Branca de Neve e os Sete Bichos do Cerrado
Uma menina bondosa se refugia no cerrado e é acolhida por sete animais típicos que a protegem com carinho.

Branca de Neve morava numa casinha bem branquinha, lá pertinho de um vilarejo do Brasil. Ela tinha a pele clarinha como leite, bochechas rosadas como goiaba e cabelos bem pretos, pretinhos, como a noite sem lua. Por isso todo mundo chamava ela de Branca de Neve.
Ela era muito bondosa. Muito mesmo. Ela dividia pão, dividia água, dividia abraço. Quando via alguém triste, ela fazia uma careta engraçada e dizia: — Óóó… cadê o sorriso? Plim-plim! E as pessoas riam.
Mas nem todo mundo gostava do jeito brilhante de Branca de Neve. A Madrasta, que morava na casa grande, tinha um coração apertado, apertadinho. Ela queria ser a mais admirada. Queria que todo mundo olhasse só para ela.
Num dia bem quente, com vento de poeira levantando na estrada, a Madrasta chamou Branca de Neve e falou com voz fina, fina: — Vá passear bem longe. Bem longe mesmo. E não volte.
Branca de Neve sentiu um friozinho na barriga. — Mas… eu não fiz nada… — Vá! — a Madrasta disse, batendo o pé. Toc! Toc!
Branca de Neve respirou fundo. Pegou uma trouxinha com um pedaço de mandioca cozida e uma garrafinha de água. E foi andando. Andando. Andando.
Logo, a cidade ficou para trás. A estrada virou trilha. A trilha virou capim alto. E, de repente, ela entrou no Cerrado.
O Cerrado era diferente de tudo. Tinha árvores tortinhas, com casca grossa. Tinha cheiro de terra quente. Tinha canto de passarinho e barulhinhos de bichos escondidos. — Piu-piu! — cantava um. — Cri-cri! — respondia outro.
Branca de Neve olhou para o céu bem azul e falou baixinho: — Cerrado, você pode cuidar de mim?
O vento soprou suave, como se dissesse: “Fuuuu… sim…”
Ela caminhou mais um pouco e viu uma casinha pequena, feita de barro e palha, bem escondida entre arbustos de flores amarelas. Era uma casinha simples, mas muito arrumadinha. Na porta, tinha um tapetinho de folhas secas.
Branca de Neve bateu palminha. — Toc-toc! Tem alguém?
Nada. Ela bateu de novo. — Toc-toc! Oi?
A porta estava só encostada. Ela empurrou devagar. Crrreeeec.
Lá dentro, tinha sete caminhas pequeninas. Sete cuias. Sete colherzinhas. E um cheirinho bom de fruta. — Uau… — disse Branca de Neve. — Deve ser casa de gente pequena.
Mas não era. Era casa de bicho do Cerrado.
Branca de Neve estava tão cansada que sentou, tomou um golinho de água e bocejou: — Aaaahhh…
Ela deitou na maior caminha, que mesmo assim era baixinha, e fechou os olhos.
Enquanto ela dormia, o Cerrado ficou quietinho, como se segurasse a respiração.
No fim da tarde, sete bichos chegaram, um atrás do outro, fazendo barulhinhos.
O primeiro foi o Lobo-Guará, alto e elegante, com pernas compridas e pelo avermelhado, cor de fogo. — Snif-snif… — ele cheirou o ar. — Tem cheiro de gente boa aqui.
O segundo foi o Tamanduá-Bandeira, grandão, com focinho comprido e uma cauda enorme, que parecia uma vassoura. — Fufufu… — ele resmungou baixinho. — Quem entrou na nossa casa?
O terceiro foi o Tatu-Canastra, robusto e curioso, com carapaça forte. — Tum-tum… tum-tum… — ele andava pesado. — Eu ouvi barulho.
O quarto foi a Ema, alta, com penas macias, dando passos compridos. — Toc-toc-toc! — ela pisou no chão. — Eu vi pegadas!
O quinto foi o Macaco-Prego, pequeno e ligeiro, com olhos espertos. — Ui-ui-ui! — ele pulou na viga. — Eu vou olhar primeiro!
