Sonhos

Pirueta, a Pipa que Queria Conhecer o Mar

19 de fevereiro de 20268 min de leitura6 a 8 anos7 visualizações
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Pirueta, a Pipa que Queria Conhecer o Mar

Na Vila do Porto das Conchas, onde o vento cheirava a sal e as gaivotas faziam cócegas no céu, existia uma oficina apertadinha chamada Casa do Vento. Lá dentro, o artesão Seu Damião construía pipas de todos os jeitos: grandes, pequenas, redondas, com caudas compridas e curtas.

Entre todas, a mais curiosa era Pirueta: uma pipa de papel azul-turquesa, com remendos amarelos e coral, e uma cauda de fitas coloridas que tilintavam com sininhos miúdos.

Pirueta adorava voar. Mas tinha um segredo guardado bem no meio das varetas do seu coração: ela sonhava conhecer o mar.

— Eu vejo o mar lá de cima… — Pirueta suspirava, pendurada num gancho da oficina. — Mas eu queria sentir como é ficar pertinho dele. Queria ver as ondas de perto, ouvir o barulho sem ser só um sussurro no vento.

Seu Damião, que parecia entender até o silêncio das coisas, mexia na cola e respondia como se conversasse com uma pessoa de verdade:

— Sonho bonito, Pirueta. Só precisa de cuidado. Mar e papel nem sempre são bons amigos.

Pirueta balançava a cauda, impaciente.

— Eu vou dar um jeito.

Na manhã do Festival das Marés Cantantes, a vila ficou cheia de música, barquinhos enfeitados e cheiro de bolo de coco. Crianças corriam com pipas na mão, e o vento estava tão animado que parecia pular.

Quando Seu Damião levou Pirueta para o alto do Morro do Vento Manso, ela quase não coube de alegria.

Ilustração da história Pirueta, a Pipa que Queria Conhecer o Mar

Lá do alto, Pirueta viu tudo: o porto, as redes coloridas, os barquinhos e o mar enorme, brilhando como um tapete que se mexia.

— Hoje eu chego perto! — ela pensou.

Seu Damião soltou a linha com firmeza.

— Vai, Pirueta. Voar é seu dom.

E Pirueta subiu. Subiu tanto que o mundo pareceu um brinquedo. Só que, quanto mais ela subia, mais o vento mudava de humor. O Vento Manso ficou Ventão Apresado.

A linha esticou como se fosse um cabo de guerra.

— Opa! Devagar! — Seu Damião avisou, segurando forte.

Mas Pirueta, com o sonho brilhando feito concha molhada, decidiu descer… não para o morro, e sim para o mar.

Ela inclinou o corpo e se deixou levar na direção das ondas.

— Um mergulhinho… só um encostinho… — sussurrou.

Foi quando o céu fez cara feia. Nuvens cinzas chegaram sem pedir licença.

Um pingo caiu.

Depois outro.

E, de repente, uma chuvinha rápida começou a bater no papel de Pirueta.

— Ai! Água! — ela se assustou, sentindo o corpo amolecer um pouquinho.

O Ventão Apresado empurrou Pirueta bem para cima do mar. As ondas estavam perto, muito perto. A cauda de fitas tocou o ar úmido e os sininhos pararam de tilintar, pesados de gotas.

Ilustração da história Pirueta, a Pipa que Queria Conhecer o Mar

— Volta! — gritou Seu Damião, puxando a linha.

Mas Pirueta estava distraída olhando o mar de pertinho. Ela viu uma onda se levantar como se fosse uma montanha que respira. Viu espuma branca dançando. E então… sentiu um rasguinho perto de uma vareta.

— Não! Eu vou… rasgar… — Pirueta pensou, com medo.

Uma rajada de vento a fez girar e, por sorte, jogou Pirueta para longe da água. Ela caiu na areia úmida com um “pluft” bem baixinho.

Seu Damião correu morro abaixo, tropeçando em conchas e rindo de nervoso.

