Natureza

A Onça que Perdeu suas Pintas

27 de janeiro de 202615 min de leitura3 a 5 anos5 visualizações

Uma oncinha perde suas manchas e, procurando-as, descobre a importância de cada animal na floresta.

Compartilhar:
A Onça que Perdeu suas Pintas

Lá no meio do Brasil, bem verdinha e cheirosa, existia uma floresta grande. Tinha árvore alta, cipó enrolado e riacho fazendo “shhh… shhh…”. Os passarinhos cantavam “piu-piu! piu-piu!”, e os sapos respondiam “croac! croac!”.

Nessa floresta morava uma oncinha chamada Lili.

A Lili era pequena, mas corajosa. Ela tinha olhos bem brilhantes e um rabo comprido que balançava quando ela ficava feliz. E, o mais bonito de tudo, eram as pintas pretas no pelo amarelinho. As pintas pareciam bolinhas e rodelinhas. Umas grandes, outras pequenas. Lili adorava contar:

— Uma pinta, duas pintas, três pintas… ai, quantas pintas!

Ela gostava tanto que, quando passava perto do lago, fazia pose para ver o reflexo.

— Olha só como eu sou pintadinha! — dizia, toda orgulhosa.

Numa manhã bem cedinho, quando o sol ainda estava quentinho e fraco, Lili acordou com vontade de brincar.

— Hoje eu vou correr! Vou pular! Vou rolar! — falou, dando um pulinho.

Ela saiu da toca e foi direto para o rio. O rio fazia “plim-plim” nas pedrinhas.

Lili queria beber água, então se aproximou e olhou para baixo. E…

— Ué… ué… uéêê! — a voz dela virou um miadinho assustado.

No reflexo da água, não tinha nenhuma pinta.

Nenhuma.

O pelo dela estava lisinho, amarelinho, sem bolinha, sem rodelinha, sem nada.

— Cadê minhas pintas?! — Lili arregalou os olhos. — Sumiram! Sumiram de verdade!

Ela passou a pata no corpo. Esfregou a barriga. Coçou o ombro. Sacudiu o rabo.

— Puf! Puf! Puf! — ela soprou, como se as pintas pudessem voltar com sopro.

Nada.

Lili ficou com o coração batendo “tum-tum, tum-tum”. Ficou com vontade de chorar.

— Eu sou a Lili… a oncinha pintadinha… mas sem pintas eu… eu… — ela engoliu em seco. — Eu não sei como eu sou!

Então ela decidiu procurar.

— Minhas pintas devem ter caído por aí! Vou achar uma por uma! — falou, tentando ser corajosa.

Ela caminhou pela trilha de terra vermelha. A trilha fazia “cric-cric” com as folhas secas. Logo encontrou o Tatu Téo, que cavava o chão com as patinhas fortes.

— Bom dia, Téo! Você viu minhas pintas? — perguntou Lili, apressada.

Tatu Téo parou e olhou bem.

— Bom dia, Lili. Pintas? Hum… eu vi foi terra! Muita terra! — ele riu: — Rrrr-rã! — era a risada dele.

— Mas eu estou sem pintas! — Lili mostrou o corpo liso.

— Oh! — Téo arregalou os olhos. — Que diferente! Mas eu não vi pintas caídas, não. Eu estava cavando túnel. Sabe por quê?

— Por quê? — perguntou Lili, farejando o chão.

— Porque quando chove muito, a água corre forte. Eu faço túneis para minha família se esconder e ficar segura. Cada um tem um jeitinho de ajudar na floresta.

Lili piscou.

— Você ajuda com túneis… — repetiu, baixinho.

— Isso! — disse Téo. — E você? Você ajuda como?

Lili pensou, mas a cabeça dela estava cheia de pintas perdidas.

— Eu… eu vou achar minhas pintas! — respondeu e correu: — Tchau!

Mais adiante, ela encontrou a Arara Luma, com penas azuis e amarelas, gritando lá do alto:

— Aaaaará! Aaaaará!

Lili levantou a cabeça.

— Arara Luma! Você viu minhas pintas voando por aí? — pediu.

A arara desceu para um galho mais baixo.

