O Jardim Secreto do Cerrado
Uma menina da cidade descobre a beleza escondida do cerrado e aprende que nem tudo que parece seco está morto.

Lia tinha sete anos e morava num apartamento alto em Goiânia, com janelas que pareciam telas de cinema. Dali, ela via carros brilhando como joaninhas apressadas e ouvia buzinas como passarinhos impacientes. Lia gostava de desenhar, principalmente árvores cheias de folhas e flores grandes. Por isso, quando a mãe contou que iam passar uma semana na casa da vovó Zefa, no interior, Lia imaginou um quintal verde, bem verdinho, como os desenhos do livro de ciências.
— Vó Zefa mora perto de mato? — perguntou Lia, com os olhos curiosos.
— Perto do Cerrado — respondeu a mãe, fechando a mala. — É um lugar especial.
Lia fez uma careta pequena.
— Cerrado… não é aquele lugar meio… seco?
A mãe sorriu, mas não explicou tudo. Parecia que queria que Lia descobrisse sozinha.
A estrada para o interior era longa e cheia de surpresas. O céu ficava enorme, de um azul que parecia não ter fim. Quando chegaram, a casa da vovó Zefa tinha varanda, rede e cheiro de café passado na hora. O chão era de terra batida, e o quintal tinha um pé de pequi que Lia achou estranho: era uma árvore forte, com folhas bem verdes, mas o entorno parecia meio amarelado.
— Vó! — Lia correu e abraçou a avó, sentindo o perfume de sabonete e folhas.
— Minha passarinha da cidade! — Vovó Zefa apertou Lia com carinho. — Veio aprender a conversar com a terra?
Lia riu.
— A terra fala?
— Fala sim, uai. Só precisa de ouvido paciente.
No primeiro dia, depois do almoço com arroz, feijão e frango com quiabo, Lia foi explorar. O sol da tarde brilhava forte, e o ar tinha aquele cheiro quente de capim. Ela caminhou até um caminho de terra que saía do quintal e seguia para uma área de mato baixo.
— Vou ali, mãe! — gritou ela.
— Vai com o Juninho! — respondeu a mãe.
Juninho era o neto do vizinho, tinha oito anos e vivia descalço, com o joelho sempre sujo de aventura. Ele apareceu carregando um estilingue que Lia achou meio assustador.
— Eu não uso pra machucar, não — explicou ele depressa. — Uso pra derrubar fruta… quando tá alta.
— Ah… — Lia ficou mais calma. — O Cerrado é por aqui?
— É sim! — Juninho apontou. — Mas você tem que olhar direito, senão acha que tá tudo morto. E não tá.
Lia franziu a testa.
— Mas tá tudo meio marrom…
— É que o Cerrado é esperto — disse Juninho, como se contasse um segredo importante. — Ele guarda água por dentro.
Eles caminharam juntos. Lia viu árvores tortinhas, com casca grossa, e folhas pequenas. Viu também plantas com espinhos finos, e muitas pedrinhas espalhadas pelo chão. Um vento leve passava e fazia o capim sussurrar.
— Escuta — Juninho sussurrou. — O Cerrado tá conversando.
Lia parou e escutou. O som era diferente da cidade: não tinha motor, nem sirene. Tinha grilo, tinha passarinho, tinha o vento. Mesmo assim, ela continuava com a impressão de que faltava cor.
— Eu gosto de flores — disse Lia. — Aqui tem?
Juninho riu.
— Tem, só que você tem que merecer pra ver.
— Como assim?
— Tem um jardim secreto. Mas é segredo mesmo.
Lia arregalou os olhos.
— Um jardim no meio do… seco?
— No meio do Cerrado — corrigiu Juninho, sério. — E você não pode sair pisando tudo, senão machuca.
Lia sentiu um friozinho de empolgação. Jardim secreto era coisa de livro, de filme. Ela seguiu Juninho por uma trilha estreita. Em alguns lugares, o chão era fofo de folhas secas. Em outros, era duro e rachado, como um biscoito gigante.
No caminho, Juninho apontou coisas pequenas, como quem mostra tesouros.
— Tá vendo essa árvore? É barbatimão. Dá pra curar machucado.
— E esse cheiro? — Lia perguntou, sentindo um perfume doce no ar.
— É de uma florzinha ali, ó. Pequena, mas valente.
Lia se abaixou e viu uma flor miúda, roxa, nascendo bem perto da terra. Ela ficou surpresa.
