A Bússola que Gostava de Dançar
Em um passeio escolar por Olinda, Lia recebe uma bússola encantada que não aponta para o norte, mas para o melhor jeito de seguir. Para encontrar fitas em uma gincana, ela precisa enfrentar um beco confuso e aprender a se adaptar ao ritmo da cidade.

Lia tinha sete anos e adorava coisas certinhas: linha reta, lista de tarefas e horário marcado. Quando a turma fez um passeio para Olinda, ela foi com uma prancheta pequena e um lápis bem apontado.
— Hoje vai dar tudo certo — ela disse para si mesma, olhando as ladeiras cheias de casinhas coloridas.
A professora Cíntia bateu palmas.
— Atenção! Vamos fazer a “Caça ao Tesouro do Frevo”. Em duplas, vocês precisam encontrar três fitas: uma azul, uma amarela e uma vermelha. Quem trouxer as três primeiro ganha.
Lia caiu na dupla com Beto, que vivia cantando qualquer coisa.
— Eu sei um atalho! — Beto falou.
— Atalho sem planejar não existe — Lia respondeu, séria. — Primeiro, precisamos de direção.
A professora entregou um objeto para ela: uma bússola antiga, de metal dourado, com uma tampinha redonda.
— Essa vai ajudar vocês. Mas cuidado: é uma bússola… diferente.
Lia abriu a tampinha. A agulha girou, girou, e… começou a balançar como se estivesse dançando. E, bem baixinho, saiu um “tlim-tlim” que parecia música.
— Está quebrada! — Lia exclamou.
— Que nada! Ela tá é animada! — Beto riu.
A agulha fez um giro elegante e apontou para uma rua estreita. Lia franziu a testa.
— Bússola aponta pro norte. Essa tá fazendo pirueta.
— Psst! — sussurrou uma voz fininha.
Lia olhou em volta. Ninguém. Só um guarda-chuvinha de frevo, bem pequeno, pendurado num enfeite da rua. O guarda-chuvinha deu uma sacudida e falou:
— Eu me chamo Zeca, Zeca do Frevo. E essa bússola não gosta de ficar parada.
Beto arregalou os olhos.
— Um guarda-chuva falando!
— Guarda-chuvinha — corrigiu Zeca, orgulhoso. — E a bússola não aponta pro norte. Ela aponta pro melhor “jeito” de ir.
— Melhor jeito é o mais curto — Lia disse.
— Às vezes, o melhor jeito muda — Zeca respondeu. — Olinda tem ladeiras que gostam de surpresa.
A agulha dançou de novo e apontou para uma vendinha. Lia não entendeu, mas foi. Na porta, uma senhora derrubou um saco de laranjas, que rolaram feito bolinhas pela calçada.
— Ai, meu Deus! — a senhora reclamou.
Beto ia passar direto, mas a bússola fez um “tlim!” bem alto. Lia suspirou.
— Tá bom… vamos ajudar.
Eles juntaram as laranjas, uma por uma. A senhora sorriu.
— Obrigada, meus filhos. Ah! E vocês estão na caça das fitas? Eu vi uma fita azul amarrada ali, na grade da janela.
Lia ficou surpresa.
— A fita azul! — Beto apontou.
Quando Lia pegou a fita, a bússola parou de girar por um segundo, como se tivesse ficado satisfeita.
— Viu? — Zeca disse. — Nem sempre o caminho mais curto dá o melhor resultado.
Lia mordeu a ponta do lápis.
— Mas eu gosto de saber exatamente o que vai acontecer.
— Então você escolheu a cidade errada pra visitar — Beto brincou, pulando um degrau.
A agulha apontou para cima, depois para a esquerda, depois para… um beco estreito, sombreado, onde as paredes tinham azulejos brilhantes. Uma plaquinha dizia: “Beco do Sumiço”.
— Que nome horrível — Lia murmurou.
— É só um apelido — Zeca falou. — O beco é cheio de curvas e reflexos. Se você tentar mandar nele, ele manda em você.
— Ninguém manda em mim — Lia respondeu.
Ela entrou primeiro, andando rápido, tentando “dominar” o caminho. Mas os azulejos refletiam as luzes e faziam tudo parecer igual. Um lado virava outro. Uma curva parecia três.
— Beto? — Lia chamou.
Silêncio. A música do frevo ficou distante, como se alguém tivesse colocado um pano em cima do som.
A bússola começou a girar feito louca, e a agulha batia na tampa: tac-tac-tac.
— Não adianta brigar com o beco — Zeca disse, mais sério. — Aqui você precisa… acompanhar.
— Acompanhar o quê?
Zeca deu uma rodopiada no ar.
— O ritmo.