— Pintas voando? Eu não vi pintas, não. Eu vi sementes! — falou.

— Sementes? — Lili perguntou, confusa.

— Sim! Eu como frutas e, depois, as sementes caem longe. Ploc! Ploc! Aí nascem árvores novas. Eu ajudo a floresta a crescer!

Lili olhou para as árvores, tão grandes.

— Você ajuda plantando árvores… com as sementes… — repetiu.

— Isso! — Luma bateu as asas: “flap-flap!”. — Cada bicho tem seu trabalho. Você está bem, Lili? Você parece preocupada.

— Eu perdi minhas pintas… — disse Lili, com voz baixinha.

— Pintas são bonitas, mas você ainda é você — falou Luma. — Quer que eu procure do alto?

— Quero! — Lili animou um pouquinho.

Luma voou em círculos. “Flap-flap! Flap-flap!”

— Não vi pintas no chão, nem na água, nem nas folhas! — gritou ela lá de cima.

Lili suspirou.

— Obrigada… — disse, e continuou andando.

Logo a trilha ficou mais úmida. Tinha cheiro de barro. E lá estava a Capivara Cacá, deitada na beira do lago, com os filhotes pertinho.

— Oi, Cacá… — disse Lili, devagar. — Você viu minhas pintas?

A capivara abriu os olhos, calma.

— Oi, Lili. Eu não vi pintas, não. Mas eu vi você correndo muito rápido. — Cacá sorriu. — Quer um pouquinho de sombra?

Lili sentou, cansada.

— Eu estou procurando… procurando… e não acho.

Cacá apontou com o focinho para o lago.

— Eu fico aqui porque a água ajuda a refrescar e acalmar. Quando tem confusão na floresta, eu fico atenta. Se tem perigo, eu aviso: “puf! puf!”

— Você avisa? — Lili perguntou.

— Aviso, sim. A floresta precisa de olhos e ouvidos. — Cacá mexeu a orelha. — E você, Lili? O que a floresta precisa de você?

Lili abriu a boca… e fechou. Ela não sabia.

— Eu só queria minhas pintas… — sussurrou.

Cacá olhou com carinho.

— Pintas são parte do seu pelo. Mas seu coração também é parte de você.

Lili ficou pensando nisso, mas ainda sentia um vazio.

Então, de repente, ouviu-se um barulho estranho, alto e rápido:

— Vruuum! Vruuum!

Não era bicho.

Era máquina.

Lili se levantou num pulo.

— O que é isso? — ela perguntou, assustada.

Cacá ficou séria.

— Parece moto-serra. Tem gente perto da mata.

A arara Luma passou voando e gritou:

— Aaaaará! Tem homem na beira! Tem fumaça! Aaaaará!

O coração de Lili voltou a bater “tum-tum” forte.

— E agora? — ela falou, tremendo.

Tatu Téo apareceu saindo do chão, cheio de terra.

— Eu ouvi o barulho! — disse ele. — Precisamos avisar todo mundo!

Lili olhou para o próprio corpo liso e pensou: “Sem pintas eu não assusto ninguém… sem pintas eu não ajudo…”

Mas então ela lembrou do que Cacá falou. Lembrou do trabalho do Tatu. Lembrou das sementes da Arara.

E ela lembrou de uma coisa muito importante:

Onça tem olfato forte.

Onça escuta bem.

Onça corre rápido.

Mesmo sem pintas.

— Eu vou! — Lili disse, firme. — Eu vou ver onde eles estão!

— É perigoso! — gritou Luma.

— Eu vou com cuidado — respondeu Lili. — Eu sou pequena, eu ando baixinho.

Ela foi caminhando devagar. Bem devagar. Patinha leve: “tup… tup… tup…”. O vento trouxe cheiro de fumaça.

Quando Lili chegou perto, viu um pedaço da floresta com árvores marcadas e um monte de lixo no chão. E viu também um filhote de macaco preso num cipó caído, chorando:

— Iiiih! Iiiih! — o macaquinho tremia.

Lili arregalou os olhos.

— Calma! Eu sou a Lili! Eu vou te ajudar! — ela sussurrou.

O macaquinho tentou puxar a perna, mas o cipó estava apertado.

