Aventura

O Menino que Escalou o Pico da Neblina

04 de janeiro de 202615 min de leitura9 a 12 anos3 visualizações

Um garoto tímido aceita o desafio de escalar a montanha mais alta do Brasil e descobre forças que não sabia ter.

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O Menino que Escalou o Pico da Neblina

Davi sempre foi o tipo de menino que falava com os olhos antes de falar com a boca. Na escola municipal de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, ele sentava perto da janela para poder observar o rio Negro passando, escuro e enorme, como se carregasse segredos antigos. Quando a professora fazia uma pergunta, Davi sabia a resposta muitas vezes — sabia mesmo —, mas a voz parecia ficar presa numa parte funda do peito, como se tivesse medo de atrapalhar o ar.

Em casa, sua mãe dizia com carinho:

— Meu filho, não existe vergonha em ser quieto. Mas também não existe vergonha em aparecer.

Davi fingia que não escutava, mexendo na alça da mochila ou contando as ranhuras da mesa. O pai trabalhava como barqueiro e, quando voltava, trazia histórias que pareciam maiores do que a cidade inteira.

— Hoje eu levei um grupo de pesquisadores — contou certa noite, enquanto o cheiro de peixe assado se misturava com o de farinha e tucupi. — Vão pra uma trilha lá no mato, perto do caminho pro Pico da Neblina. Você já ouviu falar?

Davi já tinha ouvido. Na verdade, o nome “Pico da Neblina” era uma espécie de lenda para ele: a montanha mais alta do Brasil, escondida na Terra Indígena Yanomami, onde nuvens abraçam as pedras e o céu parece mais perto. Ele imaginava o pico como um lugar onde o mundo ficava silencioso, talvez do jeito que ele gostava. Mas era também um lugar que assustava, porque grandeza demais dá a sensação de que a gente é pequeno demais.

No dia seguinte, a escola anunciou um projeto especial: uma expedição educativa com autorização e acompanhamento de guias locais, para um grupo pequeno de alunos, como parte de um trabalho sobre geografia, meio ambiente e responsabilidade coletiva. A professora explicou com seriedade:

— Não é passeio. É compromisso. Vocês vão estudar, respeitar a floresta, aprender com os guias e com as comunidades. Quem for precisa estar disposto a colaborar.

Davi sentiu o estômago apertar. Ele queria ir. Queria muito. Só que a vontade vinha junto com uma lista de medos: escorregar, atrasar o grupo, ser o peso que todo mundo vai precisar carregar.

No recreio, Júlia — que falava como se o mundo fosse uma conversa íntima — chegou com o papel de inscrição na mão.

— Você vai, né? — perguntou, os olhos brilhando.

Davi deu de ombros.

— Não sei.

— Como assim não sabe? Você vive desenhando montanha no caderno! — ela riu. — Davi, o Pico da Neblina é tipo… o teto do Brasil.

Ele engoliu seco.

— Eu não sou bom com… com gente.

Júlia ficou séria, como quem muda a luz do dia.

— Não é sobre ser bom com gente. É sobre ser bom com você mesmo. E o grupo também aprende. Se você não falar, tudo bem. Mas você pode estar lá.

A frase ficou na cabeça de Davi como um eco. Naquela noite, ele pegou o papel de inscrição e colocou ao lado do prato, como quem pede coragem emprestada. A mãe olhou, ergueu as sobrancelhas e esperou.

— Mãe… — Davi começou, e a própria voz pareceu surpresa por existir. — Se eu for… e eu atrapalhar?

Ela pousou a mão na dele, firme.

— Atrapalhar é não tentar quando a vida chama. O resto é aprendizado.

Davi assinou.

Os dias seguintes foram de preparação: lista de equipamentos, orientação sobre hidratação, primeiros socorros, respeito às regras do território e da floresta. Eles aprenderam a observar o tempo, a reconhecer sinais de chuva, a cuidar do lixo como se fosse parte do corpo. Um guia chamado Seu Aritana foi convidado para conversar com os alunos. Ele tinha uma calma que parecia feita de rio.

— Montanha ensina — disse, com voz baixa. — Mas ensina do jeito dela. Quem chega lá em cima não é só quem tem força na perna. É quem tem responsabilidade no coração.

