A Onça que Perdeu suas Pintas
Uma oncinha perde suas manchas e, procurando-as, descobre a importância de cada animal na floresta.

Lá no meio do Brasil, bem verdinha e cheirosa, existia uma floresta grande. Tinha árvore alta, cipó enrolado e riacho fazendo “shhh… shhh…”. Os passarinhos cantavam “piu-piu! piu-piu!”, e os sapos respondiam “croac! croac!”.
Nessa floresta morava uma oncinha chamada Lili.
A Lili era pequena, mas corajosa. Ela tinha olhos bem brilhantes e um rabo comprido que balançava quando ela ficava feliz. E, o mais bonito de tudo, eram as pintas pretas no pelo amarelinho. As pintas pareciam bolinhas e rodelinhas. Umas grandes, outras pequenas. Lili adorava contar:
— Uma pinta, duas pintas, três pintas… ai, quantas pintas!
Ela gostava tanto que, quando passava perto do lago, fazia pose para ver o reflexo.
— Olha só como eu sou pintadinha! — dizia, toda orgulhosa.
Numa manhã bem cedinho, quando o sol ainda estava quentinho e fraco, Lili acordou com vontade de brincar.
— Hoje eu vou correr! Vou pular! Vou rolar! — falou, dando um pulinho.
Ela saiu da toca e foi direto para o rio. O rio fazia “plim-plim” nas pedrinhas.
Lili queria beber água, então se aproximou e olhou para baixo. E…
— Ué… ué… uéêê! — a voz dela virou um miadinho assustado.
No reflexo da água, não tinha nenhuma pinta.
Nenhuma.
O pelo dela estava lisinho, amarelinho, sem bolinha, sem rodelinha, sem nada.
— Cadê minhas pintas?! — Lili arregalou os olhos. — Sumiram! Sumiram de verdade!
Ela passou a pata no corpo. Esfregou a barriga. Coçou o ombro. Sacudiu o rabo.
— Puf! Puf! Puf! — ela soprou, como se as pintas pudessem voltar com sopro.
Nada.
Lili ficou com o coração batendo “tum-tum, tum-tum”. Ficou com vontade de chorar.
— Eu sou a Lili… a oncinha pintadinha… mas sem pintas eu… eu… — ela engoliu em seco. — Eu não sei como eu sou!
Então ela decidiu procurar.
— Minhas pintas devem ter caído por aí! Vou achar uma por uma! — falou, tentando ser corajosa.
Ela caminhou pela trilha de terra vermelha. A trilha fazia “cric-cric” com as folhas secas. Logo encontrou o Tatu Téo, que cavava o chão com as patinhas fortes.
— Bom dia, Téo! Você viu minhas pintas? — perguntou Lili, apressada.
Tatu Téo parou e olhou bem.
— Bom dia, Lili. Pintas? Hum… eu vi foi terra! Muita terra! — ele riu: — Rrrr-rã! — era a risada dele.
— Mas eu estou sem pintas! — Lili mostrou o corpo liso.
— Oh! — Téo arregalou os olhos. — Que diferente! Mas eu não vi pintas caídas, não. Eu estava cavando túnel. Sabe por quê?
— Por quê? — perguntou Lili, farejando o chão.
— Porque quando chove muito, a água corre forte. Eu faço túneis para minha família se esconder e ficar segura. Cada um tem um jeitinho de ajudar na floresta.
Lili piscou.
— Você ajuda com túneis… — repetiu, baixinho.
— Isso! — disse Téo. — E você? Você ajuda como?
Lili pensou, mas a cabeça dela estava cheia de pintas perdidas.
— Eu… eu vou achar minhas pintas! — respondeu e correu: — Tchau!
Mais adiante, ela encontrou a Arara Luma, com penas azuis e amarelas, gritando lá do alto:
— Aaaaará! Aaaaará!
Lili levantou a cabeça.
— Arara Luma! Você viu minhas pintas voando por aí? — pediu.
A arara desceu para um galho mais baixo.
— Pintas voando? Eu não vi pintas, não. Eu vi sementes! — falou.
