O Sapateiro de Estrelas
Um menino pobre que faz sapatos sonha em fazer sapatos para as estrelas e sua criatividade transforma sua realidade.

Numa rua de pedrinhas, numa cidade pequena do Brasil, tinha uma casinha bem simples, com janela azul e cheiro de cola e couro. Lá morava um menino chamado Tito.
Tito era pequeno, magrinho, e tinha olhos bem grandes, daqueles que parecem guardar luz por dentro. Ele morava com a vovó Zuleica, que fazia café quentinho e cantava baixinho enquanto varria o chão.
E Tito tinha um trabalho muito importante: ele ajudava a consertar sapatos.
Todo dia de manhã, ele sentava num banquinho baixo. “Toc, toc, toc!” Ele batia o martelinho. “Tic-tic!” Ele passava a agulha e a linha grossa. “Plic!” Ele colocava um pinguinho de cola.
— Vovó, olha! — dizia Tito, orgulhoso. — Esse sapato ficou novo!
— Ficou sim, meu bem — respondia a vovó, com um sorriso largo. — Você tem mãos de artista.
O lugar onde Tito trabalhava era um cantinho da sala. Tinha uma caixa com retalhos de couro, botões perdidos, cadarços de todas as cores e um pano macio pra dar brilho. Na parede, havia um calendário com uma lua bem grande desenhada.
Mas o que Tito mais gostava era quando chegava a noite.
A vovó apagava a luz, e a janela mostrava o céu. Um céu bem brasileiro, bem limpinho, cheio de estrelas piscando.
— Vovó… — Tito sussurrava. — Será que estrela usa sapato?
A vovó riu, riu com vontade.
— Estrela não pisa no chão, Tito.
— Mas… e se ela quiser dançar? — Tito abriu os braços, como se fosse uma estrela rodopiando. — Se ela quiser brincar de “pula-pula” lá em cima?
A vovó passou a mão no cabelo dele.
— Você imagina coisas bonitas.
E Tito imaginava mesmo.
Ele fechava os olhos e via as estrelas com pezinhos brilhantes, fazendo “plim-plim” no céu, e ele, Tito, fazendo sapatos minúsculos e brilhantes para cada uma.
Na manhã seguinte, chegou um senhor na porta. Era o seu Naldo, dono da quitanda.
— Bom dia, dona Zuleica! — ele falou. — Meus sapatos estão “nhéc-nhéc” de novo.
Tito olhou para o sapato. Ele estava bem gasto. Triste.
— Eu conserto! — Tito disse rápido.
Seu Naldo se sentou e esperou. Tito pegou um pedacinho de couro, cortou direitinho, e começou: “toc, toc, toc”. Depois: “tic-tic”. Depois: “fiuuu”, quando ele puxou a linha. E por fim: “shiii”, quando ele passou o pano.
— Pronto! — Tito entregou.
Seu Naldo deu dois passos.
— Opa! Agora está “tum-tum”! — ele disse, feliz. — Parece até que meu pé está cantando.
Tito ficou contente, mas… dentro dele ainda tinha um sonho.
Naquela tarde, Tito achou uma caixa velha no fundo do armário. Dentro, havia coisas bem pequenas: lantejoulas, um pedaço de fita prata, um botão que parecia uma gota de lua.
— Vovó, posso usar? — perguntou.
— Pode, meu bem. Só cuide direitinho.
Tito pegou um pedacinho de couro bem fininho e começou a trabalhar. Ele fez um sapatinho do tamanho de um dedo. Bem pequeno! Ele colou a fita prata, colocou uma lantejoula e, no cadarço, amarrou um fiozinho que brilhava.
— Sapato de estrela! — ele anunciou.
A vovó arregalou os olhos.
— Que coisa linda, Tito.
Tito colocou o sapatinho na janela, bem onde a luz da lua batia.
— Estrela, estrela… — ele falou baixinho. — Se você quiser, esse sapato é seu.
