O Cientista de Seis Anos
Um menino curioso transforma a cozinha em laboratório e aprende que errar faz parte de descobrir.
Na rua de paralelepípedos do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, havia um apartamento pequeno, mas cheio de vida. De manhã, o sol entrava pelas janelas como uma visita animada, e o cheiro de café com pão na chapa se misturava ao som de um sabiá cantando no pé de jabuticaba do quintal do prédio.
Ali morava o Bento, um menino de seis anos com olhos bem atentos, como se fossem duas lupas prontas para descobrir segredos. Ele tinha o cabelo escuro sempre um pouco bagunçado, porque vivia correndo, olhando, mexendo, perguntando. Para Bento, o mundo era um grande quebra-cabeça.
— Mãe, por que a espuma do sabão some? — perguntou ele, com a testa franzida, enquanto observava a pia da cozinha.
Dona Lúcia, a mãe, mexia o molho de tomate com uma colher de pau e sorria.
— Porque a água leva embora, meu cientista.
A palavra “cientista” brilhou no ouvido do Bento como um sino.
— Eu sou cientista mesmo? — ele perguntou, endireitando os ombros.
— É sim. Cientista é quem observa, faz perguntas e tenta descobrir respostas — explicou ela, desligando o fogão com cuidado.
Bento ficou quieto por um segundo, como quem guarda um tesouro no bolso. Depois seus olhos correram pela cozinha: o pote de arroz, o saleiro, o vinagre, o limão, o bicarbonato que a mãe usava para limpar, as colheres, os potes de plástico… Tudo parecia uma coleção de instrumentos secretos.
Naquela tarde, a mãe precisou atender o telefone na sala, e Bento ficou na cozinha com a avó, Dona Nair, que costurava perto da janela.
— Vó, posso fazer uma experiência? — perguntou ele, já com um banquinho puxado para perto da mesa.
Dona Nair ajustou os óculos e olhou para o neto com atenção.
— Pode… mas experiência com cuidado, hein? A cozinha não é bagunça. É lugar de comida e carinho.
— Eu vou fazer com cuidado de cientista! — garantiu Bento.
Ele abriu uma gaveta e pegou um caderno de capa azul. Na capa, tinha desenhado um foguete tortinho e escrito: “Caderno do Bento Cientista”. Pegou também um lápis e fez um desenho da mesa.
— Primeiro eu preciso de… materiais! — disse ele, bem sério.
Bento separou um copo transparente, uma colher, um guardanapo, um potinho com água e… o vinagre.
— Vinagre cheira a salada — ele comentou, fazendo careta.
— Vinagre também serve pra limpar — lembrou Dona Nair.
— Limpar e descobrir! — respondeu Bento.
Ele lembrava de um vídeo que tinha visto na escola, quando a professora Marieta falou sobre “reação” e mostrou uma espuma subindo num copo. Bento não lembrava exatamente o que a professora tinha misturado, mas lembrava da alegria dos colegas quando a espuma cresceu, como um bolo mágico.
— Eu vou fazer uma espuma que cresce! — anunciou.
Bento colocou um pouco de vinagre no copo. Depois procurou o bicarbonato no armário. Subiu no banquinho e esticou o braço com cuidado.
— Bento, devagar — avisou a avó.
— Tô indo devagarzinho, igual lesma — ele respondeu, rindo.
Quando conseguiu o pote, abriu e pegou uma colherada. O coração dele batia forte, como tambor de escola de samba.
— Agora… é o momento da ciência! — sussurrou.
Ele jogou o bicarbonato no copo.
“Fssshhh!”
Uma espuma branca começou a subir, borbulhando como refrigerante bravo. Bento arregalou os olhos.
— UAU! Funcionou! — ele gritou.
A espuma cresceu, e Bento deu um pulinho. Só que, empolgado, pegou outra colherada e jogou também.
A espuma subiu mais rápido, escapou pela borda e desceu feito cachoeira pela mesa.
— Bento! — a avó levantou a voz.
— Calma, vó, é só espuma! — ele disse, mas já estava assustado.
A espuma pingou no chão e, no mesmo instante, o cachorro da família, o Pipoca, entrou na cozinha abanando o rabo. Pipoca era pequeno, caramelo, e achava que tudo era brincadeira.
— Pipoca, não! — Bento tentou impedir.
Mas Pipoca correu, escorregou na espuma e… “plof!” caiu de lado, espalhando ainda mais o líquido.
Dona Nair soltou um “ai, meu Deus do céu!” e Bento sentiu o rosto esquentar. Ele queria rir do Pipoca deitado, com cara de “o que aconteceu comigo?”, mas também queria chorar, porque a cozinha estava virando uma bagunça.
Nesse momento, Dona Lúcia voltou da sala.
— O que foi esse barulho? — perguntou, entrando.
Ela parou na porta e viu: a mesa molhada, o chão espumando, Pipoca tentando se levantar e Bento segurando o copo como se fosse um troféu… ou uma culpa.

Bento engoliu em seco.
— Mãe… eu… eu fiz uma experiência e… e… a espuma… ela fugiu.
Dona Lúcia respirou fundo. Bento ficou esperando a bronca, com o coração pequenininho.
Mas a mãe se agachou na frente dele e perguntou, com voz firme e calma:
— Bento, você estava tentando descobrir o quê?
Ele piscou, confuso.
— Eu queria… fazer aquela espuma que cresce. Eu achei bonito. Eu queria entender como acontece.
