Coragem

O Goleiro Mais Baixo do Mundo

27 de janeiro de 202615 min de leitura9 a 12 anos4 visualizações

Um menino muito baixo sonha em ser goleiro e prova que determinação supera qualquer limitação física.

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O Goleiro Mais Baixo do Mundo

Ninguém na Rua do Ipê Amarelo esquecia o som do apito do “seu” Genésio, o treinador voluntário do campinho de terra batida atrás do Centro Comunitário de Vila Esperança, em Belo Horizonte. O apito atravessava a tarde como um passarinho insistente e chamava a turma inteira: chuteiras gastas, joelhos ralados, garrafinhas d’água e um sonho que parecia maior do que qualquer rua.

Foi numa dessas tardes que Davi Moreira apareceu com a luva de goleiro pendurada no ombro, a mochila batendo nas costas e um brilho nos olhos que denunciava coragem — ou teimosia.

Davi era o menino mais baixo da turma. Não “um pouco” mais baixo: bem mais baixo. Aos onze anos, ele tinha a altura de alguns garotos de oito. A mãe dele dizia, tentando disfarçar a preocupação: “Você é compacto, filho. Cabe em qualquer canto.” O pai ria: “Davi é econômico. Pouca altura, muita vontade.”

Mas na escola, a compactação às vezes doía.

— Ei, Davi! — gritou Luan, já no campinho, com a bola debaixo do braço. — Vai ficar no gol de novo? Você não alcança nem o travessão!

Alguns riram. Outros ficaram quietos, olhando para o chão, como se a poeira tivesse algo muito interessante.

Davi engoliu seco. Sentiu a garganta apertar, como se tivesse engolido um caroço de jabuticaba. Ainda assim, levantou o queixo.

— Vou ficar — respondeu, firme. — E vou defender.

“Seu” Genésio, um homem de bigode grisalho e voz rouca de quem já gritou em arquibancada de estádio, fez sinal para todos se aproximarem.

— Antes de começar, lembrança importante — disse ele. — Aqui ninguém joga pra humilhar ninguém. Joga pra melhorar e pra respeitar. Quem não entender isso, vai apitar jogo de botão em casa.

Houve um silêncio breve e um ou outro riso nervoso. Luan desviou o olhar. Davi respirou melhor.

O time de Davi se chamava Estrela da Vila. O uniforme era simples: camiseta azul, número branco desenhado com canetão. Davi usava uma camiseta antiga do irmão, com um “1” torto nas costas e luvas que ele mesmo remendara com fita isolante. Ele gostava do ritual: apertar o velcro, bater as mãos uma na outra, sentir o estalo e imaginar o Mineirão cheio.

Naquela semana, o campinho estava agitado: no sábado haveria o Torneio do Bairro, com times de outras ruas. O prêmio não era grande — uma taça de plástico dourado e um vale-pizza —, mas a importância era enorme. Era a chance de mostrar que o Estrela da Vila tinha brilho.

Só que havia um problema do tamanho do mundo para Davi: o time adversário mais temido era o Furacão do Morro, liderado por Caio “Canhão”, um menino alto, forte e dono de um chute que parecia ter motor.

Na quarta-feira, durante o treino, “seu” Genésio chamou Davi de lado.

— Davi, você é esperto e corajoso. Mas vou falar com sinceridade: goleiro sofre com pressão. E o torneio… vai ser puxado.

Davi sentiu o estômago afundar.

— O senhor quer que eu saia do gol? — perguntou, tentando parecer tranquilo.

Genésio coçou o bigode.

— Quero que você esteja preparado. Se você ficar, vamos treinar de um jeito diferente. Não dá pra depender de altura. Vai depender de leitura, tempo, posicionamento.

— Eu topo — disse Davi, antes que o medo ganhasse.

E foi assim que começaram os treinos secretos do “goleiro mais baixo do mundo”, como alguns já chamavam, misturando deboche e admiração.

Genésio colocou duas garrafas PET nos cantos do gol e fez Davi treinar deslocamento.

— Você não vai competir no ar — ensinou. — Você vai competir no chão e no tempo.

Davi aprendeu a observar o corpo do chuteiro: o pé de apoio, o tronco inclinando, o olhar antes do chute. Aprendeu a dar dois passos certos em vez de dez desesperados. Aprendeu a cair sem medo, abraçando a bola como se fosse algo precioso e vulnerável.

Em casa, ele treinava reflexo com uma bolinha de meia. A irmã, Luísa, ficava no corredor jogando a bolinha na parede.

