A Bailarina de Pés Descalços
Uma menina que dança descalça no terreiro sonha com o palco e mostra que talento não precisa de condições perfeitas.

Na beirinha de uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, onde as montanhas pareciam cobertores verdes e o cheiro de café coado escapava das cozinhas logo cedo, havia uma casa simples com um terreiro de chão batido. Quando o sol batia forte, o terreiro virava um tapete dourado. Quando chovia, virava um espelho de barro que brilhava. E era ali, bem no meio daquele quintal, que a pequena Lúcia inventava seus palcos.
Lúcia tinha sete anos, cabelos cacheados presos num rabo de cavalo alto e olhos atentos, como quem está sempre procurando alguma coisa bonita para admirar. Ela gostava de ouvir histórias da avó Zefinha, que dizia que o mundo era cheio de músicas escondidas: no vento batendo nas folhas, no canto dos sabiás e até no barulhinho da água escorrendo pelo cano.
— Escuta direitinho, minha menina — a avó falava, sentada na cadeira de balanço, abanando-se com um leque de palha. — Cada lugar tem um ritmo. Só precisa de alguém que saiba dançar com ele.
E Lúcia sabia. Ela dançava descalça.
Todo fim de tarde, depois de ajudar a mãe a recolher roupa do varal e de dar milho pras galinhas, Lúcia corria para o terreiro. Tirava as sandálias gastas — que ela usava só quando precisava ir à venda — e sentia o chão fresquinho nos pés. A sola dos pés dela conhecia cada pedrinha, cada grãozinho de areia. Quando uma pedrinha machucava, ela mudava o passo. Quando o vento soprava, ela girava mais rápido.
A mãe, dona Marta, olhava pela janela com um sorriso meio preocupado.
— Lúcia, menina… você não quer colocar pelo menos uma chinelinha? Vai se cortar! — pedia.
— Mas, mãe, com chinelo eu não escuto o chão — Lúcia respondia, séria, como se fosse uma coisa importantíssima. — Eu danço melhor assim.
A avó Zefinha ria baixinho.
— Deixa a menina, Marta. Pés no chão também são jeito de aprender.
Lúcia tinha um sonho guardado no peito, como um passarinho batendo asas: ela queria dançar num palco de verdade, com luzes brilhando e cortinas vermelhas. O problema era que, na escola, ela ouviu uma conversa que fez o coração dela apertar.
Naquela manhã, a professora Sílvia colocou um cartaz enorme na parede: “FESTIVAL DE TALENTOS DA ESCOLA — DANÇA, MÚSICA E TEATRO!”
As crianças comemoraram.
— Eu vou cantar! — gritou o João.
— Eu vou fazer mágica! — anunciou a Camila.
Lúcia levantou a mão devagar.
— Tia Sílvia… pode dançar balé?
A professora sorriu.
— Pode, sim! Qualquer dança é bem-vinda.
Só que, no recreio, dois colegas ficaram cochichando perto do bebedouro.
— Balé precisa de sapatilha, né? E roupa toda certinha… — disse um.
— E de sala com espelho e barra… — falou o outro, torcendo a boca.
Lúcia fingiu que não ouviu, mas sentiu como se um vento frio tivesse passado dentro dela. Ela olhou para os próprios pés, descalços dentro do tênis velho, e imaginou sapatilhas brancas, rodopiando num palco. Na mochila dela não tinha sapatilha. Em casa, não havia dinheiro sobrando. E mesmo assim… o sonho não queria ir embora.
Naquele fim de tarde, ela dançou menos. Parou no meio do terreiro e chutou uma pedrinha, irritada.
A avó Zefinha percebeu.
— Uai, e essa cara amarrada? A dança fugiu?
Lúcia bufou.
— Vó, eu queria dançar no festival… mas eu não tenho roupa de balé. Nem sapatilha. As meninas da internet têm tudo bonito.
A avó levantou devagar, como quem vai pegar um segredo no armário.
