Amizade

O Time que Ninguém Queria

27 de janeiro de 202615 min de leitura6 a 8 anos0 visualizações

Crianças rejeitadas formam um time de futebol e mostram que união vale mais que talento individual.

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O Time que Ninguém Queria

Em um bairro alegre de Recife, onde o cheiro de bolo de rolo escapava das janelas e o vento do mar chegava mansinho pelas ruas, existia uma pracinha com um campinho de terra batida. O campinho não era grande, mas era famoso: ali os meninos e as meninas jogavam futebol toda tarde, com traves feitas de chinelo e linhas imaginárias desenhadas com o pé.

Lá morava Léo, um menino de sete anos, de cabelo encaracolado e bagunçado, como se o vento tivesse brincado com ele o dia inteiro. Léo era rápido para rir, mas também se magoava fácil. Ele gostava muito de futebol. Gostava mesmo! Só que, quando tentava driblar, a bola escapava; quando tentava chutar, às vezes acertava o chão antes da bola. E isso fazia com que ele fosse sempre o último a ser escolhido.

Numa terça-feira bem quente, o sol parecia uma moeda dourada no céu. Léo chegou ao campinho carregando sua bola meio gasta, com marcas de fita e carinho. Já havia um monte de crianças reunidas. Dudu, que era considerado “o craque”, organizava os times com um apito de brinquedo.

— Dois times! — anunciou Dudu, com o peito estufado. — Eu sou capitão de um. A Júlia é capitã do outro.

Júlia, uma menina de tranças longas e olhar atento, concordou.

— Vamos escolher rápido, que a sombra já vai embora — ela disse, apontando para um pedaço de sombra tímida perto de uma amendoeira.

Os nomes foram sendo chamados: Mateus, Bia, Caio, Nanda, Tiago… cada um correndo feliz para um lado. Léo ficou parado, segurando a bola, o coração batendo feito tambor.

— Falta quem? — Dudu perguntou, olhando em volta.

— O Léo… — alguém murmurou, e houve um silêncio que parecia uma nuvem pesada.

Dudu coçou a cabeça.

— Ah, Léo… hoje não. Vai atrapalhar.

Léo engoliu seco. A garganta parecia cheia de areia.

— Eu posso tentar… — ele falou baixinho.

— É melhor não — Júlia respondeu, sem maldade, mas com pressa. — A gente quer um jogo bom.

Léo sentiu os olhos arderem. Ele não queria chorar ali, na frente de todo mundo. Pegou sua bola e saiu andando devagar, como quem carrega um balde cheio de água para não derramar.

No caminho, perto do quiosque de tapioca da dona Rita, ele encontrou Mila, uma menina pequena, com óculos redondos e joelhos ralados.

— Ei, Léo… te cortaram de novo? — ela perguntou, franzindo a testa.

Léo deu de ombros.

— Eu atrapalho.

— Você não atrapalha. Só… não te dão chance — Mila respondeu, com aquela voz de quem guarda coragem dentro do bolso.

Mais adiante, perto de um muro pintado com grafites coloridos, estava Bento, um menino gordinho, sorriso largo, carregando uma garrafa de água.

— Não vai jogar? — Bento perguntou.

— Disseram que eu atrapalho — Léo repetiu.

Bento fez uma careta.

— Também falaram isso de mim semana passada. Que eu corro devagar.

De trás da amendoeira apareceu Rafa, um menino com uma perna mais curta e uma chuteira que era do irmão mais velho. Ele caminhava com um jeito diferente, mas os olhos dele brilhavam quando via uma bola.

— Eu ouvi… — Rafa disse, meio sem jeito. — Ninguém me escolhe também. Acham que eu caio fácil.

O grupo ficou em silêncio por um segundo. Um silêncio que não era pesado como antes. Era um silêncio de pensamento, como quando a gente olha para o mar e tenta entender as ondas.

Mila foi a primeira a falar:

— E se a gente fizer nosso próprio time?

Léo piscou, surpreso.

— Nosso time?

— É! — Bento animou-se. — Um time com quem sobra.

Rafa coçou a nuca.

— Mas… a gente nem tem uniforme.

Mila abriu a mochila e puxou quatro fitas coloridas.

