O Medo que Virou Amigo
Um menino que tem medo do escuro descobre que seu medo quer apenas protegê-lo.

Tico era um menino pequeno, de bochechas redondas e sorriso fácil. Ele morava com a mamãe Joana e o papai Beto numa casa simples e quentinha, num bairro calmo de uma cidade do interior do Brasil. Na frente da casa tinha um pé de goiaba e um portão que fazia: “créc-créc” quando abria.
De dia, Tico era corajoso. Ele corria pelo quintal, chutava uma bola azul, e brincava de esconder atrás da goiabeira.
— Eu sou um leão! Raaaar! — ele dizia, abrindo os braços.
Mas quando a noite chegava… ai, ai.
Quando o sol ia embora e a lua aparecia, Tico sentia um friozinho no peito. O quarto ficava mais silencioso. A sombra da cadeira parecia um bicho grande. O guarda-roupa fazia “tlec” com a madeira estalando.
— Mamãe… — chamava Tico, com a voz baixinha. — Eu tenho medo do escuro.
Mamãe Joana sentava na beira da cama e fazia carinho no cabelo dele.
— Eu sei, meu amor. O escuro parece grandão, né? Mas a nossa casa está segura.
Papai Beto vinha logo depois com uma lanterninha amarela.
— Quer um pouquinho de luz? — perguntava.
— Quero! — Tico respondia rápido.
Eles deixavam uma luz de tomada acesa, bem fraquinha, só para o quarto não ficar totalmente escuro. Mesmo assim, quando a mamãe beijava a testa dele e o papai apagava a luz do teto, Tico ficava com os olhos bem abertos. “Plim! Plim!” ele piscava, tentando enxergar.
Naquela noite, choveu fininho. “Plic… plic… plic…” no telhado. O vento soprava: “fuuuu…”. Tico abraçou o seu urso de pelúcia, o Urso Zeca.
— Zeca, você acha que o escuro está olhando pra gente? — sussurrou.
O Urso Zeca, claro, não respondeu. Mas Tico imaginou que ele respondeu com voz grossa:
— Não, Tico. Eu acho que ele só está… aí.
Mesmo assim, o medo vinha. Parecia um bichinho invisível que sentava no canto do quarto.
— Medo, vai embora! — Tico falou, tentando ser firme.
O silêncio respondeu. A chuva continuou: “plic… plic… plic…”.
Tico fechou os olhos bem forte. Apertou. Apertou. Até fazer careta.
E então… ele ouviu uma voz bem baixinha, como folha de árvore roçando no vento.
— Ei… Tico…
Tico abriu os olhos num pulo.
— Quem… quem tá aí? — ele perguntou, tremendo.
A luz fraquinha da tomada desenhava sombras suaves. E, bem perto do armário, tinha uma sombra diferente. Não era a sombra da cadeira. Não era a sombra do urso. Era uma sombra pequenininha, com olhinhos brilhando, como dois pontinhos de vaga-lume.
— Sou eu… o seu Medo — disse a voz.
Tico engoliu seco.
— Meu… medo fala?!
— Falo. Bem baixinho. Porque eu não gosto de assustar mais do que já assusto — respondeu o Medo.
Tico puxou o cobertor até o queixo.
— Você é… um monstro?
A sombra mexeu devagar. Fez uma forma engraçada, como um bichinho enrolado.
— Não sou monstro. Eu sou um guardinha — disse o Medo, com um tom sério, mas gentil.
— Guardinha? — Tico franziu a testa.
— É. Eu fico aqui pra te avisar quando tem alguma coisa perigosa. Eu faço “bilu-bilu” no seu coração pra você prestar atenção.
— Bilu-bilu? — Tico repetiu, colocando a mão no peito.
— Isso. Quando você ouviu “tlec” do armário e pensou que era um bicho… eu tentei dizer: “Tico, olha com calma.” Mas você só correu e chamou a mamãe — explicou o Medo.
Tico respirou devagar. Ele ainda estava com medo… mas também estava curioso.
— Então você não quer me pegar?
— Eu não pego ninguém! — o Medo disse, meio ofendido. — Eu não tenho mãos de pegar. Só tenho mãos de avisar.
Tico olhou melhor. A sombra parecia menos assustadora quando falava assim. Parecia até… pequena.
— Mas por que você aparece mais de noite? — perguntou Tico.
— Porque de noite a gente não enxerga tudo. Aí o seu corpo diz: “Hmm, será que tem perigo?” E eu venho ajudar. Eu sou como uma plaquinha que fala: “Cuidado!” — explicou o Medo.
Tico ficou pensando. Ele lembrava de uma vez em que quase colocou a mão no fogão quente, e a mamãe falou “cuidado!”. E de outra vez em que o papai falou “cuidado” quando ele ia atravessar correndo.
— Então você é como a mamãe e o papai falando “cuidado”? — Tico perguntou.
— Isso! Só que eu moro dentro de você — disse o Medo.
Tico fez um “hmmm” com a boca.
— Mas você me faz chorar.
O Medo ficou quieto por um instante. A chuva fez “plic” mais alto.
— Eu sei. Às vezes eu grito sem querer. Eu sou pequenininho, mas eu fico agitado. Aí eu viro um medo grandão. Eu só queria que você me escutasse sem pânico — falou o Medo.
Tico apertou o Urso Zeca.
— Como eu faço isso?
— Eu te ensino um truque. Quer? — perguntou o Medo.
Tico hesitou… mas assentiu com a cabeça.
