A Cidade Debaixo da Cama
Um menino descobre uma cidade miniatura debaixo da cama onde os brinquedos esquecidos vivem suas próprias aventuras.

João tinha quatro anos e um quarto bem brasileiro, com cheirinho de sabonete e vento quentinho entrando pela janela. Na parede, tinha um desenho de um sol sorrindo. No chão, um tapete macio. E na cama… uma cama grande, com lençol azul de estrelas.
João gostava de brincar. Brincava de carrinho: “Vruuum! Vruuum!”. Brincava de dinossauro: “Rrrr!”. Brincava de boneco: “Oi, tudo bem?”.
Mas às vezes… João esquecia os brinquedos.
Um carrinho ficava atrás da porta. Um boneco ficava dentro da caixa. Uma bolinha rolava para longe. E alguns brinquedos… sumiam embaixo da cama.
— Depois eu pego — dizia João.
Numa noite, antes de dormir, João ouviu um barulhinho.
“Plim… plim… plim…”
Ele abriu bem os olhos.
— Mãe? — chamou baixinho.
Nada.
O barulho veio de baixo.
“Plim… plim… plim… tum-tum…!”
João sentou na cama. O coração fez “tum-tum”. Ele ficou curioso. Curioso, curioso.
Ele desceu devagarinho. Pé no chão. Outro pé no chão. “Plic, plic”, o pijama roçou no tapete.
João se abaixou e olhou para baixo da cama.
E viu uma luz pequenininha. Uma luz piscando.
— Ué… — ele sussurrou. — O que é isso?
A luz parecia uma rua de cidade, mas bem pequenininha. Tinha até poste! E tinha uma plaquinha escrita com letras miúdas:
“BEM-VINDO À CIDADE DEBAIXO DA CAMA”
João piscou. Piscou de novo.
— Uma cidade? Debaixo da minha cama?
A luz fez “tlim!”. E uma voz fina respondeu:
— Isso mesmo!
João arregalou os olhos. De trás de uma caixinha de sapato apareceu um soldadinho de brinquedo. Ele tinha bigode pintado, chapéu vermelho e um peito estufado.
— Sou o Capitão Botão! — disse o soldadinho. — Guardião da Cidade Debaixo da Cama!
João quase riu.
— Você fala!
— Aqui embaixo, a gente fala, corre e vive aventuras — disse o Capitão Botão. — Mas só quando as crianças não estão olhando.
João apontou.
— E quem mora aí?
O Capitão Botão fez sinal com a mão.
— Vem ver. Mas precisa ser devagar. Sem pisar!
João encostou o rosto perto do chão e viu melhor. A cidade era feita de coisas do quarto. Uma tampa de pote era uma pracinha. Um pedaço de papelão era uma ponte. Uma régua virava uma estrada.
No meio, tinha uma “rodoviária” feita com uma caixa de leite bem lavada. Tinha até um desenho de ônibus.
Perto dali, um trem de bloquinhos fazia “tchu-tchu, tchu-tchu!”. E quem dirigia era um patinho de borracha, com chapéu de papel.
— Quá-quá! — disse o patinho. — Próxima parada: Estação Poeirinha!
João deu uma risadinha.
— Que engraçado!
O Capitão Botão explicou:
— Aqui moram brinquedos esquecidos. Quando a criança esquece, o brinquedo fica triste. Mas a Cidade Debaixo da Cama cuida deles. A gente dá missão e amizade.
João ficou sério por um segundo.
— Triste?
— É… — disse o Capitão Botão, baixando o bigode. — Brinquedo gosta de brincar.
João lembrou do carrinho que sumiu fazia dias.
— Eu tenho um carrinho vermelho…
— Ah! O Carrinho Foguete! — falou o Capitão Botão. — Ele mora aqui. Mas hoje ele está com um problema.
— Que problema? — perguntou João.
De repente, uma boneca de pano apareceu correndo. Ela tinha cabelo de lã e vestido florido.
— Capitão! Capitão! — ela disse, ofegante. — A Torre do Abajur apagou!
João olhou. Lá no fundo, tinha um “farol” feito com o pezinho do abajur. E a luz estava mesmo fraca.
— A luz da cidade! — disse João.
— Exato — respondeu o Capitão Botão. — Quando a luz apaga, a cidade fica com medo. E tem mais…
A boneca cochichou, mas João ouviu:
— O Monstro da Poeira está acordado!
João engoliu em seco.
— Monstro?
O Capitão Botão foi rápido:
— Não é um monstro de verdade, João. É um montão de poeira que vira uma bola grandona. Ela rola e faz “fof-fof”. E assusta todo mundo.
Como se tivesse ouvido, um barulho veio de um canto.
“Fooooof… foooof…”
Uma bolona cinzenta apareceu, cheia de fiapinhos, e começou a rolar devagar.
— FOF-FOF! — ela fazia.
Os brinquedos se esconderam. O patinho mergulhou num copinho. O trem parou: “tchiii!”. A boneca se encolheu atrás de um lápis.
João sentiu um frio na barriga.
— E agora?
O Capitão Botão apontou para uma trilha brilhante.
— Precisamos reacender a Torre do Abajur. O Carrinho Foguete vai levar a “Pilha Dourada” até lá. Mas a poeira está no caminho.
— Eu posso ajudar? — perguntou João, com voz baixinha.
O Capitão Botão sorriu.
— Pode! Você é grande. Você é o Gigante do Bem.
João respirou fundo.
— Eu sou o Gigante do Bem.
A boneca de pano bateu palminhas.
— Isso! Isso! Gigante do Bem!
De trás de uma roda de plástico saiu o Carrinho Foguete: vermelho, brilhante, com adesivo de estrela. Ele tremia um pouquinho.