— Lúcia, minha pequena, talento não mora na roupa. Ele mora no corpo, na coragem e no coração.
— Mas vão rir de mim — Lúcia sussurrou.
A avó colocou a mão quentinha no ombro dela.
— Então a gente vai preparar um número tão bonito que o riso vira aplauso. Vem cá.
Ela entrou em casa e voltou com uma caixa de costura e um saco de retalhos coloridos.
— Sua mãe costura muito bem. E eu também. A gente vai inventar uma roupa que seja a sua cara.
Naquela noite, a cozinha virou ateliê. A mãe, mesmo cansada, sentou à mesa e abriu a máquina de costura antiga, que fazia “trac-trac-trac” como se estivesse cantando.
— Se é sonho da minha filha, vamos dar um jeito — disse dona Marta, piscando.
Lúcia escolheu um tecido azul do tom do céu depois da chuva. A avó achou uma fita branca para fazer um laço na cintura. E, para enfeitar, costuraram pequenas estrelas de pano, que brilhavam quando a luz batia.
— E sapatilha? — Lúcia perguntou, com esperança e medo ao mesmo tempo.
A mãe mordeu o lábio.
— Sapatilha de loja não dá agora… mas eu posso fazer uma coisa.
No dia seguinte, ela recortou um tecido macio e costurou uma espécie de meia reforçada, com elástico para prender no tornozelo.
— Não é sapatilha de bailarina famosa — disse a mãe, entregando. — Mas vai proteger seu pé do chão do palco.
Lúcia calçou e sentiu: não era igual às fotos, mas era leve e confortável. O melhor de tudo era que ainda dava para “escutar” o chão.
— Parece que eu tô usando nuvem nos pés! — ela riu.
Durante a semana, Lúcia treinou todo dia no terreiro. Inventou uma dança que misturava passos de balé com movimentos que pareciam vento na cana, água no riacho e passarinho pulando no galho. A avó batia palmas no ritmo. Às vezes, o irmãozinho pequeno tentava imitar e caía na grama, gargalhando.
— Lúcia, você gira igual peão! — ele dizia.
— E você é minha plateia mais engraçada — ela respondia.
Chegou o dia do festival. A escola estava enfeitada com bandeirolas coloridas, como festa junina fora de época. No palco improvisado do salão, penduraram um pano vermelho como cortina. As crianças corriam com nervosismo. Algumas usavam roupas brilhantes. Outras seguravam instrumentos.
Lúcia vestiu seu vestido azul com estrelinhas e prendeu o cabelo com uma fita branca. Quando olhou para os próprios pés, com as “nuvens” costuradas pela mãe, sentiu um orgulho quietinho. Mas, ao ouvir murmúrios, o orgulho quase se escondeu.
— Olha… a Lúcia vai dançar descalça? — alguém comentou.
Ela engoliu em seco. A professora Sílvia passou perto.
— Está pronta? — perguntou.
Lúcia quase disse “não”. Quase fugiu para o banheiro. Mas então viu a avó na primeira fila, com um lenço florido no pescoço, e a mãe ao lado, segurando as mãos uma da outra, como quem segura também a coragem.
— Tô… tô pronta — respondeu Lúcia, sentindo o coração bater feito tambor.
Chegou a vez dela. A professora anunciou:
— Agora, com vocês, uma dança criada por Lúcia: “Terreiro de Estrelas”.
As luzes do salão ficaram mais fracas. A música começou baixinha, com som de violão e um toque suave de pandeiro, como se fosse um sussurro de noite boa.
Lúcia entrou devagar. No começo, as pernas tremiam. Ela olhou para o chão do palco: não era o terreiro, não tinha cheiro de terra, mas era chão. E chão ela conhecia. Respirou fundo e lembrou do que a avó dizia: cada lugar tem um ritmo.
Ela levantou os braços como quem abre uma janela. Deu o primeiro passo. Depois outro. Rodopiou. O vestido azul se abriu como uma flor. As estrelinhas costuradas pareciam acender e apagar. A cada movimento, Lúcia imaginava o quintal, o vento, as montanhas, o cheiro de café.
