As Contas que Não Fechavam
Um menino que odeia matemática descobre que números estão em tudo e começa a ver o mundo de forma diferente.

Na rua de paralelepípedo do bairro Vila do Ipê, em Belo Horizonte, morava um menino chamado Caio. Ele tinha sete anos, cabelos pretos bem lisinhos que sempre caíam na testa, e um jeito de apertar os olhos quando algo parecia difícil demais.
Caio gostava de muitas coisas: jogar bola no campinho, ouvir o “piu-piu” dos passarinhos na janela, colecionar figurinhas e comer pão de queijo quentinho, daqueles que estalam um pouco por fora. Mas havia uma coisa que fazia seu estômago dar um nó: matemática.
Só de ouvir a palavra “conta”, Caio imaginava um monte de números brigando entre si, pulando do caderno e correndo atrás dele.
— Matemática é chata! — ele dizia, cruzando os braços.
Naquela segunda-feira, a professora Dalva escreveu no quadro: “As Contas que Não Fechavam”.
— Hoje vamos brincar de descobrir por que algumas contas ficam… esquisitas — explicou ela, com um sorriso misterioso.
Caio já ficou desconfiado.
A professora desenhou três sacolinhas e escreveu: 2 + 2 = 5.
— Isso está certo? — perguntou.
A turma gritou:
— Nããão!
Caio, baixinho, murmurou:
— Ainda bem.
— E como a gente sabe que não está certo? — continuou a professora.
Uma menina chamada Bia levantou a mão:
— Porque se eu tenho duas balas e ganho mais duas, eu fico com quatro, não com cinco.
— Exatamente! — disse a professora. — Contas precisam “fechar”, como uma tampa que encaixa direitinho. Mas a gente só percebe quando entende o que os números estão contando.
Caio ficou olhando para o quadro. “Os números estão contando… o quê?”, pensou.
No recreio, ele tentou esquecer aquilo chutando uma bola, mas a matemática insistia em aparecer. Quando Caio fez um gol, o amigo Davi gritou:
— Agora tá 3 a 2 pra gente!
Caio parou, com a bola debaixo do braço.
— Três a dois… — repetiu.
— É o placar, ué! — Davi riu. — Se a gente fizer mais um, vira 4 a 2.
Caio não respondeu, mas sentiu uma pulguinha atrás da orelha. “Então números servem pra… contar gols”, pensou, meio sem querer.
Na saída, a mãe de Caio, dona Renata, esperava com uma sacola de feira. Ela trabalhava perto e sempre passava no mercadinho da esquina.
— Caio, me ajuda a segurar aqui, filho — pediu.
A sacola cheirava a banana, tomate e um pouco de coentro.
— Vamos comprar pão pra hora do lanche. Você pode pegar seis pãezinhos? — perguntou ela.
— Seis? — Caio fez careta.
— Isso. Não precisa gostar de matemática, só precisa contar — brincou a mãe.
Caio entrou na padaria, onde o balcão brilhava e os pães ficavam enfileirados, dourados. Ele pegou um, dois… quando chegou no cinco, se distraiu olhando um bolo de chocolate.
A atendente, com touca e sorriso, perguntou:
— Quantos você vai levar, campeão?
Caio olhou para o saquinho na mão, sem saber se tinha cinco ou seis. O coração acelerou, como se ele estivesse numa prova.
— Eu… eu acho que são seis — disse, torcendo para estar certo.
A mãe, vendo a hesitação, não brigou. Apenas colocou o saquinho sobre o balcão e falou com calma:
— Vamos conferir juntos.
Ela tirou os pães e colocou na bancada, um por um, como se fosse um jogo.
— Um, dois, três, quatro, cinco. Falta um, Caio.
Caio sentiu o rosto esquentar.
— Eu me confundi…
— Acontece — respondeu ela. — Contar é como amarrar o cadarço: no começo a gente erra, depois a mão aprende.
Caio pegou o sexto pão, e, enquanto voltavam para casa, ficou pensando que aquela “conta” tinha ajudado a não faltar pão no lanche.
Na terça-feira, a professora Dalva trouxe uma caixa com tampinhas coloridas.
— Vamos resolver um mistério — anunciou. — Ontem, o Caio me ajudou a organizar os lápis da sala… e eu percebi que ele tem olhar de detetive.
Caio arregalou os olhos.
— Eu?
— Você mesmo. Detetives observam detalhes. E números ajudam a observar.
Ela colocou cinco tampinhas verdes e mais quatro vermelhas sobre a mesa.
— Quantas tampinhas temos no total?
Caio, sem querer, começou a contar mentalmente: “Cinco… seis, sete, oito, nove.”
— Nove — disse ele, antes de perceber.
A turma olhou surpresa. Caio também.