— Minha mãe usa essas fitas pra amarrar presente. A gente amarra no braço e pronto. Somos um time.

Léo sentiu o coração esquentar, como se alguém tivesse acendido uma lanterninha dentro dele.

— E o nome? — ele perguntou.

Bento riu:

— “Os Sobrados!”

— Não! — Mila rebateu, fazendo cara de quem morde limão. — Parece comida.

Rafa pensou um pouco.

— E se for “O Time que Ninguém Queria”? Pra mostrar que… agora vão querer.

Léo sorriu pela primeira vez naquela tarde.

— Gostei.

E assim, ali mesmo, com fitas no braço e poeira no tênis, nasceu “O Time que Ninguém Queria”.

Na primeira semana, eles treinaram no canto mais vazio do campinho, quando os outros já estavam jogando. Léo aprendeu a passar a bola sem pressa, olhando para onde o colega estava. Mila, que era ótima em observar, virou “a estrategista”. Ela dizia:

— Bento, você fica mais perto do gol. Você é forte, dá pra segurar a bola.

Bento respondia com alegria:

— Pode deixar! Se a bola vier, eu viro parede!

Rafa treinava chutes de longe, apoiando o corpo e controlando a respiração.

— Um, dois… chuta — ele contava, concentrado.

E Léo, que sempre tentava fazer tudo sozinho, começou a entender uma coisa nova: jogar junto era mais fácil e mais bonito.

— Passa pra mim, Léo! — Mila gritava.

E ele passava, sentindo que a bola não era só dele. Era do time.

Um sábado, a praça ficou mais cheia. Tinha feira de artesanato e um homem vendendo picolé. No campinho, Dudu anunciou um pequeno torneio do bairro.

— Hoje vai ter jogo valendo! — ele disse. — Quem ganhar fica com a bola nova do seu Paulo!

Uma bola nova! Branquinha, com detalhes azuis, brilhando dentro de uma sacola.

Mila olhou para Léo, e Léo olhou para Rafa e Bento.

— A gente entra? — Léo perguntou.

Bento arregalou os olhos.

— Eles vão rir.

Rafa apertou a fita no braço.

— Podem rir. A gente vai jogar do nosso jeito.

Mila levantou a mão.

— Inscrição do “Time que Ninguém Queria”! — anunciou.

Algumas crianças riram mesmo.

— Que nome é esse? — Dudu zombou.

Júlia, mais séria, olhou o grupo de cima a baixo.

— Vocês têm certeza?

Léo respirou fundo.

— Tenho.

O sorteio foi rápido. E o destino, danado de curioso, colocou logo de cara: “Time do Dudu” contra “O Time que Ninguém Queria”.

O jogo começou com poeira subindo, gritos, chinelos marcando a trave e a bola correndo de um lado para o outro. No começo, foi difícil. Dudu e seus amigos eram rápidos, driblavam com facilidade.

— Tira! Tira! — Bento gritou, tentando defender.

— Calma! — Mila avisou. — Fecha o meio! Rafa, fica comigo!

Mesmo com esforço, o time do Dudu fez um gol. As crianças da arquibancada improvisada — um banco de cimento — vibraram.

Léo sentiu o medo tentar entrar de novo.

“E se eles estiverem certos? E se eu atrapalhar mesmo?”

Mas aí ele ouviu a voz de Rafa:

— Léo, olha pra mim. A gente treinou. Passa e corre.

Bento completou:

— E se errar, a gente tenta de novo. Junto.

Mila bateu palmas:

— Um gol de cada vez.

Eles recomeçaram. Léo roubou uma bola sem querer — foi mais um esbarrão do que um roubo — e, em vez de tentar correr sozinho até o gol, ele olhou para o lado. Mila estava livre.

— Mila! — Léo gritou e passou.

Mila dominou, segurou um segundo, e fez um passe redondinho para Bento, que estava perto da trave.

— Agora é comigo! — Bento avisou, com a perna tremendo um pouquinho.

Ele chutou… e a bola bateu na trave de chinelo.

— Ah não! — Bento lamentou.

Mas Rafa veio correndo, com seu jeito firme, e chutou de primeira.

Gol.

— GOOOOOL! — Mila gritou, pulando.

