A Jangada dos Sonhos
Um menino pescador constrói uma jangada e navega pela costa nordestina encontrando criaturas marinhas amigas.

Na beira do mar azul do Nordeste, bem cedinho, o sol acordava devagarinho. O céu ficava cor-de-rosa, depois amarelinho. E as ondas faziam “xiiiii… xiiiii…”.
Numa vila pequena, com casinhas simples e cheiro de peixe fresco, morava um menino pescador. O nome dele era Bento. Bento era pequeno, mas tinha um coração grande, grandão. Ele adorava olhar o mar e dizer bem baixinho:
— Mar, mar… me conta um sonho?
O vento respondia “fuuuu… fuuuu…”, como se fosse um segredo.
Bento ajudava o pai a consertar redes. Também ajudava a mãe a separar conchas bonitas para enfeitar a janela. E, quando terminava, ele corria descalço na areia quente.
Um dia, Bento viu um pedaço de madeira lisa perto das pedras. Depois viu outro. E outro. Pareciam tábuas que o mar tinha trazido de presente.
— Uau! — disse Bento, com os olhos brilhando. — Vou fazer uma jangada! Uma jangada dos sonhos!
Ele falou isso bem alto, como se o mar precisasse ouvir.
Bento juntou as madeiras. Arrastou pela areia fazendo “rrrshhh… rrrshhh…”. Pediu ajuda ao pai.
— Pai, me ajuda a amarrar? Bem firme!
O pai sorriu.
— Ajudo, sim. Mas com calma e com cuidado, Bento. Jangada precisa ser amiga do mar.
Eles amarraram as madeiras com corda grossa. “Puxa, puxa, puxa!” A corda ficou apertadinha.
A mãe trouxe um pedaço de pano vermelho.
— Pra fazer uma vela bonita — disse ela. — Vermelha como o coração de quem sonha.
Bento pulou de alegria.
— Oba! Minha vela! Minha jangada!
Ele pegou uma concha grande, bem branquinha, e colocou na frente da jangada como se fosse um nariz.
— Você vai se chamar Jangada dos Sonhos — falou Bento, fazendo carinho na madeira. — E a gente vai passear pela costa. Só um pouquinho. Só perto.
Na manhã seguinte, Bento levou a jangada para a água. As ondas vieram e voltaram, de mansinho.
— Xiiiii… xiiiii… — cantou o mar.
Bento entrou com cuidado. Levou um chapéu de palha, uma garrafinha de água e um pãozinho. Sentou e respirou fundo.
— Pronto. Vamos, Jangada dos Sonhos.
O vento soprou:
— Fuuuu… fuuuu…
E a jangada andou. Devagar. Bem devagar. Como quem dança.
Bento olhava para os lados. Via a areia clara. Via as falésias lá longe, laranjas e altas. Via uma rede de pesca num barco distante. E, de repente… “ploc!”
Um focinho cinza apareceu na água.
— Oi! — disse uma voz alegre.
Bento arregalou os olhos.
— Quem falou?
— Eu! — disse o focinho, virando uma cara sorridente. Era um golfinho! — Meu nome é Duda. Posso nadar do seu lado?
Bento ficou tão feliz que quase derrubou o chapéu.
— Pode! Pode sim! Eu sou o Bento.
Duda deu um salto.
— Pruuuf! — fez o golfinho, molhando um pouquinho a jangada.
Bento riu.
— Ei! Você me fez cócegas de água!
Eles seguiram juntos. A jangada deslizando. O golfinho nadando.
Logo adiante, um montinho escuro apareceu. Não era pedra. Era uma tartaruga grande e calma, com casco brilhando como panela limpa.
— Bom dia, pequenino — disse a tartaruga, com voz mansa. — Sou a Tita.
Bento acenou.
— Bom dia, Tita! Você quer passear também?
— Quero. Mas bem devagarinho — respondeu Tita. — Eu gosto de viajar sem pressa.
— Eu também! — disse Bento. — Minha jangada gosta de calma.
Duda rodopiou em volta.
— Eu gosto de rápido! Mas eu posso esperar! — E fez: — Pruuuf, pruuuf!
Mais à frente, o mar ficou mais verdinho. Bento viu algas dançando embaixo, como fitas.
De repente, “tic-tic-tic!”
Um peixinho colorido apareceu, listrado de amarelo e azul.
— Eu sou o Pingo! — disse ele. — Eu faço cócegas no mar!
— Como assim? — perguntou Bento.
Pingo passou perto da jangada e fez bolhinhas.
— Blub-blub-blub!
Bento gargalhou.
— Hahaha! Parecem risadas!
Os três amigos — Duda, Tita e Pingo — foram junto com Bento. Era como um cortejo de amigos do mar.
Bento se sentia corajoso. Mas também se sentia pequenininho perto daquele mar tão grande.
O vento mudou um pouquinho. As nuvens cresceram no céu, como algodão cinza. O mar começou a fazer um som mais forte:
— XAAAA… XAAAA…
Bento apertou a corda da vela.
— O vento tá mais forte…
Duda apareceu bem perto.
— Bento, eu conheço esse pedaço do mar. Quando ele fala alto, a gente precisa ouvir.
Tita subiu um pouquinho para respirar.
— A gente volta, sim. Juntos.
