O Livro que Engolia Quem Lia
Um garoto entra dentro de um livro e precisa resolver os problemas dos personagens para conseguir sair.

Naquela terça-feira de calor teimoso, em que o vento parecia só passear sem refrescar ninguém, Arthur Mendes caminhava pelas ruas de paralelepípedo do bairro do Rosário, em Ouro Preto, com a mochila batendo nas costas e uma ideia batendo na cabeça: ele queria ser invisível por um dia.
Não invisível de verdade — Arthur gostava de ser visto quando jogava bola e fazia um passe bonito —, mas invisível o suficiente para ninguém perceber que ele tinha errado na apresentação de História. Tinha confundido Tiradentes com Dom Pedro, e ainda por cima falara “Inconfidência Mineira” como se fosse “Inconformidade Menina”. A turma riu, o professor disfarçou a vontade de rir também, e Arthur sentiu o rosto virar brasa.
Para escapar da lembrança, ele entrou na Biblioteca Municipal, um casarão antigo de janelas altas, que cheirava a madeira encerada e papel que já viveu mais do que muita gente. O lugar sempre o acalmava, como se cada livro guardasse não só histórias, mas também um pouco de silêncio.
A bibliotecária, Dona Cida, usava óculos presos por uma correntinha e tinha um jeito de falar que parecia abraço.
— Arthur, meu querido, veio se esconder do mundo ou procurar outro? — brincou ela.
— Talvez os dois — respondeu ele, tentando sorrir.
Dona Cida apontou para uma mesa no fundo.
— Chegou uma caixa de doações. Tem umas coisas curiosas. Se quiser olhar… mas com cuidado.
Arthur foi até lá. Entre enciclopédias antigas e romances com capas desbotadas, viu um livro sem título na lombada. Era grande, pesado, com capa de couro escuro e um desenho em baixo-relevo: uma boca aberta, como se o próprio livro estivesse prestes a falar ou… engolir.
Ele passou os dedos sobre o desenho. A sensação era estranha, como tocar algo que estava quase morno.
— Que coisa mais bizarra… — murmurou.
Ao abrir, encontrou uma página em branco e, no centro, uma frase escrita em tinta cinza, como se tivesse sido soprada ali:
“QUEM LÊ ENTRA. QUEM ENTENDE, SAI.”
Arthur riu de nervoso.
— Tá bom, né. Deve ser alguma brincadeira.
No momento em que pronunciou em voz baixa as palavras, as letras começaram a tremer. Não foi imaginação: tremiam mesmo, como formigas alinhadas. O ar da biblioteca ficou mais denso, como antes de uma chuva. O livro puxou o olhar de Arthur para dentro da página, como se o branco fosse um poço.
— Dona Cida? — ele tentou chamar, mas a voz saiu esticada, fina.
E então aconteceu.
Arthur sentiu o corpo ser puxado, não com dor, mas com um tipo de pressa. A mesa, as estantes, o chão de madeira se dobraram como papel. Ele tentou segurar a borda do livro, mas os dedos atravessaram o couro como se fosse fumaça. Um frio percorreu a nuca. A última coisa que viu foi a boca desenhada na capa se abrindo um pouco mais.
Quando voltou a enxergar direito, estava em pé numa rua de terra vermelha, sob um céu de azul exagerado, quase pintado. As casas eram coloridas demais, como se alguém tivesse aumentado a saturação do mundo. Ao longe, um sino tocava, mas não vinha de igreja: vinha de uma árvore.
Sim, uma árvore com sino pendurado.
— Tá. Eu devo estar sonhando — Arthur disse, mas sua voz soou normal, e o coração batia forte de verdade.
Uma placa torta, na beira da estrada, anunciava: “Vila dos Personagens — Bem-vindo(a) ao Capítulo 3”.
Arthur olhou para o próprio corpo: estava igual, só que a mochila agora parecia feita de tecido grosso, como saco de café. E um detalhe novo: no pulso esquerdo, havia uma marca em forma de pequena vírgula, como uma tatuagem recém-feita.
