Aventura

Nara e o Bilhete Saltitante da Estação dos Dois Pontos

10 de fevereiro de 202610 min de leitura6 a 8 anos17 visualizações
Compartilhar:
Nara e o Bilhete Saltitante da Estação dos Dois Pontos

Nara tinha 7 anos e um jeito de andar que parecia música: um passo, outro passo, e o cadarço vermelho do tênis quase sempre querendo se soltar. Ela morava perto da Estação dos Dois Pontos, uma estação de trem antiga, com uma torre de relógio tão alta que parecia encostar nas nuvens.

A mãe de Nara trabalhava lá como revisora de horários. “Os trens não andam sozinhos”, ela dizia. “Se um horário atrasa, outro horário esbarra nele. É como dominó.”

Naquela tarde, Nara tinha um combinado importante: levar um estojo de violino, que tinha sido encontrado no achados e perdidos, para o dono — um músico que tocava na praça às cinco em ponto. O nome dele era Augusto, e ele sempre começava a primeira música quando o relógio da torre fazia “DIN… DON…”.

Nara colocou o estojo com cuidado na mochila verde e prometeu: “Eu vou direitinho, sem me distrair.”

Só que a Estação dos Dois Pontos era cheia de tentações para se distrair: pombos engraçados, malas rodando, apitos, o cheiro de pão de queijo… e um relógio gigante com ponteiros que pareciam braços.

Quando Nara passou pelo saguão, ouviu um barulhinho diferente: “plim… plim… plim!” Algo pequeno quicava no chão como se tivesse vida.

Era um bilhete de trem — sim, um bilhete! — dobradinho na pontinha, com carinha desenhada em linhas fininhas e olhos curiosos. Ele deu um pulinho e falou, bem baixinho:

— Psiu! Menina do tênis vermelho! Você tem um minuto?

Nara arregalou os olhos.

— Bilhetes… falam?

— Só quando dá problema sério! Eu sou o Tico, Bilhete Saltitante, ao seu dispor! — ele fez uma reverência tão caprichada que quase rasgou uma quina. — E temos um problemão do tamanho da torre.

Nara olhou para cima, para o relógio.

— O que aconteceu?

Tico apontou com a pontinha dobrada para a torre.

— Uma engrenagem sumiu lá dentro. Sem ela, o relógio vai começar a atrasar… e depois adiantar… e depois enlouquecer! A estação toda vai virar confusão.

Nara sentiu um friozinho na barriga. Lembrou da mãe falando do dominó.

— Mas eu… eu tenho um combinado às cinco.

— Justamente! — Tico deu dois pulinhos apressados. — Quando o tempo bagunça, os combinados ficam em perigo.

Do lado de fora, perto de um canteiro, um tamanduá-bandeira apareceu como quem não queria nada, farejando formigas com calma. Ele tinha pelo preto e branco, focinho comprido e olhos mansos.

— Aquele é o Mimo — sussurrou Tico. — Ele mora no parque e vive dando volta por aqui. Se alguém acha peça perdida no chão, é ele.

Nara respirou fundo. Ela queria cumprir o combinado do violino… mas também não queria que a estação virasse um caos.

— Tá. A gente faz assim: eu ajudo a achar a engrenagem, mas sem esquecer do meu horário. Combinado?

— Combinadíssimo! — disse Tico.

Ilustração da história Nara e o Bilhete Saltitante da Estação dos Dois Pontos

Nara se aproximou do tamanduá.

— Oi, Mimo. Você viu uma engrenagem cair por aqui? Uma peça redonda, meio brilhante.

Mimo levantou o focinho, cheirou o ar e soltou um “hnn” baixinho, como se dissesse “sim”. Depois, virou devagar e começou a andar, chamando Nara e Tico para segui-lo.

Eles passaram por uma portinha que Nara nunca tinha notado: “Manutenção”. Estava só encostada. Do outro lado, havia um corredor estreito, com canos nas paredes e lâmpadas amarelas.

— Uau… isso parece passagem secreta! — Nara falou, tentando não tropeçar.

Tico inflou o peito.

— A estação tem lugares que só aparecem quando a gente presta atenção.

Mimo parou numa encruzilhada de corredores e farejou o chão. Nara percebeu um rastro: pequenas manchas de graxa, como dedos de tinta no caminho.

— A engrenagem deve ter passado por aqui — ela concluiu.

Só que, quando dobraram a esquina, ouviram um “TOC… TOC… TOC!” metálico, rolando e batendo.

— Ela está viva?! — Nara perguntou.

— Não viva… só fujona! — Tico respondeu.

Eles correram atrás do barulho até uma grade que dava para uma área perto dos trilhos. Ali, a engrenagem brilhava debaixo de uma placa, bem na beiradinha, quase caindo num buraco.

Nara congelou.

— A gente não pode entrar nos trilhos!

— Boa lembrança — disse Tico. — A aventura precisa de coragem, mas também precisa de regra.

Mimo, com calma, esticou o focinho por entre as grades, mas não alcançou. A peça estava um pouquinho longe demais.

— Precisamos de uma ferramenta — Nara pensou alto. — Ou de alguém que conheça esse lugar.

