Coragem

O Medo que Virou Amigo

27 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos0 visualizações

Um menino que tem medo do escuro descobre que seu medo quer apenas protegê-lo.

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O Medo que Virou Amigo

Tico era um menino pequeno, de bochechas redondas e sorriso fácil. Ele morava com a mamãe Joana e o papai Beto numa casa simples e quentinha, num bairro calmo de uma cidade do interior do Brasil. Na frente da casa tinha um pé de goiaba e um portão que fazia: “créc-créc” quando abria.

De dia, Tico era corajoso. Ele corria pelo quintal, chutava uma bola azul, e brincava de esconder atrás da goiabeira.

— Eu sou um leão! Raaaar! — ele dizia, abrindo os braços.

Mas quando a noite chegava… ai, ai.

Quando o sol ia embora e a lua aparecia, Tico sentia um friozinho no peito. O quarto ficava mais silencioso. A sombra da cadeira parecia um bicho grande. O guarda-roupa fazia “tlec” com a madeira estalando.

— Mamãe… — chamava Tico, com a voz baixinha. — Eu tenho medo do escuro.

Mamãe Joana sentava na beira da cama e fazia carinho no cabelo dele.

— Eu sei, meu amor. O escuro parece grandão, né? Mas a nossa casa está segura.

Papai Beto vinha logo depois com uma lanterninha amarela.

— Quer um pouquinho de luz? — perguntava.

— Quero! — Tico respondia rápido.

Eles deixavam uma luz de tomada acesa, bem fraquinha, só para o quarto não ficar totalmente escuro. Mesmo assim, quando a mamãe beijava a testa dele e o papai apagava a luz do teto, Tico ficava com os olhos bem abertos. “Plim! Plim!” ele piscava, tentando enxergar.

Naquela noite, choveu fininho. “Plic… plic… plic…” no telhado. O vento soprava: “fuuuu…”. Tico abraçou o seu urso de pelúcia, o Urso Zeca.

— Zeca, você acha que o escuro está olhando pra gente? — sussurrou.

O Urso Zeca, claro, não respondeu. Mas Tico imaginou que ele respondeu com voz grossa:

— Não, Tico. Eu acho que ele só está… aí.

Mesmo assim, o medo vinha. Parecia um bichinho invisível que sentava no canto do quarto.

— Medo, vai embora! — Tico falou, tentando ser firme.

O silêncio respondeu. A chuva continuou: “plic… plic… plic…”.

Tico fechou os olhos bem forte. Apertou. Apertou. Até fazer careta.

E então… ele ouviu uma voz bem baixinha, como folha de árvore roçando no vento.

— Ei… Tico…

Tico abriu os olhos num pulo.

— Quem… quem tá aí? — ele perguntou, tremendo.

A luz fraquinha da tomada desenhava sombras suaves. E, bem perto do armário, tinha uma sombra diferente. Não era a sombra da cadeira. Não era a sombra do urso. Era uma sombra pequenininha, com olhinhos brilhando, como dois pontinhos de vaga-lume.

— Sou eu… o seu Medo — disse a voz.

Tico engoliu seco.

— Meu… medo fala?!

— Falo. Bem baixinho. Porque eu não gosto de assustar mais do que já assusto — respondeu o Medo.

Tico puxou o cobertor até o queixo.

— Você é… um monstro?

A sombra mexeu devagar. Fez uma forma engraçada, como um bichinho enrolado.

— Não sou monstro. Eu sou um guardinha — disse o Medo, com um tom sério, mas gentil.

— Guardinha? — Tico franziu a testa.

— É. Eu fico aqui pra te avisar quando tem alguma coisa perigosa. Eu faço “bilu-bilu” no seu coração pra você prestar atenção.

— Bilu-bilu? — Tico repetiu, colocando a mão no peito.

— Isso. Quando você ouviu “tlec” do armário e pensou que era um bicho… eu tentei dizer: “Tico, olha com calma.” Mas você só correu e chamou a mamãe — explicou o Medo.

Tico respirou devagar. Ele ainda estava com medo… mas também estava curioso.

— Então você não quer me pegar?

— Eu não pego ninguém! — o Medo disse, meio ofendido. — Eu não tenho mãos de pegar. Só tenho mãos de avisar.

Tico olhou melhor. A sombra parecia menos assustadora quando falava assim. Parecia até… pequena.

— Mas por que você aparece mais de noite? — perguntou Tico.

— Porque de noite a gente não enxerga tudo. Aí o seu corpo diz: “Hmm, será que tem perigo?” E eu venho ajudar. Eu sou como uma plaquinha que fala: “Cuidado!” — explicou o Medo.

Tico ficou pensando. Ele lembrava de uma vez em que quase colocou a mão no fogão quente, e a mamãe falou “cuidado!”. E de outra vez em que o papai falou “cuidado” quando ele ia atravessar correndo.

— Então você é como a mamãe e o papai falando “cuidado”? — Tico perguntou.

— Isso! Só que eu moro dentro de você — disse o Medo.

Tico fez um “hmmm” com a boca.

— Mas você me faz chorar.

O Medo ficou quieto por um instante. A chuva fez “plic” mais alto.

— Eu sei. Às vezes eu grito sem querer. Eu sou pequenininho, mas eu fico agitado. Aí eu viro um medo grandão. Eu só queria que você me escutasse sem pânico — falou o Medo.

Tico apertou o Urso Zeca.

— Como eu faço isso?

— Eu te ensino um truque. Quer? — perguntou o Medo.

Tico hesitou… mas assentiu com a cabeça.

