A Lua que Desceu para Brincar
Numa noite especial, a lua desce do céu para brincar com uma menina solitária e ensina que nunca estamos sozinhos.

Lá no alto, bem alto, no céu do Brasil, morava uma Lua redonda e brilhante. Ela parecia uma bolacha de leite, grande e clarinha. De dia, ela descansava. À noite, ela acordava e fazia “plim, plim”, acendendo uma luz macia por cima das casas, das árvores e das ruas.
Numa cidade pequena, com pracinha, banco de madeira e um coreto pintado de azul, morava uma menina chamada Lila. Lila tinha quatro anos. Tinha cabelo cacheado e escuro, preso com uma presilha amarela em forma de estrela. Ela gostava de ficar na varanda da casa da vó, ouvindo os grilos: “cri-cri, cri-cri”.
Mas naquela noite, Lila estava quietinha. A rua estava calma. O vento fazia “fuuu” nas folhas do pé de goiaba. E Lila apertava um ursinho de pano no colo.
— Vó — chamou Lila, com voz baixinha. — Tá todo mundo ocupado.
A vó estava na cozinha, mexendo uma panela de canjica. A colher fazia “toc, toc, toc”.
— Já vou, minha flor — disse a vó. — Só vou terminar aqui.
Lila olhou para a pracinha pela grade. Não tinha criança correndo. Não tinha bola quicando. Só a Lua lá em cima, olhando tudo.
Lila suspirou.
— Eu queria alguém pra brincar… — ela falou, quase como segredo.
E sabe o que aconteceu?
A Lua ouviu.
Lá no céu, a Lua piscou devagar. “Plim.” Depois piscou de novo. “Plim.” Ela ficou pensando: “Como pode uma menina tão pequena se sentir sozinha?”
A Lua tinha um coração enorme. Um coração de luz. E ela tomou uma decisão bem diferente, bem corajosa.
— Hoje eu vou descer — a Lua disse para as estrelas. — Só um pouquinho. Só para brincar.
As estrelas fizeram “tlim-tlim-tlim”, assustadas.
— Mas Lua! — disseram elas. — E se alguém perceber?
— Vai ser só por um tempo — respondeu a Lua. — Brincadeira também é importante.
Então a Lua desceu.
Ela desceu bem devagar, como quem escorrega numa rampa de algodão. O céu ficou mais perto. A luz ficou mais quente. E a noite não ficou escura; ficou gostosa, como um cobertor leve.
Lila viu uma claridade diferente na pracinha.
— Ué… — ela arregalou os olhos. — Parece que a Lua tá… maior.
E ficou mesmo.
A Lua desceu até ficar bem pertinho do coreto azul, bem em cima da grama. Não era uma bola que caía; era uma Lua que flutuava. Ela brilhava macio, sem machucar os olhos.
Lila abriu o portão da varanda devagarinho. “Creck.” A sandália fez “tap-tap” no chão.
— Oi… — Lila falou, com a mãozinha na boca.
A Lua sorriu. Sim, a Lua sorriu. Um sorriso grande, redondo e bondoso.
— Oi, Lila — a Lua disse com voz de vento manso. — Eu ouvi você.
— Você… sabe meu nome? — Lila perguntou.
— Eu vejo você todas as noites — disse a Lua. — Eu fico lá em cima, cuidando. Mas hoje eu quis brincar aqui embaixo.
Lila chegou mais perto, com o ursinho apertado.
— Você veio… brincar comigo? — ela perguntou, ainda sem acreditar.
— Vim sim — respondeu a Lua. — Posso?
Lila soltou uma risadinha.
— Pode! Pode, sim!
E a pracinha, que estava quieta, ficou viva de um jeito diferente.
A Lua começou a brincar de “sombra”. Ela fazia luz de um lado e depois do outro, e as sombras de Lila e do ursinho dançavam no chão.
— Olha! Minha sombra tá grandona! — Lila falou.
A Lua mudou de lugar, bem devagar.
— Agora tá pequenininha! — Lila riu. — De novo! De novo!
— De novo! — disse a Lua.
E foi “plim”, “plim”, “plim”: a luz mudava, a sombra pulava, e Lila batia palmas: “plá-plá-plá”.
Depois, a Lua soprou uma brisa bem leve: “fuuu…” e folhas secas fizeram “chiii-chiii” no chão.
— Vamos brincar de barquinho? — perguntou a Lua.
— Barquinho? — Lila repetiu.
A Lua apontou para uma poça d’água perto do meio-fio. Tinha chovido mais cedo. A poça era pequena, mas brilhava como espelho.
— A gente pode fazer barquinhos de folha — disse a Lua.
Lila pegou uma folha de goiabeira. A Lua pegou outra… ou melhor, a Lua encostou sua luz na folha e ela ficou parecendo que tinha brilho.
Lila colocou a folha na poça.
— Pronto! Meu barquinho! — ela falou.
A Lua soprou: “fuuu!”
O barquinho andou: “tchic-tchic-tchic.”
— Uau! — Lila abriu um sorriso enorme. — Ele tá navegando!
A Lua soprou de novo, e os dois barquinhos fizeram corrida.
— O meu vai ganhar! — Lila disse.
— Então corre, barquinho! — a Lua falou, rindo com voz de sino: “lin-lin.”
Lila corria ao lado da poça, devagar, para não pisar dentro.
— Não pode afundar! — ela avisou.
