Pinóquio do Cordel
Um boneco de madeira ganha vida no sertão nordestino e aprende que honestidade é o caminho para se tornar de verdade.

No sertão nordestino, onde o sol parece bater de frente com a terra e o vento carrega cheiro de mandacaru, havia uma cidadezinha chamada Pedra do Juá. Ali, as ruas eram de barro batido, as casas tinham paredes caiadas e, nas tardes de domingo, a praça principal se enchia de conversa, risada e som de sanfona.
Na beira dessa praça, debaixo da sombra teimosa de um juazeiro antigo, ficava a oficina de Seu Ambrósio, um artesão conhecido por fazer bonecos e brinquedos de madeira. Ele tinha mãos grossas, de dedos marcados por calos, mas um jeito delicado de lixar e entalhar, como se conversasse com a madeira antes de decidir o que ela viraria.
Seu Ambrósio vivia sozinho desde que dona Quitéria, sua esposa, “viajara para as bandas do céu”, como ele dizia, com um respeito que misturava saudade e fé. Naquele mês de junho, a cidade inteira se preparava para as festas: bandeirinhas coloridas, cheiro de canjica e pamonha, fogueiras sendo montadas, e a escola ensaiando um cordel que falava de coragem e justiça.
Mas Seu Ambrósio, por dentro, sentia um vazio. Fazia bonecos para as crianças dos outros, e em cada sorriso que via, uma pergunta apertava seu peito: “E eu? Para quem eu faço?”
Numa tarde muito seca, em que o céu parecia ter esquecido como se faz nuvem, ele encontrou um tronco diferente, trazido pela correnteza de um riacho quase morto. Era um pedaço de umburana, madeira leve e perfumada. Quando encostou a palma nele, sentiu um calor estranho — não era do sol.
— Ocê tem história — murmurou, como se o tronco pudesse responder.
Naquela noite, com a lamparina acesa e o silêncio do sertão batendo nas paredes, Seu Ambrósio decidiu: faria um boneco que fosse mais do que brinquedo. Um boneco que contasse a vida em versos, como nos folhetos de cordel que ele guardava numa caixa de sapato.
Entalhou pernas, braços, mãos. Fez um rosto com bochechas arredondadas e um sorriso pequeno, meio desconfiado. E, por capricho, talhou um nariz um pouco maior, “pra dar graça”, pensou. Vesti-o com uma camisa xadrez miúda e um colete de couro fininho, desses que lembravam vaqueiro de folguedo. Quando terminou, já era madrugada.
Cansado, Seu Ambrósio se sentou diante do boneco e falou baixinho, como quem confessa:
— Se eu tivesse um filho, eu queria que fosse valente, mas que soubesse distinguir coragem de teimosia. E que fosse honesto, mesmo quando ninguém tivesse olhando.
Nesse momento, uma brisa entrou pela janela. Não era brisa comum: vinha com cheiro de chuva distante e com um som de papel sendo folheado. A lamparina tremelicou. E, onde antes havia só madeira, os olhos do boneco brilharam como se tivessem acordado de um sonho.
O boneco se mexeu. Primeiro um dedo, depois a cabeça, por fim as pernas. Levantou-se com equilíbrio incerto, como cabrito recém-nascido.
— Oxente… eu tô vivo? — disse ele, com voz fina e assustada.
Seu Ambrósio derrubou a lixa no chão.
— Ave-Maria! — exclamou, e depois, com os olhos cheios d’água: — Se ocê tá falando, tá vivo sim, meu fio.
— E eu me chamo… como?
Seu Ambrósio pensou no cordel, nas histórias que viravam verdade quando eram bem contadas.
— Pinóquio do Cordel — decidiu. — Porque ocê nasceu da madeira e vai aprender o mundo em verso.
Pinóquio do Cordel abriu um sorriso. Era um sorriso que parecia ter curiosidade demais para caber num rosto só. No mesmo instante, ele correu pela oficina, tocando tudo: as ferramentas, os retalhos, os folhetos.
— Eu quero ver a festa! Quero dançar quadrilha! Quero comer bolo de milho! — disse ele, apressado, como se o tempo fosse um passarinho prestes a voar.
— Devagar, menino — pediu Seu Ambrósio. — O mundo é grande e nem todo canto é seguro.
Mas Pinóquio do Cordel já tinha ouvido, lá fora, o riso da praça.
Na manhã seguinte, a cidade parecia mais viva que nunca. As bandeirinhas tremulavam, os alto-falantes da prefeitura tocavam forró, e um homem vendia folhetos na esquina, gritando:
— Cordel fresquinho! História de amor, de luta e de confusão!
Pinóquio do Cordel se aproximou como quem vai beber água depois de caminhada. Encantou-se com as capas desenhadas e as rimas.
— Moço, quanto custa esse? — perguntou, apontando.
— Dois reais.
Pinóquio passou a mão no bolso e lembrou, com espanto, que não tinha bolso de verdade — e nem dinheiro.
