A Bela e a Fera do Pantanal
Uma menina corajosa descobre a beleza interior de uma criatura misteriosa do Pantanal, ensinando que aparências enganam.
No coração do Pantanal, onde o céu parecia um lençol azul esticado até o fim do mundo e as nuvens passeavam devagar como boiadas mansas, vivia uma menina chamada **Lia**. Ela tinha **sete anos**, olhos curiosos como de passarinho e uma coragem que não cabia no peito. Lia morava com a avó, Dona Alzira, numa casinha simples de madeira, com varanda, rede e cheiro de café passado na hora.
De manhã cedo, o Pantanal acordava junto com ela: os **tuiuiús** abriam as asas enormes, os **jacarés** ficavam quietinhos na beira da água, só com os olhos de bolinha espiando, e as **capivaras** pareciam almofadas vivas andando em fila.
— Vó, eu posso ir até a curva do rio? — perguntava Lia, amarrando o cabelo com um elástico vermelho.
Dona Alzira colocava a mão na cintura e fazia cara séria, mas o olhar era doce.
— Pode, minha neta, mas vai com atenção. O Pantanal é lindo e também é cheio de segredos. E não mexa com bicho nenhum.
— Eu só vou olhar! — Lia respondia, rindo.
Naquela semana, um boato correu como vento por entre os vizinhos e os peões das fazendas próximas: havia uma **Fera** vivendo perto da parte mais funda do brejo, num lugar que chamavam de **Sombra Comprida**. Diziam que ela fazia barulhos estranhos à noite, que derrubava galhos, que assustava os cavalos.
— Eu ouvi um urro, Lia! — contou Tonho, o menino que morava na casa ao lado, arregalando os olhos. — Parecia um trovão com dentes!
— Trovão com dentes? — Lia tentou imaginar e achou engraçado.
— Minha mãe falou que é melhor nem chegar perto. Vai que ela pega a gente! — Tonho completou, abraçando o próprio corpo.
Lia ficou pensativa. Não era teimosa por maldade, mas tinha um coração que gostava de entender as coisas. E, lá dentro, uma pergunta crescia: **e se a Fera não fosse má?**
Na tarde seguinte, o céu estava cor de laranja e rosa, como se alguém tivesse derramado tinta em aquarela. Lia pegou uma garrafinha de água, um pedaço de bolo de fubá embrulhado num pano e seguiu pelo caminho de terra batida. Ela conhecia cada árvore torta, cada buraco de tatu, cada canto de passarinho. Ainda assim, naquele dia, tudo parecia diferente: mais silencioso, mais atento.
Quando chegou perto da região da Sombra Comprida, o mato ficou mais fechado e o ar mais úmido. Os mosquitos faziam um zzzzz fininho ao redor, e o cheiro de água parada misturava-se ao perfume das flores escondidas. Lia pisou com cuidado, como quem anda sobre segredo.
Então ouviu.
Um som fundo, triste, como um sopro pesado.
— Tem alguém aí? — Lia chamou, com a voz tremendo só um pouquinho.
Um estalo de galho respondeu. E, do meio das sombras, surgiu a tal Fera.
Ela era grande, com corpo forte e escuro, como tronco molhado. Tinha o focinho comprido, os pelos grudados, e uma cicatriz atravessava parte do rosto. Os olhos, porém… os olhos eram o que mais impressionava: não eram de maldade. Eram olhos cansados, desconfiados, como de alguém que tinha levado susto demais.
Lia sentiu o coração bater tão alto que parecia pandeiro em festa junina.
— Você… você é a Fera? — ela perguntou, sem conseguir evitar.
A criatura não falou, claro. Mas fez um som baixo e recuou um passo, como se tivesse medo dela também.
Lia lembrou do que a avó dizia: “O medo cresce quando a gente não conhece.” E também lembrou de outra coisa: quando um cachorro de rua rosnava, às vezes não era raiva — era **fome** e **desconfiança**.
Devagar, Lia tirou o pano do bolo de fubá.
— Eu não vou te machucar. Eu só… vim ver. — Ela colocou o bolo no chão, bem à frente, e deu alguns passos para trás.
A Fera cheirou o ar. Depois cheirou o bolo. E, com movimentos cuidadosos, comeu, como se não comesse há muito tempo.
Lia soltou o ar, aliviada.
— Pronto. Viu? A gente pode ficar em paz.
A criatura ergueu o rosto. Os olhos encontraram os dela. Por um instante, Lia teve a sensação de que ela estava tentando dizer alguma coisa importante.
Nos dias seguintes, Lia voltou mais vezes, sempre de dia, sempre com cuidado. Levava frutas, um pedaço de mandioca cozida, às vezes um pouco de milho. Não chegava perto demais, mas ia ficando menos distante. A Fera não atacava. Só observava. Às vezes, soltava aquele sopro triste.
Certa manhã, Lia encontrou marcas no chão: pegadas profundas e arrastadas, como se alguém estivesse mancando. Ela seguiu as marcas e, perto do brejo, viu a Fera deitada de lado, respirando difícil.
E então Lia percebeu o que ninguém tinha contado nos boatos.
A Fera tinha uma das patas presa numa armadilha velha, enferrujada, daquelas que algum caçador deixara para trás. O metal mordia a pele, e havia sangue misturado com lama.
— Ai, meu Deus… — Lia sussurrou, sentindo os olhos encherem de água.
A Fera tentou se levantar, mas caiu. Seus olhos pediam distância e ajuda ao mesmo tempo.
