Asas de Papel
Um garoto que constrói aviões de papel sonha em ser piloto e aprende que persistência é o combustível dos sonhos.
João Pedro tinha doze anos e um jeito curioso de olhar o céu, como se ele fosse um caderno aberto esperando por rabiscos. Morava com a mãe, Dona Lúcia, e a avó, Dona Nair, numa casa simples de bairro em Campinas, onde o cheiro de café coado de manhã se misturava ao barulho dos ônibus e ao canto insistente dos sabiás. Do quintal, dava para ver recortes de nuvens entre fios e antenas. E, para João Pedro, aqueles recortes eram pistas: caminhos invisíveis por onde os aviões de verdade passavam.
No fundo do seu quarto, entre livros da escola e uma coleção de revistas velhas sobre aviação que ele pegava emprestado na biblioteca pública, havia uma caixa de papelaria que parecia um tesouro. Dentro, folhas de diferentes tipos: sulfite comum, papel de caderno, papel mais grosso que sobrava de embalagens e até algumas folhas coloridas, raras, que ele guardava como se fossem medalhas.
— Mãe, olha esse! — ele dizia, saindo do quarto com um avião novinho na mão. — Fiz a asa com dobra dupla. Dizem que dá mais estabilidade.
Dona Lúcia, que chegava cansada do trabalho na padaria, sorria mesmo sem entender todos aqueles termos.
— Estabilidade… é o que eu queria pra minha coluna — brincava, e passava a mão nos cabelos do filho. — Mas me conta: ele voa longe?
— Hoje vai voar — João Pedro respondia, como se tivesse firmado um pacto com o vento.
Na escola, o garoto era conhecido como “o menino dos aviões”. Alguns colegas achavam genial. Outros, nem tanto. Havia um menino, o Caio, que gostava de mostrar força com palavras.
— Vai virar piloto de quê? De avião de papel? — Caio provocava no recreio, quando João Pedro testava seus modelos no pátio.
João Pedro sentia uma pontada no peito, como quando a gente prende a respiração para não chorar. Queria responder à altura, mas as palavras travavam. Em vez disso, olhava o avião, ajeitava a ponta, e lançava. Às vezes ele caía rápido, como se o ar estivesse bravo. Outras, planava bonito e dava uma volta inesperada.
Numa tarde de quarta-feira, a professora de Ciências, Dona Lídia, entrou na sala com um cartaz grande escrito: “FEIRA DE CIÊNCIAS — TEMA: ENGENHARIA E INOVAÇÃO”. Os alunos começaram a falar ao mesmo tempo, imaginando robôs, vulcões de bicarbonato e maquetes de cidades.
— Este ano — Dona Lídia explicou — o projeto precisa ter um problema real e uma proposta de solução. E quero uma apresentação clara: vocês vão defender suas ideias.
João Pedro sentiu o coração acelerar. Defender ideias. Era aí que o ar ficava mais difícil para ele.
Na volta para casa, chutando pedrinhas na calçada, ele pensou: “E se meu projeto fosse sobre voo? Sobre como pequenos ajustes mudam tudo?” Mas, logo, a dúvida veio: “Quem vai levar isso a sério?”
Em casa, Dona Nair estava na varanda, costurando uma barra de calça com a paciência de quem já viu o tempo fazer muitas voltas.
— Vó — João Pedro chamou, sentando ao lado dela com o estojo de dobraduras. — Você acha bobo eu querer ser piloto?
Dona Nair não respondeu de imediato. Passou a linha na agulha, puxou, e só então disse:
— Bobo é quem não quer nada com vontade. O mundo é cheio de gente que desiste antes de começar.
— Mas eu não tenho… sei lá, dinheiro pra curso, avião de verdade…
— João, sonho não é coisa que se compra pronta — ela falou, firme, sem levantar a voz. — Sonho é coisa que se constrói. E construção dá calo.
A palavra “calo” ficou ecoando na cabeça dele. Naquela noite, ele abriu as revistas e encontrou um artigo sobre aerodinâmica. Havia desenhos de asas, ângulos e uma palavra que ele anotou em letras grandes: “sustentação”. Sustentação. A capacidade de se manter no ar.
Na semana seguinte, João Pedro decidiu que sua apresentação na feira seria um estudo sobre aviões de papel: como dobras diferentes alteravam distância, estabilidade e precisão. Ele montaria um “campo de testes” com fita crepe no chão e faria medições.
Só que o projeto trouxe um problema inesperado: ele teria que falar em público.
Na sala, Dona Lídia anunciou:
— Cada grupo terá cinco minutos para apresentar. Mas, para quem quiser fazer individual, também vale.
João Pedro levantou a mão sem saber de onde vinha a coragem.
— Eu vou fazer sozinho, professora.
