Coragem

A Primeira Noite Fora de Casa

27 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos0 visualizações

Uma menina dorme pela primeira vez na casa da amiga e aprende que ser corajoso é fazer mesmo com medo.

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Lila tinha quatro anos. Ela tinha bochechas bem redondinhas, olhos curiosos e um cabelo cacheado que fazia “puf, puf” quando ela pulava. Lila morava com a mamãe e o papai num apartamento em Recife, onde o vento da tarde entrava pela janela e fazia a cortina dançar: “fiuuu, fiuuu”.

Num sábado, a mamãe falou: — Lila, hoje vamos na casa da sua amiga Bia.

Lila abriu um sorrisão. — Bia! Bia! — ela cantou, batendo palmas. — Eu gosto da Bia.

Bia era a melhor amiga da Lila da escolinha. Bia tinha uma gargalhada forte, “ha-ha-ha!”, e usava uma tiara de estrela brilhante. A casa da Bia ficava num bairro com muitas árvores, e um cheiro gostoso de bolo sempre parecia morar ali.

Quando chegaram, a porta se abriu e saiu a mãe da Bia, sorrindo. — Oi, Lila! Entra, entra! A gente fez bolo de milho.

— Bolo de milho! — Lila repetiu, com os olhos brilhando.

Dentro da casa, tinha uma sala com um sofá grande, uma almofada em forma de coração e uma janela por onde entrava um raio de sol amarelinho. No quintal, tinha um pé de manga e um balanço que fazia “crec-crec” quando alguém sentava.

Bia veio correndo, com a tiara de estrela. — Lila! Você veio! Vamos brincar!

— Vamos! — Lila respondeu.

As duas correram pelo quintal. Brincaram de casinha, de pega-pega e de “faz de conta” que eram exploradoras procurando tesouros. Elas encontraram pedrinhas brilhantes, folhas bem verdes e uma pena pequenininha que parecia ter caído do céu.

— Isso é um tesouro! — Bia falou.

— É meu tesouro também! — Lila disse, e as duas riram.

Depois, sentaram na mesa da cozinha. A mãe da Bia colocou duas fatias de bolo de milho e um copo de suco de caju.

— Hummm! — Lila fez, bem alto. — Tá gostoso!

— Minha mãe faz o melhor bolo! — Bia falou, orgulhosa.

O dia foi passando. O sol foi ficando laranjinha, depois rosinha, e o céu foi ficando azul-escuro devagar, como se alguém passasse um pincel bem grande.

A mãe da Bia perguntou: — Lila, você quer dormir aqui hoje? A gente combinou com a sua mamãe.

Lila congelou um pouquinho. Dentro da barriga dela apareceu um friozinho, “brrr”. Ela gostava da Bia. Gostava da casa da Bia. Mas… dormir longe de casa?

Lila olhou para a mamãe, que estava ali perto. — Mamãe… eu vou dormir aqui mesmo?

A mamãe abaixou e falou baixinho, com voz macia: — Vai, meu amor. É a sua primeira noite fora de casa. Eu volto de manhã cedo. Você consegue.

Lila mordeu o lábio. Ela queria dizer “sim!”, mas o medo era como um bichinho pequeno escondido no bolso.

Bia segurou a mão da Lila. — Vai ser legal! A gente vai dormir no meu quarto. Tem luz de estrelinha. E tem meu ursinho, o Bolota.

— Bolota? — Lila perguntou.

— Sim! Ele é fofinho. — Bia apertou os braços como se abraçasse um urso gigante. — Assim, ó! “Aaaaperto!”

Lila tentou sorrir. — Eu… eu vou tentar.

A mamãe deu um beijo na testa dela. — Ser corajosa não é não ter medo, Lila. Ser corajosa é fazer mesmo com medo.

Lila ouviu isso e guardou no coração, como quem guarda um brinquedo especial.

Quando a mamãe foi embora, Lila acenou na porta. — Tchau, mamãe!

