Amizade

A Carta que Atravessou o Brasil

27 de janeiro de 202615 min de leitura9 a 12 anos1 visualizações

Uma menina de Manaus e um menino de Porto Alegre se tornam amigos por carta e aprendem sobre as riquezas de cada região.

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A Carta que Atravessou o Brasil

Lia tinha onze anos e morava em Manaus, numa rua onde o calor parecia ter endereço certo: às três da tarde, o asfalto brilhava como se fosse vidro. Da janela do quarto, ela via o topo das samaumeiras do quintal do vizinho e, quando o vento ajudava, conseguia sentir o cheiro do rio — uma mistura de água, barro e folhas molhadas que, para ela, era o perfume de casa.

Na escola municipal onde estudava, a professora Sônia entrou na sala com um sorriso de quem escondia segredo.

— Turma, hoje começa o nosso projeto “Brasil em Cartas”. Cada um vai trocar correspondência com uma criança de outra região. Vocês vão falar do lugar onde vivem, do que gostam, do que acham difícil, do que têm orgulho… e vão aprender a fazer perguntas de verdade — daquelas que abrem a cabeça.

As crianças se mexeram nas cadeiras. Alguns comemoraram, outros ficaram desconfiados. Lia sentiu o estômago apertar, como quando a gente vai atravessar uma ponte alta e não sabe se olha para baixo.

“E se eu não souber o que escrever?”, pensou. Ela gostava de ler, gostava de desenhar, mas colocar a própria vida em palavras parecia um desafio enorme.

No fim da aula, a professora chamou Lia.

— O seu par é um menino de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O nome dele é Tomás.

Lia repetiu mentalmente: “Porto Alegre”. Soou distante, quase estrangeiro. Ela imaginou um lugar frio, com gente de casaco, e sentiu curiosidade.

Em casa, sentou à mesa da cozinha. A mãe, dona Selma, picava cheiro-verde e cantarolava. O pai, seu Raimundo, consertava uma cadeira com paciência. Lia abriu um caderno, rasgou uma folha e escreveu no alto: “Manaus, Amazonas”. Depois travou.

— Mãe… como é que eu conto quem eu sou sem parecer boba? — perguntou.

Dona Selma enxugou as mãos no pano e se aproximou.

— Você começa pelo que vê todos os dias. E pelo que sente. O resto vem.

Lia respirou fundo e escreveu:

“Olá, Tomás. Meu nome é Lia, tenho 11 anos e moro em Manaus. Aqui o calor é forte, mas a gente aprende a conviver com ele como quem aprende a conviver com um parente barulhento: reclamando às vezes, mas no fundo gostando. Da minha janela eu vejo árvores altas e, quando chove, o mundo fica verde brilhante. Eu gosto de desenhar pássaros, especialmente o uirapuru, que dizem que canta como se fosse magia.

Quero saber como é a sua cidade. É verdade que aí faz frio de verdade? O que você vê da sua janela?

Abraços, Lia.”

Ela dobrou a carta com cuidado, como se dobrasse um pedaço do próprio coração, colocou no envelope e escreveu o endereço com capricho. No dia seguinte, foi com a professora até a agência dos Correios. Ver o envelope desaparecer pela fenda da caixa de postagem deu uma sensação estranha: como se ela tivesse soltado uma garrafa no rio, esperando que alguém, lá longe, a encontrasse.

Uma semana passou. Depois outra. Lia já começava a achar que a carta tinha se perdido no caminho do Brasil — um país enorme que, de repente, parecia ainda maior.

Até que, numa terça-feira, a professora Sônia entrou na sala segurando um monte de envelopes. Chamou nomes um por um. Quando disse “Lia”, o coração dela deu um salto.

O envelope vinha com selo diferente, letras inclinadas e uma marca de chuva seca numa das pontas.

Ela abriu com cuidado e leu:

“Oi, Lia! Eu sou o Tomás, tenho 12 anos e moro em Porto Alegre, perto de uma praça onde tem um lago e uns patos que parecem donos do lugar. Da minha janela eu vejo o céu mudando toda hora: às vezes azul, às vezes cinza, e tem dias em que parece que o vento quer empurrar as nuvens para longe.

Sim, aqui faz frio mesmo. No inverno eu uso casaco grosso e tomo chimarrão com meu pai. Talvez você ache estranho, mas a gente divide uma cuia e vai passando a bomba. É um costume que deixa todo mundo mais junto.

Eu nunca vi uma floresta como você descreveu. Aqui tem árvores, mas não é essa coisa gigante e viva que você fala. Me conta mais do rio. Ele parece um mar?

Abraço, Tomás.”