Ouviu risadinhas. Caio foi rápido:
— Sozinho porque ninguém aguenta aviãozinho.
João Pedro sentiu o rosto esquentar, mas dessa vez respirou fundo. Lembrou da avó: construção dá calo. Talvez falar também desse calo por dentro.
— Eu vou fazer sozinho porque é um experimento, Caio — respondeu, olhando nos olhos dele. — E experimento precisa de cuidado.
Não foi um discurso brilhante, mas foi a primeira vez que João Pedro não guardou a voz na gaveta.
Durante dias, ele virou um cientista do papel. Testava folhas finas e grossas, marcava distâncias no corredor de casa com fita, anotava em um caderno e desenhava gráficos com régua. Descobriu que o papel mais grosso era mais estável, mas precisava de um lançamento mais forte. Aprendeu que pequenas dobras na ponta da asa funcionavam como “leme”, ajudando a corrigir a direção.
— Mãe, olha isso! — ele dizia, mostrando as tabelas.
Dona Lúcia, mesmo cansada, se sentava à mesa.
— Eu não entendo tudo, mas entendo você — ela falava. — E você tá levando isso a sério.
O problema é que a feira se aproximava e a coragem não vinha junto.
Na véspera, João Pedro tentou ensaiar no quarto. Olhou para o espelho e começou:
— Boa tarde, eu sou o João Pedro… — mas a voz falhou, como se fosse um avião sem sustentação.
Ele largou o papel na cama e sentou no chão, com os olhos ardendo.
— E se eu travar? E se eu esquecer tudo? — murmurou.
Dona Nair apareceu na porta, como quem chega sem fazer barulho.
— Posso entrar?
João Pedro assentiu.
A avó sentou ao lado dele e pegou um dos aviões.
— Sabe o que acontece com a maioria deles? — perguntou.
— Caem.
— Caem, sim. Mas você não joga um e fala: “pronto, acabou pra sempre”, joga?
João Pedro pensou nas dezenas, centenas de tentativas. Nos modelos que caíam em espiral e nos que batiam na parede.
— Não.
— Então — ela continuou — por que seria diferente com a sua fala? O medo é só o primeiro lançamento. Depois, você ajusta a dobra.
Ele respirou e, naquela noite, ensaiou de novo. Desta vez, não tentou ser perfeito. Tentou ser claro. Tentou ser verdadeiro.
No dia da feira, a escola estava diferente: cartazes coloridos no corredor, mesas com experimentos, cheiros de cola e tinta. As famílias entravam devagar, e as vozes se misturavam numa alegria barulhenta. João Pedro montou sua mesa com cuidado: um cartaz com desenhos de asas, um caderno com anotações, uma fita crepe no chão marcando metros e um conjunto de três aviões — “Vento Norte”, “Curva Mansa” e “Ponta de Flecha” — cada um com dobras específicas.
Quando a banca avaliadora se aproximou, ele sentiu a barriga apertar. Eram três adultos: Dona Lídia, o coordenador e uma convidada que trabalhava no Aeroporto de Viracopos, a engenheira Juliana, de colete azul e crachá brilhando.
— Então, João Pedro — disse Dona Lídia. — Pode começar.
Ele segurou o “Vento Norte”. As mãos tremiam um pouco, e o barulho do corredor parecia crescer. Caio estava por perto, com alguns amigos, observando com um sorriso que não era exatamente de torcida.
João Pedro abriu a boca, mas as palavras se embaralharam. Por um segundo, foi como se todo o ar do pátio tivesse sumido. Ele olhou para as marcas no chão e pensou: “persistência é combustível”. Não era uma frase bonita para cartaz; era uma necessidade.
— Eu… — começou, e a voz saiu baixa. Ele pigarreou. — Eu sou João Pedro, e meu projeto é sobre como pequenas mudanças nas dobras de um avião de papel alteram o voo.
A engenheira Juliana inclinou a cabeça, interessada.
— Você mediu isso como? — ela perguntou.
A pergunta, em vez de assustar, acendeu uma luz. Ele sabia responder. Aquilo era o seu mapa.
— Eu criei um campo de testes — explicou, apontando a fita. — Fiz lançamentos com a mesma força, do mesmo ponto, e medi a distância. Registrei também estabilidade: se o avião descia reto ou girava.
Ele pegou o “Curva Mansa”.
— Esse aqui tem dobra na ponta, como se fosse um mini-aileron. Ajuda a corrigir o caminho.
Dona Lídia sorriu de leve, orgulhosa.
— Você pode demonstrar? — pediu o coordenador.
João Pedro sentiu o coração bater como tambor. O corredor parecia estreito demais. E, mesmo assim, ele se posicionou na linha de lançamento. O “Curva Mansa” parecia mais leve do que nunca.
