Família

O Dia em que Papai Virou Criança

27 de novembro de 202515 min de leitura6 a 8 anos4 visualizações

Um pai magicamente volta a ser criança por um dia e pai e filho aprendem a se entender melhor.

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O Dia em que Papai Virou Criança

Na Rua do Ipê-Amarelo, em Campinas, existia uma casa com um quintal que parecia ter sido desenhado por um pintor alegre: grama verdinha, um pé de goiaba cheio de folhas brilhantes, uma rede listrada presa entre duas árvores e um cachorro vira-lata caramelo chamado Pingo, que vivia abanando o rabo como se dissesse “bom dia” para tudo.

Ali moravam Theo, de sete anos, e seu pai, o Paulo. Theo tinha um caderno de capa azul cheio de desenhos de dinossauros, um estilingue de brinquedo que ele jurava que era “de explorador” e uma coleção de bolinhas de gude guardadas numa lata de biscoito. Já Paulo… Paulo tinha chaves, relógio, celular e uma agenda tão cheia que parecia um sanduíche bem alto.

— Pai, vamos brincar de bola no quintal? — Theo perguntou numa tarde de quinta-feira, segurando a bola de futebol com as duas mãos.

Paulo nem tirou os olhos do notebook.

— Hoje não, filho. O papai tá com pressa. — E ainda completou com a frase que Theo já conhecia de cor: — Depois a gente brinca.

Theo apertou a bola com força. Ele não queria “depois”. Ele queria agora. Seu peito ficou quentinho de chateação.

— Você sempre fala “depois” — Theo reclamou, baixinho, mas audível o suficiente.

Paulo suspirou.

— Theo, eu trabalho pra gente ter as coisas, entende?

— Eu entendo… — Theo respondeu, mas, por dentro, parecia que tinha um nó na garganta. Ele saiu arrastando a bola, e Pingo foi atrás, como se perguntasse com os olhos: “Vamos brincar nós dois?”

Naquela noite, choveu fininho. A rua ficou com cheiro de terra molhada. Theo se enfiou na cama com seu caderno azul. Desenhou um pai e um filho jogando bola, bem grandes, e escreveu embaixo, tortinho: “Hoje.”

No dia seguinte era sexta-feira. Theo acordou com um barulho esquisito, como se alguém estivesse tropeçando pela casa.

— Ai! Meu pé! — uma voz reclamou.

Theo levantou, ainda de pijama, e saiu correndo para o corredor.

Na sala, bem no meio do tapete, tinha… um menino. Um menino de cabelo bagunçado, camiseta do Homem-Aranha um pouco grande e uma bermuda que parecia ter sido tirada de um baú antigo. O menino estava esfregando o joelho, com cara de quem caiu feio.

Theo piscou.

— Quem é você? — perguntou, dando um passo pra trás.

O menino arregalou os olhos.

— Eu sou eu! — ele respondeu, confuso. — Eu sou o… o Paulo!

Theo deu uma risada nervosa.

— Não. O Paulo é meu pai. E ele é grande. E tem barba. E fala “depois”.

O menino abriu a boca, tocou o próprio rosto e passou a mão no queixo, como se procurasse a barba.

— Cadê? — Ele olhou para as próprias mãos, miúdas. — Cadê minhas mãos de adulto? Cadê meu relógio? — E, de repente, ele correu para o espelho da sala.

Theo foi atrás, com o coração batendo rápido.

O menino no espelho tinha os mesmos olhos castanhos do pai de Theo. E o mesmo jeito de franzir a testa quando pensava.

— Eu… virei criança! — o menino Paulo disse, com a voz tremendo. — Isso é impossível.

Theo ficou parado, tentando juntar as peças como um quebra-cabeça.

— Se você é meu pai… então… — Theo engoliu seco. — Cadê o meu pai de verdade?

— Eu sou seu pai de verdade! — o menino insistiu. E então, como se lembrasse de algo muito importante, falou: — A cafeteira! Eu programei a cafeteira ontem!

Ele correu até a cozinha e tentou alcançar o botão, mas era alto demais. Ele pulou, esticou o braço, fez careta. Theo, ainda em choque, puxou uma cadeira e colocou perto.

— Sobe aí — Theo disse.

O menino Paulo subiu com cuidado, como quem não confia nas próprias pernas.

— Obrigado, filho — ele falou, e a palavra “filho” soou tão certa que Theo sentiu um arrepio.

A cafeteira fez “ploc ploc”, e o cheiro de café se espalhou. Theo, naquela hora, percebeu uma coisa: mesmo criança, Paulo continuava com manias de adulto.

— O que aconteceu? — Theo perguntou.

O menino Paulo olhou para a janela. A chuva tinha parado, e o sol aparecia tímido.

— Talvez… talvez seja uma daquelas coisas que acontecem quando a gente esquece o que é ser criança — ele disse, coçando a cabeça.

Theo não tinha certeza se acreditava, mas gostou da ideia.

— Então hoje você não vai trabalhar? — Theo perguntou, com esperança.