Lia releu duas vezes. Chimarrão. Cuia. Bomba. Parecia código secreto. Ao mesmo tempo, era a vida de uma pessoa real, com patos e vento e um pai que passava a cuia.

Naquela tarde, ela respondeu. Contou do Encontro das Águas, onde o Rio Negro e o Solimões correm lado a lado sem se misturar por um bom tempo, como dois irmãos teimosos. Contou do Mercado Adolpho Lisboa, com suas frutas cheirosas — cupuaçu, taperebá, graviola — e dos barcos que chegam de longe carregando pessoas e histórias.

Tomás respondeu contando do Guaíba, do pôr do sol alaranjado que fazia a cidade toda ficar em silêncio por alguns minutos, e do medo que ele tinha de falar em público na escola, porque sua voz tremia.

Foi aí que Lia percebeu: não era só uma troca de paisagens. Era uma troca de coragens.

Com o tempo, as cartas ficaram mais profundas. Lia falou da sua dúvida de identidade: às vezes se sentia “muito de Manaus” para ser entendida por quem vinha de fora, mas “não suficiente” quando alguém dizia que amazônida era tudo igual.

— Parece que querem colocar a gente numa caixa — escreveu.

Tomás respondeu:

— Aqui também tem isso. Tem gente que acha que todo gaúcho é igual: ou “valente”, ou “fechado”, ou “mandão”. Eu fico pensando se a gente não pode ser mais do que o estereótipo. Eu gosto de poesia e tenho medo de briga. Isso não me faz menos gaúcho.

Lia guardou essa frase como quem guarda um amuleto.

O projeto da professora Sônia pedia mais do que amizade: pedia responsabilidade. As cartas seriam usadas numa feira cultural. Cada dupla deveria apresentar um painel comparando as regiões e, principalmente, discutir um problema real do Brasil.

Na sala, surgiram temas: desigualdade, transporte, acesso à água, queimadas, lixo nos rios.

Lia e Tomás decidiram falar sobre a preservação das águas. Lia porque o rio era parte do seu dia; Tomás porque o Guaíba, que ele via brilhando ao entardecer, às vezes aparecia com espuma e cheiro ruim.

Só que, numa sexta-feira, aconteceu algo que deixou Lia com raiva e um nó na garganta. Ela foi ao igarapé perto da escola — um lugar onde antes havia peixinhos pequenos — e viu sacolas, garrafas e até um pneu preso na margem.

— Não é possível… — murmurou.

Em casa, escreveu a Tomás com as mãos tremendo:

“Hoje eu vi o igarapé cheio de lixo. Fiquei com vergonha e com raiva. Às vezes parece que a gente ama a natureza só na fala. O que adianta dizer ‘Amazônia é linda’ se a gente trata assim o que está perto?”

A resposta de Tomás veio rápida:

“Eu entendo. Aqui perto de casa, depois de um jogo no estádio, a praça fica suja. Eu já culpei só ‘os outros’, mas percebi que eu também passo e finjo que não vejo. Talvez a coragem não seja só enfrentar o frio ou o calor. Talvez seja enfrentar o próprio comodismo.”

Lia ficou pensando na palavra: comodismo. Parecia uma pedra no sapato. Dava vontade de tirar.

Na semana seguinte, a professora anunciou:

— Para a feira cultural, cada dupla vai apresentar uma ação concreta, além do painel. Algo pequeno, mas verdadeiro.

Lia sentiu o peso bom da responsabilidade. Não bastava falar bonito. Era preciso fazer.

Ela teve uma ideia e escreveu para Tomás:

“E se a gente organizar, cada um na sua cidade, um mutirão de limpeza e uma campanha de cartas para a prefeitura? A gente mostra que crianças podem participar de decisões.”

Tomás respondeu:

“Fechado. Vou falar com a associação de moradores e com a diretora. A gente pode recolher assinaturas também.”

Em Manaus, Lia chamou duas amigas, Yasmin e Joana, e conversou com o pai.

— Pai, você me ajuda a pedir autorização para a escola? — perguntou.

Seu Raimundo olhou para ela com um orgulho quieto.

— Ajudo. Mas você sabe que vai dar trabalho, né?

— Eu sei. E é por isso mesmo.

No sábado do mutirão, o sol abriu cedo, sem piedade. Mesmo assim, chegaram alunos, pais, vizinhos. A professora Sônia apareceu com luvas, sacos pretos e uma prancheta.

— Hoje vocês vão ver que cidadania não é só matéria de prova — disse.

Lia foi até a beira do igarapé. O cheiro do lixo era forte, e por um instante ela teve vontade de desistir. “É grande demais”, pensou. “Eu sou pequena demais.”

