Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

Iara tinha sete anos e um olhar que reparava em tudo: nas rachaduras da calçada, nas folhas que dançavam no vento e, principalmente, nos desenhos escondidos nas paredes antigas.
Num sábado de sol, ela foi visitar a tia Lúcia, que trabalhava restaurando um lugar bem diferente: a antiga Casa dos Banhos do Bairro do Sol. O prédio era velho, mas bonito, com um corredor comprido coberto de azulejos azuis e brancos. Alguns pareciam novos. Outros tinham marquinhas do tempo, como pequenas sardas.
— Aqui, Iara, cada pedacinho conta uma história — explicou tia Lúcia, colocando luvas. — Se a gente cuida direitinho, essas histórias ficam vivas por muitos anos.
Iara caminhou devagar, sem encostar demais. Foi então que viu um azulejo meio solto, bem perto do chão. Ele tinha o desenho de uma onda enrolada, como se o mar estivesse preso ali.
Quando ela se agachou para olhar melhor, uma voz baixinha, parecida com o barulho de colher mexendo açúcar, sussurrou:
— Psst… menina dos olhos atentos…
Iara arregalou os olhos.
— Quem falou?
— Eu — disse o azulejo, com a maior calma. — Pode me chamar de Senhor Mosaico.
Iara olhou para trás. Tia Lúcia estava do outro lado do corredor, concentrada em um balde com água e pincéis, sem perceber nada.
— Um azulejo… fala? — Iara cochichou.
— Só quando é preciso — respondeu o Senhor Mosaico. — E hoje é. Tem um Borrão Cinzento crescendo por trás da parede. Ele não quebra nada de uma vez. Ele apaga devagar. Apaga cores, apaga desenhos… e apaga lembranças.
Iara sentiu um arrepio. No canto do corredor, bem alto, havia mesmo uma mancha de umidade, meio acinzentada.
— E o que eu posso fazer?
— Entrar comigo — disse o Senhor Mosaico. — Mas sem pressa e sem bagunça. Lugares antigos não gostam de correria.
Iara encostou a ponta do dedo no desenho da onda. O azulejo ficou morno, como xícara de chocolate quente. A onda brilhou, girou, e… a parede abriu um redemoinho do tamanho de um prato!

Antes que desse tempo de duvidar, Iara apertou o Senhor Mosaico contra o peito e passou pelo redemoinho, como quem entra num escorregador de luz.
Ela caiu de pé num lugar impossível: um vale inteiro feito de azulejos. Montanhas de cerâmica brilhavam ao longe, e o chão era cortado por linhas de rejunte que pareciam estradas claras. Em vez de céu, havia um teto de água transparente, tremendo devagar, como piscina vista por baixo.
— Bem-vinda ao Reino do Rejunte Brilhante — anunciou o Senhor Mosaico, orgulhoso. — Aqui moram as histórias que os azulejos guardam.
Iara ficou olhando, encantada.
— Então… o prédio lá fora é tipo… uma capa?
— Exatamente — disse ele. — E o Borrão Cinzento quer rasgar a capa e apagar o livro.
Uma sombra cinza deslizou ao longe, como fumaça preguiçosa.
— Ele está chegando — murmurou o Senhor Mosaico. — Para consertar a muralha do corredor, precisamos de três coisas: Pó de Concha, Fio de Rejunte e uma Gota de Alegria. Sem isso, o remendo não segura.
— Eu ajudo! — disse Iara, com o coração batendo rápido.
Eles seguiram por uma estrada clara. Logo chegaram ao Labirinto do Rejunte: um monte de caminhos fininhos, todos parecidos.
— Ih… como vamos saber por onde ir? — perguntou Iara.
— Observando — respondeu o Senhor Mosaico. — Rejunte bom tem pequenas pedrinhas brilhando. Rejunte fraco fica fosco.
Iara respirou fundo e foi devagar. Ela percebeu que alguns caminhos tinham pontinhos que pareciam estrelinhas. Outros eram opacos, meio tristes.
— Por aqui! — decidiu ela, apontando para o caminho das “estrelinhas”.
O Senhor Mosaico fez um som satisfeito, como peça de quebra-cabeça encaixando.
Do outro lado do labirinto, eles chegaram à Praia de Cerâmica. No lugar de areia, havia pedacinhos de conchas moídas e azulejos bem lisinhos. Um ouriço-do-mar de vidro rolava pela praia, soltando brilhinhos.
— Quem vem lá? — perguntou o ouriço, com voz tilintante.
— Eu sou Iara e este é o Senhor Mosaico. Precisamos de Pó de Concha para um conserto — explicou Iara.
— Conserto de história? — o ouriço se animou. — Eu me chamo Uli! Posso ajudar!
Uli rolou até um montinho de conchas moídas e empurrou com cuidado para dentro de uma tampinha de cerâmica.
— Mas atenção — avisou ele. — Pó de Concha só funciona se ninguém desperdiçar. Use o necessário.
— Prometo — disse Iara, segurando a tampinha como se fosse um tesouro.
Depois, eles foram até a Ponte do Esmalte, que passava por cima de uma correnteza cinza: era o Borrão Cinzento escorrendo como rio.
A ponte era bonita, mas escorregadia. E a sombra cinza fazia o ar ficar frio.
— Vamos cair! — Iara sussurrou.
— Uma coisa de cada vez — lembrou o Senhor Mosaico. — Passo curto. Olho no caminho.
No meio da ponte, o Borrão Cinzento levantou uma “língua” de fumaça e tentou tocar o azulejo que Iara carregava.
— Devolve… as cores… — ele chiou, como papel amassado.
Iara sentiu vontade de correr, mas lembrou do aviso: nada de correria. Ela apertou o Senhor Mosaico e disse firme:
— Você não vai apagar o que é de todo mundo!
Uli rolou até a borda da ponte e soltou um brilho forte, como lanterna. A sombra recuou, incomodada.