— Eu não consigo nem abrir o notebook com essa senha enorme — o menino resmungou. — E… bom… eu não posso sair na rua assim. Vão pensar que eu fugi da escola.

Theo sentiu uma alegria borbulhar.

— Então… você vai brincar comigo!

O menino Paulo arregalou os olhos.

— Brincar? Agora?

— Agora. Não “depois”. — Theo cruzou os braços, tentando parecer firme como um juiz.

Paulo olhou para as próprias pernas curtas e depois para Theo.

— Certo. Hoje… agora.

E foi assim que começou o dia mais diferente da vida de Theo.

Primeiro, eles foram para o quintal. Pingo pulava em volta dos dois como se estivesse comemorando.

— Vamos jogar bola — Theo anunciou.

Paulo pegou a bola e chutou… com força demais. A bola subiu e foi parar em cima do telhado da varanda, bem no cantinho.

— Opa! — Paulo disse, com um sorriso travesso. — Eu lembro que quando eu era pequeno eu fazia isso.

Theo abriu a boca.

— Pai! Quer dizer… Paulo! Você estragou a brincadeira!

Paulo deu de ombros, mas seus olhos mostraram um medo pequenininho.

— E agora? — ele perguntou. — Quando eu era adulto eu pegava uma escada…

Theo apontou.

— A escada tá na área de serviço. Só que… ela é pesada.

Os dois foram até lá. A escada realmente era grande, de alumínio, e fazia um barulho metálico ao ser arrastada.

Paulo tentou puxar sozinho e não conseguiu. Ficou vermelho, fazendo força.

— Ufa… — ele disse, ofegante. — Eu não sabia que era tão difícil quando a gente é pequeno.

Theo aproximou-se.

— Vamos juntos. Um de cada lado.

Eles contaram.

— Um… dois… três!

A escada se mexeu, devagarinho. Eles arrastaram até a varanda, com Pingo cheirando tudo e latindo baixinho.

Paulo subiu no primeiro degrau e parou.

— Tá alto — ele sussurrou.

— Ué, mas você não é corajoso? — Theo provocou, lembrando de quando o pai dizia “não tenha medo” antes de uma vacina.

Paulo engoliu em seco.

— Eu sou… só que minhas pernas estão… diferentes.

Theo percebeu que Paulo estava com medo de verdade. E isso era novo. O pai de Theo, adulto, parecia sempre saber o que fazer. Aquele menino não sabia.

— Olha pra mim — Theo disse, com cuidado. — Você não precisa subir até o topo. Sobe só um pouco, e eu fico segurando a escada. E se não der, a gente pensa em outra coisa.

Paulo respirou fundo.

— Tá.

Ele subiu mais um degrau, segurando firme. Theo segurou a escada com as duas mãos, com força. O coração dele batia rápido, mas ele ficou ali, firme como um poste.

Paulo esticou o braço… quase… quase…

— Não alcança! — Paulo reclamou.

Theo olhou em volta e viu o ancinho encostado na parede.

— Pega o ancinho! — Theo disse. — Eu vi na TV que dá pra puxar coisas.

Paulo desceu depressa e pegou o ancinho. Subiu de novo com cuidado. Theo segurava a escada e falava como um treinador:

— Devagar. Isso. Agora estica.

Paulo esticou o ancinho, tentando encaixar os dentes na bola. O ancinho escorregou uma vez, duas…

E então, no terceiro esforço, a bola rolou.

Só que rolou rápido demais.

— Cuidado! — Theo gritou.

A bola veio descendo do telhado como um foguete e ia cair bem em cima do vaso de barro da vó, aquele vaso enorme com uma samambaia que parecia uma cabeleira verde.

Paulo arregalou os olhos.

— O vaso! — ele gritou.

Theo correu, mas estava longe. Paulo, mesmo pequeno, pulou da escada para o chão e se jogou na frente do vaso, abrindo os braços, como um goleiro.

Ilustração da história O Dia em que Papai Virou Criança

A bola acertou Paulo na barriga e caiu no chão com um “pof!” Paulo fez uma careta, mas o vaso ficou inteiro. A samambaia balançou, mas não caiu.

Theo parou, com as mãos tremendo.

— Você… você se machucou? — ele perguntou, com a voz baixinha.

Paulo passou a mão na barriga e depois deu uma risada fraca.

— Doeu… mas passou. — Ele olhou para o vaso como se fosse um tesouro. — Se a vó visse esse vaso quebrado… ia ser um problemão.

Theo sentiu um calor no peito. Não era só alegria. Era uma coisa parecida com orgulho.

— Você salvou — Theo disse.

Paulo olhou para Theo, sério por um momento.

— E você me ajudou. Você segurou a escada. Você pensou no ancinho. — Ele fez uma pausa. — Theo… ser criança é mais difícil do que eu lembrava.

Theo mordeu o lábio.

— E ser adulto também deve ser difícil.

Paulo assentiu, como se aquela frase tivesse aberto uma janela dentro dele.

Depois disso, eles decidiram brincar de coisas mais seguras. Fizeram uma “cidade” de caixas de papelão na sala, com ruas desenhadas com fita crepe. Pingo virou o “monstro gigante” que tentava invadir, e Theo e Paulo o “capturavam” com almofadas.