Antes que pudesse pensar, um garoto mais velho, chamado Zé Biriba, apareceu com um sorriso torto e olhos rápidos.
— Tu quer cordel? Eu arrumo um jeito — sussurrou. — É só tu dizer que teu pai mandou buscar fiado na venda do seu Nicanor. A gente pega uns doce, um cordel, e pronto.
Pinóquio hesitou. Sentiu um nó no peito, como quando a gente sabe que algo parece fácil demais.
— Mas… eu nem tenho pai que manda isso.
— E daí? Ninguém vai saber. Aqui, quem fala bonito se dá bem — respondeu Zé Biriba, mexendo no chapéu de palha.
A frase “quem fala bonito se dá bem” entrou na cabeça de Pinóquio como um espinho. Ele queria ser aceito, queria parecer esperto, queria pertencer.
— Tá… eu digo — concordou, com a coragem errada, aquela que é só pressa.
Na venda de Seu Nicanor, o cheiro de café e rapadura dominava o ar. O comerciante, homem sério de bigode bem aparado, ergueu a sobrancelha.
— Falaram que foi Seu Ambrósio que mandou?
Pinóquio respirou fundo.
— Foi… foi sim.
No instante em que a mentira saiu inteira, o nariz de Pinóquio do Cordel deu um estalo pequenino e cresceu um tantinho. Não foi enorme como em algumas histórias, mas foi suficiente para ele sentir o desequilíbrio do próprio rosto.
Zé Biriba arregalou os olhos, depois riu.
— Vixe, teu nariz é engraçado demais!
Pinóquio colocou a mão no rosto, assustado. Tentou esconder.
— Deve ser… alergia de poeira — inventou, e o nariz cresceu mais um pouquinho.
Seu Nicanor, desconfiado, apertou os olhos.
— Alergia que cresce assim? Isso tá é estranho.
Pinóquio saiu correndo com o folheto na mão e um doce de rapadura que Zé Biriba tinha empurrado para ele. No caminho, sentiu um peso por dentro — não era a rapadura, era a consciência, mesmo que ele ainda não soubesse esse nome.
No fim da tarde, encontrou Seu Ambrósio na oficina, sentado e preocupado.
— Ocê foi onde, menino? — perguntou o velho, a voz misturada com alívio e bronca.
Pinóquio quis dizer a verdade, mas viu o olhar do artesão, viu o medo de perder o único milagre que a vida tinha lhe dado, e travou. Então mentiu de novo:
— Eu só fui… ver a praça.
O nariz cresceu mais. Seu Ambrósio notou.
— Pinóquio… teu nariz tá diferente.
— Não tá não! — disse Pinóquio, já suando. E cresceu mais um pouco.
Seu Ambrósio se aproximou e tocou com cuidado o nariz de madeira.
— Meu fio… mentira pesa. Às vezes pesa no peito. Às vezes aparece no rosto.
Pinóquio sentiu vontade de chorar, mas não sabia como chorar — lágrimas ainda eram coisa que ele tinha que aprender.
No dia seguinte, a escola ensaiaria a apresentação de cordel na praça. O tema era “justiça no sertão”: falava de gente que dividia água em tempo de seca, de respeito ao esforço do outro, de responsabilidade. Pinóquio quis participar. Achou que, se recitasse versos bonitos, ninguém ia notar seu nariz.
Na praça, a professora Rosa organizava as crianças.
— Cada um vai dizer seu trecho, com firmeza e verdade — explicou.
Zé Biriba apareceu de novo, girando uma moeda entre os dedos.
— Quer ser a estrela? Eu te ajudo — provocou, apontando para o microfone da prefeitura. — É só tu dizer que a professora te escolheu pra abrir o espetáculo. Aí tu pega o microfone antes e pronto.
Pinóquio olhou para a professora Rosa, para as crianças ensaiando com dedicação, para Seu Ambrósio sentado no banco, orgulhoso e nervoso. Ele podia ser notado do jeito certo, mas isso exigia paciência. Ou podia ser notado do jeito fácil, mentindo. A tentação voltou como vento quente.
Pinóquio respirou e, de novo, escolheu errado.
— A professora me escolheu — anunciou alto, tomando o microfone antes da hora.
A praça ficou silenciosa por um instante. Professora Rosa franziu a testa.
— Eu não escolhi, Pinóquio. Quem disse isso?
Pinóquio sentiu o chão sumir. A mentira, exposta, parecia um holofote. Ele abriu a boca para inventar outra, mas o nariz cresceu com rapidez, empurrando o microfone, batendo no suporte. O som fez um “tum” alto, e as pessoas riram, algumas por surpresa, outras por maldade.
Zé Biriba gargalhou.
— Eu disse que tu falava bonito! Mas agora tu tá é falando com o nariz!
Pinóquio tentou segurar o nariz com as duas mãos, mas ele continuava crescendo, como se cada segundo de vergonha alimentasse a madeira.