Então lembrou da carta de Tomás: enfrentar o comodismo.

Ela puxou as luvas e entrou no mato baixo, desviando de galhos. Achou uma garrafa enfiada na lama e puxou com força. Veio junto um saco plástico e, por trás, apareceu uma tartaruguinha pequena, presa numa linha de pesca. Ela se debatia, desesperada, como se o mundo tivesse virado armadilha.

— Gente! Aqui! — Lia gritou, com o coração disparado.

A professora Sônia correu. Yasmin e Joana vieram atrás.

— Calma, Lia. Respira. Vamos tirar devagar — orientou a professora.

Lia segurou a tartaruguinha com cuidado, sentindo o casco úmido e frio, enquanto a professora cortava a linha com uma tesourinha.

A tartaruguinha parou de se debater por um segundo, como se percebesse que aquelas mãos não eram inimigas.

Ilustração da história A Carta que Atravessou o Brasil

— Pronto… foi — disse a professora, soltando o último pedacinho de linha.

A tartaruguinha mexeu as patas, hesitou, e então escorregou para a água mais limpa, sumindo entre as folhas. Lia sentiu um calor diferente no peito, mais forte do que o sol: um alívio que parecia também uma promessa.

— Eu achei que não ia dar — ela confessou, com a voz embargada.

— Dar dá, quando a gente não finge que não vê — respondeu a professora.

Na mesma manhã, em Porto Alegre, Tomás também fazia seu mutirão na praça perto do lago. Ele escreveu depois, descrevendo como encontrou um ninho de passarinho caído e, ao lado, restos de lanche e plástico.

“Eu senti raiva”, ele contou, “mas também senti que raiva sozinha não limpa nada. A gente juntou tudo e depois fizemos cartazes. Eu falei em público, Lia. Minha voz tremeu, mas eu falei. E ninguém riu.”

Quando chegou a feira cultural, o painel de Lia e Tomás tinha duas partes, como se fosse um mapa costurado por palavras: de um lado, o verde profundo de Manaus; do outro, o céu ventado de Porto Alegre. No meio, uma faixa dizia: “Águas do Brasil: o que nos separa e o que nos une”.

Eles também expuseram cópias das cartas — com autorização — e uma lista de propostas para as prefeituras: mais lixeiras, campanhas educativas, fiscalização de despejo irregular, projetos de recuperação de margens.

Na hora da apresentação, Lia leu um trecho:

— “O Brasil não é só um lugar no mapa. É um monte de vidas que se encostam. Se uma parte adoece, a outra sente.”

Tomás, do outro lado do país, fez a mesma leitura na escola dele, no mesmo dia, no mesmo horário combinado. Era como se as vozes se encontrassem no ar.

Depois da feira, Lia recebeu uma última carta do semestre. Tomás escreveu:

“Eu achava que amizade era só ter alguém para jogar bola ou sentar no recreio. Agora eu sei que amizade também é ter alguém que me lembra do que é certo. Quando eu passo pela praça, eu penso no igarapé. E quando você olha o rio, talvez pense no Guaíba. A gente virou ponte.”

Lia dobrou a carta e guardou numa caixa onde já havia outras, todas com cheiros diferentes — papel, tinta, chuva, tempo. Ela foi até a janela. As árvores balançavam, e um passarinho cantou, pequeno e insistente.

Ela pensou que o Brasil era mesmo grande, mas não precisava ser distante. Às vezes, bastava uma carta atravessando estradas, rios e ventos para costurar o país por dentro — com perguntas, com respeito, com atitude.

E Lia, que antes tinha medo de não saber o que dizer, agora sabia uma coisa com certeza: quando a gente escreve com verdade, a gente também aprende a viver com mais coragem.

✨ Moral da História

Amizade e cidadania crescem quando a gente conhece o outro, respeita as diferenças e transforma preocupação em atitude concreta.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1O que mudou em Lia e em Tomás ao longo das cartas, e por que essa mudança é importante para a vida real?
  • 2Em que momentos eles mostraram responsabilidade e coragem? Você acha que coragem pode ser algo silencioso, como não fingir que não viu um problema?
  • 3Como a história combate estereótipos sobre regiões do Brasil? Que estereótipo você já ouviu e acha injusto?
  • 4Se você fosse escrever uma carta para alguém de outra região, o que contaria sobre o seu lugar e o que perguntaria para conhecer melhor a vida da outra pessoa?
  • 5O mutirão resolveu tudo de uma vez? O que a história sugere sobre como mudanças grandes podem começar com ações pequenas?

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