A Voz de Marina
Uma menina que nunca fala em público encontra sua voz para defender um amigo que sofre bullying.

Marina tinha sete anos e uma voz pequena — não de tamanho, porque vozes não têm régua, mas de coragem. Em casa, ela falava como um sabiá: contava histórias para a avó, cantava baixinho enquanto arrumava os brinquedos e ria alto quando o pai fazia careta. Mas na escola… ah, na escola a voz dela virava uma bolinha de algodão escondida no fundo da garganta.
A Escola Municipal Sol do Ipê ficava numa rua cheia de árvores em Campinas, e na entrada havia um ipê-amarelo que, na época da florada, parecia uma nuvem de ouro. Marina gostava de chegar cedo só para olhar as flores caídas no chão, como se o ipê estivesse espalhando confete para quem passasse.
Naquela segunda-feira, a professora Cíntia anunciou:
— Turma, este mês teremos a Feira da Leitura! Cada grupo vai apresentar uma pequena cena de um livro brasileiro. Pode ser Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado…
Os colegas começaram a cochichar animados. Marina sentiu o estômago dar um nó. “Cena” significava “falar na frente de todo mundo”. Ela apertou o lápis com força.
Foi então que ela viu Davi entrando na sala.
Davi era novo. Tinha cabelo cacheado bem preto, um sorriso tímido e usava um óculos com armação azul. Ele carregava uma mochila maior do que parecia necessário e um estojo com adesivos de planetas. Davi falava com um jeito cuidadoso, como se escolhesse as palavras com carinho.
Marina gostou dele logo no primeiro dia. Ele sentou perto dela e, na hora do recreio, mostrou um desenho que havia feito: um foguete subindo entre estrelas.
— Eu gosto do espaço — ele explicou. — Lá é silencioso, mas não é triste. É um silêncio cheio de mistérios.
Marina quis dizer “eu também gosto”, mas só conseguiu sorrir e apontar para uma estrela bem brilhante no desenho. Davi entendeu mesmo assim.
Com o passar das semanas, Marina e Davi viraram dupla em atividades, trocavam figurinhas e dividiam a sombra do ipê para lanchar. Só que nem todo mundo achou isso legal.
Júlio, um menino alto e barulhento que adorava ser o centro das atenções, começou a implicar com Davi. Tudo começou com risadinhas.
— Olha o professor Pardal! — dizia Júlio quando via os desenhos de foguete. — Vai voar pra Lua com esse óculos aí?
Alguns colegas riam, outros fingiam que não ouviam. Davi ficava vermelho, guardava os desenhos e baixava a cabeça. Marina sentia o coração bater forte, como um tambor pequenininho, e pensava em dizer “para!”, mas a voz não saía.
Certa vez, no recreio, Júlio se aproximou de Davi perto da quadra.
— Ei, óculos! — chamou, puxando o estojo de Davi. — Deixa eu ver se tem caneta de astronauta!
Davi segurou o estojo, assustado.
— Me devolve, por favor.
Júlio puxou mais forte. O estojo abriu, e lápis e borrachas se espalharam pelo chão de cimento. Um lápis especial, com ponta colorida, rolou até perto do gol.
— Ah não… — Davi murmurou, ajoelhando para catar tudo.
Marina ficou parada a alguns passos. A garganta dela virou um deserto seco. Ela queria correr, queria ajudar, queria falar com a professora… mas as pernas pareciam presas ao chão.
Naquele dia, em casa, Marina contou para a avó, Dona Lourdes, enquanto ajudava a separar feijão na mesa da cozinha. A avó tinha mãos cheias de linhas e um olhar que parecia enxergar o que as pessoas guardavam por dentro.
— Vó, eu… eu queria ter falado — Marina disse baixinho. — Mas eu fiquei muda.
Dona Lourdes pegou um grão de feijão e colocou na palma da neta.
— Tá vendo esse feijão? — perguntou. — Ele é pequeno, mas quando a gente planta, vira planta grande. A voz é assim. Ela cresce quando a gente usa.