— E o que você aprendeu? — continuou ela.
Bento olhou para o copo, depois para o chão, depois para o Pipoca, que finalmente levantou e abanou o rabo como se tivesse ganhado uma aventura.
— Que se eu colocar muito… transborda. E que o Pipoca escorrega — respondeu, sem querer, um risinho escapou.
A avó cruzou os braços, mas o canto da boca dela tremia, quase sorrindo.
— E aprendeu também que a cozinha precisa ficar segura — completou Dona Lúcia.
Bento abaixou a cabeça.
— Desculpa. Eu errei.
Dona Lúcia colocou a mão no ombro dele.
— Errar acontece. O que importa é o que a gente faz depois do erro. Agora, o cientista Bento vai ajudar a limpar e vai pensar numa forma de fazer a experiência sem bagunça. Combinado?
— Combinado — disse Bento, aliviado, mas ainda com um aperto no peito.
Pegaram pano, rodo e um balde. Dona Nair mostrou como passar o pano no chão com movimentos compridos, como se estivesse “pintando” o chão.
— Assim, Bento. De um lado pro outro. E cuidado pra não deixar o Pipoca entrar — ela orientou.
Bento fechou a portinha da cozinha para Pipoca ficar na sala.
— Desculpa, Pipoca — ele falou pela frestinha.
Pipoca latiu baixinho, como quem dizia “tá tudo bem”.
Quando terminaram, a cozinha voltou a cheirar a casa limpa e comida boa. Bento sentou na cadeira, suado e pensativo.
— Mãe… como eu faço pra ser cientista de verdade sem fazer bagunça? — perguntou.
Dona Lúcia abriu um sorriso.
— A gente monta um laboratório de cozinha, com regras. Primeiro: proteção. — Ela pegou um avental e colocou nele. — Segundo: quantidade pequena. Terceiro: recipiente dentro de uma bandeja.
— Bandeja! — Bento repetiu, anotando no caderno.
Dona Nair trouxe uma bandeja grande de alumínio.
— Essa aqui era do pudim, mas hoje vai ser da ciência — ela disse.
Bento riu.
— Ciência com gosto de pudim!
Eles colocaram o copo dentro da bandeja. Dona Lúcia entregou a Bento uma colher medidora pequenininha.
— Agora você vai colocar só meia colher de bicarbonato. E vai anotar o que acontece.
Bento fez com cuidado. A espuma apareceu, subiu bonitinha e, quando começou a chegar perto da borda, parou. Escorreu um tiquinho, mas ficou tudo dentro da bandeja.
— Olha! Agora a espuma não fugiu! — Bento disse, com os olhos brilhando.
— Porque você planejou — respondeu a mãe. — E cientista planeja.
Bento escreveu no caderno, devagar, com letra grande:
“SE COLOCAR MUITO, TRANSBORDA. SE COLOCAR POUCO, FICA NO COPO. BANDEJA AJUDA.”
Depois desenhou um copo com uma nuvem de espuma.
— Posso testar com corante? — ele perguntou.
— Hoje não — disse Dona Lúcia, rindo. — Hoje a lição é sobre controle e cuidado. Amanhã a gente prepara direitinho.
Bento fez um “hmm” respeitoso. Ele queria tudo para agora, mas algo dentro dele tinha mudado: ele percebeu que descobrir não era só fazer coisas acontecerem. Era também pensar antes, observar depois e cuidar do lugar e das pessoas.
À noite, na hora de dormir, Bento ficou na cama com o caderno no colo. A janela estava aberta e ele ouvia a cidade: um ônibus passando lá embaixo, uma conversa distante, e o vento batendo de leve nas folhas do pé de jabuticaba.
A mãe sentou ao lado dele.
— Sabe o que eu gostei hoje? — ela perguntou.
— O quê? — Bento respondeu, bocejando.
— Que você não desistiu quando deu errado. Você limpou, repensou e tentou de um jeito melhor.
Bento abraçou o caderno.
— Eu achei que você ia brigar muito.
— Eu fiquei preocupada, sim. Mas eu também fiquei orgulhosa. — Ela fez carinho na cabeça dele. — Errar faz parte de aprender. Só não pode fingir que não errou, nem deixar o erro virar perigo.
Bento fechou os olhos, imaginando uma placa enorme na cozinha: “LABORATÓRIO DO BENTO”. Uma placa com regras, com bandeja, avental e uma lista de experiências seguras.
Antes de dormir de vez, ele murmurou:
— Amanhã eu vou descobrir mais… com cuidado.
Dona Lúcia beijou a testa dele.
— E eu vou descobrir junto.
E Bento, o cientista de seis anos, adormeceu com um sorriso pequenino, daqueles que nascem quando a gente entende que cada erro pode virar um degrau para subir mais alto — sem precisar escorregar de novo.
✨ Moral da História
“Errar faz parte das descobertas, e quando a gente assume o erro e tenta de novo com cuidado, aprende ainda mais.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a espuma do copo “fugiu” e caiu na mesa na primeira vez que Bento fez a experiência?
- 2O que Bento fez depois que percebeu que tinha bagunçado a cozinha?
- 3Como você acha que Bento se sentiu quando a mãe viu a cozinha toda espumando?
- 4Que regras você colocaria no “laboratório de cozinha” para fazer experiências com segurança?
- 5Se você fosse o Bento, o que teria feito diferente antes de começar a experiência?
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