Amizade

O Papagaio que Não Sabia Voar

22 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos5 visualizações

Um papagaio com medo de altura faz amizade com uma tartaruga, e juntos descobrem que cada um brilha do seu jeito.

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O Papagaio que Não Sabia Voar

No quintal de uma casinha simples, bem pertinho do mar de Recife, tinha um pé de coqueiro alto, alto, alto. Ele fazia “fuuuush” quando o vento passava. E, lá em cima, bem no topo, moravam folhas compridas que balançavam como braços verdes.

No mesmo quintal, tinha também um varal com panos coloridos, uma bacia azul, um banquinho de madeira e um monte de sombras gostosas no chão.

E nesse quintal vivia um papagaio chamado Paco.

Paco era um papagaio bem verde, com bico amarelo brilhante e olhinhos pretos atentos. Ele falava muito.

— Bom diiiiia! Bom diiiiia! — ele dizia para a vizinha. — Ô Paco, que papagaio falador! — a vizinha respondia, rindo.

Paco imitava o barulho do portão: “criiic-crac!”. Imitava o cachorro da rua: “au-au!”. Imitava até o apito do vendedor de picolé: “piiiiii!”.

Mas tinha uma coisa… uma coisa bem escondida no peito do Paco.

Paco tinha medo. Medo de voar alto.

Quando ele abria as asas, fazia “flap-flap”, mas já dava um frio na barriga.

— Ai, ai… lá em cima é muito alto… — Paco sussurrava, bem baixinho, para ninguém ouvir.

Os passarinhos do bairro passavam voando e cantando.

— Vem, Paco! Vem com a gente! — chamava o bem-te-vi.

Paco sorria, mas não ia.

— Hoje não… hoje eu tô… tô ocupado! — ele inventava.

E ficava andando pelo chão do quintal, de um lado para o outro, fazendo “toc-toc” com as patinhas.

Um dia, bem cedinho, caiu uma chuvinha leve. Ping-ping-ping! O chão ficou molhado e cheirando a terra. Paco gostava do cheiro, mas também gostava de ficar perto da parede, onde era mais seguro.

Foi aí que ele viu um casco redondo, marrom e lustroso, andando devagarinho perto do jardim.

Era uma tartaruga.

Ela vinha com passos curtinhos e calmos.

— Bom dia — disse a tartaruga, com voz mansa.

Paco arregalou os olhos.

— Bom diiiiia! Bom diiiiia! — ele respondeu, animado. — Você é nova por aqui!

— Eu sou a Tina — disse a tartaruga. — Tartaruga Tina.

Paco ficou curioso.

— E você… você não voa? — ele perguntou.

Tina deu uma risadinha.

— Eu não. Eu caminho. Bem devagar. Assim ó: tum… tum… tum…

Paco inclinou a cabeça.

— Eu… eu sou papagaio. Eu devia voar — ele falou, bem baixinho, como se fosse um segredo.

Tina olhou com cuidado.

— Você não gosta?

Paco mexeu as asas, nervoso.

— Eu gosto de bater as asas. Flap-flap! Mas lá em cima… é alto demais. Meu coração faz “tum-tum-tum” bem rápido.

Tina ficou pensando.

— Eu entendo — ela disse. — Tem coisa que dá medo mesmo.

Paco ficou surpreso.

— Você tem medo também?

— Tenho — Tina respondeu. — Eu tenho medo de… cachorros que correm muito rápido. Eles fazem “au-au!” e eu fico tensa.

— Au-au! — Paco imitou, e os dois riram.

Naquele dia, eles viraram amigos.

Todo dia, Paco ia até o jardim e Tina caminhava com ele. Paco falava, Tina ouvia. Paco imitava, Tina ria. E Tina ensinava uma coisa muito importante: respirar devagar.

— Quando o medo chega — Tina dizia — eu faço assim: puxa o ar… solta o ar… bem calminho.

Paco tentava:

— Puxa… solta… puxa… solta…

E sentia o peito ficar mais macio por dentro.

