Fantasia

A Bússola que Gostava de Dançar

19 de dezembro de 20257 min de leitura6 a 8 anos4 visualizações

Em um passeio escolar por Olinda, Lia recebe uma bússola encantada que não aponta para o norte, mas para o melhor jeito de seguir. Para encontrar fitas em uma gincana, ela precisa enfrentar um beco confuso e aprender a se adaptar ao ritmo da cidade.

Compartilhar:
A Bússola que Gostava de Dançar

Lia tinha sete anos e adorava coisas certinhas: linha reta, lista de tarefas e horário marcado. Quando a turma fez um passeio para Olinda, ela foi com uma prancheta pequena e um lápis bem apontado.

— Hoje vai dar tudo certo — ela disse para si mesma, olhando as ladeiras cheias de casinhas coloridas.

A professora Cíntia bateu palmas.

— Atenção! Vamos fazer a “Caça ao Tesouro do Frevo”. Em duplas, vocês precisam encontrar três fitas: uma azul, uma amarela e uma vermelha. Quem trouxer as três primeiro ganha.

Lia caiu na dupla com Beto, que vivia cantando qualquer coisa.

— Eu sei um atalho! — Beto falou.

— Atalho sem planejar não existe — Lia respondeu, séria. — Primeiro, precisamos de direção.

A professora entregou um objeto para ela: uma bússola antiga, de metal dourado, com uma tampinha redonda.

— Essa vai ajudar vocês. Mas cuidado: é uma bússola… diferente.

Lia abriu a tampinha. A agulha girou, girou, e… começou a balançar como se estivesse dançando. E, bem baixinho, saiu um “tlim-tlim” que parecia música.

— Está quebrada! — Lia exclamou.

— Que nada! Ela tá é animada! — Beto riu.

A agulha fez um giro elegante e apontou para uma rua estreita. Lia franziu a testa.

— Bússola aponta pro norte. Essa tá fazendo pirueta.

— Psst! — sussurrou uma voz fininha.

Lia olhou em volta. Ninguém. Só um guarda-chuvinha de frevo, bem pequeno, pendurado num enfeite da rua. O guarda-chuvinha deu uma sacudida e falou:

— Eu me chamo Zeca, Zeca do Frevo. E essa bússola não gosta de ficar parada.

Beto arregalou os olhos.

— Um guarda-chuva falando!

— Guarda-chuvinha — corrigiu Zeca, orgulhoso. — E a bússola não aponta pro norte. Ela aponta pro melhor “jeito” de ir.

— Melhor jeito é o mais curto — Lia disse.

— Às vezes, o melhor jeito muda — Zeca respondeu. — Olinda tem ladeiras que gostam de surpresa.

A agulha dançou de novo e apontou para uma vendinha. Lia não entendeu, mas foi. Na porta, uma senhora derrubou um saco de laranjas, que rolaram feito bolinhas pela calçada.

— Ai, meu Deus! — a senhora reclamou.

Beto ia passar direto, mas a bússola fez um “tlim!” bem alto. Lia suspirou.

— Tá bom… vamos ajudar.

Eles juntaram as laranjas, uma por uma. A senhora sorriu.

— Obrigada, meus filhos. Ah! E vocês estão na caça das fitas? Eu vi uma fita azul amarrada ali, na grade da janela.

Lia ficou surpresa.

— A fita azul! — Beto apontou.

Quando Lia pegou a fita, a bússola parou de girar por um segundo, como se tivesse ficado satisfeita.

— Viu? — Zeca disse. — Nem sempre o caminho mais curto dá o melhor resultado.

Lia mordeu a ponta do lápis.

— Mas eu gosto de saber exatamente o que vai acontecer.

— Então você escolheu a cidade errada pra visitar — Beto brincou, pulando um degrau.

A agulha apontou para cima, depois para a esquerda, depois para… um beco estreito, sombreado, onde as paredes tinham azulejos brilhantes. Uma plaquinha dizia: “Beco do Sumiço”.

— Que nome horrível — Lia murmurou.

