Fantasia

Tobias, o Vassourão do Teatro, e os Pirilampos de Purpurina

15 de fevereiro de 20269 min de leitura6 a 8 anos8 visualizações
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Tobias, o Vassourão do Teatro, e os Pirilampos de Purpurina

No fim da Rua das Mangueiras, existia um teatro antigo chamado Teatro do Ipê. De dia, ele parecia um prédio comum. Mas, por dentro, tinha cortinas vermelhas, poltronas que rangiam baixinho e um palco enorme, do tamanho de um sonho.

Quem cuidava de tudo era Dona Eloá, a zeladora. Ela varria, passava pano, consertava o que soltava e ainda conversava com as plantas do saguão. Seu companheiro mais fiel era Tobias, um vassourão de cabo de madeira, cerdas bem cheias, um cachecol vermelho amarrado no pescoço e um minichapéu preto tortinho, que Dona Eloá tinha colocado nele “só pra dar charme”.

Tobias gostava do teatro… mas tinha um segredo: ele morria de vontade de ser notado.

— Ninguém aplaude a vassoura… — ele pensava, enquanto ouvia as crianças ensaiando para a apresentação da escola.

O espetáculo se chamava A Viagem do Cometa. Tinha música, falas engraçadas e até uma chuva de estrelas no final. As crianças treinavam e treinavam, e todo mundo comentava:

— Uau! Vai ser lindo!

Só que ninguém dizia:

— Uau! Que chão brilhando de limpo!

Na véspera do grande dia, Dona Eloá ficou até tarde, apertando parafusos de um cenário. Quando terminou, deu dois tapinhas no cabo de Tobias.

— Amanhã vai ser corrido, meu amigo. Vamos deixar tudo prontinho.

As luzes se apagaram. O teatro ficou quieto, quieto, com o som distante dos grilos lá fora.

Foi então que uma luz bem fininha apareceu no alto, perto das cordas que seguravam as cortinas. Tobias levantou “o olhar” (porque, sim, naquela noite, ele sentiu como se pudesse olhar de verdade).

No cantinho mais alto do palco, havia um vidro redondo, guardado numa prateleira: dentro dele, brilhavam pontinhos dourados, como minúsculos vaga-lumes.

Ilustração da história Tobias, o Vassourão do Teatro, e os Pirilampos de Purpurina

Tobias ficou tão curioso que seu cachecol pareceu apertar de emoção.

— Quem… quem está aí? — ele sussurrou.

O vidro respondeu com um tremeluzir. A tampinha deu um estalinho, como se fosse uma panela abrindo sozinha. E, de repente, uma nuvem de pirilampos de purpurina saiu voando!

Eram seres bem pequenos, com barriguinhas de brilho e asas como pedacinhos de papel-luz. Eles rodopiavam no ar, fazendo o palco parecer um céu de festa.

— Uhuuul! Finalmente alguém olhou pra gente! — cantaram em coro.

Só que a alegria durou pouco. Como se estivessem famintos, os pirilampos começaram a grudar em tudo: no manto do Cometa, na barba postiça do Astrônomo, nas árvores de papelão. Onde encostavam, as coisas ganhavam um tique nervoso, como se quisessem dançar sem parar.

A árvore de papelão saiu andando de lado. O capacete do astronauta rolou sozinho. E o pano do fundo, que deveria ficar quieto, começou a sacudir como um lençol ao vento.

— Ei, ei, ei! Isso não vai dar certo! — Tobias tentou varrer a nuvem brilhante.

Mas varrer purpurina viva era como varrer risadas: quanto mais ele tentava juntar, mais ela escapava entre as cerdas.

De trás das poltronas, surgiu Nina, a gata do teatro, preta como uma sombra macia e com olhos amarelos curiosos.

— Miau? (Tradução: “O que está acontecendo?”)

— São… pirilampos de purpurina! E eles estão deixando tudo doido! — respondeu Tobias, espantado por conseguir falar.

Nina arqueou as costas e saltou para o palco. Um pirilampo pousou no seu bigode e espirrou brilho.

— Atchim! Miau! (Tradução: “Eles fazem cócegas!”)

Tobias perseguiu a nuvem pelo palco, pela coxia e até pelo corredor dos camarins. Os pirilampos entravam em caixas, saíam por frestas, subiam no lustre e faziam cócegas na lâmpada, que piscava sem parar.

— Parem! Amanhã tem apresentação! — Tobias pediu.

Um pirilampo maior, com luz mais forte, parou no ar bem na frente dele.

— A gente tenta parar… mas ninguém alimenta a nossa luz.

— Alimenta? Como assim? — Tobias perguntou.

O pirilampo maior pousou no cabo da vassoura, bem perto do chapéuzinho.

— A gente nasce do aplauso e cresce com agradecimento. Antigamente, quando as pessoas iam embora, elas diziam: “obrigado pelo teatro”, “obrigado pelo cuidado”, “obrigado pela limpeza”. Aí a gente brilhava quietinho, guardadinho no vidro, pronto pro grande final.