Certo dia, o céu ficou azul bem forte. O sol brilhou como um botão dourado. E o bem-te-vi apareceu no topo do coqueiro.

— Bem-te-viiii! — ele cantou. — Paco, vem ver a vista! Dá pra ver o mar!

Paco olhou pra cima. Lá em cima parecia muito longe.

— Ai… alto demais — ele disse.

Tina, que estava do lado dele, perguntou:

— O que tem lá em cima?

— Dizem que dá pra ver o mar — Paco respondeu.

Tina abriu um sorriso.

— Eu nunca vi o mar lá de cima — ela disse. — Eu só vejo o mar lá de baixo.

Paco ficou quieto. Ele queria muito ver o mar lá de cima. Queria muito. Mas o medo vinha com força.

— Eu posso tentar… só um pouquinho — Paco falou, tremendo.

Tina se aproximou.

— Vamos fazer um combinado? — ela disse. — Você tenta subir num lugar baixinho primeiro. Um passo de cada vez. Eu vou ficar aqui embaixo, olhando você.

Paco engoliu seco.

— Tá.

No quintal tinha um banquinho de madeira. Ele não era alto. Era só… um banquinho.

Paco subiu nele.

— Pronto — ele disse, respirando.

— Muito bem! — Tina comemorou. — Você está mais alto do que estava antes.

Paco olhou para o chão.

— Ué… nem deu tanto medo — ele falou.

— Viu? — Tina disse. — Agora, se você quiser, pode tentar o galho baixinho da goiabeira.

Tinha uma goiabeira no canto, com folhas verdes e cheirinho doce. O galho mais baixo ficava um pouquinho acima do banquinho.

Paco respirou como Tina ensinou.

— Puxa… solta… puxa… solta…

Ele pulou do banquinho para o galho.

— Plim! — fez o galho balançando.

Paco segurou firme.

— Eu consegui! — ele falou, com os olhos brilhando.

— Conseguiu! — Tina respondeu, batendo palminhas devagar, do jeitinho dela.

Durante muitos dias, Paco treinou assim. Banquinho. Galho baixinho. Um pouco mais alto. E sempre, sempre, Tina ficava lá embaixo.

— Eu tô aqui, Paco — ela dizia.

E Paco ficava mais corajoso.

Até que, numa tarde de vento forte, aconteceu uma coisa.

Tina estava passeando perto do portão do quintal. O portão não fechou direito. Ele fez “criiic” e abriu um tantinho.

Tina, curiosa, colocou a cabecinha para fora.

— O que tem lá fora? — ela perguntou.

Nessa hora, passou um cachorro grande na rua. Ele estava correndo, correndo! Patas fazendo “toc-toc-toc” no chão.

— AU-AU! AU-AU! — o cachorro latiu.

Tina congelou.

— Ai! — ela sussurrou.

Ela tentou voltar para o quintal, mas o cachorro chegou pertinho. Tina se encolheu dentro do casco.

Paco ouviu o latido e correu.

— Tina! — ele gritou.

Ele viu a amiga perto do portão, assustada.

O vento batia forte nas folhas. “Fuuuush! Fuuuush!”

Paco sentiu o medo subir como um frio nas pernas. O coração fez “tum-tum-tum”.

Mas ele também sentiu outra coisa: vontade de ajudar.

— Eu preciso chamar ajuda! — Paco falou.

Ele olhou para o alto. Lá no muro do vizinho tinha gente. Lá em cima dava para ver a dona da casa, na janela.

Paco respirou.

— Puxa… solta… puxa… solta…

Ele abriu as asas.

— Flap-flap! Flap-flap! —

E, pela primeira vez, Paco voou mais alto do que o galho da goiabeira.

Ilustração da história O Papagaio que Não Sabia Voar

Ele subiu, subiu, com as asas tremendo um pouquinho, mas subiu. O vento empurrou. O sol brilhou. E Paco pousou no muro.

— SOCORRO! SOCORRO! — Paco gritou bem alto. — Tina! Tina tá com medo! Cachorro na rua!

