A Trilha das Sete Cachoeiras
Um grupo de amigos segue uma trilha misteriosa e aprende que a jornada importa mais que o destino.
A Trilha das Sete Cachoeiras
O sol da manhã escorria dourado por cima das montanhas da Serra do Mar, como se alguém tivesse derramado mel no céu. Na pequena vila de Pedra Clara, as casas tinham varandas com redes coloridas, cachorros cochilavam na sombra e o cheiro de pão de queijo recém-saído do forno passeava pela rua principal.
Foi ali, perto da praça da igrejinha, que quatro amigos se encontraram com o coração pulando de curiosidade.
Lia tinha sete anos, cabelo cacheado preso num rabo de cavalo, e olhos atentos que pareciam notar tudo: a formiga carregando folha, a nuvem com formato de peixe, a expressão das pessoas quando ouviam uma notícia. Caio, da mesma idade, era magro e rápido, daqueles que falavam enquanto já estavam dando o próximo passo. Bia era um pouco mais nova, seis anos, com uma risada que vinha antes das palavras, e uma mochila cheia de coisinhas “importantíssimas” (como elástico, balinha de gengibre e um caderninho). E Dudu, sete anos, tinha um jeito calmo e observador; andava com um apito pendurado no pescoço e dizia que era “pra emergência”, embora ninguém soubesse exatamente qual.
Eles estavam reunidos em frente ao mercadinho do seu Ari, quando Dona Zica, a senhora que vendia cocada e sabia histórias de todo lugar, apareceu com um papel dobrado.
— Vocês gostam de aventura? — ela perguntou, com um sorriso de canto, como quem guarda um segredo.
— A gente gosta! — Caio respondeu, sem nem respirar direito.
Dona Zica abriu o papel e mostrou um desenho antigo. Era um mapa, com linhas tortas e símbolos: uma pedra que parecia um rosto, uma árvore enorme, uma ponte de madeira e… sete gotinhas desenhadas, uma atrás da outra.
— A Trilha das Sete Cachoeiras — ela disse. — Dizem que quem chega na sétima cachoeira encontra algo especial.
Os quatro se aproximaram como se o mapa fosse um tesouro.
— Algo especial tipo… ouro? — Bia perguntou, os olhos brilhando.
— Ou uma pedra preciosa! — Caio sugeriu.
Lia franziu a testa, curiosa.
— E se for uma mensagem? — ela imaginou.
Dudu, mais quieto, passou o dedo pelo desenho das gotinhas.
— Sete cachoeiras é bastante. A gente precisa de plano — falou.
Dona Zica riu baixinho.
— Plano é bom. E respeitar a trilha também. Levem água, chapéu e… ouçam a mata.
Seu Ari, do mercadinho, ouviu a conversa e saiu com um cantil emprestado.
— Se forem mesmo, voltem antes de escurecer. E nada de ir sozinho — disse, sério, mas com carinho.
Combinado o horário e com a autorização dos pais, os quatro partiram. A trilha começava atrás da vila, perto de um morro coberto por samambaias grandes, que pareciam mãos verdes acenando.
Logo no começo, a mata cheirava a terra molhada e folhas amassadas. O caminho era estreito, com pedrinhas redondas e raízes que faziam cócegas no tênis.
— Primeiro desafio: não tropeçar! — Caio brincou, dando um pulinho.
— E não correr demais — Lia lembrou, segurando o mapa.
Depois de alguns minutos, ouviram um som de água distante, como um tambor bem suave. Entre duas pedras lisas, apareceu a Primeira Cachoeira: pequena, mas alegre, caindo em um poço transparente onde a luz fazia pontinhos prateados.
— Uau! — Bia suspirou. — Parece que a água tá cantando.
Dudu se abaixou, tocou a água geladinha e sorriu.
— Tá cantando mesmo. E tá falando: “não esqueçam de beber água também!”
Eles riram e beberam um pouco do cantil. Lia fez uma marca no mapa com o lápis da Bia.
— Uma cachoeira. Faltam seis — ela anunciou.
O caminho ficou mais íngreme. De repente, chegaram a uma bifurcação: um caminho à esquerda, com capim alto, e outro à direita, mais batido, com pegadas.
— Eu acho que é por aqui, pela direita — disse Caio, já apontando.
— Mas olha o mapa — Lia falou, inclinando o papel. — Depois da Primeira Cachoeira, tem a “Pedra-Rosto”. E no desenho ela fica do lado esquerdo.
Bia arregalou os olhos.
— Pedra que parece rosto? Quero ver!
Dudu olhou os dois caminhos com calma.
— Se a gente errar, a gente volta. Mas é melhor pensar agora pra não cansar à toa.
Eles respiraram, observaram as árvores e, seguindo o mapa, escolheram a esquerda. O capim fazia “shhh” nas pernas, e pequenas borboletas amarelas passavam como bilhetinhos voadores.
Pouco depois, encontraram a Pedra-Rosto: uma rocha enorme com dois buracos parecendo olhos e uma rachadura como boca, bem no meio.
