Fantasia

Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

22 de fevereiro de 202610 min de leitura6 a 8 anos7 visualizações
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Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

Iara tinha sete anos e um olhar que reparava em tudo: nas rachaduras da calçada, nas folhas que dançavam no vento e, principalmente, nos desenhos escondidos nas paredes antigas.

Num sábado de sol, ela foi visitar a tia Lúcia, que trabalhava restaurando um lugar bem diferente: a antiga Casa dos Banhos do Bairro do Sol. O prédio era velho, mas bonito, com um corredor comprido coberto de azulejos azuis e brancos. Alguns pareciam novos. Outros tinham marquinhas do tempo, como pequenas sardas.

— Aqui, Iara, cada pedacinho conta uma história — explicou tia Lúcia, colocando luvas. — Se a gente cuida direitinho, essas histórias ficam vivas por muitos anos.

Iara caminhou devagar, sem encostar demais. Foi então que viu um azulejo meio solto, bem perto do chão. Ele tinha o desenho de uma onda enrolada, como se o mar estivesse preso ali.

Quando ela se agachou para olhar melhor, uma voz baixinha, parecida com o barulho de colher mexendo açúcar, sussurrou:

— Psst… menina dos olhos atentos…

Iara arregalou os olhos.

— Quem falou?

— Eu — disse o azulejo, com a maior calma. — Pode me chamar de Senhor Mosaico.

Iara olhou para trás. Tia Lúcia estava do outro lado do corredor, concentrada em um balde com água e pincéis, sem perceber nada.

— Um azulejo… fala? — Iara cochichou.

— Só quando é preciso — respondeu o Senhor Mosaico. — E hoje é. Tem um Borrão Cinzento crescendo por trás da parede. Ele não quebra nada de uma vez. Ele apaga devagar. Apaga cores, apaga desenhos… e apaga lembranças.

Iara sentiu um arrepio. No canto do corredor, bem alto, havia mesmo uma mancha de umidade, meio acinzentada.

— E o que eu posso fazer?

— Entrar comigo — disse o Senhor Mosaico. — Mas sem pressa e sem bagunça. Lugares antigos não gostam de correria.

Iara encostou a ponta do dedo no desenho da onda. O azulejo ficou morno, como xícara de chocolate quente. A onda brilhou, girou, e… a parede abriu um redemoinho do tamanho de um prato!

Ilustração da história Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

Antes que desse tempo de duvidar, Iara apertou o Senhor Mosaico contra o peito e passou pelo redemoinho, como quem entra num escorregador de luz.

Ela caiu de pé num lugar impossível: um vale inteiro feito de azulejos. Montanhas de cerâmica brilhavam ao longe, e o chão era cortado por linhas de rejunte que pareciam estradas claras. Em vez de céu, havia um teto de água transparente, tremendo devagar, como piscina vista por baixo.

— Bem-vinda ao Reino do Rejunte Brilhante — anunciou o Senhor Mosaico, orgulhoso. — Aqui moram as histórias que os azulejos guardam.

Iara ficou olhando, encantada.

— Então… o prédio lá fora é tipo… uma capa?

— Exatamente — disse ele. — E o Borrão Cinzento quer rasgar a capa e apagar o livro.

Uma sombra cinza deslizou ao longe, como fumaça preguiçosa.

— Ele está chegando — murmurou o Senhor Mosaico. — Para consertar a muralha do corredor, precisamos de três coisas: Pó de Concha, Fio de Rejunte e uma Gota de Alegria. Sem isso, o remendo não segura.

— Eu ajudo! — disse Iara, com o coração batendo rápido.

Eles seguiram por uma estrada clara. Logo chegaram ao Labirinto do Rejunte: um monte de caminhos fininhos, todos parecidos.

— Ih… como vamos saber por onde ir? — perguntou Iara.

— Observando — respondeu o Senhor Mosaico. — Rejunte bom tem pequenas pedrinhas brilhando. Rejunte fraco fica fosco.

Iara respirou fundo e foi devagar. Ela percebeu que alguns caminhos tinham pontinhos que pareciam estrelinhas. Outros eram opacos, meio tristes.

— Por aqui! — decidiu ela, apontando para o caminho das “estrelinhas”.

O Senhor Mosaico fez um som satisfeito, como peça de quebra-cabeça encaixando.

Do outro lado do labirinto, eles chegaram à Praia de Cerâmica. No lugar de areia, havia pedacinhos de conchas moídas e azulejos bem lisinhos. Um ouriço-do-mar de vidro rolava pela praia, soltando brilhinhos.

— Quem vem lá? — perguntou o ouriço, com voz tilintante.

— Eu sou Iara e este é o Senhor Mosaico. Precisamos de Pó de Concha para um conserto — explicou Iara.

— Conserto de história? — o ouriço se animou. — Eu me chamo Uli! Posso ajudar!

Uli rolou até um montinho de conchas moídas e empurrou com cuidado para dentro de uma tampinha de cerâmica.

— Mas atenção — avisou ele. — Pó de Concha só funciona se ninguém desperdiçar. Use o necessário.

— Prometo — disse Iara, segurando a tampinha como se fosse um tesouro.