— Mas e se eu errar? — Marina perguntou.
— Errar não machuca tanto quanto o silêncio quando alguém precisa de ajuda — respondeu a avó, com suavidade.
Marina ficou pensando nisso enquanto olhava o ipê pela janela, balançando com o vento.
No dia seguinte, a professora Cíntia organizou os grupos para a Feira da Leitura.
— Marina, Davi e Júlio, vocês ficarão juntos — anunciou.
Marina sentiu um frio na barriga. Davi arregalou os olhos. Júlio abriu um sorriso que não parecia amistoso.
— Beleza — disse Júlio, estalando os dedos. — Eu posso ser o narrador, né? Eu falo bem.
Davi tentou sugerir:
— A gente podia dividir… cada um fala um pedaço.
Júlio riu.
— Você? Falar? Vai travar. E a Marina nem abre a boca.
Marina sentiu as orelhas esquentarem. Ela olhou para Davi, que apertava o próprio caderno como se fosse um escudo. Um pensamento apareceu, tímido como a primeira flor do ipê: “Eu posso tentar.”
Mas tentar ali, na frente de Júlio, parecia impossível.
A professora pediu que escolhessem um livro. Davi, com cuidado, colocou sobre a mesa um exemplar de “O Menino Maluquinho”, com capa amarela.
— A gente podia fazer a parte em que ele aprende a ser amigo — sugeriu.
Marina gostou da ideia. A amizade era uma coisa que ela entendia bem, mesmo sem falar muito.
Nos dias seguintes, o grupo ensaiou no cantinho da biblioteca. Marina lia em silêncio, acompanhando com o dedo. Davi inventava gestos e falas para os personagens. Júlio, impaciente, queria mandar em tudo.
— Eu faço a fala mais longa — dizia. — Vocês fazem as falas pequenas.
Davi respirava fundo, tentando manter a calma.
— Júlio, se só você falar, não é grupo — ele argumentou.
— Então fala você — Júlio provocou. — Quero ver.
Davi tentava, mas ficava nervoso. Marina queria ajudar, mas a voz continuava escondida.
Até que, numa quinta-feira, aconteceu o que Marina mais temia — e mais precisava enfrentar.
No fim do recreio, quando a turma voltou para a sala, a professora Cíntia pediu:
— Pessoal, vamos ensaiar rapidamente as falas. Cada grupo apresenta um pedacinho para a turma.
Marina sentiu a sala girar um pouco. As carteiras, o quadro, o ventilador barulhento… tudo parecia ficar longe. Ela olhou para Davi. Ele engoliu em seco.
O grupo deles foi chamado.
— Vamos lá, trio — disse a professora.
Júlio foi para a frente, com postura de apresentador.
— Eu vou narrar tudo — anunciou, alto.
Davi, ao lado, segurava o livro com as mãos tremendo. Marina ficou no canto, como se pudesse desaparecer.
Júlio começou a ler a parte da história, mas resolveu mudar as palavras.
— “Era uma vez um menino… com óculos enormes… que parecia uma coruja!” — ele improvisou, olhando para Davi e rindo.
Algumas crianças riram também.
Davi ficou paralisado. O rosto dele ficou tão vermelho quanto goiaba madura. Ele tentou dizer algo, mas o som não saiu. Seus olhos brilharam, como se estivessem segurando lágrimas.
Marina sentiu algo diferente dentro do peito. Não era só medo. Era uma mistura quente de indignação e carinho, como quando a gente vê alguém quebrar o brinquedo favorito do amigo.
Ela lembrou do feijão na palma da mão. Lembrou da avó dizendo que o silêncio podia machucar.
E então, antes que o medo pudesse empurrá-la de volta, Marina deu um passo à frente.
O coração dela batia tão alto que parecia um pandeiro. Mesmo assim, ela abriu a boca.
— Júlio… para — Marina disse, com uma voz que saiu tremida, mas clara.