— Capítulo 3? — ele repetiu.
Um menino apareceu correndo, com uma camisa listrada e um chapéu de palha grande demais.
— Ei! Você é o leitor novo? — perguntou, sem fôlego.
— Eu… acho que sim. Meu nome é Arthur.
— Eu sou Bento, personagem secundário, mas com muito potencial. — Bento falou aquilo como se fosse título. — O livro anda engolindo leitores porque a história tá com problema. Sem leitor, sem conserto. E sem conserto… ninguém termina.
Arthur engoliu seco.
— Então eu… tô preso aqui?
Bento apontou para a marca no pulso.
— Isso é o Sinal da Pontuação. Quando você resolver os nós da história, ele vira ponto final e você sai. Dizem.
— “Dizem” é a parte que me assusta — Arthur respondeu.
Bento fez um gesto apressado.
— Vem. A autora — ou o que sobrou dela — não aparece mais. Quem manda agora é o Revisor, um sujeito que acha que tudo tem que seguir regra, mesmo quando a regra machuca.
Arthur acompanhou Bento por uma rua onde as sombras tinham contorno, como desenho a lápis. Passaram por uma feira com frutas enormes — goiabas do tamanho de bola, mangas tão amarelas que pareciam luz — e pessoas que falavam como se cada frase fosse ensaiada.
Uma senhora discutia com o vendedor:
— Eu exijo duas falas a mais! No capítulo passado eu tinha três parágrafos!
O vendedor respondia:
— Senhora, eu só vendo laranja, não vendo destino narrativo!
Arthur sentiu um arrepio. Aquilo tinha graça, mas também tinha algo triste: todo mundo parecia lutar por um lugar na própria história.
Chegaram a uma praça onde havia um coreto e, no centro, uma estátua de pedra: um homem de terno, segurando uma régua e uma caneta vermelha. Na base, lia-se: “REVISOR-MOR: ORDEM ACIMA DE TUDO”.
Do lado da estátua, uma menina com tranças e vestido azul encarava o chão, chutando poeira.
— Essa é Lina — cochichou Bento. — Era protagonista. Agora o Revisor tirou o final dela.
Arthur se aproximou.
— Oi. Você tá bem?
Lina levantou os olhos, e Arthur viu neles uma raiva quieta, daquelas que doem mais que grito.
— Eu tava indo salvar o rio da vila. Era minha missão. Mas o Revisor disse que “menina não precisa salvar nada, precisa aprender a obedecer”. Aí ele reescreveu meu capítulo. Agora eu só… espero.
Arthur sentiu algo apertar no peito. Ele lembrou do riso da turma, do erro, da vontade de desaparecer. Mas ali, o desaparecimento era imposto.
— Isso é injusto — Arthur disse.
— Injusto é pouco — Lina respondeu. — Aqui, quando alguém questiona, perde fala. E quando perde fala, vira figurante. E quando vira figurante… some.
Bento apontou para o coreto.
— Hoje tem revisão pública. Ele vai cortar mais um pedaço do livro.
Arthur olhou ao redor: personagens reunidos, alguns com medo, outros com resignação. E percebeu que, se ele quisesse sair, precisaria entender. “Quem entende, sai.” Talvez não fosse só resolver enigmas; talvez fosse consertar algo que tinha a ver com justiça.
A revisão pública começou com um som de páginas virando, como vento em papel. Um homem surgiu no coreto: alto, magro, com terno cinza impecável e uma caneta vermelha no bolso. Sua voz era lisa, sem emoção.
— Boa tarde, personagens. Informo que, por excesso de desvios narrativos, o capítulo do Rio Encantado será removido. O rio causa metáforas desnecessárias. — Ele abriu um rolo de papel. — E mais: a personagem Lina será rebaixada a coadjuvante silenciosa.
Um murmúrio percorreu a praça. Lina deu um passo para trás, como se levasse um empurrão invisível.
Arthur sentiu a marca no pulso arder.
— Ei! — ele gritou, e sua voz ecoou como se alguém tivesse aumentado o volume. — Você não pode decidir isso sozinho!