Lia respirou fundo. Ela percebeu que seus passos estavam duros, apressados, como se ela estivesse tentando empurrar o mundo. E se… ela tentasse diferente?
— Eu… eu não sei dançar — ela admitiu, baixinho.
— Eu sei! — a voz de Beto apareceu do outro lado. Ele surgiu com Malu, outra colega, que tinha entrado no beco por curiosidade.
— A gente te ouviu. Você ficou indo e voltando na mesma curva! — Malu falou.
Lia corou.
— Eu me perdi.
— Normal — Beto disse. — Quer aprender um passo?
Lia olhou para a bússola. A agulha fazia um movimento de “vai e volta”, como se convidasse.
— Tá — ela disse. — Mas devagar.
Malu ensinou: um pé pra frente, o outro cruza, e um giro pequeno, como se o corpo fosse uma pergunta.
— Não precisa ser perfeito — Malu falou.
Lia tentou. Errrou. Tentou de novo. Quando ela finalmente deixou o corpo “escutar” o ritmo, os reflexos dos azulejos mudaram. Uma parede que parecia fechada ficou transparente, revelando uma escadinha escondida.
— Funcionou! — Beto gritou.
No alto da escadinha, preso a um sininho, estava um laço amarelo.
— A fita amarela! — Lia disse, agora sorrindo sem perceber.
A bússola tocou um “tlim-tlim” alegre, e Zeca deu uma pirueta.
— Falta a vermelha — Beto lembrou.
A agulha apontou para o alto da cidade, onde o vento era mais forte. Subiram as ladeiras até o Alto da Sé. Lá em cima, uma bandeirinha vermelha tremulava perto de um vendedor de cocada.
— Tá vendo? — o vendedor falou. — O vento quase levou. Segurem firme.
Lia segurou a fita vermelha com cuidado, sentindo o vento bagunçar seus cabelos e, dessa vez, achando isso… divertido.
Eles voltaram correndo até a professora. Não chegaram em primeiro lugar, mas chegaram rindo.
— E aí, Lia, a bússola ajudou? — perguntou a professora Cíntia.
Lia olhou para o objeto dourado. A agulha ainda dançava, só que agora parecia um convite, não uma confusão.
— Ajudou sim — ela respondeu. — Ela me ensinou que, quando o caminho muda, a gente pode mudar junto.

Zeca do Frevo deu um último “tchau” com sua sombrinha minúscula e, quando Lia piscou, ele parecia só um enfeite outra vez. Mas a música, bem baixinho, continuou dentro dela, como um segredo alegre: nem toda aventura cabe numa linha reta.
✨ Moral da História
“Quando a vida muda o caminho, ser flexível e se adaptar pode transformar confusão em descoberta.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Lia ficou irritada quando a bússola começou a “dançar”?
- 2O que mudou quando a Lia parou de brigar com o beco e tentou acompanhar o ritmo?
- 3Qual foi o momento em que a Lia percebeu que nem sempre o caminho mais curto é o melhor?
- 4Em que situação do seu dia você poderia tentar ser mais flexível, como a Lia?
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