O sexto foi a Arara-Canindé, bem colorida, azul e amarela, com voz forte. — Óóó-lááá! — ela gritou. — Alguém tá dormindo!
E o sétimo foi a Onça-Pintada, grande e poderosa, mas com olhar calmo, como quem sabe cuidar. — Rrrrr… — ela ronronou baixo. — Vamos com calma.
Os sete chegaram perto da cama. Lá estava Branca de Neve, dormindo, com a mãozinha apertando a trouxinha vazia.
O Macaco-Prego sussurrou: — Ela é pequena. Igual filhote.
A Ema abaixou o pescoço e falou suave: — Ela parece triste.
O Lobo-Guará olhou para a porta e disse: — Aqui é lugar seguro. Podemos ajudar.
A Arara-Canindé bateu as asas. — Eu quero cantar pra ela! Mas baixinho. Bem baixinho. — Shhh… — fez o Tamanduá-Bandeira. — Deixa ela acordar sozinha.
Branca de Neve abriu os olhos devagar. — Onde eu tô?
Ela viu os sete bichos e arregalou os olhos. — Ai!
O Tatu-Canastra se encolheu um pouco. — Não assusta, não. A casa é nossa, mas a gente não morde.
A Onça-Pintada deu um passo à frente, bem devagar, e falou com voz firme e macia: — Você está no Cerrado. E está na nossa casa. Eu sou a Onça. Nós somos sete. Você está com medo?
Branca de Neve engoliu em seco, mas viu que ninguém estava rosnando de verdade. Ela viu olhos curiosos e gentis. — Eu… eu fui mandada embora. Eu não tenho pra onde ir.
O Lobo-Guará baixou as orelhas. — Então fica aqui. A gente cuida.
O Tamanduá-Bandeira balançou a cauda-vassoura. — A gente tem formiga e cupim. Pra você, a gente arruma fruta.
A Arara-Canindé gritou animada, mas tentou ser baixinha: — Fruta! Fruta! Fruta!
O Macaco-Prego trouxe um cacho de banana pequenina. — Toma. Nhac!
Branca de Neve sorriu, um sorriso pequenino que foi crescendo. — Obrigada…
E assim começou uma rotina gostosa.
De manhã, a Ema mostrava o caminho das flores. — Aqui tem sempre sombra! — dizia ela. — Toc-toc-toc!
O Tatu-Canastra ensinava a fazer buracos para guardar água da chuva. — A água é tesouro! — ele dizia. — Ploc! Ploc!
O Tamanduá-Bandeira apontava os cupinzeiros e dizia: — Não mexe muito. Cupim trabalha. A gente respeita.
O Lobo-Guará trazia frutinhas do Cerrado, como lobeira. — Essa é do meu gosto! — ele dizia. — Mas hoje eu divido.
O Macaco-Prego fazia graça. — Olha eu! Ploft! — e pulava. — Agora você!
A Arara-Canindé ensinava canções. — Azul-amarelo, azul-amarelo! — ela cantava. — La-la-la!
E a Onça-Pintada ficava de guarda, olhando longe. — Se tiver perigo, eu aviso.
Branca de Neve ajudava também. Ela varria o chão com um galhinho. — Vruuum, vruuum! — ela fazia. E todos riam.
Mas a Madrasta não tinha esquecido dela.
Um dia, a Madrasta foi até a beira do Cerrado, com uma capa escura e um cesto na mão. Ela sabia fingir. Sabia fazer cara de boazinha.
A Arara-Canindé, lá do alto, viu primeiro. — Ôôô! Gente estranha! Gente estranha!
A Onça-Pintada ficou com o corpo duro, duro. — Todo mundo pra dentro. Agora.
Branca de Neve entrou rapidinho. Seu coração fez tum-tum-tum. — É ela…
A Madrasta chegou perto e chamou com voz doce, doce demais: — Meninaaa… eu trouxe um docinho. Um docinho de goiaba.
Branca de Neve olhou pela fresta da janela. O cheiro era bom. Cheirinho de goiaba. Hummm… Mas o olhar da Madrasta era frio.
O Macaco-Prego cochichou: — Não come!
O Tatu-Canastra falou: — Fecha a porta. Tranca!
O Tamanduá-Bandeira esticou o focinho. — Eu sinto… coisa ruim.