Do outro lado, eles chegaram à Torre da Aranha Rejunteira. Lá em cima, uma aranha grande, de fios claros e olhos gentis, tecia linhas que pareciam pasta de rejunte virando corda.
— Eu sou Dona Maruja — disse ela. — Se precisam de Fio de Rejunte, eu faço. Mas leva tempo.
Iara mordeu o lábio.
— E se o Borrão chegar antes?
— A pressa dá nó — respondeu Dona Maruja. — E nó errado arrebenta depois.
Iara sentou, segurando a tampinha de Pó de Concha com cuidado. Ela esperou. Para não ficar inquieta, contou para Uli e para o Senhor Mosaico como tia Lúcia salvava desenhos com paciência, tirando sujeira com pincel fininho.
Enquanto ela contava, a voz dela foi ficando mais alegre, lembrando do orgulho que sentia da tia.
De repente, uma gotinha dourada apareceu na ponta do próprio sorriso de Iara e pingou num potinho vazio, como se o Reino entendesse sentimentos.
— Ora, vejam só — disse Dona Maruja, entregando um rolinho de Fio de Rejunte. — A Gota de Alegria apareceu. Alegria de lembrar e valorizar.
— Eu consegui sem perceber! — Iara riu.
Com os três ingredientes, eles correram… não! Eles caminharam rápido, mas com cuidado, até uma grande rachadura numa parede de azulejos: era o “lado de dentro” do corredor da Casa dos Banhos.
O Borrão Cinzento já estava ali, tentando lamber os desenhos.
— Agora! — disse o Senhor Mosaico.
Iara espalhou um pouquinho do Pó de Concha só onde a cerâmica estava fraca. Dona Maruja desenrolou o Fio de Rejunte, que se esticou sozinho e preencheu as linhas vazias, sem borrar nada. Por fim, Iara deixou a Gota de Alegria cair bem no centro da rachadura.
A parede brilhou. Não como luz forte de lanterna, mas como brilho de coisa bem-cuidada.
O Borrão Cinzento fez um som de “fffsssh” e encolheu, virando apenas uma manchinha pequena, fácil de limpar.
O redemoinho apareceu de novo.
— Hora de voltar — disse o Senhor Mosaico. — O conserto aqui dentro precisa de cuidado lá fora também.
Iara atravessou o redemoinho e voltou ao corredor. O azulejo estava em sua mão, quieto, como se nunca tivesse falado.
Tia Lúcia se aproximou.
— Iara, você estava aí agachada… achou alguma coisa?
Iara olhou para a mancha cinza no alto do corredor. Ela parecia menor, mas ainda existia.
— Tia… acho que tem um lugar precisando de conserto de verdade. Não só no desenho.
Tia Lúcia examinou a parede e assentiu.
— Umidade. Se a gente não resolver a causa, o azulejo sofre.
Então, juntas, elas chamaram o seu Batista, o zelador, e descobriram um caninho antigo pingando atrás da parede. Com calma, fecharam a água, secaram, limparam e deixaram o corredor ventilando. Depois, tia Lúcia recolocou o azulejo solto no lugar certo.
Quando tudo terminou, o corredor parecia sorrir. As “sardinhas” do tempo continuavam ali, mas agora pareciam parte da história — não um problema.
Iara passou a mão no ar, sem encostar na parede, e sussurrou:
— Obrigada, Senhor Mosaico.
Bem baixinho, só para ela ouvir, veio a resposta:
— Obrigado você, menina dos olhos atentos. História bem cuidada dura mais que qualquer borrão.

✨ Moral da História
“Quando cuidamos do que é de todos e respeitamos as marcas do tempo, preservamos histórias e deixamos o mundo mais bonito.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Qual parte do Reino do Rejunte Brilhante você mais imaginou: o Labirinto, a Praia de Cerâmica ou a Ponte do Esmalte? Por quê?
- 2Por que você acha que a pressa podia atrapalhar o Fio de Rejunte da Dona Maruja?
- 3Que lugares da sua escola, rua ou casa são “de todo mundo” e precisam de cuidado para continuarem bonitos?
- 4Se você tivesse um azulejo que guardasse uma história, que desenho colocaria nele?
O que achou desta história?
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