— Eu sou rápido — disse ele. — Vruuum! Mas estou com medo do FOF-FOF.
João aproximou o dedo, bem devagar.
— Eu vou te proteger, Carrinho Foguete.
O Capitão Botão explicou o plano, com voz de chefe:
— João vai assoprar bem de leve para empurrar o FOF-FOF para longe. A boneca vai segurar a Pilha Dourada. E o Carrinho vai correr até a Torre.
— Pronto! — disse João.
O FOF-FOF rolou mais perto.
“Fof… fof… FOF!”
João viu que era uma poeira boba, mas grandona.
— Lá vai! — falou João.
Ele encheu a bochecha.
— Fuuu… fuuu…
A poeira balançou.
— Mais forte um pouquinho — disse o Capitão Botão. — Mas sem derrubar a cidade!
João tentou de novo.
— FUUUU!
O FOF-FOF foi empurrado para o lado. Ele rolou, rolou e bateu numa meia velha.
“Pof!”
A boneca de pano correu com a Pilha Dourada nas mãos. Ela ia dizendo:
— Passinho, passinho… passinho…
O Carrinho Foguete ligou o motor.
— Vruuum! Vruuum! Vruuuuum!
Ele saiu disparado pela estrada de régua. O trem de bloquinhos apitou:
— Tchu-tchu! Vai, vai!
Mas o FOF-FOF não desistiu. Ele sacudiu e se soltou da meia.
“FOF-FOF-FOF!”
Ele rolou rápido, indo atrás do carrinho.
João arregalou os olhos.
— Ai!
O Capitão Botão gritou:
— Agora, João! Agora!
João viu que o FOF-FOF ia alcançar o Carrinho Foguete bem na ponte de papelão.
O carrinho derrapou.
— Siiiii! — fez ele.
A boneca de pano quase deixou a pilha cair.
— Segura! Segura! — ela disse.
João colocou a mão como uma parede, bem na frente da bola de poeira.
E assoprou com coragem.

— FUUUUUUU! — soprou João.
A bola de poeira levantou fiapinhos no ar, fez cócegas no nariz de João e…
— Atchim! — espirrou João.
“ATCHIM!”
O espirro foi forte e engraçado. A poeira voou para um canto bem longe, atrás de uma caixa, e ficou quietinha.
— Ufa! — disse João, rindo. — Atchim!
Os brinquedos saíram dos esconderijos.
— Viva! — gritou o patinho. — Quá-quá!
— Missão quase completa! — disse o Capitão Botão.
O Carrinho Foguete atravessou a ponte. “Vruuum!” A boneca entregou a Pilha Dourada na base da Torre do Abajur.
— Encaixa aqui — disse o Capitão Botão.
A pilha entrou com um “cloc!”.
E então…
A Torre acendeu.
“Tlim! Tlim! Tliiiim!”
Uma luz quentinha iluminou toda a Cidade Debaixo da Cama. As ruas brilhavam. A tampinha-pracinha parecia festa. O trem voltou a andar.
— Tchu-tchu, tchu-tchu!
O Carrinho Foguete deu uma volta de alegria.
— Vruuum! Eu consegui!
João sorriu grande.
— Vocês conseguiram.
O Capitão Botão ficou de pé em cima de um bloquinho.
— Atenção, atenção! Hoje a cidade teve um herói! O Gigante do Bem!
Todos aplaudiram. “Plá-plá-plá!”
A boneca de pano chegou perto de João e falou baixinho:
— João… a gente gosta quando você lembra da gente.
João sentiu um apertinho bom no peito.
— Eu vou lembrar — prometeu. — Eu vou guardar vocês direitinho.
O Capitão Botão assentiu.
— Se você guardar, a cidade fica mais feliz. E sabe o que acontece?
— O quê? — perguntou João.
— A poeira não vira FOF-FOF — disse o capitão. — Porque quarto arrumado espanta a poeira.
João olhou para o próprio quarto. Tinha brinquedo fora do lugar. Tinha meia perdida. Tinha caixa aberta.
— Amanhã eu arrumo — falou João.
— Amanhã de manhã? — perguntou a boneca.
— De manhã! — disse João.
O patinho fez continência com a asa.
— Quá-quá! Combinado!
O Capitão Botão piscou.
— Agora, é hora de dormir. A cidade também dorme.
A luz foi ficando baixinha. “Tlim… tlim…”
João subiu na cama. Deitou no lençol de estrelas. O coração ficou calmo. “Tum-tum” bem devagar.
Antes de fechar os olhos, ele sussurrou:
— Boa noite, Cidade Debaixo da Cama.
Lá embaixo, uma voz fininha respondeu:
— Boa noite, João. E não esquece da gente.
No dia seguinte, o sol entrou pela janela. João levantou e foi direto para os brinquedos.
— Vamos guardar! — disse ele.
Ele colocou o carrinho na caixa. Guardou a boneca na prateleira. Pegou os bloquinhos e fez uma pilha: “toc, toc, toc”.
E olhou embaixo da cama.
Nada de FOF-FOF.
Só uma luz pequenininha piscando, como se fosse um “obrigado”.
“Plim.”
João sorriu.
— Eu sou o Gigante do Bem — falou, bem baixinho.
E o quarto ficou feliz. E a cidade também.
✨ Moral da História
“Quando cuidamos do que temos e não esquecemos nossos brinquedos, tudo fica mais alegre e seguro.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já olhou embaixo da sua cama? O que você acha que tem lá?
- 2Qual brinquedo você mais gostou: o Carrinho Foguete, o Capitão Botão ou a boneca de pano?
- 3Você já espirrou bem forte, tipo “ATCHIM!”?
- 4Você gosta de guardar seus brinquedos na caixa?
- 5Se você encontrasse uma cidade pequenininha, o que você falaria para ela?
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