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João e Maria e a Casa de Doces na Serra Gaúcha

27 de janeiro de 202612 min de leitura6 a 8 anos1 visualizações

Dois irmãos se perdem nas matas de araucária da Serra Gaúcha e encontram uma misteriosa casa feita de chocolates e biscoitos. Mas quem mora lá tem planos nada doces para eles.

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João e Maria e a Casa de Doces na Serra Gaúcha

No alto da Serra Gaúcha, onde os pinheiros de araucária tocam as nuvens e o frio faz a gente querer se enrolar em cobertores o dia inteiro, viviam dois irmãos: João, de oito anos, e Maria, de seis.

Eles moravam com o pai, Seu Antônio, um homem bom que trabalhava cortando lenha para vender na cidade. A vida era simples — café com leite de manhã, pão caseiro, sopa de noite. Não tinham muito, mas tinham um ao outro, e isso bastava.

Acontece que naquele inverno as coisas ficaram difíceis. A geada queimou a horta, a lenha estava escassa, e o dinheiro mal dava para comprar farinha. O pai, de tanto trabalhar no frio, adoeceu. Ficou de cama com febre, tossindo dia e noite.

— Pai, vamos buscar pinhões na mata — disse João, tentando ser corajoso. — A senhora do mercado compra por bom preço.

— É perigoso ir sozinhos — sussurrou Seu Antônio. — A mata é grande, podem se perder.

— Eu cuido da Maria e ela cuida de mim — respondeu João. — Prometemos voltar antes do escurecer.

Maria pegou a mão do irmão e apertou forte.

— Vamos juntos, pai. A gente sempre volta juntos.

Seu Antônio não tinha forças para impedir. Deu sua bênção e pediu que tomassem cuidado.

Os dois saíram de manhãzinha, quando o sol ainda estava tímido e a neblina cobria tudo como um cobertor branco. Maria, que era esperta, teve uma ideia: foi quebrando pedacinhos de casca de pinhão e largando pelo caminho, para que pudessem encontrar a volta.

Andaram bastante, enchendo o saquinho de pinhões maduros que caíam dos pinheiros. O cheiro da mata era bom — terra molhada, musgo verde, resina de pinheiro. Os passarinhos cantavam alto, e de vez em quando um esquilo corria pelos galhos.

Mas o tempo mudou rápido, como sempre acontece na serra. A neblina engrossou, o céu escureceu, e quando João olhou para trás, percebeu que os pedacinhos de casca tinham desaparecido — os passarinhos haviam comido tudo.

— Maria... acho que estamos perdidos.

Maria sentiu o coração apertar, mas não chorou. Segurou a mão do irmão com mais força.

— Vamos continuar andando. Alguma hora encontramos o caminho.

Andaram e andaram, cada vez mais fundo na mata. O frio ia aumentando, as sombras das araucárias pareciam gigantes, e os sons da floresta foram ficando estranhos — estalidos, sussurros, o barulho de coisas se movendo no escuro.

Até que, numa clareira onde a neblina se abria como cortina, viram algo impossível: uma casa inteirinha feita de doces.

As paredes eram de chocolate escuro. O telhado, de biscoitos amanteigados cobertos de glacê branco que imitava neve. As janelas tinham molduras de caramelo, os beirais eram de marshmallow colorido, e do jardim brotavam pirulitos gigantes de todas as cores.

— João... isso é real? — sussurrou Maria, os olhos arregalados.

— Tem cheiro de chocolate de verdade — respondeu João, se aproximando.

Estavam com tanta fome que não resistiram. João arrancou um pedaço do beiral e provou. Maria lambeu a janela de caramelo. Era o sabor mais incrível que já tinham experimentado — chocolate cremoso, caramelo que derretia na língua, biscoitos crocantes e doces.

Estavam tão distraídos que não perceberam a porta se abrir.

— Ora, ora, ora... visitantes! — disse uma voz fina e aguda.

Na porta estava uma velhinha curvada, de cabelos brancos como algodão doce, nariz pontudo e óculos grossos. Usava um avental cheio de manchas coloridas e sorria mostrando dentes amarelados.