Lá fora, o vento fez “uuuuu”. As folhas da árvore fizeram “xiiiii”. E uma estrelinha pareceu piscar mais forte.
Tito ficou com o coração pulando: “pum-pum, pum-pum”.
Na noite seguinte, Tito fez mais um sapatinho. E depois outro. E outro. Cada um diferente.
Um tinha ponta arredondada, como um grão de feijão.
Outro tinha uma estrela desenhada na frente.
Outro era amarelinho, como manga madura.
Ele colocava todos na janela.
— Um pra você… um pra você… e um pra você… — dizia ele, apontando para o céu.
Só que a vida não estava muito fácil.
Um dia, a vovó abriu a lata onde guardava moedas. “Tlim… tlim…” Só tinha duas moedinhas.
— Ai, meu Deus — ela falou baixinho. — Preciso comprar farinha.
Tito escutou. Ele ficou quieto. O peito dele ficou apertado, como quando o sapato aperta o dedão.
Naquele dia, Tito foi até a praça. A praça tinha um coreto, um banco verde e uma árvore grande, enorme, que parecia um guarda-chuva. Pombos caminhavam “poc-poc” no chão.
Tito levou uma caixinha com os sapatinhos de estrela.
Ele sentou no banco e ficou olhando.
Passou uma moça com um bebê no colo.
— O que é isso, menino? — ela perguntou.
— São sapatos… de estrela — Tito respondeu, com voz baixinha.
A moça pegou um e riu.
— Que fofo! Parece um brinquedo.
— Não é brinquedo. É sonho — Tito disse, sério, com os olhos bem brilhantes.
A moça ficou olhando para ele, e depois falou:
— Você fez sozinho?
— Fiz.
— Posso comprar um? Pra pendurar no berço do meu bebê. Vai brilhar com a luz.
Tito ficou paralisado. Comprar? Alguém queria comprar?
— Pode! — ele disse, rápido.
A moça colocou uma moeda na mão dele. “Tlim!”
Tito sentiu aquela moeda como se fosse um pedacinho de sol.
Depois, veio um menino da escola.
— Eu quero um também! Pra pôr na minha mochila! — ele pediu.
— Eu tenho azul! — Tito mostrou.
— Azul! Azul! — o menino repetiu.
Mais tarde, um senhor que tocava violão perto do coreto chegou.
— Que trabalho bonito, rapazinho. — Ele pegou um sapatinho e mexeu. — Esse aqui parece até que canta.
— Ele é pra estrela que gosta de música — Tito respondeu.
O senhor sorriu.
— Então eu vou levar. Vou pendurar no meu violão.
As moedas foram caindo na caixinha: “tlim, tlim, tlim!”
Tito não acreditava. Ele apertou a caixinha contra o peito.
Quando voltou pra casa, correu.
— Vovó! Vovó! — ele gritou, entrando. — Olha!
A vovó viu as moedas.
— Tito… de onde veio isso?
— Dos meus sapatos de estrela! — ele falou, pulando. — Eles gostaram! Eles compraram!
A vovó levou a mão ao rosto. Os olhos dela ficaram molhadinhos.
— Meu Deus… — ela sussurrou. — Seu sonho virou comida… virou pão.
Na noite seguinte, Tito estava ainda mais animado. Ele quis fazer o sapatinho mais bonito de todos. Um sapatinho que fosse realmente para a estrela mais brilhante.
Ele pegou o couro mais macio. Cortou com cuidado. “Xic-xic.” Costurou devagar. “Tic-tic.” E colocou uma lantejoula bem no meio.
Só que… a cola acabou.
Tito olhou o potinho vazio.
— Vovó… acabou — ele disse, com a voz pequena.
A vovó olhou a lata de moedas.
— A gente compra amanhã. Não fica triste.
Mas Tito não queria esperar. Ele queria terminar agora. Ele olhou para a janela. A lua estava alta. As estrelas piscavam: “plim, plim, plim”. Pareciam chamar.