— Mas como ela nasce aqui?
— Porque a vida é teimosa — respondeu Juninho.
Eles passaram por um cupinzeiro alto, que parecia um castelo de barro. Lia tocou de leve.
— Parece duro.
— É casa de cupim. Eles trabalham muito.
— Igual formiga — disse Lia.
— Igual gente também — Juninho respondeu, rindo.
Depois de um tempo, chegaram perto de um lugar onde o mato parecia mais fechado. Havia uma pedra grande e lisa, com marcas de chuva antiga. Juninho se agachou, afastou uns galhos secos e mostrou uma abertura estreita.
— É aqui — disse ele, com voz de quem anuncia um tesouro.
Lia sentiu o coração bater mais rápido.
— A gente entra aí?
— Não é caverna, não. É só uma passagem.
Eles passaram com cuidado. Do outro lado, Lia ficou parada, sem conseguir falar por um instante.
Era como se o mundo tivesse trocado de roupa.
Ali, escondido no meio do Cerrado, havia um pequeno vale protegido por árvores mais altas. O chão era mais úmido, e havia pedras formando uma espécie de círculo natural. No centro, um fio de água escorria, fininho, cantando baixinho. E ao redor, flores de vários tipos brotavam: amarelas como sol, vermelhas como fogo pequeno, brancas como algodão. Borboletas dançavam no ar, e um beija-flor fazia um zigue-zague tão rápido que parecia uma flecha brilhante.
Lia abriu a boca.
— Uau…
— Eu disse — Juninho falou, orgulhoso. — Jardim secreto.
Lia deu um passo, mas parou.
— Posso…?
— Pode, mas devagar — avisou Juninho. — Aqui é delicado.
Lia caminhou com passos leves, como se o chão fosse feito de vidro. Ela tocou numa folha com pontinhas arredondadas. Sentiu frescor.
— Como isso fica escondido?
Juninho apontou para as árvores ao redor.
— Elas protegem. E a água fica guardada aqui. Quando chove, enche. Quando não chove, ela ainda escorre, bem pouquinho.
Lia se agachou perto do fio de água e viu pequenas pedrinhas brilhando. A água era tão limpa que dava vontade de conversar com ela.
— É como se o Cerrado tivesse um coração — Lia sussurrou.
— Minha avó fala isso — disse Juninho. — Que o Cerrado tem coração e tem memória.
Enquanto Lia admirava as flores, ouviu um estalo seco atrás dela. Ela virou depressa. Um barulho de vento mais forte mexeu o capim do lado de fora. Juninho ficou sério.
— Deve ser só galho… — ele disse, mas a voz saiu menor.
O estalo se repetiu, e um cheiro diferente apareceu no ar: cheiro de fumaça, fininho, quase escondido.
Lia sentiu o estômago apertar.
— Tá sentindo?
Juninho assentiu.
— Fumaça.
Eles correram até a passagem e olharam para o lado de fora. Lá longe, uma linha cinza subia no céu.
— Fogo? — Lia perguntou, com a garganta seca.
— Pode ser que alguém queimou lixo… ou que o fogo pegou no capim — Juninho respondeu, já inquieto. — Se vier pra cá, estraga tudo.
Lia olhou para o jardim atrás dela. As flores pareciam prender a respiração.
— A gente tem que fazer alguma coisa!
Juninho coçou a cabeça.
— A gente é criança.
— Mas a gente pode chamar ajuda! — Lia disse, lembrando da vovó Zefa. — E avisar todo mundo.
Juninho concordou e os dois saíram correndo pela trilha. O sol parecia mais quente agora, e o vento, mais apressado. Lia tropeçou numa raiz, mas Juninho segurou o braço dela.
— Vai devagar, senão cai!
— Não dá tempo! — Lia respondeu, com os olhos ardendo.
Quando chegaram na casa, Lia gritou antes mesmo de entrar.
— Vó Zefa! Mãe! Tem fumaça no mato!
A vovó saiu na varanda, com a expressão firme.
— Onde?
— Perto do caminho, depois do cupinzeiro — Juninho apontou.
A mãe de Lia apareceu assustada.
— Vocês foram longe demais!
— Eu sei, mãe, mas tem um jardim… e… — Lia engoliu em seco. — Se o fogo chegar lá, vai acabar.
Vovó Zefa não perdeu tempo. Pegou o celular e ligou para o vizinho e para um conhecido que ajudava na brigada da região.