A sala inteira ficou quieta, como se o ventilador tivesse parado.
Júlio piscou, surpreso.
— O quê? — ele perguntou.
Marina sentiu as pernas bambas, mas continuou.
— Você não está contando a história. Você está… zombando do Davi. E isso é errado. Ele é nosso colega. Ele merece respeito.
Davi olhou para Marina como quem vê uma estrela cadente.
Júlio tentou rir, mas a risada saiu curta.
— Ah, deixa de drama.
Marina respirou fundo. As palavras agora pareciam encontrar caminho.
— Não é drama. Quando você faz isso, o Davi fica triste. E a gente também aprende que pode machucar os outros. Eu… eu não quero isso na nossa sala.

A professora Cíntia se aproximou, com olhar firme.
— Marina, obrigada por falar — disse ela, com voz calma. — Júlio, precisamos conversar. Na nossa escola, ninguém é diminuído por ser quem é. Aqui é lugar de aprender, e aprender também é aprender a respeitar.
Júlio abaixou a cabeça. Pela primeira vez, ele parecia menor.
— Eu só… — ele começou.
— Você vai pedir desculpas ao Davi — completou a professora.
Júlio respirou pesado.
— Desculpa, Davi — disse, sem olhar muito.
Davi apertou o livro e, com a voz baixinha, respondeu:
— Obrigado.
Marina sentiu o corpo inteiro relaxar, como quando a gente solta a mochila depois de andar muito. Ela não tinha virado a menina mais falante do mundo. Ainda sentia vergonha. Mas tinha descoberto uma coisa: a coragem podia aparecer justamente quando alguém precisava.
Depois da aula, no caminho para casa, Davi alcançou Marina perto do portão.
— Marina — ele chamou. — Você… você foi muito corajosa.
Ela mexeu na alça da mochila.
— Eu fiquei com medo.
— Eu também fico — Davi disse. — Mas você falou mesmo assim.
Marina sorriu.
— Minha vó disse que a voz cresce quando a gente usa.
Na semana da Feira da Leitura, o grupo ensaiou de verdade. A professora ajudou a dividir as falas: Júlio narraria uma parte, Davi faria outra, e Marina teria duas falas importantes.
No dia da apresentação, a sala estava enfeitada com bandeirinhas coloridas e cartazes de livros. O cheiro de cola e papel crepom misturava com o de bolo de milho que vinha da cantina.
Quando chegou a vez deles, Marina sentiu o velho frio na barriga. Mas olhou para Davi, que segurava o livro com mais firmeza. Olhou para a professora Cíntia, que fez um sinal discreto de incentivo.
Marina falou suas duas falas com voz suave, mas segura. Não foi perfeito. Ela engasgou em uma palavra e riu de si mesma. E, quando riu, percebeu que ninguém estava ali para atacá-la. Estavam ali para ouvir.
No final, a turma aplaudiu. Davi sorriu de verdade, daquele sorriso que ilumina o rosto. Até Júlio bateu palmas, meio sem graça, mas bateu.
Na saída, Marina passou pelo ipê-amarelo. Uma flor caiu bem perto do seu tênis, como um bilhetinho do céu.
Ela pegou a flor e pensou: “Minha voz não precisa gritar para ser forte.”
E, naquele instante, Marina entendeu que defender um amigo não era só um ato de coragem. Era também um jeito bonito de fazer a escola virar um lugar mais gentil para todos.
✨ Moral da História
“A verdadeira coragem é usar a nossa voz, mesmo com medo, para proteger e respeitar as pessoas ao nosso redor.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que Marina tinha dificuldade de falar em público na escola?
- 2Como você acha que o Davi se sentiu quando Júlio zombou dele na frente da turma?
- 3O que fez Marina encontrar coragem para falar naquele momento?
- 4Se você visse alguém sendo maltratado na escola, o que poderia fazer para ajudar com segurança?
- 5Depois que Marina falou, o que mudou na sala e no grupo da Feira da Leitura?
O que achou desta história?
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