— Primeiro, você respira. Faz assim: “cheira a flor” — o Medo disse.

Tico puxou o ar pelo nariz.

— Cheira a flor… — ele repetiu.

— Depois, você solta o ar devagar: “assopra a vela” — disse o Medo.

Tico soprou: “fuuuuu”.

— De novo — pediu o Medo.

— Cheira a flor… assopra a vela… — Tico fez mais uma vez.

O peito dele ficou mais calmo. O medo ainda estava ali, mas não era um medo gigante. Era um medo do tamanho de um passarinho.

— Agora, você fala comigo — disse o Medo. — Você pergunta: “Medo, o que você quer me avisar?”

Tico olhou para a sombra.

— Medo… o que você quer me avisar?

O Medo apontou, bem devagar, para o chão perto da porta.

— Eu ouvi um barulhinho. “Ras-ras”. Achei que podia ser alguma coisa que te fizesse tropeçar quando você levanta.

Tico arregalou os olhos.

— Um bicho?!

— Calma. Respira. Cheira a flor… assopra a vela — lembrou o Medo.

Tico respirou. O coração dele fez “tum… tum…”, mas mais calminho.

— Tá.

O Medo continuou:

— Vamos olhar juntos. Eu não quero que você vá sozinho no escuro.

Tico ficou sentado na cama. A sombra se aproximou um pouco, como se fosse uma nuvem pequena.

— Como a gente olha? — Tico perguntou.

— Com luz e com cuidado. Chama o papai e a mamãe. Eu ajudo você a falar — disse o Medo.

Tico respirou de novo e chamou:

— Mamãe… papai…

Mamãe Joana apareceu na porta com o cabelo preso e cara de sono.

— Oi, meu bem. Aconteceu algo?

Papai Beto veio atrás, esfregando os olhos.

— Tá tudo bem, campeão?

Tico apontou para o chão.

— Eu ouvi um “ras-ras”. Eu… eu fiquei com medo. Mas eu respirei. E eu quero olhar com a lanterna.

Papai Beto sorriu.

— Isso é coragem, viu? Vamos ver juntos.

Ele acendeu a lanterninha. Um feixe de luz passeou pelo quarto: na cama, na parede, na cadeira, no armário… e então chegou na porta.

Ilustração da história O Medo que Virou Amigo

Na luz, apareceu o que fazia “ras-ras”: era só o chinelo do papai, preso na ponta do tapete. O vento da janela aberta mexia o tapete, e o chinelo raspava de leve no chão.

— Ahhhh! — Tico soltou o ar, como se tirasse um peso do corpo. — Era o chinelo!

Mamãe Joana riu baixinho.

— Às vezes o escuro inventa formas e barulhos, né?

Papai Beto arrumou o tapete e colocou o chinelo no lugar.

— Pronto. Não raspa mais.

Tico olhou para o cantinho do armário. A sombra do Medo ainda estava ali, mas parecia menor e mais mansa.

— Medo… obrigada — Tico sussurrou.

Mamãe Joana inclinou a cabeça.

— Obrigada pra quem, meu amor?

Tico pensou um pouco. Como explicar um Medo que fala? Então ele disse do jeito mais simples:

— Obrigada pro meu “cuidado” aqui dentro.

Mamãe Joana abraçou Tico.

— Ah, entendi. Você sentiu um aviso e pediu ajuda. Isso é muito importante.

Papai Beto apagou a lanterna, mas deixou a luz fraquinha da tomada.

— Agora vamos dormir. E qualquer coisa, você chama.

Eles deram beijo de boa-noite.

Quando a porta fechou, o quarto ficou quietinho. A chuva já estava indo embora. “Plic… plic…” mais distante.

Tico deitou e puxou o cobertor. Ele olhou para a sombra.

— Medo, você vai ficar aqui sempre?

— Eu fico. Mas posso ficar pequenininho se você me ouvir com calma — disse o Medo.

— Então tá. Você pode ser meu amigo guardinha — falou Tico.

O Medo pareceu sorrir, mesmo sendo sombra.

— Combinado. E quando eu aparecer, você faz o truque: cheira a flor… assopra a vela.

— Cheira a flor… assopra a vela — Tico repetiu, bocejando.

Ele abraçou o Urso Zeca.

— Zeca, o Medo é um guardinha — contou.

O Urso Zeca ficou quieto, mas Tico imaginou ele dizendo:

— Eu sabia.

Tico riu baixinho. “Hihi.”

A sombra do armário já não parecia um bicho. Parecia só… sombra. A casa fazia sons normais de noite: “tic-tac” do relógio, “fuu” do vento longe, “crec” da madeira.

E quando um barulhinho novo apareceu, Tico não saiu correndo. Ele respirou.

— Cheira a flor… assopra a vela… — e perguntou bem baixinho: — Medo, o que você quer me avisar?

O Medo respondeu:

— Nada perigoso. Só a casa dormindo.

Tico fechou os olhos. O coração ficou tranquilo, “tum… tum…” bem lento. E ele dormiu sorrindo, sabendo que dentro dele morava um amigo guardinha, que não queria assustar… queria cuidar.

✨ Moral da História

O medo pode ser um aviso amigo: quando a gente respira, pede ajuda e olha com calma, ele vira cuidado.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você já ficou com medo do escuro no seu quarto?
  • 2Qual foi o barulhinho da história: “ras-ras” era o quê?
  • 3Você consegue fazer o truque: cheira a flor… assopra a vela?
  • 4Você tem um brinquedo para abraçar na hora de dormir? Qual?
  • 5Quem você chama quando fica com medo: mamãe, papai ou outra pessoa?

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