O Jardim Compartilhado
Vizinhos que não se falam começam a cuidar de um jardim juntos e descobrem o poder da comunidade.

O sol acordou cedo na Rua do Ipê-Amarelo, numa cidade do interior do Brasil. O céu estava bem azul. Os passarinhos faziam: piu-piu, piu-piu! E uma brisinha gostosa balançava as folhas das árvores.
Nessa rua moravam dois vizinhos. Um era o Seu Zeca, que tinha um bigodão preto e uma risada “hmm-hmm”, bem baixinha. A outra era a Dona Lúcia, que usava óculos redondos e um lenço colorido na cabeça.
Só que… eles quase não se falavam.
O Seu Zeca regava suas plantinhas do lado de dentro do portão e dizia: — Bom dia, plantas! Shhh… água, água.
A Dona Lúcia varria a calçada do outro lado e dizia: — Bom dia, calçada! Vassoura, vassoura, vruuumm!
Quando um passava pelo outro, era assim: — Hum. — Hum.
E pronto. Nada de conversa.
No meio da rua, bem na esquina, tinha um terreno vazio. Um terreno que era de todo mundo e de ninguém. A grama era rala. Tinha folhas secas. Um papelzinho aqui, uma latinha ali. E quando ventava fazia: fuuuushhh!
As crianças da rua olhavam para aquele lugar e pensavam: “Podia ser tão bonito…”
Uma dessas crianças era a Bia, pequenininha, com maria-chiquinhas e uma bicicleta vermelha. Ela pedalava devagar e fazia: trim-trim!
Um dia, Bia parou bem no meio da rua e falou alto, do jeitinho de criança que não tem vergonha: — Eu quero um jardim aqui! Um jardim grande! Com flor! Com borboleta! Com cheiro bom!
A mãe dela, a Dona Rita, sorriu e respondeu: — Que ideia linda, Bia. Mas jardim dá trabalho.
Bia abriu os braços, bem grande: — Eu ajudo! Eu ajudo muito!
Naquele instante, o Seu Zeca ouviu do seu portão. E a Dona Lúcia ouviu do seu outro portão. Os dois olharam para o terreno. E olharam para a Bia.
A Bia apontou para o terreno vazio e fez uma cara de pedido: — Por favor! Vamos fazer um Jardim Compartilhado!
O Seu Zeca coçou o bigode. — Jardim… aqui?
Dona Lúcia ajeitou os óculos. — Compartilhado… com todo mundo?
Bia balançou a cabeça bem rápido: — Sim! Sim! A gente planta junto, rega junto e fica bonito pra todo mundo!
O vento passou e levantou uma folhinha: fuuuushhh!
Dona Rita falou: — Se cada um ajudar um pouquinho, o jardim nasce.
O Seu Zeca, meio desconfiado, disse: — Eu tenho uma pá. E uma enxada.
Dona Lúcia, meio séria, completou: — Eu tenho sementes. De girassol. E de manjericão.
E foi assim que começou.
No dia seguinte, bem cedinho, a Rua do Ipê-Amarelo acordou com um barulho diferente: tuc-tuc, tuc-tuc! Era a enxada do Seu Zeca batendo na terra. Ele foi para o terreno vazio e começou a limpar.
Bia chegou correndo, com um balde pequenininho: — Eu trouxe água!
Dona Lúcia chegou com uma sacola e falou: — Eu trouxe sementes e uma mudinha de alecrim.
Por um segundo, ficou um silêncio. Seu Zeca e Dona Lúcia se olharam. Eles não estavam acostumados a trabalhar juntos.
Seu Zeca pigarreou: — Ahn… Dona Lúcia… a terra aqui está dura.
Dona Lúcia respondeu com voz baixinha: — Ahn… Seu Zeca… a gente pode molhar um pouco antes.
Bia bateu palminhas: — Isso! Molha! Molha! Splash-splash!
E ela derramou um pouquinho de água na terra. A terra fez “ploc, ploc” e ficou mais escura.
Seu Zeca sorriu de leve. — Hum. Assim fica mais fácil.
Eles começaram a cavar. Um buraco aqui. Outro buraco ali. A Bia ajudava com a pazinha pequena. Ela fazia careta de esforço e dizia: — Ufa! Ufa! Terra pesada!
Dona Lúcia ria: — Você é forte, Bia.
E, aos poucos, outros vizinhos foram aparecendo. O João, que era padeiro, trouxe borra de café para adubar. — Cheirinho de café! Hmmm!
A Dona Neide trouxe cascas de ovo bem trituradinhas. — Pra deixar as plantas felizes!
E o Seu Tião trouxe um pneu velho. — Isso vira canteiro!
O terreno começou a mudar. A sujeira foi embora. As folhas secas foram juntadas. A latinha foi para o lixo.
Bia apontava e comemorava: — Olha! Tá ficando bonito! Tá ficando bonito!
No fim da manhã, Dona Lúcia abriu a sacola e mostrou sementes amarelinhas. — Girassol. Ele cresce alto, alto.
Bia arregalou os olhos. — Alto como o Seu Zeca?
Seu Zeca deu uma risada que todo mundo ouviu: — Ha-ha! Mais alto ainda!
Eles plantaram as sementes. Bia colocou uma de cada vez, bem devagar, como se fosse um tesouro. — Sementinha, dorme na terra, tá? Amanhã você acorda.
Dona Lúcia ensinou: — Depois a gente cobre com terra, assim, ó.
Seu Zeca completou: — E rega de leve. Sem afogar.
Bia repetiu, do jeito dela: — Sem afogar! Só um tiquinho. Plic-plic.