A porta fechou. E o friozinho na barriga voltou: “brrr, brrr”.

Bia puxou Lila para o quarto. — Vem! Vamos preparar a cama!

No quarto tinha uma cama com lençol colorido, cheio de desenhos de estrelas e luas. Na parede havia um adesivo de foguete. E, em cima da cômoda, uma luminária que parecia um céu pequenininho.

— Olha! — Bia apertou um botão.

De repente, o teto ficou cheio de pontinhos de luz. Era como se o quarto tivesse virado uma noite cheia de estrelas.

— Uau… — Lila sussurrou.

Mas, mesmo com as estrelas, Lila sentiu saudade. Saudade do cheirinho do travesseiro dela. Saudade da voz do papai dizendo “boa noite”. A saudade era um abraço invisível, bem apertado.

As meninas colocaram o pijama. Bia colocou um pijama de bolinhas. Lila colocou o pijama amarelo com um sol desenhado.

Na hora de escovar os dentes, as duas fizeram espuma e riram. — Olha minha boca! — Bia falou, com espuma.

— Olha a minha! — Lila respondeu.

— “Shhh-shhh-shhh”! — fez a escova.

Depois, foram para a cama. A mãe da Bia apagou a luz principal e deixou só a luz de estrelinhas. — Boa noite, meninas. Qualquer coisa, eu estou aqui do lado.

— Boa noite! — Bia disse.

Lila falou também: — Boa noite…

A mãe da Bia saiu. A porta ficou encostada. O quarto ficou mais quieto.

No começo, Lila ficou olhando o teto. As estrelas brilhavam: “plim, plim”. Mas o silêncio fazia o coração dela bater mais forte: “tum-tum, tum-tum”.

— Bia… — Lila chamou baixinho.

— Oi? — Bia respondeu, já meio sonolenta.

— Eu tô com um pouquinho de medo.

Bia virou para ela. — Medo de quê?

Lila pensou. — Medo de… não sei. Medo de dormir sem minha mamãe.

Bia fez uma cara séria, mas uma cara boa, de amiga. — Eu também já tive medo. Sabe o que eu faço?

— O quê? — Lila perguntou.

— Eu abraço o Bolota. E eu canto uma música.

Bia pegou o ursinho Bolota e colocou perto da Lila. — Quer abraçar ele um pouco?

Lila pegou o ursinho. Era macio. Cheirava a sabonete. Ela apertou. — Aaaaperto… — Lila disse, imitando a Bia.

— Isso! — Bia sorriu.

Aí, de repente, veio um barulho lá fora. Um barulho de folha no quintal. — “Crec… crec…”

Lila arregalou os olhos. — O que foi isso?

Bia levantou um dedinho. — Deve ser o vento. Ou o gato da vizinha.

Mas Lila ficou mais tensa. O medo-bichinho parecia ter crescido um pouquinho.

E então veio outro som. Agora parecia uma sombra na janela. Um “toc… toc… toc”.

Lila segurou o Bolota com força. — Bia…

Bia também parou de sorrir. Ela ficou quieta. As duas ouviram mais uma vez: — “toc… toc… toc…”

O coração de Lila fazia “tum-tum” bem alto. Ela queria chamar a mãe dela, mas a mãe dela não estava ali. Ela pensou na frase da mamãe: “Ser corajosa é fazer mesmo com medo.”

Lila respirou fundo, bem devagar. — Bia… vamos ver o que é? Juntas.

Bia engoliu seco. — Tá… juntas.

As duas desceram da cama bem devagarinho. O chão estava frio. Lila apertou o ursinho. Bia pegou a lanterninha que ficava na mesa. A luz fez um risco amarelo no escuro.

Elas chegaram perto da janela. O “toc… toc… toc” veio de novo. E a sombra mexeu.

Ilustração da história A Primeira Noite Fora de Casa

Lila tremeu, mas não correu. Ela segurou a mão da Bia. — Eu tô com medo… mas eu vou.