A professora sorriu, como quem viu uma semente brotar.
— Muito bem! Agora, uma pergunta: se eu disser que 5 + 4 = 10, a conta fecha?
— Não! — responderam alguns.
A professora colocou as tampinhas em fileiras.
— Então como a gente prova? Contando. Os números são como lanternas: iluminam o que a gente quer entender.
À tarde, Caio foi brincar no quintal do seu avô, seu Orlando, que morava numa casinha com varanda e um pé de jabuticaba carregadinho. O avô gostava de consertar coisas e tinha uma caixa de ferramentas que fazia “clinc-clinc” quando abria.
— Vô, por que você tem tantas ferramentas? — perguntou Caio.
— Porque cada uma serve pra um tipo de trabalho — respondeu seu Orlando, escolhendo um parafuso. — Assim como cada número serve pra uma pergunta.
— Que pergunta um número responde? — Caio quis saber.
O avô apontou para o pé de jabuticaba.
— Quantas jabuticabas você consegue pegar sem derrubar? — desafiou.
Caio riu.
— Um monte!
— Então conte — disse o avô, entregando um baldinho.
Caio começou a colher. As jabuticabas eram redondinhas e brilhantes, como bolinhas pretas com verniz. Ele colocou no balde e foi contando. Quando chegou em vinte, ficou orgulhoso.
— Vinte! — anunciou.
— Ótimo — disse o avô. — Agora imagine que sua irmã quer dividir com você. Como vocês podem repartir para ficar justo?
Caio fez uma careta.
— Justo é difícil…
— Justo às vezes é só… igual — explicou seu Orlando. — Se são vinte e são dois, dá dez pra cada.
Caio tentou imaginar: dez para ele, dez para a irmã. Parecia simples quando o avô falava assim, com jabuticabas de verdade.
No dia seguinte, na escola, a professora Dalva trouxe uma notícia:
— Sexta-feira teremos a Feira do Troca-Troca. Cada criança vai trazer figurinhas, brinquedinhos ou livros para trocar. Mas precisa ser uma troca que feche: justa e combinada.
Os olhos de Caio brilharam, porque ele adorava figurinhas. Só que, quando chegou em casa e abriu o álbum, percebeu um problema: ele tinha repetidas, mas não sabia quantas, nem quais.
— Mãe… — chamou, com voz baixinha. — Se eu levar figurinhas repetidas, como eu sei quantas eu tenho pra trocar?
Dona Renata sentou ao lado dele no sofá.
— A gente organiza. Primeiro separa as repetidas. Depois conta.
Caio espalhou as figurinhas sobre uma toalha. Era uma bagunça colorida: jogadores, escudos, números no canto das figurinhas… números de novo.
— Esses números aqui servem pra quê? — perguntou.
— Servem pra você saber qual figurinha falta e qual já tem — explicou a mãe.
Caio percebeu que seu álbum tinha “buracos” com números. Se faltava a 12 e ele tinha a 12 repetida, algo estava errado.
— Ué… como eu posso ter repetida de uma que falta? — ele se espantou.
A mãe deu uma risadinha.
— Você tem certeza que é a 12? Vamos conferir direitinho.
Caio olhou mais de perto. Era a 21.
— Ah… eu inverti.
— Acontece — disse ela. — Quando a gente confunde, a “conta” não fecha.
Na quinta-feira, Caio chegou na escola com um envelope de repetidas bem contadas: trinta e duas. Ele até escreveu num papel: “32 figurinhas para troca”. Sentiu uma coragem nova, como se tivesse uma capa invisível.
Durante a aula, a professora Dalva anunciou um desafio final antes da feira.
— Hoje vocês vão ser detetives das contas. Eu vou contar uma história e vocês precisam descobrir onde a conta não fecha.
Ela falou devagar:
— Na cantina, a tia Nair fez 12 sanduíches. No recreio, vendeu 8. Depois do recreio, sobraram 6.
A turma ficou quieta. Caio franziu a testa, pensando. Se tinha doze e vendeu oito, deveria sobrar quatro, não seis.
Caio levantou a mão, o coração batendo forte.
— Professora, não fecha! — ele disse, com voz firme.
— Por quê? — perguntou a professora.
— Porque 12 menos 8 é 4. Se sobraram 6, então ou ela não vendeu 8… ou ela fez mais sanduíches depois.
A professora arregalou os olhos, impressionada.
— Muito bem, Caio! Você encontrou duas possibilidades! Isso é pensar com números.
Caio sentiu uma alegria quente, como se tivesse tomado chocolate no frio.
Na sexta-feira, chegou o dia da Feira do Troca-Troca. A sala estava enfeitada com bandeirinhas de papel, como festa junina. As mesas foram empurradas para as paredes, e no meio ficaram “bancas” improvisadas com toalhas coloridas. Cheirava a lápis novo e a biscoito de polvilho.