— Entrem, entrem, crianças! Devem estar com frio e fome. Tenho sopa quente e cama macia.

João e Maria se entreolharam. Algo parecia estranho naquela velhinha, mas o frio era tanto e a fome era tanta que entraram.

A casa por dentro era quente e cheirosa. A velhinha serviu sopa de abóbora, pão de mel, chocolate quente e brigadeiros. Os dois comeram até não aguentar mais, e depois dormiram em camas fofinhas com cobertas de lã.

Mas quando o sol nasceu, tudo mudou.

Maria acordou e descobriu que João estava preso numa gaiola de ferro no canto da cozinha. A velhinha, que na verdade era uma bruxa, ria enquanto acendia o enorme fogão a lenha.

— O menino vai engordar primeiro — cacarejava a bruxa. — E a menina vai trabalhar até eu decidir o que fazer com ela. Limpem, cozinhem, e nem pensem em fugir!

Maria chorou de medo, mas secou as lágrimas rápido. Olhou para o irmão.

— Não tenha medo, João. Eu vou tirar a gente daqui.

Todos os dias, a bruxa mandava João esticar o dedo pela grade para ver se estava gordinho. Mas João, que era esperto, esticava um palito de pinhão. A bruxa, que enxergava muito mal, apalpava o palito e resmungava:

— Magrelo ainda! Come mais!

Maria trabalhava duro, mas observava tudo. Notou que a bruxa guardava a chave da gaiola pendurada no pescoço e que o fogão a lenha era enorme — grande o suficiente para assar um boi inteiro.

Uma semana se passou. A bruxa, impaciente, decidiu que não esperaria mais.

— Chega! Hoje é o dia. Menina, acenda o forno bem quente!

Maria acendeu o forno. As chamas rugiam lá dentro, laranjas e vermelhas.

Ilustração da história João e Maria e a Casa de Doces na Serra Gaúcha

— Está quente o suficiente? — perguntou a bruxa, se aproximando do forno.

— Não sei — disse Maria, fingindo inocência. — Nunca usei um forno desses. A senhora pode me mostrar como se verifica?

A bruxa, resmungando, se inclinou para espiar dentro do forno. E nesse instante, Maria juntou toda a coragem que tinha no peito e empurrou a bruxa para dentro com um grito de força.

BLAAAM!

A porta do forno se fechou. A bruxa berrou e esperneou, mas não conseguiu sair.

Maria arrancou a chave do gancho onde a bruxa a deixara, abriu a gaiola e abraçou o irmão.

— Você foi incrível — disse João, com lágrimas nos olhos.

— A gente é incrível junto — respondeu Maria.

Antes de sair, os dois descobriram um baú escondido no porão da bruxa — cheio de moedas de ouro e pedras preciosas que ela roubara de outros viajantes ao longo dos anos.

Pegaram o que conseguiam carregar e correram pela mata. Desta vez, Maria seguiu as marcas que o vento havia deixado nas araucárias — a casca sempre mais grossa do lado sul. Andaram por horas, mas não pararam.

Quando finalmente viram a fumacinha saindo da chaminé de casa, gritaram de alegria. Seu Antônio, que estava na porta com olheiras de preocupação, caiu de joelhos quando viu os filhos correndo em sua direção.

Os três se abraçaram ali, no frio da serra, chorando e rindo ao mesmo tempo.

Com o tesouro da bruxa, compraram remédios para o pai, consertaram a casa, encheram a despensa e ainda sobraram moedas para ajudar os vizinhos. Seu Antônio se recuperou, a horta floresceu na primavera, e João e Maria nunca mais passaram fome.

E toda noite, antes de dormir, os dois irmãos se olhavam e diziam o mesmo que disseram na floresta:

— A gente sempre volta juntos.

✨ Moral da História

A união entre irmãos é a força mais poderosa do mundo — juntos, podemos vencer qualquer dificuldade.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você teria comido os doces da casa ou desconfiaria?
  • 2Como João e Maria se ajudaram durante a história?
  • 3O que você faria se estivesse perdido numa floresta?
  • 4Por que é importante cuidar do nosso irmão ou amigo?

O que achou desta história?

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