Naquele dia, quando todo mundo foi embora, o terreno vazio já não parecia vazio. Tinha canteiros. Tinha marcas de caminhos. Tinha um pneu virando vaso. E tinha uma placa feita de papelão, escrita com canetão: “JARDIM COMPARTILHADO”.
Mas nem tudo foi fácil.
No outro dia, de manhã, Bia correu até o jardim e parou, assustada. — Mãe! As folhas! As folhinhas!
Algumas mudinhas estavam murchas, caidinhas, tristes.
O Seu Zeca veio depressa. — Ué… ontem estavam bem.
Dona Lúcia colocou a mão na terra. — Está seca. Muito seca.
Bia fez biquinho. — Elas tão com sede.
O céu estava quente. Quente, quente! O sol parecia uma panela.
Seu Zeca falou: — Se a gente esquecer de regar, elas não aguentam.
Dona Lúcia suspirou: — Mas eu trabalho cedo. E o senhor também.
Eles ficaram olhando para as plantas, sem saber o que fazer. O silêncio voltou. Um silêncio de “e agora?”
Bia levantou o dedo, como quem tem uma ideia brilhante: — A gente faz turno! Um dia você, um dia ela, um dia eu!
Dona Rita ajudou: — A Bia pode regar com um adulto. E a gente combina com outros vizinhos também.
Seu Zeca olhou para Dona Lúcia. — A senhora pode regar na terça?
Dona Lúcia olhou para Seu Zeca. — E o senhor na quarta?
Seu Zeca assentiu. — Combinado.
Dona Lúcia deu um sorriso pequeno, mas verdadeiro. — Combinado.
E Bia pulou: — Eu fico de sábado! Eu fico de sábado!
Pronto. Agora o Jardim Compartilhado tinha um combinado.
Os dias passaram. Cada dia alguém vinha com um regador. Água caía fazendo: plic-plic, plic-plic. As plantinhas foram ficando firmes. O manjericão soltou cheiro. O alecrim ficou verdinho.
E então, numa tarde, aconteceu o momento mais emocionante.
Bia chegou correndo com a bicicleta: trim-trim! Ela freou perto do canteiro e apontou com os dois braços, sem conseguir falar de tão animada.
Seu Zeca saiu do portão, curioso. — O que foi, menina?
Dona Lúcia também apareceu, limpando as mãos no avental. — Aconteceu alguma coisa?
Bia finalmente gritou: — NASCEU! NASCEU!
No canteiro, uma flor amarela tinha aberto. Era um girassol pequenininho, mas brilhante. Parecia uma bolinha de sol. Uma borboleta veio e pousou nele, bem devagar.
Todo mundo se aproximou. O vento bateu de leve e as folhas fizeram: shhh… shhh…
Seu Zeca ficou com os olhos molhados. — Olha só… ele acordou.
Dona Lúcia colocou a mão no peito. — Que coisa mais linda.
Bia falou baixinho, como se fosse segredo: — Ele é nosso. Nosso jardim.
Nesse instante, o céu ficou laranja. A rua inteira parecia sorrir.

Naquele mesmo fim de tarde, mais vizinhos chegaram para ver o girassol. O João padeiro trouxe pão quentinho. — Pão-pão! Quentinho!
A Dona Neide trouxe suco. — Suco de caju!
E o Seu Tião trouxe um banquinho. — Pra gente sentar e olhar.
Seu Zeca pegou um pedaço de papel e falou: — Vou fazer outra placa.
Dona Lúcia perguntou: — O que vai escrever?
Seu Zeca pensou e escreveu, com letra grande: “AQUI A GENTE CUIDA JUNTO.”
Dona Lúcia leu em voz alta. — A gente cuida junto…
Ela olhou para o Seu Zeca e disse: — Seu Zeca, o senhor sabe… eu achei que a gente nunca ia conversar.
Seu Zeca coçou o bigode e respondeu, meio sem jeito: — Eu também. Eu ficava quieto. A senhora ficava quieta.
Dona Lúcia deu uma risadinha. — E agora eu sei que o senhor gosta de girassol.
Seu Zeca respondeu: — E eu sei que a senhora tem sementes boas.
Bia entrou no meio dos dois, segurou a mão de um e a mão do outro. — Então agora vocês são amigos!
Os dois olharam para a Bia e riram. — Somos, sim — disseram juntos.
Com o tempo, o Jardim Compartilhado ficou maior. Tinha flor de um lado. Tinha temperinho do outro. Tinha uma plaquinha para cada coisa: “hortelã”, “cebolinha”, “manjericão”. E as crianças pintaram pedras coloridas para enfeitar.
Quando alguém passava pela rua, sentia cheiro bom e via cor. E sempre tinha alguém cuidando: regando, tirando matinho, conversando.
E sabe o que mudou mais?
Os “hum” foram embora.
Agora era assim: — Bom dia, Seu Zeca! — Bom dia, Dona Lúcia! — Bom dia, Bia!
E a rua ficou com som de gente junto. Som de amizade. Som de comunidade.
Numa manhã bem clara, Bia olhou para o jardim e falou: — Um jardim sozinho fica triste. Mas com todo mundo… ele fica feliz!
Dona Rita beijou a testa dela. — Isso mesmo, minha filha.
E o Jardim Compartilhado continuou ali, no meio da Rua do Ipê-Amarelo, lembrando a todos que quando a gente cuida junto, o mundo fica mais bonito, cheirosinho e amigo.
✨ Moral da História
“Quando cada pessoa ajuda um pouquinho, a comunidade vira um lugar mais bonito e cheio de amizade.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já viu um girassol bem amarelo?
- 2Se você tivesse um jardim, que flor você plantaria?
- 3Você gosta mais de regar com regador ou com balde?
- 4Quem você chamaria para cuidar do jardim com você?
- 5Você já sentiu cheiro de manjericão ou alecrim?
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