Bia puxou a cortina um pouquinho, só um pouquinho.

E aí… apareceu uma coisa pequena. Bem pequena. Era um passarinho! Um passarinho com penas marrons, molhadinho, olhando para dentro.

— Piu… piu… — o passarinho fez, fraquinho.

Bia abriu a janela um tantinho. — Ai! Ele tá perdido.

Lila sentiu o medo ir embora, como se o vento levasse. No lugar do medo, veio uma vontade de cuidar. — Ele tá com frio — Lila falou.

Bia correu e pegou uma toalhinha. — Vamos ajudar.

Com cuidado, bem cuidado, elas colocaram a toalhinha perto do passarinho. Ele entrou, deu uns pulinhos: “poc, poc”, e ficou tremendo.

Lila falou baixinho: — Tá tudo bem. A gente tá aqui.

Bia olhou para Lila. — Você foi corajosa.

Lila respondeu: — Eu tive medo… mas eu fiz.

A mãe da Bia apareceu na porta, com cara de sono. — Meninas? O que aconteceu?

Bia apontou. — Um passarinho bateu na janela.

A mãe da Bia se aproximou e sorriu. — Ah, coitadinho. Devia estar fugindo da chuva. Vamos colocar ele numa caixinha com um paninho. Amanhã, de manhã, a gente chama o meu tio, que entende de passarinho.

— Tá bom — Lila disse.

Elas fizeram uma caminha numa caixinha de sapato. O passarinho ficou quietinho. “Piu…”, bem baixinho, como se dissesse obrigado.

Depois disso, Lila voltou para a cama com o coração mais calmo. O medo-bichinho tinha virado um bichinho menor, quase invisível.

Bia deitou. — Agora dá pra dormir.

Lila abraçou o Bolota. — Bia… obrigada.

— De nada — Bia murmurou.

Lila fechou os olhos. Ela ouviu o som da casa: o relógio fazendo “tic-tac”, uma moto passando longe “vruuum”, e o vento nas folhas “fiuuu”. Tudo parecia normal. Tudo parecia seguro.

Antes de pegar no sono, Lila sussurrou para si mesma: — Eu fui corajosa… mesmo com medo.

E dormiu.

De manhã cedo, o sol entrou no quarto e fez as estrelas do teto sumirem. A mãe da Bia trouxe pão com manteiga e frutas. — Bom dia!

— Bom dia! — Lila respondeu, acordando com um sorriso.

A campainha tocou: “trim-trim!” Era a mamãe da Lila.

Quando Lila viu a mamãe, correu e abraçou forte. — Mamãe! Eu dormi aqui!

— Eu sei, meu amor. Como foi? — a mamãe perguntou.

Lila contou tudo de um jeito rápido, com mãos agitadas. — Teve um barulho! Eu tive medo! Mas eu fui ver com a Bia. Era um passarinho! A gente ajudou!

A mamãe sorriu, com os olhos cheios de orgulho. — Então você aprendeu.

Lila levantou o queixo. — Ser corajosa é fazer mesmo com medo.

E Bia completou: — E é melhor quando a gente faz junto.

Lila deu a mão para a Bia. — Juntas.

E as duas riram, porque agora a primeira noite fora de casa já tinha virado uma lembrança boa, bem quentinha, guardada no coração.

✨ Moral da História

Ser corajoso é fazer o que precisa ser feito mesmo com um pouquinho de medo, especialmente com a ajuda de alguém que a gente gosta.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você já dormiu na casa de alguém, ou quer dormir um dia?
  • 2Quando você fica com medinho, o que te ajuda: um abraço, um ursinho ou uma luz acesa?
  • 3Qual foi a parte mais legal: as estrelinhas no teto ou ajudar o passarinho?
  • 4Você tem um brinquedo que te dá coragem na hora de dormir? Qual é?
  • 5Se você visse um passarinho na janela, o que você faria?

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