— Ela tá fazendo careta! — Bia gargalhou.
— Ou tá avisando: “não sejam apressados”! — Lia respondeu, meio brincando, meio séria.
O som da água cresceu de novo. A Segunda Cachoeira era mais alta, com espuma branca batendo em pedras escuras. O vento trazia gotinhas que refrescavam o rosto.
— Aqui já dá pra sentir que a trilha tá ficando de verdade — disse Caio, impressionado.
— A trilha sempre foi de verdade — Dudu respondeu. — A gente que tá aprendendo a ver.
Seguiram adiante. O terceiro trecho tinha uma ponte de madeira fininha sobre um riacho. A ponte rangia “crec, crec” e balançava um pouco.
Bia parou na frente e segurou as alças da mochila.
— Eu… eu não sei se consigo — confessou, baixinho.
Caio olhou para a água correndo embaixo, rápida.
— Vai dar certo, Bia! É só correr.
— Correr não — Lia disse, firme. — Se balançar mais, fica mais difícil.
Dudu respirou e tirou o apito do pescoço.
— Não precisa apitar. Mas eu posso ir primeiro, bem devagar. Aí você olha meus passos.
Ele atravessou com cuidado, apoiando o pé no meio das tábuas e segurando no corrimão de corda. Do outro lado, estendeu a mão.
— Agora você, Bia. Um passo de cada vez.
Bia foi, tremendo um pouco, mas olhando para frente. No meio, a ponte balançou e ela fechou os olhos.
— Eu tô com medo! — disse.
— Você tá indo bem — Lia incentivou. — Olha pra minha voz. Só mais dois passos!
Com o coração batendo forte, Bia chegou ao final e abraçou Dudu.
— Eu consegui! — falou, com um sorriso que parecia maior que ela.
A Terceira Cachoeira apareceu logo depois, escondida num corredor de pedras. A água caía em fios finos, como cabelo brilhante.
— Três cachoeiras — Lia marcou no mapa. — E a gente já passou por uma ponte.
Caio coçou a cabeça.
— Eu pensei que a melhor parte era a sétima… mas essa aqui já é incrível.
O caminho seguinte trouxe o quarto desafio: o céu escureceu um pouco e uma garoa fina começou, cheirando a nuvem.
— E agora? — Bia perguntou, colocando a mão na cabeça.
Dudu apontou para uma árvore grande, com folhas largas.
— Dá pra esperar ali. E a gente pode usar as capas de chuva.
Eles se abrigaram sob a árvore. A garoa fazia música nas folhas, “tic-tic-tic”. Enquanto esperavam, Bia abriu o caderninho e desenhou as três cachoeiras.
— Vou mostrar pro meu pai e ele vai achar que é sonho — ela disse.
Lia observou como a chuva mudava a floresta: o verde ficava mais escuro, o cheiro mais forte, e até os passarinhos pareciam falar mais baixo.
Quando a garoa passou, a trilha estava mais escorregadia. Eles caminharam com atenção até a Quarta Cachoeira, que tinha uma pedra lisa como um escorregador ao lado.
— Sem escorregar de verdade, hein! — Lia avisou.
Caio riu.
— Eu prometo… só olhar.
A Quinta Cachoeira era a mais barulhenta até então, caindo com força num poço fundo, onde a água rodopiava.
— Uau… — Caio falou, mais quieto dessa vez. — Aqui dá pra sentir respeito.
Dudu assentiu.
— A natureza é forte. A gente tem que ser forte e cuidadoso também.
Com cinco cachoeiras, o grupo já estava cansado. As pernas doíam um pouco, a barriga pedia lanche, e o mapa parecia mais amassado.
— Será que falta muito? — Bia perguntou, sentando numa pedra.
Caio olhou para o mato fechado e suspirou.
— Eu só queria chegar logo na sétima.
Lia abriu a mochila e repartiu biscoitos de polvilho.
— Se a gente só pensar em chegar, vai esquecer de viver o caminho — ela disse, com voz de quem estava descobrindo junto.
Dudu mastigou devagar.
— E se a coisa especial não for um objeto? E se for… outra coisa?
Caio fez uma careta.
— Tipo… sentimento?
— Tipo aprender a fazer as coisas juntos — Bia respondeu, antes mesmo de perceber.
Todos ficaram um pouco em silêncio, ouvindo a mata, como Dona Zica tinha dito.
A trilha para a Sexta Cachoeira era estreita e passava perto de um barranco. De repente, ouviram um estalo — “CRAC!” — e uma parte do chão, bem na frente do Caio, se soltou e escorregou para baixo. Caio congelou, com os braços abertos, tentando equilibrar.
— Caio! Não se mexe! — Lia gritou, o coração pulando na garganta.
Bia levou a mão à boca.
Dudu deu um passo atrás, procurando apoio.
— Encosta na parede de terra, devagar — ele falou, com voz firme. — E me dá sua mão.
