A Menina do Acordeom e o Menino do Pandeiro
Dois músicos infantis de estilos diferentes aprendem que a melhor música nasce quando as diferenças se encontram.

No bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, as tardes de sábado tinham um jeito especial de brilhar. O sol fazia os telhados cintilarem, as árvores balançavam preguiçosas e, lá na praça, o cheiro de milho cozido e pipoca doce se misturava com o barulhinho dos passarinhos.
Foi numa dessas tardes que duas músicas diferentes começaram a passear pelo ar, como se fossem duas pipas querendo ocupar o mesmo céu.
De um lado da praça, sentada no banco perto do coreto, estava **Lia**, uma menina de sete anos com olhos atentos e uma trança comprida balançando nas costas. No colo, ela segurava seu acordeom vermelho, que parecia um pequeno baú mágico com fole de sanfona. Quando Lia apertava as teclas, saíam sons cheios de saudade e alegria, como música de festa de interior.
— Hoje eu vou treinar “Xote da Janela”, — ela murmurou, ajeitando a correia no ombro. — Um, dois… um, dois…
O acordeom respirava junto com ela: abre, fecha… abre, fecha… E as notas iam desenhando no ar um caminho de papel colorido.
Do outro lado da praça, perto da barraca de caldo de cana, estava **Davi**, um menino de oito anos com cabelo encaracolado e sorriso ligeiro. Ele tinha um pandeiro bem cuidado, com platinelas que brilhavam como moedinhas. Davi era do tipo que não conseguia ouvir um silêncio sem querer preenchê-lo.
— Tá, pandeiro… vamos no samba! — ele disse, batendo de leve com os dedos. — Tum-tchá, tum-tchá…
Seu ritmo era esperto, pulava e girava. Parecia convidar os pés de todo mundo a dançar, até os pombos davam passinhos desconfiados.
Por alguns minutos, a praça ficou dividida: de um lado, o acordeom com seu jeitão de festa junina; do outro, o pandeiro com seu gingado de roda de samba.
Até que Dona Marlene, a organizadora da **Feirinha Cultural de São Cristóvão**, apareceu com uma prancheta na mão e um chapéu de palha na cabeça.
— Crianças! — ela chamou, batendo palmas para juntar atenção. — Este ano vamos ter o **Concurso da Canção da Praça**. Quem ganhar toca no palco principal, com microfone e tudo!
Os olhos de Lia brilharam.
— Eu quero! — disse ela, levantando o acordeom um pouquinho, como se ele também estivesse animado.
Davi ergueu o pandeiro.
— Eu também! Vai ser massa!
Dona Marlene sorriu.
— Só tem uma novidade: a canção precisa representar a praça inteira. Isso significa… uma música com mais de um ritmo, mais de uma cor. — Ela olhou de Lia para Davi. — Quem sabe vocês dois tentam juntos?
Lia e Davi se encararam, como quem olha para uma comida que nunca provou.
— Juntos? — Lia franziu o nariz. — Mas acordeom é… é diferente.
— Pandeiro também! — Davi respondeu, meio na defensiva. — E eu não sei tocar essas músicas de… de “abre e fecha”.
Lia apertou o acordeom, como se ele fosse um escudo.
— Sanfona tem melodia. Tem história.
Davi bateu no couro do pandeiro com orgulho.
— Pandeiro tem ritmo. Tem coração!
Dona Marlene levantou a prancheta.
— Então tá combinado: vocês têm uma semana para apresentar a música. Se não der certo, vocês concorrem separados… mas seria uma pena, né?
Ela saiu andando, deixando no ar uma missão que parecia grande demais para dois instrumentos teimosos.
Na primeira tentativa, na segunda-feira, Lia e Davi se encontraram perto do coreto. O vento levava folhas secas de um lado para o outro, como se também estivesse indeciso.
— Você começa, — disse Lia, sentando-se no banco.
Davi cruzou os braços.
— Não, você.