Depois, eles foram até a Ponte do Esmalte, que passava por cima de uma correnteza cinza: era o Borrão Cinzento escorrendo como rio.

A ponte era bonita, mas escorregadia. E a sombra cinza fazia o ar ficar frio.

— Vamos cair! — Iara sussurrou.

— Uma coisa de cada vez — lembrou o Senhor Mosaico. — Passo curto. Olho no caminho.

No meio da ponte, o Borrão Cinzento levantou uma “língua” de fumaça e tentou tocar o azulejo que Iara carregava.

— Devolve… as cores… — ele chiou, como papel amassado.

Iara sentiu vontade de correr, mas lembrou do aviso: nada de correria. Ela apertou o Senhor Mosaico e disse firme:

— Você não vai apagar o que é de todo mundo!

Uli rolou até a borda da ponte e soltou um brilho forte, como lanterna. A sombra recuou, incomodada.

Ilustração da história Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

Do outro lado, eles chegaram à Torre da Aranha Rejunteira. Lá em cima, uma aranha grande, de fios claros e olhos gentis, tecia linhas que pareciam pasta de rejunte virando corda.

— Eu sou Dona Maruja — disse ela. — Se precisam de Fio de Rejunte, eu faço. Mas leva tempo.

Iara mordeu o lábio.

— E se o Borrão chegar antes?

— A pressa dá nó — respondeu Dona Maruja. — E nó errado arrebenta depois.

Iara sentou, segurando a tampinha de Pó de Concha com cuidado. Ela esperou. Para não ficar inquieta, contou para Uli e para o Senhor Mosaico como tia Lúcia salvava desenhos com paciência, tirando sujeira com pincel fininho.

Enquanto ela contava, a voz dela foi ficando mais alegre, lembrando do orgulho que sentia da tia.

De repente, uma gotinha dourada apareceu na ponta do próprio sorriso de Iara e pingou num potinho vazio, como se o Reino entendesse sentimentos.

— Ora, vejam só — disse Dona Maruja, entregando um rolinho de Fio de Rejunte. — A Gota de Alegria apareceu. Alegria de lembrar e valorizar.

— Eu consegui sem perceber! — Iara riu.

Com os três ingredientes, eles correram… não! Eles caminharam rápido, mas com cuidado, até uma grande rachadura numa parede de azulejos: era o “lado de dentro” do corredor da Casa dos Banhos.

O Borrão Cinzento já estava ali, tentando lamber os desenhos.

— Agora! — disse o Senhor Mosaico.

Iara espalhou um pouquinho do Pó de Concha só onde a cerâmica estava fraca. Dona Maruja desenrolou o Fio de Rejunte, que se esticou sozinho e preencheu as linhas vazias, sem borrar nada. Por fim, Iara deixou a Gota de Alegria cair bem no centro da rachadura.

A parede brilhou. Não como luz forte de lanterna, mas como brilho de coisa bem-cuidada.

O Borrão Cinzento fez um som de “fffsssh” e encolheu, virando apenas uma manchinha pequena, fácil de limpar.

O redemoinho apareceu de novo.

— Hora de voltar — disse o Senhor Mosaico. — O conserto aqui dentro precisa de cuidado lá fora também.

Iara atravessou o redemoinho e voltou ao corredor. O azulejo estava em sua mão, quieto, como se nunca tivesse falado.

Tia Lúcia se aproximou.

— Iara, você estava aí agachada… achou alguma coisa?

Iara olhou para a mancha cinza no alto do corredor. Ela parecia menor, mas ainda existia.

— Tia… acho que tem um lugar precisando de conserto de verdade. Não só no desenho.

Tia Lúcia examinou a parede e assentiu.

— Umidade. Se a gente não resolver a causa, o azulejo sofre.

Então, juntas, elas chamaram o seu Batista, o zelador, e descobriram um caninho antigo pingando atrás da parede. Com calma, fecharam a água, secaram, limparam e deixaram o corredor ventilando. Depois, tia Lúcia recolocou o azulejo solto no lugar certo.

Quando tudo terminou, o corredor parecia sorrir. As “sardinhas” do tempo continuavam ali, mas agora pareciam parte da história — não um problema.

Iara passou a mão no ar, sem encostar na parede, e sussurrou:

— Obrigada, Senhor Mosaico.

Bem baixinho, só para ela ouvir, veio a resposta:

— Obrigado você, menina dos olhos atentos. História bem cuidada dura mais que qualquer borrão.

Ilustração da história Iara e o Reino do Rejunte Brilhante

✨ Moral da História

Quando cuidamos do que é de todos e respeitamos as marcas do tempo, preservamos histórias e deixamos o mundo mais bonito.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Qual parte do Reino do Rejunte Brilhante você mais imaginou: o Labirinto, a Praia de Cerâmica ou a Ponte do Esmalte? Por quê?
  • 2Por que você acha que a pressa podia atrapalhar o Fio de Rejunte da Dona Maruja?
  • 3Que lugares da sua escola, rua ou casa são “de todo mundo” e precisam de cuidado para continuarem bonitos?
  • 4Se você tivesse um azulejo que guardasse uma história, que desenho colocaria nele?

O que achou desta história?

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Raposinha

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