Bia e o Primeiro Dia de Aula
Uma menina com medo da escola descobre que todos os colegas também têm medo e juntos ficam corajosos.
Bia e o Primeiro Dia de Aula
Bia era uma menina pequena, com olhos bem redondos e curiosos. Ela morava com a mamãe e o papai numa rua com árvores, onde passavam passarinhos cantando “piu-piu, piu-piu” logo cedo.
Naquela manhã, o sol entrou pela janela fazendo cócegas no cobertor.
— Bom dia, Bia! — falou a mamãe, com voz doce.
Bia abriu um olho… depois o outro. E, de repente, lembrou.
— Hoje… é escola? — Bia perguntou bem baixinho.
A mamãe sorriu.
— Hoje é seu primeiro dia na escola, sim.
O coração de Bia fez “tum-tum”. E a barriga dela fez “glu-glu”. Era um friozinho, mas não de vento. Era um friozinho de medo.
— Eu não quero… — Bia disse, abraçando o travesseiro bem apertado.
O papai apareceu na porta com a mochila nova.
— Olha, Bia! Sua mochilinha. Ela tem um bolso grande e um bolso pequeno. Dá até pra guardar um lanchinho.
Bia olhou para a mochila. Era bonita. Mas o medo ainda estava lá.
— E se eu chorar? — ela perguntou.
— Se chorar, a gente limpa a lágrima com carinho — disse a mamãe, passando a mão no cabelo de Bia. — Chorar acontece.
— E se eu não tiver amigo? — Bia perguntou, com a voz tremendo.
— Amigo a gente encontra aos pouquinhos — disse o papai. — Um “oi” já é um começo.
Bia respirou… “fuuiiim”. Depois respirou de novo… “fuuiiim”.
A mamãe ajudou Bia a vestir a roupa: uma camiseta amarelinha, um short jeans e um tênis que fazia “toc-toc” no chão.
Na cozinha, tinha cheirinho de pão quentinho. Bia deu uma mordida pequena. “Nhac!” Mas o medo parecia comer um pedaço do peito dela.
No caminho, a rua parecia diferente. O ônibus passou fazendo “vruuum”. Um cachorro latiu “au-au!” E Bia apertou a mão da mamãe.
— Mãe, minha mão tá suando — ela contou.
— A minha também — a mamãe falou, dando uma risadinha. — Primeiro dia dá um friozinho mesmo.
Quando chegaram, Bia viu a escola. Era um prédio alegre, com muro pintado. Tinha desenho de sol, de nuvem e de borboleta. No portão, havia bandeirinhas coloridas balançando: “flap-flap”.
Bia parou.
— É grande… — ela falou.
— É grande, mas é cheia de gente boa — respondeu a mamãe.
No pátio, tinha cheiro de giz e de brinquedo. Tinha uma escorregadeira vermelha, uma casinha de plástico e um tapete de borracha macio.
A professora estava na porta da sala. Ela usava vestido florido e tinha um sorriso que parecia abraço.
— Oi, Bia! — disse a professora. — Eu sou a professora Lúcia.
Bia ficou escondida atrás da perna da mamãe.
— Oi… — ela sussurrou.
— Pode entrar devagar, tá? Devagarinho — a professora Lúcia falou. — Aqui a gente aprende, brinca e cuida um do outro.
A mamãe se abaixou.
— Eu volto depois, Bia. Vou estar pertinho.
— Não vai embora! — Bia falou rápido, com os olhos molhados.
A mamãe beijou a testa dela.
— Vou sim, mas volto. Promessa de mamãe.
A mamãe foi até o portão. Bia viu a mão dela acenando. Balançou… e sumiu.
Bia sentiu o medo crescer. “Tum-tum-tum!”
Dentro da sala, tinha um tapete com letras, um armário de brinquedos e uma janela com cortina azul. As cadeirinhas eram pequenas, do tamanho das crianças.
Outras crianças já estavam lá.
Um menino de cabelo espetado segurava um carrinho com força.
Uma menina de maria-chiquinha abraçava uma boneca.
Um menino de óculos piscava sem parar.
E uma menina com camiseta do Flamengo mexia no zíper da mochila: “zzzip… zzzip… zzzip…”.
