas, igrejas com telhados alaranjados e, principalmente, pintava **árvores** — porque, segundo ele, “árvore muda de roupa igual gente”.
Numa tarde de sábado, depois da feira da praça, Miguel ajudou a mãe a guardar as sacolas. O cheiro de **queijo minas** e de **goiabada** ainda dançava no ar. Quando terminou, correu para o quintal dos fundos, onde havia um pé de jabuticaba e um pequeno galpão antigo, com uma porta de madeira que rangia.
— Mãe, posso mexer naquele galpão? — perguntou, apontando.
A mãe enxugou as mãos no avental.
— Pode, mas com cuidado. É coisa do seu avô. Tem umas tralhas e… umas tintas velhas, eu acho.
Miguel abriu a porta devagar. O galpão tinha cheiro de madeira úmida e poeira antiga, mas também havia um perfume estranho, como de **folhas amassadas depois da chuva**. Um feixe de luz entrava por uma frestinha no telhado e iluminava uma mesa coberta por um pano.
Ele puxou o pano com cuidado.
Debaixo dele havia uma **caixa de madeira**, com fecho de metal. Na tampa, gravado a canivete, estava escrito: **“Para quem enxerga o tempo com cores.”**
Miguel sentiu um arrepio de alegria.
— Uau… — sussurrou.
Abriu a caixa. Dentro, havia pincéis alinhados, um bloco de papel grosso e quatro potinhos de tinta, cada um com uma etiqueta:
1. **Verde-Madrugada** 2. **Amarelo-Quentura** 3. **Vermelho-Estalo** 4. **Azul-Suspiro**
Miguel não entendeu os nomes, mas gostou deles.
— Parece nome de magia — falou sozinho.
Na parte de baixo da caixa, havia um bilhete envelhecido, com a letra firme do avô, que ele lembrava das dedicatórias nos livros:
“Miguel, se um dia você encontrar estas tintas, lembre: **as estações são visitas**. Elas precisam entrar, ficar um pouco e ir embora. Quem tenta prender uma visita… bagunça a casa. Com carinho, Vô Sebastião.”
Miguel leu duas vezes. Ainda assim, sua curiosidade era maior do que a dúvida.
Ele colocou uma folha no bloco, molhou o pincel e escolheu a tinta **Verde-Madrugada**, porque parecia a cor mais quieta e misteriosa. Pintou uma árvore com folhas bem verdes e brilhantes, do jeito que ele via no começo do ano, quando as chuvas deixavam tudo vivo.
Quando terminou o último galhinho, uma brisa atravessou o galpão. As folhas do pé de jabuticaba no quintal balançaram com força, e Miguel ouviu um barulhinho… **plim, plim, plim**, como gotas.
Ele correu para a porta.
O céu, que estava azul, agora parecia mais úmido. Um cheirinho de terra molhada subiu, e em poucos minutos uma chuvinha macia começou a cair.
Miguel arregalou os olhos.
— Eu… eu pintei e… choveu?
A mãe apareceu na janela.
— Ô Miguel, que beleza! Essa chuva veio na hora certa. Tava um calor danado!
Miguel voltou para dentro do galpão, com o coração batendo feito tambor de escola de samba. Ele olhou para os potinhos.
— Então é isso… eu posso pintar… as estações?
Nos dias seguintes, Miguel testou, com cuidado, como se conversasse com o mundo. Quando usava **Amarelo-Quentura**, o sol ficava mais forte, as roupas secavam mais rápido no varal e até as cigarras pareciam cantar mais alto. Quando usava **Vermelho-Estalo**, uma brisa fria aparecia e as folhas de algumas árvores no morro iam ficando amarelas e caíam rodopiando. E quando pintava com **Azul-Suspiro**, o ar ficava mais geladinho e claro, e a cidade acordava com aquele silêncio gostoso de manhã de inverno.
Miguel ficou encantado.
— Eu sou o Pintor das Estações! — disse, girando no quintal.
Mas, junto com o encantamento, veio um desejo: **ter a estação preferida para sempre**.