Na hora do almoço, Theo ensinou Paulo a fazer um sanduíche do jeito que ele gostava: pão com queijo, tomate e um fiozinho de orégano.

— Quando eu sou adulto eu nem reparo no gosto — Paulo confessou, mastigando. — Eu só como correndo.

Theo riu.

— Comer correndo é ruim. A gente nem sente.

De tarde, eles sentaram na calçada para ver o bairro. Passou o vendedor de picolé com a caixa azul. Passou uma bicicleta com uma cestinha. Dona Cida, a vizinha, regava as plantas e acenou.

— Oi, Theo! Oi… amiguinho? — ela estranhou.

Theo engoliu o riso.

— É… é meu primo! — Theo inventou.

Paulo tentou parecer natural, mas acabou fazendo uma careta engraçada, como se estivesse segurando uma gargalhada.

Quando o sol começou a ficar laranja, Theo e Paulo voltaram para dentro. O menino Paulo bocejou.

— Eu tô cansado — ele disse.

— Ué, mas você não fez nada de trabalho — Theo falou, lembrando das reclamações do pai.

Paulo se jogou no sofá.

— Brincar cansa mais do que eu lembrava. E… dá um frio na barriga. E dá fome. E dá alegria. — Ele olhou para Theo. — Theo, eu acho que eu entendi uma coisa.

— O quê?

Paulo falou devagar, como quem escolhe as palavras.

— Quando eu digo “depois”, eu não quero dizer que não quero você. Eu quero dizer que tô tentando segurar um monte de coisas ao mesmo tempo. Mas… eu vejo que você sente como se eu estivesse te deixando pra depois.

Theo ficou quieto. O nó na garganta voltou, mas agora parecia se desfazendo.

— É — Theo disse. — Eu fico triste.

Paulo assentiu.

— E eu fico triste também, só que eu não mostrava. — Ele respirou fundo. — Amanhã… se eu voltar ao normal… a gente vai ter um “agora” todo dia. Nem que seja só vinte minutos. Sem celular. Sem “depois”.

Theo arregalou os olhos.

— Promete?

— Prometo — Paulo disse. — E se eu esquecer, você pode me lembrar.

Theo sorriu. Um sorriso grande, que parecia iluminar a sala.

Naquela noite, Theo levou um cobertor para a sala.

— Você vai dormir aqui? — Theo perguntou.

— Acho que sim — Paulo respondeu. — Se eu for pro meu quarto e virar adulto no meio da noite, vai ser estranho.

Theo deitou no tapete, perto do sofá.

— Pai… — Theo disse, baixinho. — Mesmo quando você era adulto, eu gostava de você.

Paulo, criança, virou o rosto e seus olhos ficaram marejados.

— E eu sempre gostei de você. Só que eu tava esquecendo de mostrar.

A luz do abajur ficou bem fraquinha. Pingo se enroscou perto dos dois. Do lado de fora, os grilos cantavam.

Quando Theo acordou no sábado, o sol já entrava pela janela. Ele levantou de um pulo e olhou para o sofá.

Lá estava Paulo… adulto de novo, com a barba de sempre e o cabelo amassado. Ele abriu os olhos, meio perdido.

— Theo? — ele chamou.

Theo correu e abraçou o pai forte.

— Você voltou!

Paulo abraçou de volta, apertado, como se não quisesse soltar.

— Eu voltei. — Ele respirou fundo. — Filho… eu tive um sonho muito doido.

Theo sorriu de canto.

— Foi sonho, foi?

Paulo olhou ao redor e viu, no chão, a fita crepe da “cidade” de caixas, um ancinho encostado perto da varanda e… a bola com uma marquinha de barro.

Ele sorriu, meio sem acreditar.

— Acho que não foi só sonho.

Paulo pegou a bola e a girou nas mãos.

— Vem cá — ele disse. — Vamos pro quintal. Agora.

Theo nem respondeu. Já estava correndo, com Pingo atrás.

No quintal, o vento mexia as folhas da goiabeira, e o dia parecia novinho em folha.

— Hoje é dia de “agora” — Paulo falou.

Theo chutou a bola devagar, e Paulo devolveu com cuidado. Os dois riram. E, enquanto a bola ia e voltava, Theo sentiu que o “depois” tinha ficado bem menor.

✨ Moral da História

Quando a gente se coloca no lugar do outro e reserva um tempinho de atenção de verdade, o carinho fica mais fácil de aparecer todos os dias.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que o Theo ficava chateado quando o pai dizia “depois a gente brinca”?
  • 2Como o Theo ajudou o pai-criança a resolver o problema da bola no telhado?
  • 3O que você sentiu quando o pai se jogou para proteger o vaso da vó?
  • 4Se você fosse o Theo, que brincadeira escolheria para fazer com o pai naquele dia?
  • 5Que “agora” você gostaria de ter com alguém da sua família (mesmo que seja só por alguns minutos)?

O que achou desta história?

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Raposinha

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