Bia sentou numa cadeira e não falou nada. Ela ficou quietinha, como se fosse uma formiguinha.
A professora Lúcia bateu palminhas.
— Palmas, palmas! “Pla-pla-pla!” Vamos fazer uma roda!
As crianças foram se juntando no tapete.
Bia levantou devagar e foi também. Ela olhou para os pés. O tênis dela parecia pesado.
A professora começou:
— Eu vou dizer meu nome e fazer um gesto. Aí vocês repetem, tá?
Ela sorriu e falou alto:
— Eu sou a Lúcia! — e abriu os braços bem grande.
As crianças repetiram, meio baixinho:
— Lúcia… — e abriram os bracinhos.
— Agora você, mocinho do carrinho — a professora disse.
O menino engoliu seco.
— Eu sou… o Davi… — e fez o carrinho andar no ar: “vruuum”.
— Muito bem, Davi! — a professora comemorou.
Depois foi a menina da boneca.
— Eu sou a Nanda… — ela falou, quase sem voz, e apertou a boneca.
A professora percebeu uma coisa. Quase todo mundo estava com os olhos grandes. E as mãos, inquietas.
Ela perguntou bem suave:
— Quem aqui tá com um medinho?
Bia levantou a mão bem pouquinho.
Davi levantou a mão.
Nanda levantou a mão.
O menino de óculos levantou a mão.
A menina do Flamengo levantou a mão.
A professora Lúcia abriu os olhos, como se tivesse descoberto um segredo.
— Ahhh! Então hoje a sala tá cheia de coragem escondida! — ela disse.
Bia piscou.
— Coragem escondida? — ela perguntou.
— Sim — falou a professora. — Coragem não é não sentir medo. Coragem é fazer as coisas mesmo com medo, bem devagarinho.
Davi apertou o carrinho.
— Mas meu medo é grandão… — ele disse.
— O meu também — falou Nanda.
Bia sentiu uma vontade de falar.
— O meu mora na minha barriga — ela contou.
A menina do Flamengo fez uma careta.
— O meu mora na minha garganta — ela disse.
O menino de óculos falou rápido:
— O meu mora na minha cabeça e faz “zum-zum-zum”.
E, de repente, Bia percebeu uma coisa importante: ela não era a única.
A professora Lúcia pegou uma caixa colorida.
— Eu trouxe uma coisa pra gente — ela falou.
Dentro da caixa tinha um coração de feltro vermelho, bem macio.
— Este é o Coração Corajoso — a professora contou. — Quem estiver com medo segura ele e diz: “Eu consigo!” Aí passa para o colega.
Bia olhou o coração. Parecia quentinho.
A professora entregou para Davi.
Davi segurou o coração com as duas mãos.
— Eu… consigo… — ele disse bem baixinho.
A professora encorajou:
— Mais alto! Pra todo mundo ouvir!
Davi respirou.
— EU CONSIGO! — ele falou. E o carrinho na mão fez “vruuum!”
As crianças riram. Uma risadinha pequena. “Hi-hi.”
Davi passou o coração para Nanda.
Nanda apertou o coração.
— Eu consigo… — ela falou.
— Isso! — disse a professora.
— EU CONSIGO! — Nanda repetiu, agora mais forte.
O coração foi passando.
Quando chegou na mão de Bia, ela sentiu as bochechas quentes. O medo parecia um monstrinho pequeno dizendo “não, não, não”.
Bia apertou o coração de feltro.
— Eu… consigo… — ela disse.
Lá fora, um caminhão passou fazendo “bruuum”. Bia quase se assustou. Mas viu Davi olhando para ela, torcendo. Viu Nanda sorrindo. Viu a professora Lúcia com olhar de abraço.
Bia respirou fundo.
— EU CONSIGO! — ela falou, bem alto.
E, naquele momento, aconteceu uma coisa.
Do lado de fora da sala, perto da janela, um vento forte levantou a cortina: “flaap!” E a porta fez “TUM!” sozinha.
Algumas crianças pularam.
— Ai! — disse a menina do Flamengo.
Bia sentiu o medo subir, subir, subir… como se fosse um balão.