Lia engoliu o medo como quem engole remédio amargo.
— Eu vou te ajudar. Eu prometo.
Ela correu para casa o mais rápido que suas pernas pequenas aguentaram. O caminho parecia mais longo, e os galhos arranhavam seus braços, mas Lia não parou. Chegou ofegante, com a respiração toda picotada.
— Vó! Vó Alzira! — gritou.
Dona Alzira apareceu na porta, assustada.
— Menina, o que aconteceu?
— A Fera… ela tá machucada! Presa numa armadilha! Ela não é ruim, vó! Ela tá sofrendo! — Lia falou de uma vez, com lágrimas e pressa.
A avó ficou em silêncio por um segundo, como quem escolhe o tamanho certo da coragem.
— Então vamos agir do jeito certo. — Ela pegou um pano limpo, uma garrafa de água, um pouco de pomada e chamou seu Chico, o vizinho que entendia de bicho e de mato.
Seu Chico veio com um alicate grande e uma lanterna.
— Fera no brejo, é? — ele perguntou, coçando o bigode. — Pode ser uma anta ferida… ou um bicho que ninguém conhece. Mas, se tá sofrendo, a gente ajuda.
Os três seguiram juntos, e Lia ia na frente, guiando pelo caminho. Quando chegaram, a Fera tentou se arrastar para longe, apavorada.
— Calma! — Dona Alzira falou com voz firme e mansa, como quem acalma criança em dia de tempestade. — A gente vai tirar isso de você.

Foi o momento mais tenso e importante: a Fera rosnou de dor, o brejo fez barulho, os pássaros levantaram voo, e Lia segurou a mão da avó com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
Seu Chico se aproximou devagar.
— Vamos, vamos… sem pressa. — Ele colocou o alicate na armadilha. — Lia, não chega perto. Dona Alzira, segura o pano.
A Fera respirava rápido, e seus olhos brilhavam, cheios de pânico. Lia, mesmo tremendo, falou com a voz mais suave que conseguiu:
— Eu tô aqui. Eu não vou te deixar.
Seu Chico fez força. O metal rangeu.
— Tá quase… — ele murmurou.
Com um estalo, a armadilha se abriu. A pata ficou livre. A Fera soltou um gemido e tentou se levantar, cambaleante.
Dona Alzira, sem se aproximar demais, estendeu o pano com água e, com muito cuidado, jogou um pouco perto da ferida para limpar. Depois, colocou um pouco de pomada num galho e empurrou devagar para que a Fera pudesse esfregar na pata.
— Pronto. Agora vai melhorar — disse ela.
A criatura ficou parada por um momento, como se não acreditasse. Depois, mancou até a sombra de uma árvore e olhou para Lia. Não havia ameaça naquele olhar. Havia… um tipo de agradecimento quieto.
— Viu, Tonho? — Lia disse mais tarde, quando contou a história para o amigo. Tonho estava com a boca aberta, parecendo que tinha engolido uma jaca inteira.
— Então… ela só era… ferida? — ele perguntou.
— Ela era assustada. E tava presa. — Lia respondeu. — Às vezes, a gente chama de Fera o que só tá com dor.
Nos dias seguintes, o boato mudou. Em vez de “Fera perigosa”, as pessoas passaram a falar: “o bicho do brejo que a Lia salvou”. Seu Chico avisou o pessoal da fazenda e juntaram armadilhas velhas e lixos espalhados, para que nenhum animal se machucasse de novo.
E Lia? Lia aprendeu a olhar com mais cuidado.
Certa manhã, quando o sol nasceu amarelo e redondo, ela foi até a curva do rio. Lá longe, perto da água, a criatura apareceu mais uma vez. Agora, com a pata melhorando, ela caminhava com menos dificuldade. Parou, virou o corpo devagar e, antes de sumir no mato, deixou uma coisa cair no chão.
Lia se aproximou e encontrou uma pena grande de tuiuiú, branca com uma ponta preta, bonita como um presente.
— Obrigada… — Lia sussurrou, guardando a pena no bolso.
Ao voltar para casa, Dona Alzira a esperava na varanda.
— E então, minha neta corajosa, como foi o passeio?
Lia sorriu, sentindo o vento quente do Pantanal bagunçar seus cabelos.
— Foi bonito, vó. Eu acho que… a gente pode achar beleza até no que parece assustador.
Dona Alzira fez carinho na cabeça dela.
— Isso mesmo. O coração enxerga coisas que os olhos, às vezes, esquecem de ver.
E assim, no Pantanal cheio de água, de vida e de mistérios, Lia cresceu sabendo que **nem toda Fera é vilã**, e que a verdadeira beleza, muitas vezes, mora escondida atrás de uma cara feia, de uma cicatriz ou de um susto antigo — esperando alguém corajoso o bastante para enxergar.
✨ Moral da História
“Antes de julgar alguém pela aparência, tente entender sua história — a bondade pode estar escondida atrás do medo e da dor.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que Lia decidiu voltar e observar a Fera em vez de sair correndo logo no primeiro encontro?
- 2O que você acha que a Fera sentiu quando viu Lia chegando perto com comida e falando com calma?
- 3Se você encontrasse um animal machucado no seu bairro, o que você faria para pedir ajuda com segurança?
- 4O que mudou na vila depois que Lia e a avó ajudaram a Fera?
- 5Qual foi o momento da história em que você sentiu mais suspense ou emoção? Por quê?
O que achou desta história?
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