Tito segurou o sapatinho na mão, bem delicado, e foi até o quintal. Lá tinha um varal com lençol balançando. “Flap-flap.” Tinha um pé de goiaba e um banquinho velho.
Ele subiu no banquinho para ficar mais perto do céu.
— Estrela… eu fiz pra você… — ele falou, levantando o sapatinho.
De repente, uma ventania passou forte: “UUUUU!”
O banquinho fez “crec!” e balançou.
Tito escorregou. O sapatinho voou.
— NÃÃÃO! — Tito gritou.
E, naquele instante, uma coisa mágica aconteceu.
O céu pareceu piscar bem forte, como se tivesse uma piscadinha gigante. Uma estrela cadente passou riscando, “fiuuuuu!”, bem por cima do quintal.
E o sapatinho… o sapatinho brilhou. Brilhou muito. Brilhou tanto que parecia uma lanterninha.

O sapatinho caiu bem devagar, como uma pena, e parou na grama, sem estragar.
Tito ficou de boca aberta. O coração dele foi “TUM-TUM-TUM!”
A vovó apareceu na porta, preocupada.
— Tito! Você tá bem?
— Tô! Tô sim! — ele disse, apontando. — Viu? A estrela ajudou!
A vovó chegou perto, pegou o sapatinho e viu o brilho.
— Que coisa… — ela falou, baixinho. — Parece que o céu encostou nele.
Tito abraçou a vovó.
— Eu só queria fazer bonito… pra estrela… e pra gente também.
A vovó apertou Tito no colo.
— E você fez. Você fez bonito. Mas prometo uma coisa: nada de subir em banquinho à noite, tá?
— Tá — Tito respondeu, sério. — Eu prometo.
No dia seguinte, eles foram até a loja de conserto comprar cola. E também compraram farinha. E um pedaço de queijo.
A vovó fez pão de queijo. “Puf-puf!” No forno. O cheiro encheu a casa. Tito comeu um, depois outro.
— Hummm! Sabor de vitória! — ele falou, com a boca cheia.
— Sabor de trabalho e imaginação — a vovó corrigiu, rindo.
A notícia se espalhou. Na feira, na igreja, na escola.
— É o menino que faz sapato de estrela! — diziam.
Teve gente que encomendou:
— Faz um pra minha filha, bem rosa!
— Faz um pra mim, com cadarço verde!
— Faz um pra pendurar na minha janela!
E Tito fazia.
Ele consertava sapatos de gente, sim. “Toc, toc, toc.”
E também criava sapatos de estrela. “Plim, plim.”
Com o tempo, a casinha simples ganhou uma placa na porta, pintada à mão:
“SAPATARIA DO TITO — CONSERTOS E SAPATOS DE ESTRELA”.
Toda noite, Tito ainda olhava o céu.
— Boa noite, estrelinhas — ele dizia.
E as estrelas pareciam responder, piscando forte, como se estivessem usando sapatinhos bem brilhantes lá em cima.
E Tito entendia uma coisa bem importante: quando a gente tem uma ideia bonita e trabalha com carinho, essa ideia pode virar ajuda de verdade. Pode virar pão, pode virar sorriso, pode virar um futuro novo.
E, bem baixinho, ele sempre repetia, como um segredo feliz:
— Eu sou o Sapateiro de Estrelas. Eu sou. Eu sou.
✨ Moral da História
“Quando a gente usa a imaginação e trabalha com carinho, um sonho pode virar uma coisa boa de verdade na nossa vida.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já viu uma estrela brilhando no céu?
- 2Qual cor de sapato de estrela você escolheria: azul, amarelo ou rosa?
- 3Você gosta mais do som “toc-toc” do martelo ou do “plim-plim” das estrelas?
- 4Se você tivesse um sapatinho de estrela, onde você penduraria: na mochila, na janela ou no seu quarto?
O que achou desta história?
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