Fantasia

Otávia e o Marionete de Âmbar que Colecionava Risos

25 de fevereiro de 20268 min de leitura9 a 12 anos6 visualizações
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Otávia e o Marionete de Âmbar que Colecionava Risos

Otávia Prates morava num sobrado antigo na Ladeira dos Jacarandás, numa cidade onde as telhas pareciam escamas e as ruas cheiravam a chuva guardada. Ela não era professora, nem atleta, nem aventureira: era marionetista. Construía bonecos de fios tão expressivos que, às vezes, as pessoas juravam que eles piscavam de volta.

Naquele ano, a cidade preparava a Noite dos Mil Lampiões, um festival ao ar livre em que histórias eram contadas na praça, sem palco fixo, só com um círculo de luz e muita gente em volta. Otávia recebeu um convite importante: “Queremos um espetáculo que faça todo mundo rir junto”, dizia o bilhete, selado com cera perfumada.

Otávia ficou feliz, mas uma pontinha de medo se instalou no peito. Rir junto era delicado. Havia quem risse alto, quem risse baixo, quem risse só por dentro. E se ela falhasse?

Foi quando apareceu em sua oficina a senhora Nadir, uma mascate de olhos miúdos e colares barulhentos, carregando uma caixa de veludo cor de mel.

— Você faz bonecos que parecem ter alma — disse Nadir. — Falta só uma coisinha para a sua plateia explodir de alegria.

Dentro da caixa, havia um pedaço de âmbar, translúcido e quente, como se guardasse um pôr do sol. Quando Otávia aproximou o dedo, o âmbar brilhou, e ela sentiu um formigamento, como se uma gargalhada estivesse presa ali dentro.

— Âmbar de Riso — sussurrou Nadir. — Ele “puxa” risadas do ar. Um talismã antigo. Usado com… habilidade.

Otávia hesitou.

— Puxa? De onde?

— Ora, do lugar onde elas se escondem — respondeu a mascate, sem explicar mais. — Você só precisa encaixar no peito do seu boneco principal.

Naquela noite, Otávia trabalhou até as sombras cansarem de acompanhar. Ela esculpiu um marionete alto, de madeira clara, com olhos pintados de verde-musgo e uma roupa de tecido azul com pequenos remendos em forma de estrela. Deu-lhe o nome de Sultão, não por ser mandão, mas por ter postura de quem atravessa tempestades com elegância.

Quando encaixou o Âmbar de Riso no peito do boneco, ele brilhou por entre as ripas de madeira como um coração de luz. Os fios, pendurados na cruzeta, vibraram sozinhos, como cordas de violão antes do primeiro acorde.

Ilustração da história Otávia e o Marionete de Âmbar que Colecionava Risos

— Certo, Sultão — murmurou Otávia, engolindo o nervosismo. — Amanhã a gente vai fazer a praça inteira sorrir.

A Noite dos Mil Lampiões chegou com o céu limpo e um cheiro de pipoca queimando de leve. Lampiões de papel boiavam como peixes luminosos acima da praça do Chafariz de Jade. Otávia entrou no círculo de luz, saudou o público e ergueu Sultão.

No começo, foi perfeito. Sultão tropeçava de propósito, fingia bravura diante de um gato invisível, fazia reverências exageradas. As crianças riam. Os adultos sorriam com o canto da boca, como quem se permite um descanso.

Então o âmbar pulsou.

Otávia sentiu seus dedos puxarem os fios com uma facilidade estranha, como se o ar ajudasse. E viu algo que não estava no roteiro: finíssimos filamentos dourados saíram do peito de Sultão e se estenderam até o público, tocando as pessoas como teias de aranha de sol.

De cada filamento, vinha um som: uma risada, um “ha!”, um “hihi!”, um suspiro divertido — mas não saíam das bocas. Pareciam ser retirados de dentro, como se alguém abrisse uma gaveta secreta do peito.

As pessoas riam, sim… só que, logo depois, seus rostos ficavam vazios, como máscaras esquecidas. Um senhor esfregou os olhos, confuso, e parou de sorrir no meio do riso. Uma menina abraçou o próprio corpo, sem entender por que a alegria tinha escorregado para longe.