Bento olhou para trás. A vila estava menor. Bem menor.
— Eu… eu quero voltar. Minha mãe vai sentir saudade.
De repente, uma onda maior levantou a jangada.
— UUUUP! — fez a jangada.
Bento segurou firme.
— Ai!
A jangada balançou de um lado pro outro.
— Vai, Jangada dos Sonhos, aguenta! — pediu Bento.
O vento soprou forte:
— FUUUUUU!
A vela vermelha esticou. A jangada foi empurrada para um lado. Bento sentiu o coração bater “tum-tum-tum”.
— Eu tô com medo… — ele sussurrou.
Duda pulou alto e caiu perto, fazendo um “PRUUUUF!” grande.
— Bento, olha pra mim! Eu vou te guiar! — falou Duda.
Tita chegou ao lado da jangada.
— Encosta sua mão no casco da jangada — disse Tita. — Sente ela firme. Respira.
Pingo nadou rapidinho e fez bolhas na frente.
— Blub! Blub! Siga as bolhas! Eu vou mostrar um caminho mais calminho!
O mar estava agitado. Mas os amigos não foram embora. Eles ficaram.
Bento respirou como Tita ensinou.
— Um… dois… — ele contou baixinho. — Tô respirando.
Duda nadou na frente, apontando com o corpo.
— Por aqui! Tem uma água mais quieta, perto das pedras grandes.
Bento segurou a corda e virou a vela um pouquinho, como o pai tinha mostrado.
— Assim?
— Isso! — disse Duda.
A onda veio de novo, grande, grandona. A jangada subiu.

— UAAAA! — gritou Bento, mas não soltou.
Tita empurrou de leve a lateral da jangada, com cuidado, como uma mão amiga.
— Calma, calminho. Eu tô aqui.
Pingo fez bolhas bem perto do rosto de Bento.
— Blub-blub! Risada de bolha! Não desiste!
Bento ouviu os sons: o “xaaaa” do mar, o “fuuuu” do vento, o “pruuuf” do golfinho, o “blub” do peixinho. E sentiu um calorzinho no peito.
— Eu não tô sozinho — disse ele, com voz firme.
A jangada passou pela parte mais agitada. E, como mágica, o mar ficou mais manso.
— Xiiiii… xiiiii… — voltou a cantar.
O céu clareou. Uma frestinha de sol apareceu e pintou a vela vermelha de brilho.
Bento sorriu, ainda com o coração acelerado.
— Conseguimos!
Duda deu três pulos.
— Pruuuf! Pruuuf! Pruuuf!
Tita piscou devagar.
— Eu disse. Juntos.
Pingo fez uma volta e deixou um rastro de bolhas.
— Blub-blub-blub! Vitória!
Agora, era hora de voltar para casa. Bento olhou para o caminho e viu, lá longe, a linha da praia. O cheiro de sal parecia mais doce.
Ele conversou com a jangada como se ela fosse gente.
— Obrigado, Jangada dos Sonhos. Você foi forte.
A jangada parecia responder com um rangidinho suave: “crec… crec…”, como um sim.
Quando chegaram perto da vila, Bento já viu o pai na areia, com a mão na testa, procurando no horizonte. Viu a mãe também, com uma cesta de conchas e o coração apertado.
— Bento! — gritou a mãe.
— Filho! — gritou o pai.
Bento acenou com os dois braços.
— Eu tô aqui! Eu voltei!
Duda, Tita e Pingo ficaram na água, perto da jangada. Eles não queriam assustar ninguém na praia. Mas queriam se despedir.
Bento sussurrou:
— Obrigado, amigos do mar.
Duda respondeu:
— Quando você sonhar, a gente aparece.
Tita falou:
— E quando você tiver medo, lembra: respira.
Pingo fez:
— Blub! E faz bolha de coragem!
Bento encostou a jangada na areia. “Shhh… shhh…”. O pai correu e abraçou o menino.
— Você foi valente — disse o pai. — Mas sempre avise antes de ir, tá bem? Mar é lindo, mas precisa de cuidado.
— Tá bem, pai — respondeu Bento, com a voz mansinha.
A mãe abraçou forte.
— Meu pescadorzinho.
Bento olhou o mar e falou com carinho:
— Eu naveguei um pouquinho… e aprendi muito.
À noite, a vila ficou quietinha. As estrelas apareceram, brilhando como conchas no céu. Bento deitou na rede e fechou os olhos.
Ele ouviu, lá longe, o mar cantando “xiiiii… xiiiii…”. E quase deu para ouvir, bem baixinho, um “pruuuf” e um “blub”.
Bento sorriu.
— A Jangada dos Sonhos… sempre volta pra casa.
E ele dormiu sonhando com amigos do mar, com vento manso, e com coragem dentro do peito.
✨ Moral da História
“Quando a gente pede ajuda e fica junto dos amigos, o medo diminui e a coragem cresce.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já viu o mar de perto?
- 2Qual amigo do Bento você mais gostou: o golfinho, a tartaruga ou o peixinho?
- 3Se você tivesse uma jangada, que cor seria a vela?
- 4Você faz som de onda comigo? Como o mar faz: “xiiiii… xiiiii…”
- 5Quando você sente um medinho, você gosta de abraço? De quem?
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