A Lua ficou um pouquinho mais baixa, para ver de perto.
E foi aí que o vento mudou.
Um vento mais forte apareceu de repente: “FUUUU!”
As folhas rodaram no ar. “Vuuu-vuuu!”
Lila segurou o cabelo.
— Ai! — ela disse. — Meu barquinho!
O barquinho de folha começou a girar e foi para a beiradinha da poça. Quase, quase caiu no bueiro do meio-fio.
Lila arregalou os olhos.
— Não! Meu barquinho vai sumir!
A Lua também ficou preocupada. Sua luz tremelicou: “plim… plim…”
— Calma, Lila — a Lua disse. — Eu vou ajudar.
Mas o vento continuou: “FUUU!”
Lila esticou a mãozinha, mas era longe. Ela era pequena. A poça parecia um mar.
— Eu não consigo… — ela falou, com a voz tremendo.
A Lua desceu mais um pouquinho. A praça ficou toda iluminada, bem clarinha, como se fosse manhã. E a Lua esticou um raio de luz, fininho como fita.

O raio de luz tocou a água com cuidado. A água fez “ploc”. O barquinho parou de girar, como se o raio fosse uma mão de luz segurando ele.
— Segura, barquinho! — Lila gritou.
A Lua soprou o vento do jeito certo, bem de leve: “fuu…”
E o barquinho voltou para o meio da poça. Lila puxou com a pontinha do dedo e pegou a folha rapidinho.
— Consegui! — ela disse, pulando. — Ufa!
A Lua brilhou mais forte, feliz.
— Viu? — a Lua falou. — Quando a gente pede ajuda, as coisas ficam mais fáceis.
Lila abraçou o ursinho.
— Eu fiquei com medo de ficar sem meu barquinho… — ela confessou.
— Medo acontece — disse a Lua. — Mas você não precisa enfrentar tudo sozinha.
Lila olhou para a Lua, bem pertinho.
— Mas… eu tava sozinha — ela disse, lembrando do começo.
A Lua fez uma luz quentinha que parecia carinho.
— Lila — a Lua falou devagar — você nunca está sozinha.
— Nunca? — Lila perguntou.
— Nunca — confirmou a Lua. — Tem a sua vó na cozinha. Tem seu ursinho no seu colo. Tem os grilos cantando com você. “Cri-cri, cri-cri.” Tem as árvores balançando. “Fuuu.” E tem eu… lá no alto.
Lila ficou quietinha, ouvindo.
— Eu vejo você quando você ri — disse a Lua. — E quando você fica triste também.
— Então você me conhece de verdade? — Lila perguntou.
— Conheço — disse a Lua. — E eu gosto de você.
Lila sentiu o peito quentinho, como quando a vó dá abraço depois do banho.
— Eu também gosto de você, Lua — ela falou.
Naquele momento, a vó apareceu na porta da casa, com um pano de prato no ombro.
— Lila? — a vó chamou. — Cadê você, meu bem?
Lila respondeu animada:
— Tô aqui, vó! Na pracinha!
A vó andou até a grade e ficou olhando, surpresa.
— Uai… que lua bonita hoje! — ela disse, coçando a cabeça. — Parece que tá mais perto.
A Lua piscou para Lila: “plim.”
Lila piscou de volta.
— Vó, eu tava brincando — disse Lila. — E eu não tô mais sozinha.
A vó sorriu com um sorriso bem grande.
— Que bom, minha flor — ela falou. — Vem cá, vamos tomar canjica quentinha.
Lila olhou para a Lua.
— Você vem? — ela convidou.
A Lua riu de leve.
— Eu não como canjica — ela disse. — Mas eu posso ficar olhando você comer.
— Então tá — Lila concordou.
A Lua começou a subir devagarinho, como balão de festa que sobe sem pressa. “Fuuu…”
— Lua! — Lila chamou. — Você volta?
— Eu volto toda noite — respondeu a Lua. — E quando você sentir saudade, é só olhar pra cima.
Lila levantou o braço e deu tchau.
— Tchau, Lua!
— Tchau, Lila — disse a Lua. “Plim.”
Lila entrou em casa com a vó. A canjica tinha cheiro de leite, canela e carinho. A colher fez “toc-toc”. E lá fora, os grilos continuaram: “cri-cri, cri-cri”.
Depois, quando Lila foi para a cama, ela olhou pela janela. A Lua estava lá em cima de novo, redonda e calma.
— Boa noite — Lila sussurrou.
E a Lua respondeu com uma piscadinha macia: “plim.”
Lila fechou os olhos sorrindo, sentindo que, mesmo no silêncio da noite, havia companhia: a vó, o ursinho, os sons da rua e a Lua cuidando de tudo.
E assim, naquela noite especial, Lila aprendeu uma coisa importante: quando a gente se sente sozinho, pode olhar em volta, pode chamar alguém, pode lembrar que sempre existe luz pertinho da gente — até lá no céu.
✨ Moral da História
“Mesmo quando parece que estamos sozinhos, sempre há alguém e alguma luz por perto para nos acompanhar e ajudar.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já olhou para a Lua de noite? Como ela estava?
- 2Qual brincadeira você faria com a Lua: sombra ou barquinho de folha?
- 3Você tem um brinquedo que te faz companhia, como o ursinho da Lila?
- 4Quando você fica com medo, quem você chama para te ajudar?
- 5Você consegue fazer um som de grilo: “cri-cri”?
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