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Pedro e o Lobo: O Menino que Gritou Mentira

13 de dezembro de 202510 min de leitura6 a 8 anos10 visualizações

Um menino pastor que adorava pregar peças descobre da pior maneira que a confiança é como um cristal — uma vez quebrada, é quase impossível de consertar.

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Pedro e o Lobo: O Menino que Gritou Mentira

Na zona rural de Minas Gerais, entre morros verdes cobertos de capim e cercas de arame farpado, vivia um menino chamado Pedro. Tinha onze anos, era magro como vara de bambu, esperto como raposa e inquieto como formiga no açúcar.

Pedro era pastor de ovelhas. Todo dia, antes do sol nascer, subia o Morro do Cruzeiro com o rebanho de vinte e três ovelhas e passava o dia inteiro lá em cima, vigiando, enquanto os bichos pastavam tranquilos.

O problema é que vigiar ovelhas é o trabalho mais entediante do universo. As ovelhas comem. Param. Comem de novo. Andam um pouquinho. E comem mais. Não contam piadas, não jogam bola, não fazem absolutamente nada de interessante.

Pedro ficava deitado na grama olhando as nuvens e pensava: "Deve ter algum jeito de animar esse dia."

E foi aí que teve a ideia. A pior ideia da sua vida.

Numa tarde parada, quando o sol queimava e as cigarras cantavam sem parar, Pedro se levantou, encheu o peito de ar e gritou com toda a força:

— LOBOOO! TEM UM LOBO! SOCORRO! O LOBO VAI PEGAR AS OVELHAS!

Lá embaixo, na vila, Seu Tonho largou a enxada. Dona Aparecida largou a panela. Zé Pequeno largou o martelo. Todos correram morro acima, ofegantes, vermelhos, suando, carregando paus e enxadas para espantar o lobo.

Quando chegaram no topo, encontraram Pedro rolando de rir no chão.

— Não tem lobo nenhum! — gargalhava. — Caíram direitinho!

Seu Tonho ficou furioso.

— Menino, isso é brincadeira? A gente largou tudo para vir te ajudar!

— Foi só uma piada — disse Pedro, ainda rindo. — Vocês precisavam ver a cara de vocês!

Os vizinhos desceram o morro resmungando. Pedro achou engraçadíssimo.

Uma semana depois, fez de novo.

— LOBOOO! DESSA VEZ É DE VERDADE! SOCORRO!

De novo, todos largaram o que estavam fazendo e subiram correndo. De novo, encontraram Pedro morrendo de rir. De novo, desceram furiosos.

— Esse menino é um mentiroso! — disse Dona Aparecida, sacudindo a cabeça.

— Da próxima vez, não subo — declarou Zé Pequeno.

— Nem eu — concordou Seu Tonho.

Pedro não se importou. Para ele, era a melhor diversão do mundo. Via os vizinhos subindo desesperados e sentia-se o comediante mais engraçado de Minas Gerais.

Fez pela terceira vez. Dessa vez, só três pessoas subiram — e quando viram que era mentira de novo, juraram que nunca mais cairiam naquela.

— Pode gritar o quanto quiser, Pedro — disse Seu Tonho, descendo pela última vez. — A gente não vem mais.

Pedro deu de ombros e voltou a olhar as nuvens.

Até que numa tarde fria, quando o nevoeiro cobria o morro como um lençol branco e as ovelhas se amontoavam umas nas outras para se aquecer, Pedro ouviu um som que nunca tinha ouvido antes.

Um rosnado baixo. Grave. Vindo de trás das pedras.

Dois olhos amarelos brilharam no nevoeiro. Depois, um focinho cinzento. Depois, dentes.

O lobo era real. E era muito maior do que Pedro imaginava.

As ovelhas sentiram o perigo antes de ver. Começaram a berrar e correr em círculos, desesperadas. O lobo avançou devagar, escolhendo sua presa.

O coração de Pedro disparou. Dessa vez, não era piada. Dessa vez, o medo era real, gelado, paralisante.

Ilustração da história Pedro e o Lobo: O Menino que Gritou Mentira

— LOBOOO! — gritou Pedro, a voz rachando de pavor. — POR FAVOR, TEM UM LOBO DE VERDADE! SOCORRO!

Lá embaixo, Seu Tonho ouviu o grito. Olhou para Dona Aparecida. Os dois balançaram a cabeça.

— Outra mentira do Pedro — disse Seu Tonho, voltando ao trabalho.

— Nem me fale — concordou Dona Aparecida.

Zé Pequeno nem levantou os olhos da cerca que consertava.

Pedro gritou de novo. E de novo. E de novo. Gritou até ficar rouco, até a garganta arder, até as lágrimas escorrerem pelo rosto. Ninguém veio.

O lobo atacou. Levou três ovelhas antes que Pedro, tremendo e chorando, conseguisse espantar o bicho jogando pedras e batendo um pau no chão com toda a força que tinha.

Quando o lobo finalmente fugiu e Pedro desceu o morro carregando uma ovelha machucada nos braços, os vizinhos finalmente viram que dessa vez era verdade.

Seu Tonho viu o sangue, as marcas de dentes, o menino destruído de tanto chorar, e sentiu o coração apertar.

— Por que não vieram? — soluçou Pedro. — Eu gritei tanto...

— Porque você mentiu tantas vezes — disse Seu Tonho, com a voz séria mas gentil — que a gente não sabia mais quando acreditar.

Pedro ficou em silêncio por um longo tempo. Sentiu o peso daquelas palavras como nunca sentira nada na vida.

— Me desculpem — disse, por fim. — Eu sei que não vão acreditar, mas eu prometo que nunca mais minto. Nunca mais.

Seu Tonho olhou nos olhos do menino. Viu ali algo que não tinha visto antes: vergonha verdadeira, arrependimento de verdade.

— A confiança, Pedro, é como um cristal. Quando quebra, a gente até pode colar os pedaços, mas as rachaduras ficam para sempre. Vai levar tempo para a gente confiar em você de novo.

— Eu sei — disse Pedro, enxugando as lágrimas. — Mas eu vou merecer de volta. Nem que leve o resto da vida.

E Pedro cumpriu. Nos meses seguintes, não mentiu uma vez sequer. Nem mentirinhas, nem exageros, nem brincadeiras. Quando dizia algo, era verdade. Quando prometia, cumpria. Quando pedia ajuda, precisava de verdade.

Devagar, muito devagar, os vizinhos começaram a confiar nele de novo. Não foi fácil. Não foi rápido. Mas Pedro aprendeu que reconquistar a confiança é um trabalho muito maior — e muito mais importante — do que qualquer piada.

✨ Moral da História

A confiança é o bem mais precioso que podemos ter — quem mente perde a confiança dos outros, e sem confiança, ficamos sozinhos.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Você já disse uma mentira e se arrependeu? O que aconteceu?
  • 2Por que as pessoas pararam de acreditar no Pedro?
  • 3Como Pedro poderia reconquistar a confiança dos vizinhos?
  • 4O que é mais importante: fazer os outros rirem ou fazer os outros confiarem em você?

O que achou desta história?

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Raposinha

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