No dia da partida, o barco cortou a água como se abrisse um caminho antigo. A floresta, dos dois lados, era um paredão vivo: árvores altas, cipós pendurados, pássaros que gritam e somem. Davi olhava tudo com a sensação de estar entrando num lugar que não era dele, mas que, por algum motivo, o conhecia.

A trilha começou em silêncio, quebrado apenas pelo som de passos sobre folhas e pela respiração do grupo. Davi carregava a mochila com cuidado exagerado, como se pudesse pedir desculpas a cada raiz. O ar era úmido, e o calor colava na pele. Depois de algumas horas, a subida ficou mais íngreme, e a conversa dos colegas virou uma coleção de suspiros.

Júlia, mesmo animada, começou a ficar para trás.

— Eu… preciso… de um minuto — ela disse, apoiando as mãos nos joelhos.

Davi parou também. Olhou ao redor, viu o grupo seguindo com o guia principal, e viu Júlia tentando disfarçar o cansaço. Uma parte dele quis apenas ficar quieto e esperar alguém perceber. Outra parte, menor, mas insistente, lembrou da frase da mãe: “aparecer”.

Ele limpou a garganta.

— Quer… água? — perguntou.

Júlia levantou o rosto, surpresa e aliviada.

— Quero, sim. Obrigada.

Davi entregou a garrafa. Depois, apontou para uma pedra grande ao lado.

— Senta… um pouco. A gente alcança.

Foi uma frase simples. Mas, para Davi, tinha o peso de um degrau novo: ele tinha tomado uma decisão no meio do caminho, sem esperar que alguém mandasse.

Mais tarde, o tempo mudou como muda o humor da floresta. Um vento frio apareceu do nada, e a neblina começou a descer, engolindo as árvores em pedaços. O chão ficou escorregadio. O guia pediu que todos andassem mais próximos.

— Atenção nos passos — disse Seu Aritana. — Aqui, a pressa é inimiga.

Davi sentia o coração bater no ritmo da ansiedade. A neblina fazia tudo parecer distante e perto ao mesmo tempo. Ele tinha a sensação de que qualquer erro ficaria enorme.

Então aconteceu: um colega, Caio, escorregou numa pedra molhada e caiu de lado. Não foi uma queda grande, mas ele bateu a perna e, na hora, o rosto se contorceu de dor.

— Ai! — ele gritou. — Não dá… não dá pra levantar direito.

O grupo parou. A neblina rodopiava, e a trilha parecia mais estreita. O guia se agachou para avaliar.

— Torceu — concluiu. — Vamos precisar de calma.

Davi ficou parado, sem saber o que fazer, mas a cabeça dele trabalhava rápido. Ele lembrava da orientação na escola: “segurança do grupo”. Lembrava de como o guia dizia que montanha era responsabilidade no coração. E lembrava de como ele sempre se escondia quando a situação ficava grande demais.

A situação, agora, estava enorme.

Caio tentava sorrir, mas os olhos denunciavam medo.

— Eu estraguei tudo — ele murmurou.

Júlia respondeu, firme:

— Ninguém estraga nada por sentir dor.

Davi respirou fundo. Olhou ao redor e viu, a poucos metros, uma parte da trilha com um tronco caído, formando uma espécie de proteção natural contra o vento. Se conseguissem levar Caio até ali, poderiam imobilizar a perna com mais conforto.

Ele sentiu a boca secar. Falar em voz alta, dar uma ideia… era como acender uma luz sobre si. Mas a neblina também era uma luz diferente: ela fazia o momento parecer um teste.

— Seu Aritana — Davi chamou, com a voz tremendo, mas presente. — Ali… atrás daquele tronco. Parece mais protegido. A gente pode levar ele até lá.

O guia ergueu o olhar. Não havia surpresa exagerada, apenas atenção.

— Boa observação — disse. — Você e Júlia conseguem ajudar a sustentar o Caio, devagar?

Davi engoliu seco, e a resposta saiu antes que o medo decidisse por ele.

— Consigo.

Ilustração da história O Menino que Escalou o Pico da Neblina

Foi o momento mais difícil e mais verdadeiro da viagem. Davi colocou o braço de Caio por cima do seu ombro. Sentiu o peso, sentiu a instabilidade, sentiu a perna do colega tentar não tocar no chão. A neblina molhava o cabelo, o rosto, a alma. Cada passo era uma conversa silenciosa com o medo: “Eu não vou correr. Eu não vou sumir.”