Então algo aconteceu dentro dele: não foi um estalo como o do nariz, foi um estalo de entendimento. Ele percebeu que o riso não doía tanto quanto a sensação de ter sido injusto. Injusto com Seu Ambrósio, que confiava nele. Injusto com a professora, que ensinava a turma a falar com verdade. Injusto consigo mesmo, porque ele estava tentando ser aceito por um caminho que o tornava menor.
Ele subiu de novo no pequeno palco improvisado, agora sem querer brilho, só querendo consertar.
— Povo de Pedra do Juá — disse Pinóquio do Cordel, a voz tremendo, mas firme. — Eu menti. Eu menti na venda do Seu Nicanor. Eu menti pro Seu Ambrósio. Eu menti agora pra tomar o lugar que não era meu. Eu fiz isso porque eu queria ser importante rápido. Mas eu tô entendendo… que importância de verdade não nasce da mentira.
O silêncio que veio depois não era vazio: era pesado e atento.
Seu Nicanor, que estava no meio da praça, deu um passo à frente.
— Então foi tu mesmo que pegou fiado no nome dos outros? — perguntou, sério.
Pinóquio engoliu seco.
— Foi. E eu vou pagar. Eu não sei como ainda, mas vou.
Seu Ambrósio levantou-se devagar, como quem carrega a própria emoção.
— Eu pago o que for preciso — disse ele, mas Pinóquio balançou a cabeça.
— Não, padrinho… eu tenho que aprender a responsabilidade. Eu posso trabalhar. Posso ajudar na oficina. Posso fazer folheto, posso lixar madeira. Eu quero reparar.
Professora Rosa se aproximou.
— Isso é coragem — falou, olhando para a turma. — Coragem não é gritar mais alto. É assumir o que fez e tentar corrigir.
E, como se a própria madeira entendesse o valor da verdade, o nariz de Pinóquio começou a diminuir. Não voltou ao tamanho original de uma vez; foi voltando aos poucos, como se o arrependimento sincero precisasse de tempo para reorganizar o que a mentira bagunçou.
Nos dias seguintes, Pinóquio do Cordel passou a acordar cedo. Ajudava Seu Ambrósio a varrer a oficina, separava aparas, aprendia a lixar sem machucar a madeira. E, principalmente, ouvia. Ouviu histórias de gente que perdeu tudo por enganar e de gente que ganhou respeito por dizer a verdade, mesmo que a verdade doesse.
Com o tempo, começou a escrever seus próprios versinhos, com letra grande e torta, mas cheia de intenção. Um sábado, levou um folheto para a praça. Na capa, desenhou um boneco de nariz comprido, um juazeiro e um coração.
Ele leu em voz alta:
— “No sertão, a palavra é ponte, se é mentira, vira espinho. Quem assume o seu erro acha de novo o caminho.”
As pessoas ouviram. Algumas sorriram com gentileza, outras bateram palma. Seu Nicanor comprou um folheto e, ao entregar, disse baixo:
— Pagamento tá feito, menino. Não pelo doce. Pelo que tu aprendeu.
Pinóquio sentiu algo esquentar dentro do peito, como quando a fogueira acende e a gente percebe que a noite não vai vencer.
Na festa de São João, ele entrou na quadrilha com a turma, de camisa xadrez e colete de couro. Dançou, errou passo, riu de si mesmo sem humilhação. E, quando chegou a hora do cordel, ele não roubou microfone. Esperou sua vez.
No fim, Seu Ambrósio colocou a mão no ombro de Pinóquio.
— Ocê tá ficando de verdade, meu fio.
Pinóquio olhou para as próprias mãos de madeira. Ainda eram madeira, sim. Mas agora carregavam trabalho, reparo e cuidado.
— Então… ser de verdade é isso? — perguntou.
Seu Ambrósio pensou um pouco e respondeu:
— Ser de verdade é quando a gente escolhe a honestidade, mesmo com medo. Porque a verdade pode até demorar… mas ela constrói.
E naquela noite, sob o céu do sertão cheio de estrelas teimosas, Pinóquio do Cordel entendeu que cada escolha era como um verso: podia rimar com facilidade ou com dignidade. E decidiu, dali em diante, rimar com dignidade, para que, um dia, sua história não fosse apenas contada — fosse vivida.
✨ Moral da História
“A honestidade pode ser difícil no começo, mas é ela que constrói respeito, reparo e um coração verdadeiro.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Em quais momentos Pinóquio escolheu o “caminho fácil”? O que ele ganhou e o que ele perdeu com isso?
- 2Você acha que Seu Ambrósio fez bem em deixar Pinóquio assumir a responsabilidade de reparar o erro? Por quê?
- 3Como a vergonha e o medo podem fazer alguém mentir, mesmo sabendo que é errado?
- 4Se você fosse a professora Rosa ou o Seu Nicanor, como reagiria à confissão de Pinóquio? O que seria justo fazer?
- 5Que atitudes do Pinóquio mostram que ele começou a “virar de verdade” antes mesmo de deixar de ser um boneco?
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