Mas então ela lembrou do coração e da voz dela: “EU CONSIGO!”
A professora Lúcia falou rápido, com calma:
— Foi só o vento, pessoal. Vamos fazer uma coisa: todo mundo junto, mãozinha no coração e fala comigo.
As crianças colocaram a mão no peito.
A professora contou:
— Um… dois… três!
E todos falaram juntos, bem alto, bem forte, bem unidos:
— NÓS CONSEGUIMOS!

Parecia mágica. O medo ficou menor. Bem menor. Como um grãozinho de feijão.
Bia olhou para Davi.
— Você também ficou com medo da porta? — ela perguntou.
— Fiquei! — ele respondeu. — Meu coração fez “tum!”
Nanda falou:
— O meu também! Mas agora tá mais calminho.
A professora Lúcia abriu um sorriso.
— Viu como a coragem cresce quando a gente fica junto?
Depois disso, a professora apresentou a sala.
— Aqui é o cantinho da leitura — ela disse, mostrando almofadas.
— Aqui é o cantinho dos blocos — e os blocos faziam “toc-toc” quando batiam.
— E aqui é o cantinho do desenho.
Bia foi até o cantinho do desenho. Tinha lápis de cor: vermelho, azul, verde, amarelo. Tinha papel branco.
— Vamos desenhar o nosso medo? — sugeriu a professora.
As crianças fizeram desenhos engraçados.
Davi desenhou um medo com cara de tomate.
Nanda desenhou um medo com cabelo de macarrão.
Bia desenhou um medo pequenininho, com olhos arregalados, e deu para ele uma chupeta.
— Meu medo é bebê — Bia disse.
As crianças riram: “Ha-ha-ha!”
A professora colocou os desenhos numa parede.
— Olha só! Quando a gente desenha, o medo aparece e fica mais fácil de cuidar.
Na hora do lanche, teve suco e bolacha. “Nhac-nhac.”
Bia sentou perto de Davi e Nanda.
— Você tem bolacha de maisena? — Bia perguntou.
— Tenho! — Davi falou. — Quer uma?
— Quero — Bia respondeu.
— Eu tenho uva — disse Nanda. — Quer uma uvinha?
— Quero! — Bia disse.
E Bia pensou: “Eu já tenho amigos.”
Quando chegou a hora do parquinho, Bia viu a escorregadeira vermelha.
— Eu tenho medo de subir — ela confessou.
Davi apontou para a escada.
— Eu subo com você — ele disse.
Nanda completou:
— E eu fico aqui embaixo esperando você descer.
Bia segurou no corrimão. Um degrau. Depois outro. “Toc… toc… toc…”
Lá de cima, a escola parecia menor. O medo também.
— Vai, Bia! — Davi falou.
Bia sentou. Segurou as laterais. E desceu.
— WEEEEE! — ela gritou.
Quando chegou lá embaixo, estava sorrindo.
— De novo! — ela pediu.
No fim do dia, a mamãe apareceu no portão.
Bia correu. “Pá-pá-pá!”
— Mãe! Eu consegui! — ela falou, abraçando forte.
— Conseguiu o quê? — a mamãe perguntou.
— Consegui ficar na escola. Consegui falar. Consegui brincar. Eu tive medo… mas eu consegui — Bia disse, toda orgulhosa.
A professora Lúcia chegou perto.
— Bia foi muito corajosa hoje — ela contou.
Bia olhou para a sala uma última vez. E pensou nos colegas com medo. E no coração de feltro passando de mão em mão.
Ela apertou a mão da mamãe e falou:
— Amanhã eu volto.
E o coração dela fez “tum-tum” de um jeito bom. Um “tum-tum” de coragem.
✨ Moral da História
“Quando a gente divide o medo e se ajuda, a coragem cresce dentro do coração.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Você já ficou com medo de entrar em um lugar novo?
- 2Qual personagem você mais gostou: Bia, Davi ou Nanda?
- 3Você lembra o que eles falaram juntos bem alto?
- 4Qual brincadeira do parquinho você mais gosta: escorregador ou outra?
- 5Se você estivesse na sala, você seguraria o Coração Corajoso?
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