Foi então que algo aconteceu: um vento atravessou o corredor, vindo de uma porta aberta do pátio. Um vento caprichoso, desses que mudam a história de uma tarde.
— Agora não… — João Pedro sussurrou.
Ele lançou.
O avião subiu bonito, mas o vento pegou de lado e ele começou a girar, girar, como uma folha perdida, indo direto na direção da mesa de um outro grupo, cheia de copinhos de água e fios. Se batesse ali, iria derrubar tudo.
João Pedro não pensou. Correu, desviando de gente, com o braço esticado como se pudesse alcançar o ar. O corredor inteiro prendeu a respiração.
No último segundo, ele saltou e conseguiu tocar a cauda do avião com a ponta dos dedos, mudando levemente a direção. O “Curva Mansa” escapou da tragédia por um fio e pousou, quase delicado, bem antes da mesa alheia, deslizando no chão como se estivesse cansado, mas digno.
Por um instante houve silêncio. Depois, alguém bateu palmas. Outra pessoa acompanhou. Em poucos segundos, o corredor estava aplaudindo como se João Pedro tivesse pousado um avião de verdade.
João Pedro ficou ofegante. Sentiu o rosto quente, não de vergonha, mas de vida. Olhou para a banca e viu a engenheira Juliana sorrindo com sinceridade.
— Você acabou de demonstrar outra coisa — ela disse. — Além de aerodinâmica.
— O quê? — João Pedro perguntou, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Responsabilidade — respondeu ela. — Você viu o risco e agiu rápido para não prejudicar os outros. Isso também é parte de voar.
João Pedro voltou à mesa. O Caio, que antes ria, agora parecia diferente. Não chegou a pedir desculpas — nem sempre as pessoas sabem fazer isso de imediato —, mas parou de zombar. Mais tarde, ele se aproximou.
— Ei… ficou massa — Caio admitiu, mexendo no tênis. — Eu achei que era só brincadeira.
João Pedro sentiu vontade de responder com ironia, mas lembrou do que queria ser: alguém que conduz, não alguém que derruba.
— É brincadeira e é estudo — ele disse. — Quer tentar lançar um?
Caio pegou o “Vento Norte” com cuidado, como se o papel tivesse virado coisa séria.
A apresentação continuou. João Pedro mostrou os gráficos, falou do papel mais grosso, do ângulo das asas, e contou, sem enfeitar, sobre como ensaiou porque tinha medo. O coordenador anotou bastante. Dona Lídia parecia emocionada. Juliana perguntou onde ele tinha aprendido aquilo.
— Na biblioteca, nas revistas, e… errando muito — ele respondeu.
Ao final, a engenheira tirou do bolso um cartão.
— João Pedro, seu projeto é simples e inteligente. Se você quiser, posso te indicar um programa de visitação no aeroporto e um clube de aeromodelismo aqui perto. Não é promessa de futuro, é convite pra você conhecer caminhos.
João Pedro segurou o cartão como se fosse uma passagem.
Quando chegou em casa, mostrou tudo à mãe e à avó. Dona Lúcia abraçou o filho com força.
— Eu sempre soube que você ia longe — ela disse. — Mesmo que fosse começando por um corredor de escola.
Dona Nair não falou muito. Apenas ajeitou os óculos e tocou no caderno de anotações.
— Viu? — ela disse, baixinho. — Persistência. É o combustível.
Naquela noite, João Pedro foi para o quintal com um avião novo, feito de uma folha branca comum. O céu estava limpo e algumas estrelas apareciam, tímidas, acima dos telhados. Ele lançou o avião para cima, não para medir distância, mas para lembrar de uma coisa: o papel era frágil, e mesmo assim podia aprender a planar.
Enquanto o avião descia, rodopiando devagar, ele percebeu que sonhos também eram assim. Não eram feitos de aço, ainda. Eram feitos de tentativa, de coragem treinada, de dobras bem pensadas, de responsabilidade com os outros e com si mesmo.
E quando o avião pousou no chão, João Pedro sorriu. Não porque tinha chegado ao destino, mas porque tinha aprendido a decolar de novo.
✨ Moral da História
“A persistência é o combustível dos sonhos: cada queda ensina uma nova dobra para continuar voando.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Em quais momentos João Pedro quase desistiu, e o que o ajudou a continuar?
- 2Você acha que Caio mudou de atitude por quê? O que isso diz sobre julgar os sonhos dos outros?
- 3O que a história ensina sobre responsabilidade, quando João Pedro correu para evitar que o avião causasse um acidente?
- 4Se você estivesse no lugar do João Pedro, como lidaria com o medo de falar em público? Que “dobras” (estratégias) você faria?
- 5Qual é um sonho seu que precisa de persistência como combustível? Que pequeno passo você poderia dar esta semana?
O que achou desta história?
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