A Ema tremeu as penas. — Eu também!
O Lobo-Guará rosnou baixinho. — Grrr… daqui você não passa.
A Madrasta bateu na porta. — Toc-toc! Abre pra mim, meu bem.
Branca de Neve deu um passo, quase indo. Ela lembrava dos dias em que queria ser amada. Ela queria acreditar.
A Onça-Pintada colocou a pata na frente dela, como um abraço. — Você não precisa agradar quem machuca você.
Branca de Neve parou. Respirou. E disse, com voz pequena, mas corajosa: — Eu não vou abrir.
A Madrasta ficou brava. — Abra! Agora!
E ela empurrou a porta com força.

A porta tremeu. A madeira fez “CRAC!”
Mas, bem na hora, os sete bichos fizeram uma barreira.
A Onça-Pintada ficou na frente, firme como pedra. — Aqui não.
O Lobo-Guará mostrou os dentes. — Aqui é casa de amizade.
A Ema abriu as asas e fez sombra grande. — Aqui é casa de cuidado.
O Tatu-Canastra se encolheu e virou uma bola dura. — Aqui é casa protegida!
O Tamanduá-Bandeira balançou a cauda-vassoura. — Vai embora!
O Macaco-Prego jogou gravetinhos no chão. — Toma! Plic! Plic!
E a Arara-Canindé gritou tão alto que o Cerrado todo ouviu: — VAI EMBORAAAA!
A Madrasta se assustou. Não esperava sete bichos corajosos. Ela tropeçou para trás. — Ai!
O vento do Cerrado soprou forte. — Fuuuuuuu!
Folhas voaram. Poeira subiu. A Madrasta tapou os olhos. — Credo!
E ela correu embora, pela trilha, resmungando. — Eu ainda volto…
Mas não voltou.
Branca de Neve caiu sentada no chão. Tremia um pouquinho. — Eu fiquei com medo.
O Lobo-Guará encostou o focinho na mão dela. — Medo passa. Amizade fica.
A Ema encostou a cabeça perto dela. — Você foi corajosa.
O Tatu-Canastra falou: — A gente protege junto.
O Tamanduá-Bandeira disse: — E você também pode proteger a gente.
Branca de Neve olhou para todos. — Proteger vocês?
A Onça-Pintada assentiu. — Sim. Respeitando o Cerrado. Não jogando lixo. Não quebrando ninho. Não queimando. O Cerrado é nossa casa.
Branca de Neve abriu um sorriso grande. — Eu prometo.
Naquela noite, eles fizeram uma festa simples. A Arara-Canindé cantou. — La-la-la! La-la-la!
O Macaco-Prego bateu palmas. — Plá-plá-plá!
A Ema dançou com passos compridos. — Toc-toc-toc!
O Tatu-Canastra rodou devagar. — Tum-tum!
O Tamanduá-Bandeira fez cosquinha com a cauda-vassoura. — Vruuum!
O Lobo-Guará trouxe mais frutinhas. — Pra adoçar a vida.
E a Onça-Pintada, olhando as estrelas, falou baixinho: — Aqui, ninguém fica sozinho.
Branca de Neve se deitou, segura, no meio daquela família diferente. Ela pensou no Cerrado como um cobertor grandão.
Antes de dormir, ela sussurrou: — Obrigada, sete bichos do Cerrado.
E o Cerrado respondeu com um canto bem baixinho, cheio de vida: — Cri-cri… piu-piu… fuuuu…
E Branca de Neve dormiu feliz, porque descobriu uma coisa importante: quando a gente é bom de verdade, a bondade volta em forma de amizade e proteção.
✨ Moral da História
“A amizade verdadeira protege, e quem respeita a natureza encontra cuidado e um lar no coração dos outros.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Qual bicho do Cerrado você mais gostou: a onça, a arara ou o lobo-guará?
- 2Se você visse a Branca de Neve com medo, o que você diria pra ela?
- 3Você já viu um passarinho bem colorido como a arara? Onde?
- 4Que som você mais gostou na história: “toc-toc”, “cri-cri” ou “fuuuu”?
- 5Você gosta mais de banana ou de goiaba?
O que achou desta história?
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