— Pirueta! Você está inteira?

Pirueta queria dizer “sim”, mas o papel estava molhado e pesado. A cauda parecia um pano encharcado.

— Eu… queria muito… chegar perto… — ela conseguiu sussurrar.

Foi então que uma sombra grande cobriu a areia. Um pelicano apareceu, com o bico sério e olhos curiosos.

— Eu me chamo Mestre Marola — disse ele, como quem já tinha resgatado muitas coisas do vento. — Vi você quase virar sopa de papel.

Seu Damião ficou espantado, mas respondeu com respeito:

— Ela é teimosa. Mas tem um sonho.

Mestre Marola cutucou a areia com o pé.

— Sonhos são como marés. Às vezes, sobem. Às vezes, mudam de lugar. Pergunta: você quer entrar no mar… ou quer conhecer o mar?

Pirueta piscou.

— Eu… quero conhecer.

— Então conheça do seu jeito — disse o pelicano. — Você não precisa ser peixe para amar a água. Você é do vento.

Seu Damião levou Pirueta de volta para a Casa do Vento. Secou-a com panos macios, trocou um pedacinho rasgado e passou uma camada fininha de verniz cheiroso, para proteger um pouco do sereno.

Enquanto trabalhava, Pirueta pensava nas palavras de Mestre Marola: “conhecer do seu jeito”.

No fim da tarde, as pessoas foram para o porto. O Festival das Marés Cantantes teria a parte mais bonita: o momento em que o sol encosta no mar e tudo fica dourado.

Seu Damião prendeu na cauda de Pirueta pequenas conchinhas lisas (bem polidas, sem pontas) e fitas novas, leves. Quando o vento passasse, elas fariam um brilho dançante.

— Pronta? — perguntou ele.

Pirueta respirou fundo, como se fosse possível encher de ar um coração de papel.

— Pronta.

Seu Damião correu alguns passos e soltou.

Pirueta subiu, agora com calma. Não para mergulhar, mas para passear por cima das ondas, bem na altura certa: perto o suficiente para ver o mar de verdade, longe o suficiente para não se machucar.

As conchinhas na cauda refletiam a luz do fim de tarde, criando pontinhos brilhantes que pareciam peixinhos de estrela pulando no ar.

Ilustração da história Pirueta, a Pipa que Queria Conhecer o Mar

As crianças apontaram para o céu.

— Olha! Parece que o mar está voando! — disse uma menina.

Os pescadores sorriram.

— Essa pipa conhece as marés — comentou um senhor, vendo Pirueta acompanhar o vento que vinha do lado certo.

Pirueta ouviu tudo lá de cima e sentiu algo novo: não era a pressa de “conseguir logo”. Era uma alegria redonda, que cabia direitinho nela.

Ela percebeu que seu sonho não tinha diminuído. Tinha ficado mais verdadeiro.

Naquela noite, já seca e pendurada outra vez na oficina, Pirueta cochichou para Seu Damião:

— Hoje eu conheci o mar.

— Conheceu — ele confirmou. — E sem deixar de ser você.

Pirueta balançou a cauda devagar.

E, enquanto a vila dormia com o som das ondas ao longe, ela sonhou um sonho novo: continuar voando sobre o mar em muitos fins de tarde, pintando o vento com brilhos de concha, do jeitinho que só uma pipa poderia fazer.

✨ Moral da História

Seguir um sonho também é aprender a adaptá-lo ao seu jeito de ser — mudar o caminho não é desistir, é amadurecer.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Qual parte do mar você acha que a Pirueta mais queria conhecer: o barulho, as ondas ou o brilho?
  • 2Você já quis fazer algo de um jeito que não combinava com você? Como poderia adaptar?
  • 3O que o Mestre Marola quis dizer com “você é do vento”?
  • 4Se você pudesse colocar um enfeite na cauda da Pirueta, qual seria e por quê?

O que achou desta história?

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Raposinha

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