— Seu Arnaldo, é Zefa. Tô vendo fumaça pro lado do cerrado, perto do cupinzeiro grande. Dá uma olhada com o pessoal, por favor.
Depois, ela pegou dois baldes, um chapéu de palha e um pano molhado.
— Vocês ficam aqui — ordenou.
— Eu quero ajudar — Lia disse, com coragem tremendo no peito.
— Ajudar também é saber quando esperar — respondeu a avó, ajoelhando para ficar na altura dela. — Mas você pode fazer uma coisa muito importante: me diga direitinho onde é o lugar que você quer proteger.
Lia respirou fundo e explicou o caminho, cada curva, cada pedra grande, cada árvore torta. Juninho completou com detalhes.
Pouco depois, o vizinho e mais duas pessoas chegaram de moto e caminhonete, com abafadores e água. A vovó Zefa foi junto, e a mãe ficou com as crianças, observando o horizonte.
Lia apertava as mãos uma na outra.
— E se o fogo…?
— Eles vão conseguir — a mãe disse, mas também parecia preocupada.
O vento soprou, e Lia fechou os olhos por um segundo, pensando nas flores do jardim secreto, no fio de água cantando, no beija-flor.

Minutos depois, que pareceram uma hora inteira, Lia viu pessoas surgindo ao longe. Vovó Zefa vinha na frente, suada, mas com um sorriso cansado. Atrás dela, Seu Arnaldo levantava o polegar.
— Apagamos antes de espalhar — anunciou a avó. — Era fogo pequeno, mas fogo não brinca.
Lia soltou o ar como se tivesse segurado uma pedra dentro do peito.
— O jardim tá bem?
— Tá sim — respondeu vovó Zefa. — E sabe por quê? Porque vocês avisaram rápido.
Juninho sorriu, meio tímido.
— Eu falei que o Cerrado é esperto.
Vovó Zefa olhou para Lia.
— E você também foi esperta. Você viu beleza onde muita gente só vê secura.
Naquela noite, depois do banho e do jantar, Lia pediu papel e lápis de cor. Sentou na mesa da cozinha, enquanto a luz amarela deixava tudo aconchegante. Ela desenhou o jardim secreto com cuidado: as flores, as pedras, a água, o beija-flor. Mas, dessa vez, ela também desenhou o caminho de capim seco, as árvores tortinhas e o cupinzeiro-castelo.
A mãe olhou o desenho.
— Você colocou o Cerrado todo, não só as flores.
Lia assentiu.
— Porque agora eu entendi. Nem tudo que parece seco está morto. Às vezes tá só… guardando força.
Vovó Zefa trouxe um copo de suco e completou:
— E quando a gente cuida, essa força aparece.
No dia seguinte, Lia e Juninho voltaram ao jardim secreto, dessa vez com a vovó. Ela mostrou mais plantas, contou histórias de quando era menina e ensinou a andar sem esmagar brotos. Lia reparou que até as folhas secas no chão tinham um trabalho: protegiam a terra do sol, como um cobertor.
— Viu? — disse a avó. — O Cerrado é cheio de vida escondida.
Lia sorriu, olhando o fio de água brilhando.
— Eu vou contar na escola. Eles vão achar que é só seco… mas eu vou dizer que é um jardim que aprende a se esconder pra sobreviver.
Juninho deu uma risadinha.
— E só quem respeita encontra.
Lia concordou. E, dentro dela, nasceu uma promessa silenciosa: sempre olhar de novo, com mais calma, antes de achar que alguma coisa está acabada. Porque no Cerrado, como no coração das pessoas, a vida às vezes fica quietinha — mas nunca deixa de existir.
✨ Moral da História
“Antes de julgar pela aparência, observe com cuidado: até o que parece seco pode guardar vida e beleza, e cuidar faz essa vida florescer.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Quando Lia achou que o Cerrado era “seco e sem cor”, o que ela descobriu depois no jardim secreto?
- 2Por que Juninho pediu para a Lia andar devagar e com cuidado dentro do jardim?
- 3Quando sentiram cheiro de fumaça, que atitude Lia e Juninho tomaram para proteger o lugar?
- 4Se você encontrasse um lugar bonito na natureza, o que faria para não estragar e para ajudar a cuidar dele?
- 5Como você acha que Lia se sentiu quando soube que o fogo foi apagado a tempo?
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