— Primeiro, você respira. Faz assim: “cheira a flor” — o Medo disse.
Tico puxou o ar pelo nariz.
— Cheira a flor… — ele repetiu.
— Depois, você solta o ar devagar: “assopra a vela” — disse o Medo.
Tico soprou: “fuuuuu”.
— De novo — pediu o Medo.
— Cheira a flor… assopra a vela… — Tico fez mais uma vez.
O peito dele ficou mais calmo. O medo ainda estava ali, mas não era um medo gigante. Era um medo do tamanho de um passarinho.
— Agora, você fala comigo — disse o Medo. — Você pergunta: “Medo, o que você quer me avisar?”
Tico olhou para a sombra.
— Medo… o que você quer me avisar?
O Medo apontou, bem devagar, para o chão perto da porta.
— Eu ouvi um barulhinho. “Ras-ras”. Achei que podia ser alguma coisa que te fizesse tropeçar quando você levanta.
Tico arregalou os olhos.
— Um bicho?!
— Calma. Respira. Cheira a flor… assopra a vela — lembrou o Medo.
Tico respirou. O coração dele fez “tum… tum…”, mas mais calminho.
— Tá.
O Medo continuou:
— Vamos olhar juntos. Eu não quero que você vá sozinho no escuro.
Tico ficou sentado na cama. A sombra se aproximou um pouco, como se fosse uma nuvem pequena.
— Como a gente olha? — Tico perguntou.
— Com luz e com cuidado. Chama o papai e a mamãe. Eu ajudo você a falar — disse o Medo.
Tico respirou de novo e chamou:
— Mamãe… papai…
Mamãe Joana apareceu na porta com o cabelo preso e cara de sono.
— Oi, meu bem. Aconteceu algo?
Papai Beto veio atrás, esfregando os olhos.
— Tá tudo bem, campeão?
Tico apontou para o chão.
— Eu ouvi um “ras-ras”. Eu… eu fiquei com medo. Mas eu respirei. E eu quero olhar com a lanterna.
Papai Beto sorriu.
— Isso é coragem, viu? Vamos ver juntos.
Ele acendeu a lanterninha. Um feixe de luz passeou pelo quarto: na cama, na parede, na cadeira, no armário… e então chegou na porta.

Na luz, apareceu o que fazia “ras-ras”: era só o chinelo do papai, preso na ponta do tapete. O vento da janela aberta mexia o tapete, e o chinelo raspava de leve no chão.
— Ahhhh! — Tico soltou o ar, como se tirasse um peso do corpo. — Era o chinelo!
Mamãe Joana riu baixinho.
— Às vezes o escuro inventa formas e barulhos, né?
Papai Beto arrumou o tapete e colocou o chinelo no lugar.
— Pronto. Não raspa mais.
Tico olhou para o cantinho do armário. A sombra do Medo ainda estava ali, mas parecia menor e mais mansa.
— Medo… obrigada — Tico sussurrou.
Mamãe Joana inclinou a cabeça.
— Obrigada pra quem, meu amor?
Tico pensou um pouco. Como explicar um Medo que fala? Então ele disse do jeito mais simples:
— Obrigada pro meu “cuidado” aqui dentro.
Mamãe Joana abraçou Tico.
— Ah, entendi. Você sentiu um aviso e pediu ajuda. Isso é muito importante.
Papai Beto apagou a lanterna, mas deixou a luz fraquinha da tomada.
— Agora vamos dormir. E qualquer coisa, você chama.
Eles deram beijo de boa-noite.
Quando a porta fechou, o quarto ficou quietinho. A chuva já estava indo embora. “Plic… plic…” mais distante.
Tico deitou e puxou o cobertor. Ele olhou para a sombra.
— Medo, você vai ficar aqui sempre?
— Eu fico. Mas posso ficar pequenininho se você me ouvir com calma — disse o Medo.
— Então tá. Você pode ser meu amigo guardinha — falou Tico.
O Medo pareceu sorrir, mesmo sendo sombra.
— Combinado. E quando eu aparecer, você faz o truque: cheira a flor… assopra a vela.
— Cheira a flor… assopra a vela — Tico repetiu, bocejando.
Ele abraçou o Urso Zeca.
— Zeca, o Medo é um guardinha — contou.
O Urso Zeca ficou quieto, mas Tico imaginou ele dizendo:
— Eu sabia.
Tico riu baixinho. “Hihi.”
A sombra do armário já não parecia um bicho. Parecia só… sombra. A casa fazia sons normais de noite: “tic-tac” do relógio, “fuu” do vento longe, “crec” da madeira.
E quando um barulhinho novo apareceu, Tico não saiu correndo. Ele respirou.
— Cheira a flor… assopra a vela… — e perguntou bem baixinho: — Medo, o que você quer me avisar?
O Medo respondeu:
— Nada perigoso. Só a casa dormindo.
Tico fechou os olhos. O coração ficou tranquilo, “tum… tum…” bem lento. E ele dormiu sorrindo, sabendo que dentro dele morava um amigo guardinha, que não queria assustar… queria cuidar.
✨ Moral da História
“O medo pode ser um aviso amigo: quando a gente respira, pede ajuda e olha com calma, ele vira cuidado.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já ficou com medo do escuro no seu quarto?
- 2Qual foi o barulhinho da história: “ras-ras” era o quê?
- 3Você consegue fazer o truque: cheira a flor… assopra a vela?
- 4Você tem um brinquedo para abraçar na hora de dormir? Qual?
- 5Quem você chama quando fica com medo: mamãe, papai ou outra pessoa?
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