A dona da casa ouviu.

— O que foi, Paco? — ela perguntou.

— Tina! — Paco repetiu. — Ajuda!

A dona correu. Abriu o portão de uma vez e fez “CLAC!”. Pegou uma vassoura (só para assustar, sem bater) e falou firme:

— Xô! Xô, cachorro!

O cachorro se assustou e foi embora correndo.

— Au-au… — ele latiu longe, bem baixinho.

A dona pegou Tina com cuidado, como quem pega um copinho frágil.

— Pronto, prontinho. Tá tudo bem — ela disse.

Paco desceu rapidinho, ainda tremendo.

— Tina, você tá bem? — ele perguntou.

Tina colocou a cabeça para fora do casco.

— Tô… — ela disse, com voz pequena. — Eu fiquei com muito medo.

Paco chegou pertinho.

— Eu também tive medo — ele confessou. — Meu coração fez “tum-tum-tum”. Mas eu lembrei do seu jeito de respirar.

Tina olhou para ele, surpresa.

— E você voou… — ela falou.

Paco piscou.

— Eu voei. Um pouquinho alto. Só pra chamar ajuda.

Tina sorriu devagar.

— Você brilhou do seu jeito — ela disse. — Você falou alto e voou quando precisou.

Paco abaixou a cabeça, emocionado.

— E você brilhou do seu jeito também — ele respondeu. — Você é calma. Você me ensinou a respirar. Se não fosse você, eu não ia conseguir.

Os dois ficaram juntos no cantinho de sombra do quintal. O vento agora estava mais fraco. “Fuuuush…” bem baixinho. O sol ficou dourado, como pãozinho.

No dia seguinte, Paco fez uma surpresa.

— Tina, vem comigo — ele disse.

— Devagar eu vou — Tina respondeu. — Tum… tum… tum…

Eles foram até a goiabeira.

— Eu não vou lá no topo do coqueiro hoje — Paco falou. — Mas eu vou até o galho alto da goiabeira. E de lá eu vou te contar como é a vista.

Tina abriu um sorriso.

— Tá bom.

Paco subiu com calma. Respirou. Pousou no galho mais alto. Olhou ao longe e viu um pedacinho do mar brilhando.

— Tina! — ele chamou. — Eu tô vendo uma faixa azul!

— É bonito? — Tina perguntou.

— É lindo! — Paco respondeu. — E sabe o que é mais lindo? Você aqui embaixo, me olhando.

Tina ficou feliz.

— E sabe o que é mais lindo pra mim? — ela disse. — Você aí em cima, corajoso do seu jeito.

Paco deu uma risadinha.

— Flap-flap! — ele bateu as asas no ar, só um pouquinho.

E Tina fez um “hum-hum” contente.

A partir daquele dia, Paco não virou o papagaio mais voador do bairro. Não.

Mas ele virou um papagaio que tentava, devagarinho.

E Tina não virou a tartaruga mais rápida do mundo. Não.

Mas ela virou a tartaruga que ajudava os amigos a ficarem calmos.

No quintal de Recife, com cheiro de terra molhada e som de vento nas folhas, os dois aprenderam uma coisa bem importante:

Cada um tem um jeito de brilhar.

E, quando a gente tem um amigo do lado, o medo fica menor. Bem menor.

— Bom diiiiia! — Paco cantava.

— Bom dia — Tina respondia.

E o quintal parecia sorrir junto.

✨ Moral da História

Cada um tem seu próprio jeito de ser corajoso, e com amizade a gente consegue enfrentar o medo devagarinho.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você tem medo de alguma coisa, como o Paco tinha medo de altura?
  • 2Qual personagem você gostou mais: o papagaio Paco ou a tartaruga Tina?
  • 3Você já viu uma tartaruga de verdade? Como ela andava?
  • 4Se você fosse amigo do Paco, o que você diria para ajudar ele a ficar calmo?
  • 5Você já ouviu um papagaio falando? O que ele falava?

O que achou desta história?

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Raposinha

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