Caio respirou rápido. Seus olhos brilhavam, assustados.
— Eu… eu não consigo — ele sussurrou.
— Consegue sim — Lia disse, aproximando-se devagar. — Olha pra mim. Um passo pequeno. Só um.
Dudu se ajoelhou e esticou o braço.
— Segura firme. Eu tô aqui.
Caio moveu o pé milímetro por milímetro, sentindo a terra úmida. A lama parecia querer puxá-lo. Bia, tremendo, segurou a mochila de Caio por trás, como se fosse uma âncora.
— Eu não vou soltar! — ela disse, com voz fininha mas valente.

Com um puxão cuidadoso de Dudu e o apoio de Bia, Caio conseguiu voltar para o trecho firme. Quando ficou seguro, ele sentou no chão e soltou um choro curto, de susto, que logo virou um riso nervoso.
— Eu achei que ia cair… — falou, limpando o rosto.
Lia se sentou ao lado dele.
— A gente ficou com medo também. Mas a gente pensou junto.
Dudu colocou a mão no ombro de Caio.
— E você ouviu. Isso foi corajoso.
Caio respirou fundo, olhando para os amigos.
— Obrigado. Eu… eu tava só pensando em chegar logo. Nem percebi que o caminho tava perigoso.
Depois desse susto, caminharam mais devagar, prestando atenção em cada pedra, cada raiz, cada som. Pouco tempo depois, ouviram o barulho conhecido e encontraram a Sexta Cachoeira, que caía em duas partes, como se fosse uma fita dividida ao vento.
— Seis — Lia marcou no mapa, mas sua mão tremia um pouquinho.
— Falta a última — Bia disse, com os olhos cheios de esperança.
O trecho final era o mais bonito. A mata se abriu e a luz do fim da tarde entrou em faixas douradas. O ar ficou fresco e cheirava a hortelã do mato.
E então, como se estivesse esperando por eles, apareceu a Sétima Cachoeira.
Ela era grande e tranquila ao mesmo tempo. A água descia por uma parede de pedras claras e caía num lago verde-esmeralda. Havia uma pedra enorme onde dava para sentar e sentir a brisa. E, bem na borda da pedra, havia um pequeno sino de metal preso a um pedaço de madeira, com uma plaquinha simples.
Lia leu em voz alta:
— “Toque uma vez. Lembre do caminho.”
Caio se aproximou devagar.
— Então… isso é o especial? Um sino?
Dudu sorriu.
— Talvez seja um lembrete.
Bia olhou para o lago e falou baixinho:
— Eu gostei de tudo. Até do medo na ponte… porque vocês me ajudaram.
Lia colocou a mão no sino.
— Vamos tocar juntos?
Os quatro encostaram os dedos no metal frio e puxaram com cuidado. O sino fez um som claro, “tlim!”, que ecoou na pedra e pareceu passear pela água, pela mata, pelo céu.
Naquele instante, ninguém pensou em ouro, nem em pedra preciosa. Eles pensaram na ponte, na garoa, nos biscoitos de polvilho, no susto do barranco, nas risadas, no silêncio, nos passos. Pensaram em como cada pedacinho tinha levado até ali.
Na volta, já perto da vila, o céu ficou cor-de-rosa e os primeiros vagalumes apareceram como pontinhos de luz, piscando devagar. A praça de Pedra Clara parecia mais acolhedora do que nunca.
Dona Zica estava sentada no banco, como se soubesse que eles voltariam naquele horário.
— E então? Encontraram algo especial? — ela perguntou.
Caio respondeu primeiro, mas dessa vez sem pressa:
— Encontramos… a gente mesmo. E a trilha.
Bia completou:
— E a coragem também.
Dudu disse:
— E o jeito de cuidar um do outro.
Lia guardou o mapa dobrado, com carinho.
— A sétima cachoeira foi linda, mas o melhor foi tudo que aconteceu antes.
Dona Zica sorriu como quem acerta uma adivinha.
— É isso. Porque destino é um lugar. Mas jornada é uma história.
E, naquela noite, cada um foi dormir com as pernas cansadas e o coração cheio — como se tivesse dentro dele o som do sino “tlim!”, lembrando que caminhar junto pode ser a maior descoberta de todas.
✨ Moral da História
“Quando a gente presta atenção no caminho e cuida uns dos outros, a jornada vira a parte mais valiosa da aventura.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Qual foi o desafio mais difícil na trilha: a ponte, a garoa ou o barranco? Por quê?
- 2Por que a Lia quis olhar o mapa antes de escolher o caminho? O que poderia ter acontecido se eles fossem pela direita sem pensar?
- 3Como a Bia conseguiu atravessar a ponte mesmo com medo? Quem ajudou e de que jeito?
- 4Quando o Caio quase escorregou, o que o grupo fez para resolver o problema com segurança?
- 5Se você encontrasse o sino na sétima cachoeira, o que você lembraria do caminho e com quem gostaria de tocar junto?
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