— É só um apelido — Zeca falou. — O beco é cheio de curvas e reflexos. Se você tentar mandar nele, ele manda em você.

— Ninguém manda em mim — Lia respondeu.

Ela entrou primeiro, andando rápido, tentando “dominar” o caminho. Mas os azulejos refletiam as luzes e faziam tudo parecer igual. Um lado virava outro. Uma curva parecia três.

— Beto? — Lia chamou.

Silêncio. A música do frevo ficou distante, como se alguém tivesse colocado um pano em cima do som.

A bússola começou a girar feito louca, e a agulha batia na tampa: tac-tac-tac.

— Não adianta brigar com o beco — Zeca disse, mais sério. — Aqui você precisa… acompanhar.

— Acompanhar o quê?

Zeca deu uma rodopiada no ar.

— O ritmo.

Ilustração da história A Bússola que Gostava de Dançar

Lia respirou fundo. Ela percebeu que seus passos estavam duros, apressados, como se ela estivesse tentando empurrar o mundo. E se… ela tentasse diferente?

— Eu… eu não sei dançar — ela admitiu, baixinho.

— Eu sei! — a voz de Beto apareceu do outro lado. Ele surgiu com Malu, outra colega, que tinha entrado no beco por curiosidade.

— A gente te ouviu. Você ficou indo e voltando na mesma curva! — Malu falou.

Lia corou.

— Eu me perdi.

— Normal — Beto disse. — Quer aprender um passo?

Lia olhou para a bússola. A agulha fazia um movimento de “vai e volta”, como se convidasse.

— Tá — ela disse. — Mas devagar.

Malu ensinou: um pé pra frente, o outro cruza, e um giro pequeno, como se o corpo fosse uma pergunta.

— Não precisa ser perfeito — Malu falou.

Lia tentou. Errrou. Tentou de novo. Quando ela finalmente deixou o corpo “escutar” o ritmo, os reflexos dos azulejos mudaram. Uma parede que parecia fechada ficou transparente, revelando uma escadinha escondida.

— Funcionou! — Beto gritou.

No alto da escadinha, preso a um sininho, estava um laço amarelo.

— A fita amarela! — Lia disse, agora sorrindo sem perceber.

A bússola tocou um “tlim-tlim” alegre, e Zeca deu uma pirueta.

— Falta a vermelha — Beto lembrou.

A agulha apontou para o alto da cidade, onde o vento era mais forte. Subiram as ladeiras até o Alto da Sé. Lá em cima, uma bandeirinha vermelha tremulava perto de um vendedor de cocada.

— Tá vendo? — o vendedor falou. — O vento quase levou. Segurem firme.

Lia segurou a fita vermelha com cuidado, sentindo o vento bagunçar seus cabelos e, dessa vez, achando isso… divertido.

Eles voltaram correndo até a professora. Não chegaram em primeiro lugar, mas chegaram rindo.

— E aí, Lia, a bússola ajudou? — perguntou a professora Cíntia.

Lia olhou para o objeto dourado. A agulha ainda dançava, só que agora parecia um convite, não uma confusão.

— Ajudou sim — ela respondeu. — Ela me ensinou que, quando o caminho muda, a gente pode mudar junto.

Ilustração da história A Bússola que Gostava de Dançar

Zeca do Frevo deu um último “tchau” com sua sombrinha minúscula e, quando Lia piscou, ele parecia só um enfeite outra vez. Mas a música, bem baixinho, continuou dentro dela, como um segredo alegre: nem toda aventura cabe numa linha reta.

✨ Moral da História

Quando a vida muda o caminho, ser flexível e se adaptar pode transformar confusão em descoberta.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que a Lia ficou irritada quando a bússola começou a “dançar”?
  • 2O que mudou quando a Lia parou de brigar com o beco e tentou acompanhar o ritmo?
  • 3Qual foi o momento em que a Lia percebeu que nem sempre o caminho mais curto é o melhor?
  • 4Em que situação do seu dia você poderia tentar ser mais flexível, como a Lia?

O que achou desta história?

Comentários (0)

Raposinha

Deixe seu comentário

Não será exibido publicamente

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!