Lia respirou fundo, abriu o fole e tocou uma sequência bonita, com notas que lembravam um caminho de terra e bandeirinhas coloridas.
Davi ouviu, balançando a cabeça.
— É… bonito. Mas é lento. Como eu vou entrar aí?
— Você entra… suave, — respondeu Lia, tentando ser paciente.
Davi tentou. Bateu leve: “tum… tum…”. Mas o som saiu tímido, e Lia se atrapalhou.
— Assim não! Você tá bagunçando minha música!
— Bagunçando? — Davi arregalou os olhos. — Eu tô tentando! Mas você fica puxando o ar do instrumento como se fosse um suspiro gigante!
Lia fechou o acordeom de uma vez.
— Ele precisa respirar.
— Eu também preciso! — Davi respondeu, e o pandeiro tilintou nervoso.
Na terça, eles tentaram o contrário: Davi começou com um ritmo rápido, animado. Lia tentou colocar melodia por cima. Mas o acordeom parecia correr atrás do pandeiro e não alcançar.
— Tá vendo? — Davi disse. — Você não acompanha.
— Eu acompanho sim! — Lia respondeu, já com o rosto quente. — Só que você vai rápido demais!
Na quarta, choveu. A praça ficou com cheiro de terra molhada e guarda-chuvas coloridos. Lia e Davi se abrigaram sob o toldo de uma banca fechada. Eles nem tocaram.
Ficaram olhando a água cair, cada um segurando seu instrumento como quem segura uma opinião.
Foi quando um senhor que vendia cordéis perto dali passou e comentou:
— Sabe, eu vi vocês brigando esses dias. Música é que nem conversa: se um fala por cima do outro, ninguém entende. Mas se um escuta, o outro responde… aí vira coisa bonita.
Lia e Davi se olharam, sem saber se estavam com vergonha ou pensando.
Na quinta-feira, Lia chegou mais cedo e colocou o acordeom no colo com cuidado.
— Davi… — ela começou, com a voz menor. — Eu acho que eu fico querendo mandar na música.
Davi chutou uma pedrinha e segurou o pandeiro.
— Eu também. Eu quero que tudo tenha meu ritmo. — Ele coçou a cabeça. — E se a gente fizer uma música que tenha duas partes? Tipo… uma estrada que passa por dois lugares.
Lia mordeu o lábio, imaginando.
— Uma parte pode ser xote… e a outra, samba.
— E no meio, a gente mistura! — Davi completou, animando-se.
Eles decidiram fazer um teste diferente: antes de tocar, iam **escutar**.
Lia ensinou a Davi a contar devagar:
— Um, dois… um, dois…
E Davi mostrou para Lia como o pandeiro podia ser leve, como uma borboleta, se ele usasse só a ponta dos dedos.
— Assim, ó: tchá… tchá…
Na sexta, já dava para perceber que as notas e os ritmos estavam deixando de ser inimigos e começando a ser vizinhos.
— Davi, faz o “tum-tchá” bem baixinho, como se fosse alguém batendo na porta, — Lia pediu.
— Tá. E você toca a melodia como se fosse alguém abrindo a janela, — ele respondeu.
E, de repente, a música pareceu ganhar imagem: alguém batendo na porta, alguém abrindo a janela, e a praça inteira entrando para dançar.
No sábado chegou o dia do concurso. A praça estava enfeitada com fitas, bandeirinhas e balões. Crianças corriam com algodão-doce na mão. O coreto tinha luzinhas penduradas. O coração de Lia batia como se tivesse platinelas; o de Davi pulsava como um fole abrindo e fechando.
Nos bastidores, Dona Marlene apareceu.
— E aí, dupla? Prontos?
Lia engoliu em seco.
— Tô… acho que tô.
Davi tentou sorrir.
— Se eu errar, você me espera.
Lia apertou de leve a alça do acordeom.
— Se eu me perder, você me chama no ritmo.
Subiram ao coreto. O microfone parecia enorme. A plateia fez um silêncio que dava para ouvir até o farfalhar das bandeirinhas.