O Revisor virou o rosto lentamente, como quem vira página.
— E você é?
— Arthur. Eu sou… o leitor.
O silêncio caiu pesado. Bento arregalou os olhos, como se Arthur tivesse acabado de chutar um formigueiro.
O Revisor sorriu com a ponta da boca.
— Um leitor. Interessante. Vocês sempre chegam com ideias de liberdade, mas se esquecem de que histórias precisam de controle.
Arthur subiu no degrau do coreto, tremendo, mas firme.
— Histórias precisam de sentido. E sentido não é a mesma coisa que controle. — Ele respirou fundo. — Se você tira o rio, tira a missão. Se tira a missão, tira quem a pessoa é.
Lina levantou o rosto, surpresa.
O Revisor tirou a caneta vermelha e fez um gesto no ar. Uma linha vermelha apareceu, atravessando a praça como se fosse fio esticado.
— Palavras demais — ele disse. — Vamos editar.
A linha vermelha veio na direção de Arthur, rápida. Ele tentou recuar, mas sentiu o chão prender seus pés, como cola.
Bento gritou:
— Arthur, cuidado! Se ele riscar você, você vira nota de rodapé!
Arthur fechou os olhos por um segundo e pensou: “Quem entende, sai.” O que ele precisava entender ali? Que ficar calado era mais seguro — mas injusto. Que errar não deveria virar vergonha eterna. Que uma história sem voz vira prisão.
Ele abriu os olhos e falou, alto, como se a própria fala fosse escudo:
— Você pode riscar palavras, mas não pode riscar o que é certo!

No instante em que disse “certo”, a marca de vírgula no pulso brilhou e se transformou em ponto e vírgula, como se a história ainda não tivesse acabado, mas ganhasse força. A linha vermelha do Revisor hesitou, tremendo no ar.
Lina, que até então parecia diminuída, deu um passo à frente.
— Eu também tenho algo a dizer — ela falou, e sua voz saiu clara, como água recém-nascida. — O rio não é metáfora desnecessária. O rio é a memória da vila. Quando ele seca, a gente esquece quem é.
Outros personagens começaram a falar, primeiro tímidos, depois com coragem.
— Eu quero meu capítulo de volta!
— Eu não sou só figurante!
— Eu posso ser medroso e ainda assim importante!
O coreto pareceu balançar, como se a estrutura do livro não aguentasse tanta voz. O Revisor apertou a caneta, irritado.
— Ordem! — ele gritou. — Sem ordem, não há história!
Arthur olhou para Lina.
— O rio… onde fica?
— Atrás do morro do Sino — ela respondeu. — Mas ele tá preso por um parágrafo de cimento. O Revisor escreveu uma barragem no meio.
Bento completou:
— Se o rio voltar a correr, a vila volta a lembrar do enredo original. Aí a caneta dele perde força.
Arthur sentiu medo, mas também sentiu uma responsabilidade nova, que não tinha a ver com notas na escola. Era a responsabilidade de não deixar alguém ser apagado.
— Então vamos lá — ele disse. — Agora.
Correram por uma trilha de terra, passando por arbustos que sussurravam frases incompletas. No alto do morro, viram o Rio Encantado: ou melhor, o que restava. Um leito seco, rachado, e uma parede cinza atravessando tudo, com palavras gravadas: “PROIBIDO FLUIR”.
Lina tocou a parede.
— Ele transformou o rio em regra.
Arthur abriu a mochila e encontrou algo que não lembrava de ter colocado: um lápis grafite, simples, mas bem apontado. Na lateral estava escrito: “RASCUNHO”.
— Talvez… — Arthur começou.
— Lápis escreve e apaga — Bento disse, animado. — Caneta vermelha só corta.
Arthur ajoelhou diante da barragem e começou a escrever por cima das palavras gravadas. Em vez de “PROIBIDO FLUIR”, ele escreveu: “PERMITIDO SEGUIR”.
A parede tremeu. Rachaduras se abriram como se o concreto fosse casca.