— Vai… vai devagar — Caio sussurrava, ofegante.

— Eu tô aqui — Davi respondeu, e a própria frase aqueceu alguma coisa dentro dele.

Júlia segurava o outro lado, e os três avançavam como um único corpo, cuidadoso. Quando chegaram ao tronco, o guia fez uma imobilização improvisada com ataduras e uma tala. O rádio comunicou a equipe de apoio. A expedição precisaria mudar de plano: parte do grupo retornaria com Caio, e os outros seguiriam apenas se as condições permitissem.

Davi esperava que alguém dissesse que ele tinha sido corajoso. Mas ninguém transformou aquilo em show. E isso, de algum jeito, fez a coragem parecer mais real. O guia apenas colocou a mão no ombro dele.

— Você viu o caminho e avisou. Isso é liderança — disse Seu Aritana. — Liderança não grita. Sustenta.

As palavras entraram em Davi como chuva em terra seca.

Mais tarde, decidiram que o grupo inteiro retornaria por segurança. Houve um momento de frustração: a montanha estava ali, tão perto do sonho, e a volta parecia um “não”. Davi sentiu o peito apertar. Ele queria chegar ao topo, provar para si mesmo que era capaz.

No caminho de volta, Júlia caminhou ao lado dele.

— Você tá triste? — perguntou.

Davi hesitou, depois foi sincero:

— Um pouco. Parece que eu falhei.

Júlia balançou a cabeça.

— Falha seria deixar o Caio sozinho pra continuar subindo. O topo não vale mais que gente.

Davi olhou para a trilha molhada, para as folhas brilhando de água, para a neblina escondendo o alto da montanha. Pela primeira vez, entendeu algo que nenhum desenho no caderno tinha mostrado: a montanha não era só um lugar para chegar. Era um lugar para escolher quem você vira enquanto tenta.

Dias depois, Caio estava bem, com muletas e histórias para contar. A escola organizou uma roda de conversa sobre a expedição. Davi levou seu caderno de desenhos, mas, dessa vez, não desenhou apenas a montanha. Desenhou três pessoas andando juntas na neblina, apoiando-se.

A professora pediu que cada um falasse o que aprendeu. Davi sentiu o velho medo se aproximando, como uma nuvem antiga. Mas também sentiu outra coisa: um chão firme por dentro.

Ele levantou a mão.

O silêncio na sala parecia maior do que o Pico da Neblina.

— Eu aprendi — disse Davi, escolhendo as palavras com cuidado — que coragem não é não sentir medo. Coragem é… fazer o que precisa mesmo com medo. E que a gente não sobe nada sozinho.

A professora sorriu, não como quem aplaude, mas como quem reconhece.

Na saída, a mãe dele esperava no portão. Davi caminhou até ela com a mochila nas costas e uma postura diferente, como se tivesse aprendido a ocupar o próprio espaço.

— E aí? — ela perguntou.

Davi olhou para o céu, onde as nuvens passavam devagar, e respondeu:

— Eu não cheguei no topo da montanha.

A mãe fez menção de consolar, mas ele continuou:

— Mas acho que eu cheguei num topo meu.

E, naquele instante, Davi entendeu que o Pico da Neblina continuaria lá, alto e misterioso, esperando. Um dia ele voltaria. Não para vencer a montanha, mas para conversar com ela de igual para igual — com a voz que, finalmente, tinha aprendido a sair do peito e caminhar pelo mundo.

✨ Moral da História

Coragem de verdade é agir com responsabilidade e cuidar do outro, mesmo quando o medo insiste em nos calar.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Em que momento Davi “escalou um topo por dentro”, mesmo sem chegar ao topo da montanha?
  • 2Você concorda com a decisão do grupo de voltar por causa do Caio? Por quê?
  • 3Qual a diferença entre coragem e imprudência na história? Cite exemplos.
  • 4Como a timidez do Davi aparece no começo e como ela se transforma ao longo da expedição?
  • 5Se você estivesse na trilha, o que faria para ajudar o grupo a ser mais seguro e unido?

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Raposinha

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