Leo e o Palco Gigante
Um menino gago enfrenta seu maior medo ao subir no palco da escola e surpreende a todos.
Léo Morais tinha sete anos e um segredo que parecia morar bem no meio da garganta. Não era um segredo malvado, nem daqueles que a gente guarda numa caixinha. Era um segredo que escapava quando ele tentava falar rápido demais: algumas palavras se enganchavam, repetiam o começo e teimavam em não sair lisinhas.
Naquela manhã de segunda-feira, o sol brilhava forte sobre a cidade de Campinas, e o pátio da Escola Municipal Dona Zuleika cheirava a pão de queijo da cantina e a tinta guache das aulas de artes. Léo chegou com a mochila nas costas e o coração fazendo tum-tum apressado.
— Bom dia, Léo! — disse a professora Marília, com seu vestido amarelo cheio de flores miúdas.
— B-b-bom d-dia, p-professora — respondeu ele, baixinho, com as orelhas esquentando.
Léo gostava muito da escola. Gostava da biblioteca, onde as páginas faziam barulhinho de vento quando viravam. Gostava do campinho de terra, onde a bola levantava poeira e dava risada nas traves. E gostava, principalmente, de desenhar. No caderno dele havia robôs, onças-pintadas, foguetinhos e até um jacaré de chapéu.
Só que havia uma coisa na escola que era grande demais, maior que a quadra, maior que o portão azul: o palco do auditório.
O palco ficava atrás de uma cortina vermelha, grossa, com cheiro de tecido antigo. Quando abriam a cortina, parecia que aparecia um mundo novo. E lá embaixo, no escuro, ficavam as cadeiras, em filas compridas, esperando as pessoas. Para Léo, aquelas cadeiras pareciam olhos. Muitos olhos.
Naquele dia, a professora bateu palmas para chamar atenção.
— Turma, vamos ter a Semana da Cultura Brasileira! — anunciou ela, com voz animada. — Cada classe vai apresentar algo: música, teatro, poesia, cordel… E a nossa turma vai fazer uma pequena peça sobre um folclore bem brasileiro.
As crianças começaram a falar ao mesmo tempo:
— Eu quero ser o Saci!
— Eu quero ser a Iara!
— Eu sei fazer voz de Curupira!
Léo tentou sorrir, mas a barriga deu um apertinho.
— E também — continuou a professora — teremos narradores, que vão contar a história para o público entender direitinho.
Narrador. A palavra entrou na cabeça de Léo como um trovão pequenininho.
A professora passou a lista de personagens e tarefas. Quando chegou perto do nome do Léo, ela parou e olhou para ele com um carinho firme.
— Léo, eu pensei em você para ser… o narrador.
O silêncio foi tão redondo que dava para ouvir o ventilador girando.
— Eu? — Léo perguntou, e a palavra saiu em pedaços: — E-eu?
Algumas crianças se entreolharam. Um menino do fundo, o Caio, franziu o nariz.
— Mas narrador tem que falar bastante… — ele murmurou.
A professora Marília não brigou, mas sua voz ficou séria, como quando ela explicava as regras do recreio.
— E narrador também precisa de coragem — disse. — E isso o Léo tem.
Léo engoliu seco. Coragem? Ele não se sentia corajoso. Ele se sentia como um passarinho com medo de voar.
Em casa, naquela tarde, a avó Dita percebeu que Léo mastigava o pão com manteiga devagar demais, olhando para o prato como se ele pudesse responder alguma coisa.
— Que foi, meu passarinho? — ela perguntou, sentando ao lado dele na mesa de fórmica.
Léo respirou fundo.
— V-vó… eu v-vou ter que f-falar no p-palco.
A avó Dita levantou as sobrancelhas, interessada.
— Ah, é? E vai falar o quê?
— Eu vou ser n-narrador da p-peça.
A avó encostou a mão nas bochechas dele, que cheiravam a sabonete infantil.
— Léo, você sabe que eu também já tive medo de falar em público?
— A s-senhora?