O empate deixou o jogo eletrizante. As pessoas começaram a prestar atenção. Até dona Rita largou a frigideira por um instante.

Faltando pouco para acabar, o time do Dudu conseguiu um escanteio. Era a última chance deles. Dudu colocou a bola no canto, sorriu confiante e disse alto:

— Agora vocês vão ver.

Ele bateu forte. A bola veio alta, rodopiando no ar. Tudo parecia acontecer em câmera lenta: a poeira, o sol, os olhos atentos.

Léo, que estava marcando perto do gol, viu a bola descer bem na direção do atacante do outro time. Se ele cabeceasse, seria gol certo.

Nesse instante, Léo tomou uma decisão rápida: ele não tentou ser o herói sozinho. Ele gritou:

— RAFA! COMIGO!

Rafa correu para fechar o espaço, Mila correu para cobrir a lateral, e Bento se plantou como “parede” bem na frente do gol.

A bola desceu. O atacante pulou.

Léo pulou também, com o coração batendo tão alto que parecia apito. Ele não era o melhor cabeceador… mas ele estava no lugar certo, na hora certa, porque o time inteiro se mexeu junto.

Ilustração da história O Time que Ninguém Queria

A bola bateu na testa de Léo e desviou. Não foi um desvio perfeito, nem elegante. Foi um desvio valente. Ela caiu nos pés de Mila, que já estava preparada.

— Corre! — Mila gritou.

Ela tocou para Rafa, Rafa tocou para Léo, e Léo correu, sentindo o vento no rosto e a poeira subir nos calcanhares. Dudu veio tentar tirar.

— Você não vai passar! — Dudu disse, sério.

Léo olhou para Bento, que estava livre do outro lado, e pensou: “Junto é melhor.”

— Toma, Bento! — Léo passou, com cuidado.

Bento dominou, respirou fundo como Mila ensinara, e chutou com toda a força do seu coração.

A bola entrou entre os chinelos.

Gol.

O apito de brinquedo soou, e o jogo acabou: “O Time que Ninguém Queria” venceu.

Por um segundo, ninguém falou nada. Depois, o campinho explodiu em vozes.

— Eles ganharam! — alguém gritou.

— Como assim? — outro respondeu, espantado.

Bento abraçou Léo tão forte que quase derrubou os dois.

— Eu fiz gol! Eu fiz gol! — ele repetia, com o rosto vermelho de alegria.

Rafa sorriu do jeito mais quieto e bonito.

— Foi o passe — ele disse. — Foi o time.

Mila ajustou os óculos, tentando esconder que estava emocionada.

— Eu disse… um gol de cada vez.

Dudu se aproximou, sem aquele ar de capitão mandão. Ele olhou para a equipe e, bem baixinho, falou:

— Vocês jogaram… de verdade.

Júlia, com as tranças balançando, completou:

— Vocês jogaram juntos.

Seu Paulo entregou a bola nova para o grupo. A bola parecia ainda mais brilhante nas mãos deles.

Léo segurou a bola e olhou para os amigos.

— Essa bola não é minha — ele disse. — É nossa.

Naquela tarde, o sol começou a baixar, dourando a praça e deixando o céu com cor de manga madura. O campinho, que antes parecia um lugar de rejeição para Léo, agora era um lugar de coragem.

E quando alguém perguntou, no meio das risadas:

— E amanhã? Vocês vão jogar de novo?

Mila respondeu, olhando para todos:

— Amanhã, e depois, e depois. Porque agora ninguém joga sozinho.

E foi assim que “O Time que Ninguém Queria” descobriu que talento ajuda, claro… mas união faz milagre em qualquer campinho de terra batida.

✨ Moral da História

Quando a gente joga junto, com respeito e ajuda, a força do time pode ser maior do que o talento de uma pessoa só.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Como o Léo se sentiu quando não foi escolhido para jogar no começo da história?
  • 2O que a Mila teve de importante para ajudar o time, mesmo sem ser a mais rápida?
  • 3Por que o Léo decidiu passar a bola em vez de tentar fazer tudo sozinho?
  • 4Se você estivesse no lugar do Bento quando a bola bateu na trave, o que faria para não desistir?
  • 5Que atitude você pode ter na escola ou na brincadeira para fazer seu grupo ficar mais unido?

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Raposinha

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