Lia olhou para Davi.
— Um, dois… — ela sussurrou.
Davi levantou o pandeiro.
— Um, dois… três!
Eles começaram com um xote macio. Lia puxou o fole e as notas saíram como uma estrada de luz. Davi entrou baixinho, “tchá… tchá…”, como quem respeita o passo do outro.
Mas então, na parte da mistura, quando o ritmo precisava crescer, o vento soprou mais forte e uma bandeirinha se soltou, voando bem na direção do acordeom. O papel colorido bateu nas teclas e ficou preso na correia.
Lia arregalou os olhos.
— Ai! — ela sussurrou, e por um segundo suas mãos travaram.
O som falhou. A plateia murmurou. O coração de Lia pareceu despencar no chão do coreto.
Davi viu o desespero no rosto dela e tomou uma decisão rápida. Ele chegou mais perto, inclinou o corpo e fez um ritmo firme, bem marcado, como uma corda segurando alguém que escorrega.
— Tum-tchá, tum-tchá! — o pandeiro soou forte, chamando a música de volta.
Lia respirou. Ela olhou para a bandeirinha presa, não dava tempo de tirar. Então fez outra escolha: usou só as teclas que estavam livres e transformou o erro em improviso.
As notas ficaram diferentes, mas bonitas, como um caminho que faz curva para desviar de uma poça.
Davi sorriu com os olhos.
— Isso! Agora! — ele cochichou.
E, no instante mais emocionante, os dois entraram juntos na parte misturada: o acordeom cantando alto, o pandeiro brilhando no ritmo, e a música crescendo como fogos de artifício invisíveis.

A praça inteira pareceu acordar de uma vez. Teve criança batendo palmas, teve gente rodopiando, teve senhorzinho arrastando o pé como em festa junina e, ao mesmo tempo, gingando como em samba. Era como se a praça tivesse encontrado um jeito de ser duas coisas ao mesmo tempo.
Quando terminaram, houve um segundo de silêncio — aquele silêncio que existe antes da alegria explodir — e então a plateia aplaudiu com força. Lia sentiu as bochechas quentes. Davi levantou o pandeiro no alto.
Dona Marlene subiu ao coreto e falou no microfone:
— Essa canção é a cara da nossa praça! Aqui tem de tudo: tem xote, tem samba, tem gente diferente, e todo mundo cabe. — Ela olhou para os dois. — Parabéns, Lia e Davi!
Lia olhou para o acordeom e, com cuidado, tirou a bandeirinha presa.
— Acho que… até a bandeirinha quis participar, — ela disse, rindo.
Davi gargalhou.
— Se ela tivesse pandeirinho, eu deixava!
Na volta para casa, caminhando devagar entre as barracas, Lia falou:
— Eu aprendi que música não é só eu tocar bonito.
Davi completou:
— É tocar junto. É escutar.
Lia assentiu.
— E quando dá errado… a gente pode transformar.
Davi deu um tapinha carinhoso no pandeiro.
— Igual hoje. Você fez curva e eu fiz ponte.
E assim, na praça de São Cristóvão, uma menina do acordeom e um menino do pandeiro descobriram que as diferenças, quando se encontram com respeito, viram a melhor parte da canção.
✨ Moral da História
“Quando a gente escuta o outro e respeita as diferenças, é possível criar algo muito mais bonito juntos do que sozinho.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que Lia e Davi brigaram nas primeiras tentativas de tocar juntos?
- 2O que Davi fez quando a bandeirinha atrapalhou o acordeom da Lia no palco?
- 3Se você estivesse no lugar da Lia e errasse uma parte da música, o que você faria?
- 4Como você acha que Lia se sentiu quando percebeu que o pandeiro ajudou a música voltar?
- 5Que outra dupla de coisas diferentes (na escola ou em casa) poderia trabalhar bem junta, como o acordeom e o pandeiro?
O que achou desta história?
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