No meio da dança, quando a música ficou mais forte, ela fez um salto que vinha ensaiando há dias no terreiro. Era o salto que sempre dava medo, porque podia tropeçar. E foi justamente ali que uma parte do pano do palco enrugou, formando uma dobrinha traiçoeira.
Lúcia viu a dobra tarde demais. O pé encostou… escorregou… e o mundo pareceu parar por um segundo.

O coração dela disparou. Ela quase caiu. Quase. Mas, num reflexo rápido, como quando desviava de pedrinhas no terreiro, Lúcia flexionou o joelho, apoiou a ponta do pé e transformou o escorregão em um giro elegante. Pareceu até que estava planejado.
Na primeira fila, a avó levou a mão à boca.
— Isso, minha menina… — ela sussurrou.
Lúcia continuou. Agora com mais coragem do que antes. Ela dançou como se o palco fosse o próprio quintal e como se as pessoas fossem estrelas olhando do céu. No fim, abriu os braços bem alto e ficou parada, respirando forte, com um sorriso que misturava alívio e alegria.
Por um instante, houve silêncio. Aí alguém começou a bater palmas. Outro acompanhou. Quando Lúcia percebeu, o salão inteiro aplaudia. A professora Sílvia estava de pé.
— Bravo! — ela disse, com os olhos brilhando.
Depois, nos bastidores, uma menina se aproximou. Era a Camila, que sempre tinha tudo arrumadinho.
— Lúcia… eu achei sua dança linda. Você… você não ficou com vergonha?
Lúcia pensou um pouquinho.
— Eu fiquei, sim. Mas eu fiquei com mais vontade de dançar do que de esconder.
Camila olhou para as “nuvens” nos pés de Lúcia.
— Sua mãe que fez?
— Foi ela e minha vó — Lúcia respondeu, orgulhosa.
— Posso… posso tocar nelas? — Camila pediu.
— Pode — Lúcia riu.
No final do festival, a diretora anunciou os destaques. Lúcia não ganhou um troféu grande, mas recebeu uma medalha de papel dourado e um convite.
— Lúcia, a turma de dança da cidade vai fazer uma oficina gratuita no centro cultural. Sua professora me contou do seu talento. Você quer participar?
Lúcia sentiu o sonho bater asas tão forte que quase escapou pela boca.
— Eu quero! — ela respondeu, segurando a medalha como se fosse um tesouro.
Na volta para casa, andando pela rua de paralelepípedo, Lúcia caminhou devagar, sentindo o ar fresco da noite.
— Mãe… vó… obrigada — ela disse.
Dona Marta apertou a mão da filha.
— Obrigada você por não desistir — falou.
A avó Zefinha completou:
— E lembra, minha bailarina: palco é qualquer lugar onde a gente põe coragem. Até um terreiro.
Quando chegaram, Lúcia tirou as “nuvens” dos pés e pisou no chão batido do quintal. O terreiro estava frio e macio. O céu, cheio de estrelas de verdade.
Ela fez um último giro só para elas, com o vestido azul balançando, e pensou que, mesmo sem condições perfeitas, havia algo dentro dela que era perfeito do jeitinho que era: a vontade de dançar.
E, naquela noite, o terreiro e o palco viraram a mesma coisa: um lugar onde o sonho podia caber.
✨ Moral da História
“Quando a coragem e o esforço andam junto com o talento, a falta de coisas perfeitas não impede um sonho de brilhar.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Lúcia gostava de dançar descalça no terreiro?
- 2Quando a Lúcia ouviu que balé precisava de sapatilha, como você acha que ela se sentiu?
- 3O que a mãe e a avó fizeram para ajudar a Lúcia a se preparar para o festival?
- 4No momento em que ela quase escorregou no palco, que decisão rápida a Lúcia tomou?
- 5Se você estivesse no lugar da Lúcia, o que faria para não desistir do seu sonho?
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