— Vai, Davi! — ela gritava. — Você é o muro da vila!

— Não sou muro — ele respondia, rindo. — Muro não pensa. Eu sou… uma armadilha.

Às vezes, porém, quando ficava sozinho, Davi encarava o espelho do banheiro e o coração ficava pesado.

“E se eles tiverem razão?”, pensava. “E se eu falhar e virar piada de novo?”

Na quinta-feira, na escola, a professora de História falou sobre quilombos e resistência. Davi ouviu palavras como “identidade”, “luta”, “direito de existir com dignidade”. Na hora do intervalo, ele se pegou pensando que, de algum jeito, seu sonho de ser goleiro também era uma forma de existir do jeito dele.

No sábado, o Torneio do Bairro chegou com sol forte e cheiro de pastel vindo da barraca perto do campinho. Tinha gente de chinelo, de boné, com cadeira de praia. As mães faziam sombra com guarda-chuva; os pais comentavam como se fossem técnicos da seleção.

Davi entrou no campo sentindo o coração bater tão alto que parecia tambor de escola de samba.

— E aí, goleirinho — disse Caio “Canhão”, passando perto. — Preparado pra buscar bola no fundo da rede?

Davi quase respondeu com raiva. Mas lembrou do que Genésio falara sobre respeito — e lembrou também de outra coisa: respeito não se implora, se constrói.

— Preparado pra te dar trabalho — respondeu Davi, sem gritar.

O primeiro jogo do Estrela da Vila foi contra o time da Rua de Baixo. Davi defendeu duas bolas difíceis e tomou um gol de chute forte no canto. Quando a bola entrou, ele sentiu uma vontade enorme de sumir. Mas ouviu a voz do Genésio:

— Cabeça erguida! Aprender é continuar! Próxima bola é sua.

E foi. No fim, o Estrela ganhou por 3 a 2.

Na semifinal, enfrentaram a Turma do Campão. Choveu de leve, aquele chuvisco que levanta cheiro de terra molhada e deixa o chão escorregadio. Davi caiu, levantou, raspou a perna. Defendeu com a ponta dos dedos um chute que parecia certo. O Estrela passou nos pênaltis, e Davi pegou o último.

A final, como todo mundo já esperava, foi contra o Furacão do Morro.

As torcidas se dividiram, o campinho parecia maior e mais sério. A bola parecia mais pesada. Davi olhou para o travessão e, por um segundo, a altura dele virou um pensamento maldoso, tentando empurrá-lo para trás.

“Você é pequeno.”

Davi respondeu em silêncio: “Eu sou rápido. Eu sou atento. Eu sou eu.”

O jogo começou elétrico. Caio “Canhão” chutou de longe duas vezes; Davi encaixou uma e espalmou outra para escanteio. Em cada defesa, a poeira levantava como fumaça, e a torcida do Estrela gritava seu nome.

— DAVI! DAVI! DAVI!

Mas no fim do segundo tempo, o placar estava 1 a 1. E, quando faltavam poucos minutos, aconteceu o lance que parecia inventado só para testar o coração.

O atacante do Furacão arrancou pela direita, driblou um zagueiro e caiu perto da área. O juiz, um rapaz do bairro, apitou falta.

— É minha — disse Caio “Canhão”, já colocando a bola no chão.

A barreira do Estrela se formou. Davi ajeitou as luvas, sentindo os dedos tremerem. O sol bateu no rosto dele, e ele semicerrrou os olhos.

Genésio gritou de fora:

— Davi! Lembra do pé de apoio!

Davi respirou fundo. Lembrou do corpo inclinando. Lembrou do olhar antes do chute. Lembrou de Luísa dizendo “muro da vila”, e sentiu vontade de rir, mas não riu.

Caio tomou distância. A torcida ficou num silêncio que doía. Até os passarinhos pareceram parar.

Caio correu e chutou com força, uma bola que subiu e fez curva, indo direto no ângulo, aquele lugar que todo goleiro teme — e que todo goleiro sonha.

Davi viu o tronco de Caio inclinar um pouco mais para o lado e percebeu, no último instante, a intenção. Ele deu um passo curto, depois outro, e se lançou.

Ilustração da história O Goleiro Mais Baixo do Mundo

O mundo virou poeira e vento. Davi sentiu o corpo inteiro esticar, como se cada centímetro dele fosse uma decisão. A ponta dos dedos tocou a bola — primeiro um susto, depois um contato firme — e a bola mudou de destino. Em vez de entrar, bateu no travessão com um som metálico e caiu bem na frente do gol.