Miguel amava o verão, com suas mangas doces, picolé na praça e brincadeiras com água. Então, numa segunda-feira, ele entrou no galpão decidido.
— Vou pintar um verão bem grandão. Um verão que não acaba.
Ele molhou o pincel no **Amarelo-Quentura** e pintou um sol enorme, com raios compridos, e um céu sem nenhuma nuvem. Pintou tanta luz que o papel parecia querer brilhar.
No começo, foi uma festa. O dia ficou quente e alegre. As pessoas abriram as janelas, e Miguel ouviu risadas na rua.
— Que calor bom! — disse o padeiro, passando com a bicicleta.
Só que o verão não parou.
No dia seguinte, fez ainda mais calor. E no outro, mais ainda. A chuva não vinha. O vento parecia cansado. As plantas do quintal começaram a murchar. A jabuticabeira ficou com as folhas enroladinhas, como se estivesse com sede.
Miguel notou que sua garganta também estava seca.
— Estranho… — murmurou.
Na escola, a professora Lúcia abanava a turma com um caderno.
— Crianças, bebam água. O calor está forte, e a praça já está com a grama meio amarelada.
Miguel sentiu um aperto no peito. Ele olhou pela janela e viu o chafariz da praça com pouca água. Viu uma senhora reclamando:
— Esse sol não dá trégua!
Na volta para casa, Miguel encontrou seu amigo **Davi** sentado na calçada, segurando uma bola murcha.
— Não dá pra jogar, Miguel… tá quente demais. Minha mãe falou que o rio tá baixinho.
Miguel engoliu em seco.
À noite, ele voltou ao galpão e encarou a caixa.
— Eu só queria que fosse divertido…
Foi então que ele percebeu: o bilhete do avô falava de visitas. E ele, sem querer, tinha trancado uma delas dentro de casa.
Miguel decidiu consertar. Pegou o pincel e tentou pintar nuvens com **Verde-Madrugada**, mas pintou depressa, nervoso. A chuva veio… mas veio torta: grossa e rápida, como se estivesse brava. Pingos estalavam no telhado e desciam em enxurradas pela rua de pedra.
— Ai não! — Miguel correu para a porta.
A água desceu forte pela ladeira. Um barulho de correnteza se espalhou. Miguel ouviu gente gritando na rua:
— Cuidado! Escorregou!
O coração dele disparou.
— Eu estraguei tudo…
Ele lembrou do avô Sebastião, que sempre dizia que um bom pintor não pinta só o bonito, pinta o **equilíbrio**. Miguel respirou fundo, como a professora ensinava antes de prova.
— Calma, Miguel. Você consegue.
Ele abriu o bloco e, com mãos tremendo, colocou uma folha nova. Dessa vez, não pintou um sol gigante nem uma nuvem raivosa. Pintou um círculo dividido em quatro partes, como uma roda: uma parte verde, outra amarela, outra vermelha e outra azul. Em cada parte, desenhou detalhes pequenos: brotinhos no verde, frutas no amarelo, folhas caindo no vermelho, um céu limpinho no azul.
E então ele percebeu que faltava uma coisa: **as transições**. As estações não pulam. Elas caminham.
Miguel misturou um pouco de Amarelo-Quentura com Verde-Madrugada e fez um tom mais suave. Misturou Vermelho-Estalo com Azul-Suspiro e criou um roxo friozinho. Pintou faixas delicadas entre uma parte e outra, como se fossem pontes.
Do lado de fora, o vento mudou. A chuva forte diminuiu e virou uma água constante, bem distribuída. A enxurrada perdeu a pressa. A ladeira deixou de ser rio e voltou a ser rua.
Miguel correu até a janela e viu o que parecia impossível: o céu estava com nuvens claras e, ao longe, uma luz morna surgia, sem ferver o mundo. As árvores se mexiam contentes, como quem volta a respirar.
Mas ainda faltava algo: as pessoas.
Miguel ouviu batidas na porta.
— Miguel! — era a mãe, preocupada. — Filho, você tá bem? Tá uma confusão lá fora, depois melhorou… foi você mexendo nas tintas do seu avô?
