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Rapunzel e a Torre na Mata Atlântica

27 de janeiro de 202610 min de leitura6 a 8 anos32 visualizações

Presa numa torre escondida no meio da Mata Atlântica, uma menina de cabelos longos como cipó descobre que a liberdade está mais perto do que imagina — basta ter coragem de saltar.

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No coração da Mata Atlântica, onde as árvores são tão altas que parecem tocar as nuvens e os rios correm cristalinos entre samambaias gigantes, existia uma torre de pedra coberta de cipós e orquídeas.

Nessa torre vivia Rapunzel — uma menina de olhos escuros como jabuticaba e cabelos negros tão compridos que desciam pela janela até quase tocar o chão da floresta. Cada trança era enfeitada com flores que mudavam conforme a estação: hibiscos no verão, ipês no outono, bromélias na primavera.

Rapunzel não conhecia o mundo lá fora. Desde bebê, fora criada por Dona Hera, uma mulher misteriosa que dizia ser sua protetora. Dona Hera subia pela trança de Rapunzel todos os dias, trazendo frutas e livros, e descia antes do anoitecer.

— O mundo lá fora é perigoso, minha filha — dizia sempre, com voz grave. — Aqui dentro você está segura. Nunca desça desta torre.

Rapunzel acreditava. Passava os dias lendo, desenhando, cantando para os tucanos que pousavam na janela e conversando com os saguis que a visitavam. Tinha até um amigo especial: um sapo-perereca verde-limão chamado Verdinho, que morava numa bromélias na parede da torre.

Mas à noite, quando a floresta acendia seus sons — grilos, corujas, o canto distante de uma cachoeira — Rapunzel sentia algo apertar no peito. Olhava as estrelas pela janela e se perguntava: será que existe algo além das árvores?

Numa manhã ensolarada, enquanto penteava os cabelos cantando, ouviu algo diferente. Não era pássaro nem vento. Era uma voz.

— Ei! Moça da torre! Você está aí?

Rapunzel se debruçou na janela. Lá embaixo, com a boca aberta de espanto, estava um menino. Tinha a pele morena do sol, cabelos cacheados cobertos de folhas, e carregava um arco nas costas. Parecia ter uns dez anos.

— Quem é você? — perguntou Rapunzel, o coração disparando. Nunca tinha visto outra criança.

— Me chamo Cauê — disse o menino. — Sou do povo Guarani. A gente vive na aldeia depois da cachoeira grande. Eu estava caçando e vi essa torre... nunca tinha visto uma torre no meio da mata! O que você faz aí em cima?

— Eu moro aqui — respondeu Rapunzel. — Minha protetora diz que o mundo é perigoso.

Cauê franziu a testa.

— Perigoso? A floresta é linda! Tem cachoeira de água quentinha, tem árvore de jabuticaba, tem nascer do sol que faz a gente chorar de tão bonito. É a coisa mais linda do mundo.

Rapunzel sentiu algo acender dentro do peito. Uma vontade enorme de ver tudo aquilo.

— Eu... não posso descer.

— Por que não?

— Não tem escada. Só meus cabelos. Dona Hera sobe por eles.

— Então jogue seus cabelos para mim! Eu subo!

Rapunzel hesitou. Dona Hera ficaria furiosa. Mas a curiosidade era maior que o medo. Soltou as tranças pela janela, e Cauê subiu habilmente, como quem sobe em cipó desde que nasceu.

Quando chegou ao quarto da torre, Cauê ficou boquiaberto.

— Você vive aqui sozinha? Isso parece uma prisão bonita!

— Prisão? — Rapunzel nunca tinha pensado assim.

— Olha — disse Cauê, sentando-se no parapeito —, na minha aldeia, o pajé diz que ninguém pode prender o vento. E você tem cara de vento, sabia?

Rapunzel riu. Uma risada de verdade, que ecoou pela floresta como música.

A partir daquele dia, Cauê voltou todos os dias. Trazia frutas que Rapunzel nunca tinha provado — açaí, cupuaçu, pitanga. Contava histórias do seu povo, mostrava sementes que viravam colares, ensinava o nome dos pássaros pelo canto.

Rapunzel aprendia rápido. E quanto mais aprendia sobre o mundo, mais queria conhecê-lo com seus próprios pés.

Mas Dona Hera desconfiou. Um dia, chegou mais cedo e encontrou uma semente de açaí no chão da torre.

— Quem esteve aqui? — rugiu, os olhos faiscando.

— Ninguém, Dona Hera...

— Não minta para mim! Eu sabia! O mundo quer te tirar de mim! Amanhã vou levantar a torre mais alto, e você nunca mais vai ver ninguém!

Rapunzel sentiu a verdade como um trovão: Dona Hera não a protegia. Dona Hera a prendia.

Naquela noite, tomou a decisão mais corajosa da sua vida.

Quando a lua cheia iluminava a floresta como um holofote prateado, Rapunzel amarrou suas tranças na viga mais forte da torre. Olhou para baixo — era muito alto. O coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

Verdinho, o sapo, coaxou como se dissesse: "Vai, você consegue!"

E Rapunzel desceu. Mão por mão, trança por trança, até sentir a terra molhada e fofa sob seus pés pela primeira vez na vida.

A sensação foi indescritível. O chão macio, o cheiro de terra, o vento no rosto, os sons da floresta envolvendo-a como um abraço. Ela caiu de joelhos e chorou — mas de alegria.

Cauê estava esperando. Segurou sua mão e a guiou pela mata, mostrando o caminho das estrelas como seu avô lhe ensinara. Caminharam até o amanhecer, quando chegaram à aldeia Guarani.

Os anciãos receberam Rapunzel com gentileza. A pajé, uma senhora de olhos sábios, olhou para ela por um longo tempo e disse:

— Você tem o brilho de quem nasceu livre. Seja bem-vinda.

Rapunzel cortou as tranças naquela manhã. Os cabelos, tão longos que tinham servido de escada para sua prisão, foram trançados em redes e cestos pela comunidade. Da torre que a prendia, nasceram objetos úteis. Da prisão, nasceu liberdade compartilhada.

Dona Hera nunca mais foi vista. Dizem que a floresta a engoliu, como faz com tudo que tenta prender o que é livre.

E Rapunzel? Aprendeu a andar descalça, a nadar nas cachoeiras, a reconhecer cada estrela pelo nome. Nunca mais viveu numa torre, mas todas as noites olhava para o céu e agradecia por ter tido a coragem de descer.

✨ Moral da História

A liberdade é um direito de todos, e a coragem de buscar nossos sonhos é o primeiro passo para alcançá-la.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Se você estivesse preso numa torre, como tentaria escapar?
  • 2Por que Dona Hera queria manter Rapunzel presa?
  • 3Você acha que Rapunzel fez bem em confiar no menino da floresta?
  • 4O que significa ser verdadeiramente livre?

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Raposinha

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