Ilustração da história Otávia e o Marionete de Âmbar que Colecionava Risos

Otávia terminou o espetáculo sob aplausos fortes, mas eles soavam ocos, como palmas batendo em latas.

De volta à oficina, Sultão ficou em pé sozinho, os olhos verdes muito abertos.

— Eu… fiz certo? — pareceu perguntar, mesmo sem boca.

Otávia encarou o âmbar. Ele agora brilhava mais, cheio, farto, quase pesado.

Na manhã seguinte, a cidade amanheceu estranha. Os lampiões ainda estavam pendurados, mas as pessoas caminhavam como se tivessem esquecido o motivo do festival. Não era tristeza. Era ausência. Como um livro sem personagens.

Otávia foi à praça e ouviu conversas baixas:

— Ontem eu ri… mas não lembro do gosto da risada — disse uma mulher, desconcertada.

— Parece que alguém tomou emprestado um pedaço de mim e não devolveu — respondeu outra.

Otávia sentiu o rosto arder. Ela havia querido “garantir” o riso. Quis controlar o que deveria ser livre.

À noite, ela voltou ao chafariz. A água do Chafariz de Jade sempre fora clara, mas agora parecia mais opaca, como se refletisse uma lua cansada. Otávia trouxe Sultão nos braços e, com cuidado, abriu a pequena portinhola que ela mesma havia talhado no peito do boneco.

— Desculpa — sussurrou, para o marionete, para a cidade e para si. — Eu confundi aplauso com encontro.

O âmbar resistiu, preso como uma ideia teimosa. Otávia respirou fundo e puxou, devagar. Quando a pedra saiu, a luz dourada tremeu e, em vez de apagar, se espalhou em fios que correram para a água.

O chafariz borbulhou. Da superfície, subiram pequenas figuras luminosas — não eram letras nem palavras, mas formas de sentimento: borboletas de luz, peixinhos cintilantes, bolhas coloridas que faziam cócegas no ar. Elas voaram pela praça e tocaram as pessoas que passavam, como quem devolve algo no bolso de um casaco.

Uma criança soltou um riso verdadeiro, daqueles que começam na barriga e terminam nos olhos. Um senhor gargalhou e, logo depois, suspirou aliviado, como se lembrasse de casa. A praça voltou a ganhar cor.

Sultão, agora sem o coração de âmbar, não caiu. Seus fios ficaram mais leves, e ele inclinou a cabeça para Otávia, como quem entende uma lição difícil.

Ilustração da história Otávia e o Marionete de Âmbar que Colecionava Risos

Na última noite do festival, Otávia fez outro espetáculo. Sultão apareceu com um remendo novo na roupa: um quadrado de tecido laranja, bem visível.

— Esse remendo é para quê? — perguntou uma menina na primeira fila.

Otávia sorriu.

— Para eu não esquecer que histórias e risos não são coisas que a gente puxa. São coisas que a gente convida.

E, em vez de um número “perfeito”, Otávia apresentou uma história com pausas, improvisos e até um fio que embolou. O público riu do jeito certo: riu junto, mas cada um com a própria risada, inteira e livre.

Depois disso, Otávia guardou o Âmbar de Riso numa caixa sem chave e escreveu em cima, apenas para si: “Somente com permissão”. Mais importante ainda, abriu sua oficina para quem quisesse aprender a construir marionetes.

Porque ela descobriu que a magia mais bonita não é a que controla um sentimento. É a que respeita o coração dos outros e cria um espaço seguro para ele aparecer.

✨ Moral da História

A alegria verdadeira não pode ser controlada nem tomada — ela nasce quando respeitamos os sentimentos dos outros e somos autênticos.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que você acha que as risadas ficaram “ocas” quando o âmbar começou a puxá-las?
  • 2Qual foi a diferença entre um espetáculo “perfeito” e um espetáculo “verdadeiro” no final da história?
  • 3Você já sentiu que tentou agradar alguém a qualquer custo? O que poderia ter feito diferente?
  • 4Se você fosse a Otávia, o que colocaria na oficina para lembrar de respeitar os sentimentos das pessoas?

O que achou desta história?

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Raposinha

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