Por uma fração de segundo, ninguém reagiu. A bola quicou, a área virou confusão, pernas se atrapalharam. Um atacante do Furacão tentou empurrar para dentro. Davi, ainda no chão, girou o corpo rápido, como tinha treinado no corredor de casa, e abraçou a bola com toda a força, apertando-a contra o peito.

— MINHA! — ele gritou, com voz de gente grande.

A torcida explodiu. Genésio levantou os braços como se tivesse ganhado um campeonato mundial.

— É isso! É isso! — ele berrou.

Caio ficou parado, olhando. Não parecia só raiva. Parecia surpresa. Talvez até respeito.

O jogo foi para os pênaltis.

Davi caminhou até a linha do gol, tentando controlar o medo. Ele ouviu o coração batendo, mas agora o som era diferente: não era pânico, era atenção.

No primeiro pênalti, o Furacão fez. No segundo, o Estrela fez. No terceiro, o Furacão chutou forte no canto esquerdo; Davi se esticou e defendeu, segurando firme, sem rebater.

— Aí, baixinho! — alguém gritou da torcida, mas não soou como zombaria. Soou como comemoração.

O Estrela marcou o pênalti seguinte. O Furacão marcou também. Chegaram às alternadas.

No último pênalti, Caio “Canhão” voltou para a bola.

— Vai de novo? — Davi perguntou, quase sem querer.

Caio respirou e respondeu baixo:

— Vou. E se você pegar… é porque você mereceu.

Davi sentiu um respeito estranho crescer no peito. Não era amizade instantânea, nem final mágico: era só a compreensão de que, do outro lado, também tinha alguém lutando para ser reconhecido.

Caio correu, chutou rasteiro, forte, tentando enganar. Davi leu o movimento do pé de apoio e foi no tempo certo. Caiu, encaixou e segurou.

O Estrela da Vila marcou o pênalti seguinte.

Fim de jogo.

A taça de plástico brilhava como se fosse de ouro de verdade. Os amigos carregaram Davi no ombro, e ele, lá em cima, percebeu uma coisa importante: não estava mais pensando na própria altura. Estava pensando no caminho que tinha feito.

Depois da premiação, Caio se aproximou.

— Você é bom — disse, sem sorriso, mas sem arrogância.

Davi desceu do degrau do pódio e ficou frente a frente com ele, ainda precisando olhar um pouco para cima.

— Obrigado — respondeu. — Seu chute é forte demais.

Caio soltou um riso curto.

— Eu treino força. Você treina cabeça.

Davi apertou as luvas nas mãos.

— Eu treino o que eu tenho — disse.

Em casa, naquela noite, ele colocou a taça em cima da estante. Não como prova de que era o melhor, mas como lembrança de que havia escolhido não desistir.

Quando apagou a luz, pensou nas palavras da aula de História. Resistência. Dignidade. Identidade.

Ele percebeu que ser pequeno não era um defeito que precisava esconder. Era uma característica — e ele podia decidir o que fazer com ela.

No dia seguinte, no campinho, “seu” Genésio reuniu a turma mais nova.

— Olhem bem — disse, apontando para Davi. — Esse aqui é o goleiro mais baixo do mundo.

Alguns riram, sem maldade.

Genésio continuou:

— E também um dos mais determinados que eu já vi. Tamanho ajuda, claro. Mas caráter, responsabilidade e coragem ajudam mais.

Davi sorriu. Não porque tinha virado herói. Mas porque finalmente entendeu: o gol era grande, o mundo era grande, e havia espaço — de sobra — para alguém como ele.

✨ Moral da História

Quando você assume quem é e treina com responsabilidade, a determinação pode transformar limites em caminho.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Em quais momentos Davi quase acreditou nas provocações? O que fez ele continuar mesmo assim?
  • 2Você acha justo quando as pessoas julgam alguém pela aparência (como altura) antes de conhecer suas habilidades? Por quê?
  • 3Qual foi a diferença entre “força” e “leitura do jogo” que a história mostra? Como isso vale para outras áreas da vida (escola, amizades, hobbies)?
  • 4Caio mudou a forma de olhar para Davi no final. O que pode fazer alguém respeitar outra pessoa, mesmo sendo adversária?
  • 5Se você fosse o treinador Genésio, que conselho daria para um atleta que se sente inseguro por causa de alguma característica física?

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