— Sementes? — Lili perguntou, confusa.
— Sim! Eu como frutas e, depois, as sementes caem longe. Ploc! Ploc! Aí nascem árvores novas. Eu ajudo a floresta a crescer!
Lili olhou para as árvores, tão grandes.
— Você ajuda plantando árvores… com as sementes… — repetiu.
— Isso! — Luma bateu as asas: “flap-flap!”. — Cada bicho tem seu trabalho. Você está bem, Lili? Você parece preocupada.
— Eu perdi minhas pintas… — disse Lili, com voz baixinha.
— Pintas são bonitas, mas você ainda é você — falou Luma. — Quer que eu procure do alto?
— Quero! — Lili animou um pouquinho.
Luma voou em círculos. “Flap-flap! Flap-flap!”
— Não vi pintas no chão, nem na água, nem nas folhas! — gritou ela lá de cima.
Lili suspirou.
— Obrigada… — disse, e continuou andando.
Logo a trilha ficou mais úmida. Tinha cheiro de barro. E lá estava a Capivara Cacá, deitada na beira do lago, com os filhotes pertinho.
— Oi, Cacá… — disse Lili, devagar. — Você viu minhas pintas?
A capivara abriu os olhos, calma.
— Oi, Lili. Eu não vi pintas, não. Mas eu vi você correndo muito rápido. — Cacá sorriu. — Quer um pouquinho de sombra?
Lili sentou, cansada.
— Eu estou procurando… procurando… e não acho.
Cacá apontou com o focinho para o lago.
— Eu fico aqui porque a água ajuda a refrescar e acalmar. Quando tem confusão na floresta, eu fico atenta. Se tem perigo, eu aviso: “puf! puf!”
— Você avisa? — Lili perguntou.
— Aviso, sim. A floresta precisa de olhos e ouvidos. — Cacá mexeu a orelha. — E você, Lili? O que a floresta precisa de você?
Lili abriu a boca… e fechou. Ela não sabia.
— Eu só queria minhas pintas… — sussurrou.
Cacá olhou com carinho.
— Pintas são parte do seu pelo. Mas seu coração também é parte de você.
Lili ficou pensando nisso, mas ainda sentia um vazio.
Então, de repente, ouviu-se um barulho estranho, alto e rápido:
— Vruuum! Vruuum!
Não era bicho.
Era máquina.
Lili se levantou num pulo.
— O que é isso? — ela perguntou, assustada.
Cacá ficou séria.
— Parece moto-serra. Tem gente perto da mata.
A arara Luma passou voando e gritou:
— Aaaaará! Tem homem na beira! Tem fumaça! Aaaaará!
O coração de Lili voltou a bater “tum-tum” forte.
— E agora? — ela falou, tremendo.
Tatu Téo apareceu saindo do chão, cheio de terra.
— Eu ouvi o barulho! — disse ele. — Precisamos avisar todo mundo!
Lili olhou para o próprio corpo liso e pensou: “Sem pintas eu não assusto ninguém… sem pintas eu não ajudo…”
Mas então ela lembrou do que Cacá falou. Lembrou do trabalho do Tatu. Lembrou das sementes da Arara.
E ela lembrou de uma coisa muito importante:
Onça tem olfato forte.
Onça escuta bem.
Onça corre rápido.
Mesmo sem pintas.
— Eu vou! — Lili disse, firme. — Eu vou ver onde eles estão!
— É perigoso! — gritou Luma.
— Eu vou com cuidado — respondeu Lili. — Eu sou pequena, eu ando baixinho.
Ela foi caminhando devagar. Bem devagar. Patinha leve: “tup… tup… tup…”. O vento trouxe cheiro de fumaça.
Quando Lili chegou perto, viu um pedaço da floresta com árvores marcadas e um monte de lixo no chão. E viu também um filhote de macaco preso num cipó caído, chorando:
— Iiiih! Iiiih! — o macaquinho tremia.
Lili arregalou os olhos.
