Família

O Guarda-Chuva Zigue-Zague e a Caça aos Carinhos Escondidos

08 de fevereiro de 20269 min de leitura6 a 8 anos20 visualizações
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O Guarda-Chuva Zigue-Zague e a Caça aos Carinhos Escondidos

Na Rua do Ipê, onde as casas tinham janelas coloridas e as calçadas cheiravam a pão quentinho, morava Malu, de sete anos. Ela gostava de desenhar mapas do bairro e inventar nomes para tudo: a esquina do mercado era a “Curva do Cheiro Bom”, e o portão do prédio era a “Entrada do Castelo”.

Naquela tarde de sábado, o céu estava cinza, com nuvens pesadas, e a chuva batucava no parapeito. Era dia de arrumar o Salão do Coreto, um lugar onde os vizinhos faziam festas, reuniões e teatros.

— Malu, pega as fitas coloridas na gaveta, por favor! — pediu mamãe, enrolando bandeirinhas.

— Já vai! — respondeu Malu, mas seu olhar foi parar no papai.

Papai Mauro estava sentado no chão da sala, com uma caixa de ferramentas aberta. Ele não cantava como a mamãe, não fazia caretas como o irmãozinho Davi e não contava histórias compridas como a tia Bete. Ele só… consertava.

— Papai nem liga pra festa — murmurou Malu, baixinho, como quem fala com o próprio pensamento.

Nessa hora, o vento soprou mais forte e fez “tlim!” na porta da varanda. Um guarda-chuva vermelho, com desenhos em zig-zag branco, caiu de um cantinho onde ficava guardado.

Malu pegou o guarda-chuva e tentou abrir, só para ver se estava inteiro.

E foi aí que aconteceu.

O guarda-chuva abriu sozinho, esticando as varetas com um estalo alegre, e… piscou.

— Atchim! Quer dizer… olá! — disse uma voz fina e animada.

Malu deu um passo para trás, os olhos redondos.

— Você… falou?

— Falei! Eu sou o Zigue-Zague. Fico quietinho quase sempre, mas hoje a chuva me acordou. E eu ouvi uma coisa triste: você acha que seu papai não liga.

— Ele não fala “eu te amo” — Malu explicou, abraçando o cabo do guarda-chuva. — Ele só conserta coisas.

Zigue-Zague inclinou um pouco, como se fosse um professor prestes a revelar um segredo.

— Então vamos fazer a Caça aos Carinhos Escondidos! Amor não mora só em palavras. Às vezes ele se esconde em gestos. Topa procurar?

Malu hesitou, mas a curiosidade puxou sua mão.

— Topo.

Ilustração da história O Guarda-Chuva Zigue-Zague e a Caça aos Carinhos Escondidos

Zigue-Zague apontou (sim, um guarda-chuva pode “apontar” quando quer) para o tênis de Malu, bem limpo e com o cadarço novo.

— Primeira pista: seus cadarços.

Malu olhou de perto. Ela lembrava que ontem o cadarço tinha arrebentado.

— Foi o papai que trocou… — ela sussurrou.

— Sem alarde — disse Zigue-Zague. — Carinho ninja.

A segunda pista veio do estojo de lápis, em cima da mesa. A tampa, que vivia caindo, estava firme.

— Eu achei que eu tinha colado! — Malu falou.

Do outro lado da sala, papai Mauro levantou o rosto por um instante e perguntou:

— Malu, você viu minha fita isolante?

— Não… — ela respondeu, e engoliu a pergunta que queria fazer.

Zigue-Zague cutucou o ombro dela (ou quase isso, com uma vareta).

— Vamos para a terceira pista. Ela fica no Salão do Coreto.

— Mas está chovendo muito.

— Adivinha para que eu sirvo? — Zigue-Zague disse, com um orgulho que parecia deixar o tecido ainda mais vermelho.

Malu vestiu sua capa amarela, colocou o capuz e desceu as escadas do prédio. Do lado de fora, a chuva fazia poças que pareciam espelhos tremendo.

No caminho, ela viu dona Olívia, a vizinha do 2º andar, tentando segurar uma sacola de frutas com um braço e um pacote de guardanapos com o outro.

— Quer ajuda? — Malu perguntou.

— Ai, minha filha, se puder…

Malu abriu Zigue-Zague por cima das sacolas, e os três (Malu, a vizinha e as frutas) ficaram protegidos.

— Está vendo? — cochichou o guarda-chuva. — Carinho também é emprestar abrigo.

Quando chegaram perto do Salão do Coreto, um problema apareceu: a rua estava com uma enxurrada mais forte, e a água corria rápido pela sarjeta. E, bem no meio do caminho, um carrinho de feira vazio tinha virado e bloqueava a passagem.

— E agora? — Malu sentiu o coração bater mais alto.

Ela podia voltar, esperar um adulto… mas a festa dependia das fitas e das lâmpadas que estavam no salão. E dona Olívia precisava passar.