O Revisor apareceu no topo do morro, ofegante de raiva, como se não estivesse acostumado a correr.
— Parem! Isso não está no roteiro!
Arthur ergueu o lápis.
— Às vezes, o roteiro precisa mudar pra ser justo.
Lina segurou o lápis junto com ele. Bento colocou a mão por cima das duas.
— Três personagens… e um leitor — Bento disse. — Isso dá um capítulo inteiro.
Eles empurraram as palavras com o lápis, como se empurrassem pedra. A barragem cedeu num estalo de página rasgando. E então o rio voltou.
A água veio primeiro tímida, depois com pressa, dançando com espuma e refletindo o céu exagerado. Ela correu pela vila, contornando a praça, molhando os pés dos personagens, levando embora a poeira de silêncio.
O Revisor tentou riscar o rio com sua caneta, mas o vermelho se dissolveu na correnteza.
— Não! — ele gritou, e sua voz perdeu a firmeza. — Sem revisão, tudo vira bagunça!
Arthur respirou fundo.
— Revisar é importante — ele disse, com calma. — Mas revisar não é mandar calar. É melhorar sem apagar quem a pessoa é.
O Revisor olhou ao redor e, pela primeira vez, pareceu menor. A caneta vermelha caiu de sua mão e, ao tocar a água, virou um simples carimbo escrito “SUGESTÃO”.
A praça se iluminou como se alguém tivesse aberto uma janela. A estátua do Revisor rachou e, no lugar, apareceu uma placa nova: “A HISTÓRIA É DE QUEM VIVE E DE QUEM LÊ”.
Arthur sentiu o pulso formigar. A marca mudou de ponto e vírgula para ponto final. Mas não um ponto pesado: um ponto sereno.
Lina sorriu.
— Acho que você consegue sair agora.
Arthur sentiu um aperto estranho, como quando a gente termina uma série boa.
— E vocês?
Bento deu de ombros.
— A gente continua. Com rio, com voz… com mais capítulos.
Lina inclinou a cabeça.
— E você continua aí fora. Mas lembra: quando alguém erra, não precisa virar silêncio. Pode virar recomeço.
Arthur fechou os olhos. Sentiu o cheiro de papel antigo, o rangido do assoalho. Quando abriu, estava na biblioteca, debruçado sobre o livro sem título. O coração ainda corria como rio.
Dona Cida apareceu do lado, como se tivesse estado ali o tempo todo.
— E então? — ela perguntou, olhando para o livro com cuidado. — Encontrou o que procurava?
Arthur olhou para a página. A frase tinha mudado. Agora dizia:
“QUEM LÊ, ESCUTA. QUEM ENTENDE, TRANSFORMA.”
Ele respirou fundo.
— Encontrei — Arthur respondeu. — E acho que amanhã eu vou pedir pra refazer minha apresentação. Não pra apagar o erro… mas pra corrigir do jeito certo.
Dona Cida sorriu, como quem fecha um livro na página exata.
— Isso, meu filho. Um ponto final pode ser só o começo do próximo capítulo.
Arthur saiu da biblioteca e o calor parecia menos pesado. Não porque o sol tivesse ido embora, mas porque, por dentro, ele tinha aprendido a carregar a própria voz — e a respeitar a dos outros — sem medo de ser riscado.
✨ Moral da História
“Justiça e coragem nascem quando usamos nossa voz para melhorar o mundo sem apagar a identidade de ninguém.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que você acha que o Revisor queria controlar a história? Em que situações da vida real alguém tenta controlar os outros desse jeito?
- 2Arthur poderia ter ficado calado para se proteger. Você concorda com a decisão dele de enfrentar o Revisor? Por quê?
- 3O que o Rio Encantado simboliza na história? O que muda na vila quando ele volta a correr?
- 4Na sua opinião, qual é a diferença entre “revisar para melhorar” e “revisar para apagar” alguém? Você já viu isso acontecer na escola ou em grupos de amigos?
- 5Se você entrasse nesse livro, que problema ajudaria a resolver primeiro e como faria isso sem machucar ninguém?
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