— Eu mesma. Quando eu era moça, fui ler um bilhete na igreja e minhas pernas tremiam. Aí uma senhora me ensinou uma coisa: respirar como quem cheira bolo saindo do forno.
Léo franziu a testa.
— Como a-assim?
A avó Dita riu.
— Assim: puxa o ar pelo nariz devagar, como se o cheirinho fosse muito gostoso. Depois solta o ar como se estivesse assoprando uma vela sem apagar de vez.
Ela mostrou, e Léo tentou imitar. Sentiu o peito subir e descer, como uma onda pequena.
— Outra coisa — disse a avó — é falar olhando para um ponto amigo. Pode ser um desenho na parede, uma pessoa querida, ou até uma cadeira. Você não precisa encarar todos os olhos do mundo.
Na semana seguinte, os ensaios começaram. A sala de aula virou floresta. A professora colou folhas de papel verde na parede, desenhou troncos e pendurou fitas que balançavam como cipós. A turma ensaiava a história do Saci, que aprontava travessuras e ensinava o valor de respeitar a mata.
Léo segurava o papel do texto com as mãos suadas. As palavras pareciam formigas: muitas, pequenas e andando rápido.
— Vamos de novo, Léo — disse a professora, gentil. — Lembre: você pode ir devagar.
— Na… na f-floresta… — Léo começou.
O “f” prendeu. Ele fechou os olhos um segundo e lembrou do “cheiro de bolo”. Puxou o ar devagar.
— Na floresta do interior, onde o vento canta nas folhas, mora o Saci… — ele conseguiu dizer, não perfeito, mas inteiro.
Bia, que fazia a Iara, bateu palmas baixinho.
— Você tá indo bem! — ela cochichou.
Caio ainda parecia desconfiado.
— Se ele travar no dia, vai estragar tudo — comentou, sem perceber que Léo ouviu.
A frase foi como pedrinha no sapato. Léo chegou em casa naquele dia e deitou no sofá, abraçando um travesseiro.
— Eu não vou conseguir, vó — disse, com a voz embolada. — Vai t-todo mundo rir.
A avó Dita sentou ao lado dele e apontou para o caderno de desenhos.
— Você lembra quando tentou desenhar um robô pela primeira vez?
— Ficou t-torto.
— E o que você fez?
— Eu d-desenhei de novo.
— Exato. Coragem não é não ter medo. Coragem é fazer mesmo com medo, de um jeitinho possível.
No dia da apresentação, o auditório parecia maior do que nunca. As luzes do palco eram fortes, amarelas, como dois sóis pequenos. Atrás da cortina vermelha, as crianças sussurravam. Dava para ouvir lá fora o barulho das cadeiras sendo arrastadas, pais falando baixo, alguém abrindo um pacote de biscoito.
Léo vestia uma camiseta branca e um colete marrom, para parecer um “contador de histórias”. Na mão, segurava seu texto. Mas, no bolso, tinha também um papel dobradinho: um desenho que ele fez de um pequeno ponto azul com uma estrela. Era o “ponto amigo” dele.
— Léo — disse a professora Marília, agachando para ficar na altura dele — se você esquecer uma palavra, respira. Se você travar, respira. Nós estamos com você.
Léo assentiu, mas o coração parecia pular corda.
A cortina abriu. Um feixe de luz escorregou pelo palco. A plateia era um mar de rostos. Léo viu a avó Dita na terceira fileira, acenando devagar com a mão.
A peça começou com Bia cantando uma cantiga de roda bem suave, e o Saci, interpretado por João, entrou pulando com uma perna só, fazendo todos rirem.
Chegou a vez do narrador.
Léo deu um passo à frente. O microfone parecia alto demais. Ele aproximou a boca.
— Na… — ele tentou.
O “na” ficou preso. Um silêncio se espalhou, fininho, como um fio.
Léo sentiu o rosto esquentar. Pensou em correr para trás da cortina. Pensou no Caio dizendo “vai estragar tudo”. Pensou nos olhos. Muitos olhos.