Zigue-Zague se esticou ao máximo, firme como uma barraca.

— Vamos pensar. Não é força bruta, é jeito.

Malu viu uma corda curta, usada para prender o carrinho. Ela puxou devagar, fazendo um nó simples como tinha aprendido na escola, e prendeu a corda no poste baixo da calçada.

— Dona Olívia, segura aqui, por favor! — Malu pediu.

Com a corda firme, Malu empurrou o carrinho pela lateral, sem deixar que ele escorregasse de novo com a água. Foi um empurra-empurra cuidadoso, com os pés bem plantados.

— Conseguiu! — dona Olívia comemorou.

Malu respirou aliviada. A chuva ainda caía, mas agora parecia menos assustadora.

E então veio a terceira pista.

Ao chegarem ao Salão do Coreto, Malu viu a porta entreaberta e, lá dentro, um monte de coisas organizadas em pilhas: fios enrolados direitinho, ganchos separados, uma extensão elétrica testada e presa com abraçadeiras.

No canto, uma escada estava apoiada com segurança. Tudo parecia pronto, como se alguém tivesse vindo antes.

Ilustração da história O Guarda-Chuva Zigue-Zague e a Caça aos Carinhos Escondidos

— Quem fez isso? — Malu perguntou, com a voz baixa, como se estivesse num museu.

Zigue-Zague respondeu sem pressa:

— Quem você acha que sabe enrolar fios assim, sem embaraçar?

Malu sentiu o rosto esquentar.

— O papai.

Na mesma hora, papai Mauro apareceu na porta, molhado de chuva e com uma caixa de ferramentas na mão. Ele parou ao ver Malu ali.

— Malu! Eu vim conferir a fiação antes da festa. A tempestade ontem deu uns estalos no disjuntor. Você não devia atravessar a rua com essa correnteza.

Malu abaixou um pouco o guarda-chuva.

— Eu… ajudei a dona Olívia. E trouxe meu melhor guarda-chuva.

Papai olhou para Zigue-Zague (que, por sorte, decidiu ficar bem quietinho naquela hora) e depois para Malu.

Ele não fez discurso. Não precisou.

Ajoelhou-se, puxou Malu para um abraço forte e curto, daquele tipo que aperta sem machucar.

— Obrigado por ajudar. Mas da próxima vez, me avisa, combinado?

Malu assentiu, sentindo o abraço como um cobertor.

Logo, a festa começou. Os vizinhos chegaram com pratos, risadas e música. Mamãe pendurou bandeirinhas, Davi correu com um chapéu gigante, e tia Bete organizou uma mesa de jogos.

No meio do salão, as luzes quase não acenderam por causa da chuva… mas papai Mauro, com calma, trocou um conector, apertou um parafuso e, de repente, as lâmpadas piscaram e ficaram firmes.

— Uau! — as crianças disseram juntas.

Malu olhou para o pai. Ele estava sorrindo de um jeito pequeno, mas verdadeiro, como quem diz “eu cuido” sem usar palavras.

Malu pegou uma fita colorida e foi até ele.

— Papai… posso ser sua ajudante oficial?

Ele arqueou as sobrancelhas, divertido.

— Pode. Mas ajudante que presta atenção.

— Eu presto! — Malu respondeu, e riu.

Zigue-Zague descansava encostado numa cadeira, pingando gotinhas no chão, como se também tivesse trabalhado.

Ilustração da história O Guarda-Chuva Zigue-Zague e a Caça aos Carinhos Escondidos

Na volta para casa, já com a chuva mais fraquinha, Malu caminhou ao lado do pai, dividindo o guarda-chuva com ele.

— Papai — ela disse, escolhendo as palavras com cuidado — eu achava que você não ligava… porque você não fala muito.

Papai pensou um pouco.

— Eu falo com as mãos. Consertando, arrumando, lembrando do que você precisa.

Malu apertou o cabo do Zigue-Zague.

— Então eu vou aprender a escutar esse tipo de fala também.

O pai passou a mão no cabelo dela, bagunçando só um pouquinho.

— E eu posso tentar falar mais com palavras. Negócio fechado?

— Negócio fechado.

E, enquanto caminhavam, Malu teve certeza de uma coisa: família é um lugar onde o amor pode ter muitas vozes — algumas cantam, outras brincam, e outras… apertam parafusos do jeito mais carinhoso do mundo.

✨ Moral da História

Em família, o amor pode aparecer em palavras e também em pequenos gestos de cuidado — e aprender a perceber os dois aproxima os corações.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Quais foram os “carinhos escondidos” que a Malu descobriu no jeito do papai Mauro?
  • 2Qual é um jeito que alguém da sua família demonstra amor sem usar muitas palavras?
  • 3Se você tivesse um guarda-chuva mágico, que missão de ajuda você gostaria de fazer num dia de chuva?
  • 4Como a Malu poderia avisar o papai de um jeito seguro antes de sair na tempestade?

O que achou desta história?

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Raposinha

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