Eles voltaram correndo pelo corredor e encontraram Dona Cida, a funcionária da limpeza, empurrando um carrinho.

— O que vocês três estão aprontando nesse canto? — ela perguntou, com uma sobrancelha levantada.

Nara contou tudo, sem enrolar: o bilhete falante, o relógio em perigo, a engrenagem quase caindo.

Dona Cida não riu. Só pegou uma prancheta do carrinho e disse:

— Se é para evitar confusão na estação, eu ajudo. Mas do meu jeito: com segurança e com hora marcada.

Ela entregou a Nara um colete refletivo e uma lanterna.

— Vista isso. E nada de atravessar onde não pode. Eu tenho uma haste com gancho. A gente puxa a peça pela grade.

Ilustração da história Nara e o Bilhete Saltitante da Estação dos Dois Pontos

Com a lanterna iluminando e Dona Cida segurando a haste, Nara se abaixou, com cuidado, e encaixou o gancho bem na fenda da engrenagem. Mimo ficou ao lado, como um guarda silencioso. Tico fazia contagem:

— Um… dois… três… puxa!

A peça veio devagar, raspando, até cair na mão de Nara com um “ploc”.

— Conseguimos! — ela comemorou, mas logo olhou para o relógio de pulso simples que usava. — Ai! Já são quatro e quarenta e dois!

Tico deu um pulinho nervoso.

— Ainda precisa devolver a engrenagem na torre.

Nara apertou a alça da mochila.

— Então a gente vai planejar: a torre fica ali. A escada é longa. Eu subo com a peça, vocês vão comigo até onde der. Depois eu corro para entregar o violino.

Dona Cida apontou:

— Pegue o atalho pela escada de serviço, mas sem correr nos degraus.

A subida parecia uma montanha dentro de uma casca de caracol. Degrau, degrau, degrau… O ar ficava mais frio, e o som da estação lá embaixo virava um murmúrio distante.

Quando chegaram perto do topo, um vento entrou por uma janela redonda e quase levou Tico embora.

— Segura meu canto! — ele gritou.

Nara prendeu o bilhete entre dois dedos.

— Calma! Ninguém vai sair voando hoje.

Na sala do relógio, as engrenagens grandes pareciam rodas de bicicleta gigantes. Mas havia um espaço vazio — um “dente faltando” — bem onde a peça pequena deveria entrar.

Só que a abertura estava atrás de um sino enorme. E o sino estava preso por uma corda grossa.

— Eu não alcanço — Nara disse, esticando o braço.

Mimo se aproximou devagar, encostou no sino e, com cuidado, puxou a corda com o peso do corpo. O sino balançou só um pouquinho, abrindo espaço.

— Agora! — disse Tico.

Nara encaixou a engrenagem no lugar certo. Ela fez “clic”, como quando uma tampa fecha direitinho.

Lá embaixo, o relógio retomou um ritmo firme. “TIC… TAC… TIC… TAC…”

Ilustração da história Nara e o Bilhete Saltitante da Estação dos Dois Pontos

Nara olhou pela janela. O céu estava ficando laranja. Ela engoliu seco.

— Eu preciso ir! Cinco em ponto!

Dona Cida apareceu na porta, ofegante.

— Desce pelo elevador de carga. Eu libero para você. E vai com calma, mas sem enrolar.

Nara desceu mais rápido — sem pular degraus, sem escorregar — e saiu pelo saguão segurando a mochila como se carregasse um segredo precioso.

Na praça, Augusto já estava arrumando o banquinho, olhando para o relógio da torre.

O “DIN… DON…” começou a soar.

Nara chegou no último “DON!”, com as bochechas quentes.

— Seu Augusto! Achei seu violino!

Ele abriu o estojo, viu o instrumento seguro e sorriu aliviado.

— Você chegou exatamente na hora. Obrigado, menina! Hoje a primeira música vai ser para você.

Nara voltou o olhar para a torre. Tico, lá no alto, apareceu na janelinha como um pontinho branco e deu um pulinho que ela quase imaginou. Mimo, na beirada do parque, levantou o focinho como se também estivesse ouvindo.

Nara sentou na grama, respirou fundo e pensou: “Combinado não é só uma frase. É uma forma de cuidar do tempo do outro.”

E quando o violino começou a tocar, a Estação dos Dois Pontos pareceu sorrir com todos os seus relógios no lugar certo.

✨ Moral da História

Cumprir combinados e respeitar o horário é uma forma de cuidado, porque o tempo de cada pessoa também importa.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Qual foi o combinado mais importante que a Nara precisava cumprir? Por que ele era importante para outra pessoa?
  • 2Em que momento a Nara escolheu a segurança em vez de agir no impulso? O que poderia ter acontecido se ela não tivesse pensado nisso?
  • 3Se você fosse ajudar a procurar a engrenagem, que plano faria para não esquecer o compromisso das cinco?
  • 4Quem ajudou a Nara na aventura, e de que jeito cada um foi importante?

O que achou desta história?

Comentários (0)

Raposinha

Deixe seu comentário

Não será exibido publicamente

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!