Caio abriu seu envelope e colocou as figurinhas em montinhos de dez, como tinha treinado. Davi apareceu com uma pilha enorme.
— Caio, troca comigo? Te dou três figurinhas raras por cinco suas — propôs Davi.
Caio ia dizer “sim” só porque achou as figurinhas bonitas, mas parou. Lembrou da palavra da professora: “fechar”.
— Quais são as raras? — perguntou.
Davi mostrou três com brilho.
— E quais você quer? — Caio perguntou de novo, tentando ser detetive.
Davi apontou cinco figurinhas que Caio tinha repetidas, mas duas delas eram bem disputadas.
Caio sentiu um aperto. Se ele trocasse, talvez ficasse sem o que precisava para completar o álbum.
— Posso pensar um pouco? — pediu Caio.
— Claro — disse Davi, meio impaciente.
Caio abriu seu álbum e viu os espaços vazios. Faltavam quatro figurinhas para terminar uma página. Duas das que Davi queria eram justamente as que poderiam completar aquela parte.
Nesse momento, Bia se aproximou.
— Caio, eu tenho a 12 e a 34. Você tem a 18 repetida? — ela perguntou.
Caio procurou e encontrou a 18.
— Tenho!
— Eu troco as duas por duas suas — propôs Bia.
Caio calculou rapidinho: dar duas, receber duas. E ainda completaria a página. Parecia uma conta que encaixava certinho.
Ele respirou fundo e tomou uma decisão.
— Bia, fechado! — disse Caio, sorrindo.
Davi ouviu e protestou:
— Ei, mas eu ofereci raras!
Caio segurou o envelope com firmeza, sentindo o coração bater como tambor.
— Davi, eu gostei das suas… mas a troca que você quer não fecha pra mim agora. Eu preciso completar meu álbum. Se você quiser, posso trocar três minhas por três suas, ou então cinco por cinco. Aí fica justo.

A sala pareceu prender a respiração. Davi olhou para as figurinhas, fez as contas com os dedos e coçou a cabeça.
— Tá… três por três então — ele concordou, um pouco sem graça.
Caio escolheu três repetidas que não eram tão raras e recebeu as três brilhantes. Davi também saiu satisfeito.
A professora Dalva, que observava tudo, se aproximou.
— Caio, você usou matemática sem fazer cara feia — ela comentou.
Caio deu uma risada pequena.
— Eu nem percebi… eu só… pensei.
— Pensar é o começo de toda conta que fecha — respondeu a professora.
Quando a feira terminou, Caio voltou para casa com o álbum mais completo e uma sensação nova no peito. No caminho, viu a placa do ônibus com o número da linha, contou os degraus da calçada quebrada para não tropeçar, percebeu que os semáforos tinham tempos diferentes e que até as músicas do rádio tinham batidas que se repetiam.
Em casa, enquanto ajudava a mãe a pôr a mesa, ele falou, como se fosse um segredo:
— Mãe… eu acho que os números estão em tudo.
Dona Renata colocou um prato na mesa.
— Estão mesmo. Mas sabe o melhor?
— O quê?
— Eles não estão aí pra assustar. Estão aí pra ajudar a gente a entender o mundo e fazer escolhas melhores.
Caio olhou para os talheres alinhados, para os copos, para as cadeiras.
— Então… quando a conta não fecha, é como se o mundo estivesse pedindo pra eu olhar de novo.
A mãe sorriu.
— Exatamente.
Naquela noite, Caio deitou na cama e pensou na professora, no avô, nas figurinhas. Ele ainda não amava fazer contas no caderno. Mas descobriu uma coisa importante: matemática não era um monstro de números. Era uma lanterna, igual a professora tinha dito, iluminando caminhos.
E, sem perceber, Caio adormeceu contando, bem baixinho, não porque era obrigação, mas porque era uma forma gostosa de organizar os sonhos: um, dois, três… até as contas fecharem direitinho dentro do coração.
✨ Moral da História
“Quando a gente observa com calma e confere direitinho, os números viram amigos que ajudam a fazer escolhas justas e entender melhor o mundo.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que o Caio achava que matemática era chata no começo da história?
- 2Qual foi a primeira situação em que Caio usou números sem perceber (no jogo, na padaria ou nas jabuticabas)?
- 3Se você fosse o Caio na padaria, o que faria para não se confundir na hora de contar os pães?
- 4Na feira de trocas, por que o Caio decidiu trocar com a Bia antes de trocar com o Davi?
- 5Você já precisou contar alguma coisa em casa ou na escola (como brinquedos, passos ou figurinhas)? O que você contou?
O que achou desta história?
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