Miguel sentiu vontade de esconder, mas o peito apertado pediu verdade.
— Foi… eu queria que o verão não acabasse. Eu achei que ia ser perfeito.
A mãe se agachou e segurou o rosto dele com carinho.
— Às vezes a gente quer uma coisa boa por muito tempo e… ela para de ser boa. O corpo cansa. A terra cansa.
Miguel respirou, com os olhos ardendo.
— Eu vou arrumar de vez.
Ele voltou para a mesa e pintou, com calma e atenção, uma cena da cidade passando pelas quatro estações: na primavera, flores miúdas nas janelas; no verão, crianças com chapéu e água fresca; no outono, folhas dançando no chão; no inverno, casacos e chocolate quente.
Quando ele terminou o último detalhe — uma pombinha pousando no telhado da igreja —, aconteceu o momento mais estranho e bonito.

As tintas nos potinhos brilharam como vaga-lumes. Um vento macio entrou no galpão e trouxe um cheiro de flor, de fruta madura, de folha seca e de manhã gelada, tudo junto, sem brigar. Miguel ouviu, bem baixinho, como se fosse o avô falando por trás do tempo:
— Assim, meu neto… não se prende o mundo. A gente **acompanha**.
Miguel fechou os olhos. Quando abriu, a luz do galpão estava normal. Mas lá fora, o clima parecia… certo. Não perfeito como um desenho que não pode borrar, mas certo como uma música que tem pausa e tem refrão.
Nos dias seguintes, a cidade foi se ajeitando. Veio uma chuvinha boa que encheu o rio sem derrubar ninguém. Depois, o sol voltou sem castigar. As folhas caíram no tempo delas, fazendo tapetes crocantes na calçada. E o friozinho chegou devagar, trazendo vontade de cobertor e de conversa.
Miguel chamou Davi para brincar.
— Agora dá pra jogar? — perguntou Davi, chutando a bola com cuidado.
— Dá. Mas se você cansar, a gente para. — Miguel sorriu.
Davi riu.
— Você tá diferente.
Miguel pensou um pouco.
— Eu aprendi que até as coisas mais legais precisam de descanso.
Naquela noite, Miguel guardou a caixa do avô no lugar, mas deixou o bilhete à vista, colado com fita na parede do galpão. Toda vez que sentia vontade de escolher só um pedaço do mundo, ele lia de novo.
E, quando pintava, ele não pintava para mandar. Pintava para **cuidar**.
Num domingo de manhã, a mãe preparou café com pão de queijo. Miguel olhou a cidade pela janela: as montanhas ao fundo, o céu limpo, o cheiro de café subindo.
— Mãe — disse ele —, eu acho que o mundo é tipo uma roda.
— Uma roda? — ela perguntou, servindo uma caneca.
— É. Se a roda para, a bicicleta cai. As estações são a roda do ano.
A mãe beijou a testa dele.
— Seu avô ia gostar de ouvir isso.
Miguel sorriu, sentindo que, de algum jeito, o avô estava ali — na brisa que entrava leve, no tempo que andava em paz e nas cores que, agora, ele sabia misturar com cuidado.
E assim Miguel, o Pintor das Estações, descobriu que o segredo não era ter sempre a mesma cor, mas aprender a deixar as cores dançarem juntas, cada uma na sua hora.
✨ Moral da História
“Coisas boas ficam melhores quando respeitamos o tempo de cada uma e deixamos a vida seguir seus ciclos com equilíbrio.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Qual estação do ano o Miguel tentou deixar para sempre, e o que aconteceu quando ela não acabava?
- 2Por que a cidade começou a ter problemas quando o Miguel pintou um sol enorme por muito tempo?
- 3O que o Miguel fez diferente quando decidiu consertar a bagunça das estações?
- 4Se você tivesse encontrado as tintas mágicas, qual estação você pintaria primeiro e por quê?
- 5Como você acha que o Miguel se sentiu quando percebeu que suas pinturas estavam afetando as pessoas e a natureza?
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