E o barulho da máquina estava chegando mais perto:

— VRUUUM! VRUUUM!

Lili sentiu medo. Um medo grandão, do tamanho de uma árvore.

Mas ela respirou fundo.

— Shhh… shhh… Lili, você consegue — ela disse para ela mesma.

Ela mordeu o cipó com cuidado. “Nhac!”

Não soltou.

Ela mordeu de novo, mais forte.

— Nhac! Nhac!

O cipó começou a desfiar.

O macaquinho chorou:

— Iiiih! Eu tô com medo!

— Eu também… mas eu tô aqui — Lili respondeu, com voz doce.

O barulho ficou muito perto.

— VRUUUM! VRUUUM!

Lili mordeu mais uma vez, com toda a força que tinha.

Ilustração da história A Onça que Perdeu suas Pintas

— NHAAAAAC!

PLOFT!

O cipó arrebentou.

— Soltou! — gritou o macaquinho.

— Corre! — Lili disse.

Os dois correram pela mata. “Tup-tup-tup!” “Tap-tap-tap!”

A arara Luma apareceu no alto:

— Por aqui! Por aqui! — ela gritou.

Tatu Téo abriu um túnel escondido atrás de um tronco.

— Entrem! Entrem! — disse ele.

Lili e o macaquinho entraram. Lá dentro era fresquinho e escuro. Deu para ouvir o barulho da máquina passando longe, sem ver ninguém.

Depois de um tempo, o som ficou mais fraco.

— Vruuum… vruuum…

Até sumir.

Quando tudo ficou silencioso, eles saíram.

Cacá estava com outros bichos, todos juntos, atentos. Um bando de passarinhos fazia alarme “piu-piu-piu!”.

O macaquinho abraçou Lili.

— Obrigado! Obrigado! — ele falou, com a voz ainda tremida.

Lili sorriu, e sentiu o peito quentinho.

— Eu ajudei… — ela disse baixinho.

Tatu Téo falou:

— Viu? Seu jeito é correr, ouvir, cheirar, proteger.

Arara Luma completou:

— Você é importante para a floresta, Lili. Com pintas ou sem pintas.

Cacá assentiu.

— E quando todos ajudam, a floresta fica mais segura.

Lili respirou fundo. O medo foi indo embora, indo embora…

— Então eu não sou só pintas… — ela disse.

— Você é Lili — falou Cacá.

Naquela noite, a lua apareceu redonda e brilhante. Lili voltou ao lago para beber água. E olhou o reflexo.

— Ué… — ela piscou.

Uma pintinha apareceu no ombro.

— Opa!

Outra pintinha apareceu perto da barriga.

— Opa!

E mais outra, e outra, e outra… como se as pintas estivessem voltando, felizes.

Lili começou a rir.

— Hihihi! Minhas pintas voltaram! — ela pulou. — Uma pinta, duas pintas, três pintas!

Arara Luma gritou lá de cima:

— Aaaaará! Eu sabia!

Tatu Téo fez uma dancinha de tatu, toda engraçada:

— Tum-tum! Tum-tum!

E Cacá piscou, tranquila.

Lili olhou as pintas, mas agora ela olhou também o coração.

— Minhas pintas são bonitas — ela disse. — Mas o mais importante é que eu posso ajudar.

E, naquela floresta brasileira, com rio cantando “shhh… shhh…”, os bichos dormiram em paz.

E Lili, a oncinha pintadinha, dormiu sorrindo.

✨ Moral da História

Cada um tem seu jeitinho especial de ajudar, e o que está dentro do coração vale mais do que a aparência.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Se você fosse a oncinha Lili, onde você procuraria as pintas primeiro?
  • 2Qual animal você mais gostou: o tatu, a arara ou a capivara?
  • 3Você já viu uma onça ou uma capivara (de verdade ou em livro)?
  • 4Quando você fica com medo, o que te ajuda a ficar mais calmo?
  • 5Você consegue fazer o som do rio: “shhh… shhh…”?

O que achou desta história?

Histórias Relacionadas

Comentários (0)

Raposinha

Deixe seu comentário

Não será exibido publicamente

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!