Então ele lembrou: “cheiro de bolo saindo do forno”. Puxou o ar pelo nariz. Devagar. E soltou como se assoprasse uma vela.
Ele tirou do bolso o papel do desenho e colou com o dedo na lateral do microfone, bem discreto. Um ponto azul com uma estrela. Seu ponto amigo.
E, olhando para aquele pontinho, ele falou:
— Na floresta do nosso Brasil, onde o vento faz segredo nas folhas, mora um menino de uma perna só… o Saci! — a voz saiu mais firme, como um rio que encontra seu caminho.
A plateia ouviu. Ninguém riu. Pelo contrário: algumas pessoas sorriram, como quem torce.
Léo continuou.
— Ele gosta de fazer travessuras… mas também sabe que a mata tem dono: a vida.
No meio do texto, uma palavra difícil apareceu: “redemoinho”. Léo sentiu a garganta apertar.
— E quando… o re… re… — o som ameaçou quebrar.
Por um segundo, o medo tentou puxar Léo pelo braço. Mas, naquele instante, o Saci na história precisava aparecer num redemoinho. João, esperto, começou a girar com o gorro vermelho na mão, bem ao lado de Léo, fazendo um “vuuuu” divertido.
O auditório riu, e a risada não era de deboche; era uma risada de alegria, como chuva batendo no telhado.
Léo aproveitou o “vuuuu” como se fosse uma ponte.

— Re-de-mo-i-nho! — ele disse, separando as sílabas, com coragem, como quem sobe uma escada alta e não olha para baixo.
E foi como se aquela palavra abrisse uma porta.
Léo contou o restante da história com calma: falou do respeito à floresta, do cuidado com os animais, e do jeito esperto do Saci de ensinar sem machucar. Quando a peça terminou, as crianças deram as mãos e fizeram uma reverência.
Aplausos estouraram no auditório, fortes e quentinhos. Léo ouviu seu nome em algumas palmas misturadas:
— Bravo, Léo!
— Muito bem!
— Que narrador caprichado!
Atrás da cortina, Caio se aproximou, com um jeito meio sem saber onde pôr as mãos.
— Ei, Léo… — ele disse — foi mal o que eu falei no ensaio.
Léo olhou para ele. O coração ainda batia rápido, mas agora parecia um tambor de festa.
— T-tudo bem — respondeu Léo. — Eu t-também fiquei com m-medo.
— Mas você não desistiu — Caio falou, e parecia sincerão. — Você foi… corajoso.
Bia abraçou Léo de lado.
— E você contou bonito, viu? Eu senti a floresta de verdade.
Quando tudo acabou, a professora Marília chamou a turma.
— Hoje, eu vi uma coisa importante — ela disse. — Cada um tem seu desafio. O do Léo era grande, mas ele achou um jeito. Ele respirou, foi devagar e continuou.
Léo procurou a avó Dita na saída. Ela o abraçou apertado.
— Meu passarinho voou — ela sussurrou.
Léo riu, com os olhos brilhando.
— Vó, eu… eu acho que eu g-gostei do palco.
— Gostou? — ela perguntou, surpresa feliz.
— Gostei. Dá medo… mas também dá um t-tipo de alegria.
Naquela noite, antes de dormir, Léo abriu o caderno e desenhou um palco gigante. No meio, desenhou um menino pequeno com um microfone. E, no microfone, um pontinho azul com uma estrela.
Ele entendeu, do jeitinho dele, que as palavras não precisam correr para serem bonitas. Às vezes, elas só precisam de espaço para nascer.
✨ Moral da História
“A verdadeira coragem é continuar tentando, com calma e do seu jeito, mesmo quando o medo aparece.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1O que deixou o Léo com medo quando ele soube que seria narrador?
- 2Que truque a avó Dita ensinou para o Léo se acalmar antes de falar?
- 3Quando o Léo travou na palavra “redemoinho”, o que ele fez para conseguir continuar?
- 4Como você acha que o Léo se sentiu quando a plateia aplaudiu no final?
- 5Se você estivesse no lugar do Léo, que “ponto amigo” você escolheria para olhar no palco?
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