Outros pirilampos zumbiram, tristes:

— Mas agora todo mundo só aplaude quem aparece. — Ninguém vê o chão limpo. — Ninguém nota a cortina bem presa.

Tobias sentiu um aperto. Não era raiva… era uma espécie de reconhecimento.

— Então vocês estão… com fome de serem lembrados?

— Sim! — responderam.

Nina, sentada com o rabo enrolado, encarou Tobias como quem dizia: “Eu também entendo”.

Tobias pensou rápido. Se os pirilampos precisavam de agradecimento, a solução não era varrer mais forte. Era fazer as pessoas enxergarem.

— Eu tenho uma ideia — disse ele. — Mas vocês precisam confiar em mim.

Naquele momento, os pirilampos começaram a se espalhar de novo, inquietos.

— É difícil… a gente se empolga… — disseram.

— Então vamos treinar um combinado — propôs Tobias. — Vocês me seguem. Eu vou mostrar um caminho.

Tobias e Nina subiram até a parte mais alta do teatro, onde ficavam as cordas e as passarelas estreitas. Lá de cima, dava para ver o palco inteiro, como um tabuleiro de jogo.

Ilustração da história Tobias, o Vassourão do Teatro, e os Pirilampos de Purpurina

Tobias fez o que sabia fazer melhor: desenhou com as cerdas, no pó do chão da passarela, um caminho de setas. Nina, com passos leves, foi descendo e deixando pequenas “pegadas” (com um pouquinho de pó brilhante) até a porta do palco.

Na manhã seguinte, as crianças chegaram cedo para ensaiar. Logo viram as setas no chão e as pegadinhas brilhantes.

— Que estranho… — disse Júlia. — Parece uma pista secreta! — falou Caio.

A professora, curiosa, decidiu seguir com a turma. As setas levavam até um lugar que quase ninguém visitava: a salinha dos bastidores, onde ficavam os panos, as ferramentas e o armário das vassouras.

Dona Eloá estava lá, dobrando um tecido.

— Bom dia! O que vocês fazem aqui? — ela perguntou, surpresa.

As crianças se entreolharam.

— A gente… não sabe. A pista trouxe a gente — disse Caio.

Dona Eloá riu.

— Então já que vieram… querem conhecer o coração do teatro?

Ela mostrou como o cenário era preso com segurança, como a cortina precisava estar alinhada, como o palco tinha marcas no chão para ninguém cair. E mostrou Tobias.

— Esse é o Tobias. Sem ele, ninguém pisaria aqui sem escorregar em poeira.

Júlia ficou vermelha.

— Eu nunca tinha pensado nisso.

Caio chegou perto.

— Dona Eloá… obrigado por cuidar de tudo.

— É… obrigado mesmo! — disseram outras vozes.

E então aconteceu algo diferente: uma luz dourada começou a brilhar pelas tábuas do palco, delicada, como se o teatro respirasse aliviado. Os pirilampos de purpurina, que estavam espalhados e famintos, começaram a se juntar em uma nuvem calma, satisfeita.

— Funcionou… — sussurrou Tobias, com o cabo tremendo de emoção.

Na hora da apresentação, o teatro lotou. As crianças atuaram com alegria. No grande final, quando o Cometa cruzou o céu de pano, os pirilampos saíram do vidro em perfeita organização e fizeram uma chuva de brilho suave, sem bagunça, só encanto.

E quando o público aplaudiu, a professora fez sinal para a turma.

— Agora, do jeito que a pista ensinou.

As crianças viraram para o lado do palco, onde Dona Eloá estava, e bateram palmas para ela. Nina apareceu, toda importante. E Tobias, bem no cantinho, foi empurrado com carinho até a beirada.

Ilustração da história Tobias, o Vassourão do Teatro, e os Pirilampos de Purpurina

— Obrigado, Dona Eloá! Obrigado, Nina! Obrigado, Tobias! — gritaram.

Tobias não virou estrela do espetáculo, nem precisava. Ele descobriu uma coisa melhor: havia um tipo de brilho que nascia quando a gente enxerga quem faz o mundo funcionar por trás.

E, naquela noite, enquanto os pirilampos de purpurina voltavam felizes para o seu vidro, o Teatro do Ipê parecia sorrir com todas as suas tábuas, pregos e cortinas.

Porque cuidado também merece aplauso.

✨ Moral da História

A magia acontece melhor quando a gente reconhece e agradece o trabalho de quem cuida das coisas nos bastidores.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Quem você acha que trabalha “nos bastidores” na sua escola ou na sua casa, e como podemos agradecer essas pessoas?
  • 2Por que os pirilampos de purpurina ficaram bagunceiros quando se sentiram esquecidos?
  • 3Qual foi a ideia mais esperta do Tobias para resolver o problema sem brigar nem fazer confusão?
  • 4Quando alguém agradece você por algo pequeno, como você se sente?

O que achou desta história?

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Raposinha

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