— Calma! Eu sou a Lili! Eu vou te ajudar! — ela sussurrou.
O macaquinho tentou puxar a perna, mas o cipó estava apertado.
E o barulho da máquina estava chegando mais perto:
— VRUUUM! VRUUUM!
Lili sentiu medo. Um medo grandão, do tamanho de uma árvore.
Mas ela respirou fundo.
— Shhh… shhh… Lili, você consegue — ela disse para ela mesma.
Ela mordeu o cipó com cuidado. “Nhac!”
Não soltou.
Ela mordeu de novo, mais forte.
— Nhac! Nhac!
O cipó começou a desfiar.
O macaquinho chorou:
— Iiiih! Eu tô com medo!
— Eu também… mas eu tô aqui — Lili respondeu, com voz doce.
O barulho ficou muito perto.
— VRUUUM! VRUUUM!
Lili mordeu mais uma vez, com toda a força que tinha.

— NHAAAAAC!
PLOFT!
O cipó arrebentou.
— Soltou! — gritou o macaquinho.
— Corre! — Lili disse.
Os dois correram pela mata. “Tup-tup-tup!” “Tap-tap-tap!”
A arara Luma apareceu no alto:
— Por aqui! Por aqui! — ela gritou.
Tatu Téo abriu um túnel escondido atrás de um tronco.
— Entrem! Entrem! — disse ele.
Lili e o macaquinho entraram. Lá dentro era fresquinho e escuro. Deu para ouvir o barulho da máquina passando longe, sem ver ninguém.
Depois de um tempo, o som ficou mais fraco.
— Vruuum… vruuum…
Até sumir.
Quando tudo ficou silencioso, eles saíram.
Cacá estava com outros bichos, todos juntos, atentos. Um bando de passarinhos fazia alarme “piu-piu-piu!”.
O macaquinho abraçou Lili.
— Obrigado! Obrigado! — ele falou, com a voz ainda tremida.
Lili sorriu, e sentiu o peito quentinho.
— Eu ajudei… — ela disse baixinho.
Tatu Téo falou:
— Viu? Seu jeito é correr, ouvir, cheirar, proteger.
Arara Luma completou:
— Você é importante para a floresta, Lili. Com pintas ou sem pintas.
Cacá assentiu.
— E quando todos ajudam, a floresta fica mais segura.
Lili respirou fundo. O medo foi indo embora, indo embora…
— Então eu não sou só pintas… — ela disse.
— Você é Lili — falou Cacá.
Naquela noite, a lua apareceu redonda e brilhante. Lili voltou ao lago para beber água. E olhou o reflexo.
— Ué… — ela piscou.
Uma pintinha apareceu no ombro.
— Opa!
Outra pintinha apareceu perto da barriga.
— Opa!
E mais outra, e outra, e outra… como se as pintas estivessem voltando, felizes.
Lili começou a rir.
— Hihihi! Minhas pintas voltaram! — ela pulou. — Uma pinta, duas pintas, três pintas!
Arara Luma gritou lá de cima:
— Aaaaará! Eu sabia!
Tatu Téo fez uma dancinha de tatu, toda engraçada:
— Tum-tum! Tum-tum!
E Cacá piscou, tranquila.
Lili olhou as pintas, mas agora ela olhou também o coração.
— Minhas pintas são bonitas — ela disse. — Mas o mais importante é que eu posso ajudar.
E, naquela floresta brasileira, com rio cantando “shhh… shhh…”, os bichos dormiram em paz.
E Lili, a oncinha pintadinha, dormiu sorrindo.
✨ Moral da História
“Cada um tem seu jeitinho especial de ajudar, e o que está dentro do coração vale mais do que a aparência.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Se você fosse a oncinha Lili, onde você procuraria as pintas primeiro?
- 2Qual animal você mais gostou: o tatu, a arara ou a capivara?
- 3Você já viu uma onça ou uma capivara (de verdade ou em livro)?
- 4Quando você fica com medo, o que te ajuda a ficar mais calmo?
- 5Você consegue fazer o som do rio: “shhh… shhh…”?
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