A Menina que Queria Ser Astronauta
Uma garota do interior sonha em ir ao espaço e descobre que todo grande sonho começa com um pequeno passo.
Lívia morava em um pedacinho de Brasil onde o céu parecia maior do que em qualquer outro lugar. A cidade se chamava Santa Aurora do Vale, e ficava entre morros verdinhos, plantações de milho e estradinhas de terra que levantavam poeira dourada quando o vento passava. À noite, quando as galinhas já estavam quietinhas no poleiro e os grilos faziam sua cantoria, o céu virava um tapete preto bordado de estrelas.
Lívia tinha sete anos, tranças bem presas com elásticos coloridos e um olhar curioso, daqueles que parecem guardar perguntas dentro. Ela gostava de correr descalça no quintal da avó, sentir o cheiro de terra molhada depois da chuva e ouvir o apito do trem que passava longe. Mas havia uma coisa que ela gostava mais do que tudo: olhar para cima.
— Vó Lúcia… — ela chamava, puxando de leve a barra do avental. — Você acha que dá pra ir lá em cima? Lá no meio das estrelas?
A avó limpava as mãos na toalhinha, sorria com paciência e respondia:
— Dá, sim, minha pequena. O céu é grande, mas o sonho da gente também pode ser.
Na escola municipal, Lívia adorava as aulas de Ciências. A professora Patrícia tinha uma caixa de materiais: planetas de isopor, uma lanterna para fazer “eclipses” e cartazes com nomes grandes: MERCÚRIO, VÊNUS, TERRA. Quando a professora disse a palavra “astronauta”, Lívia sentiu um arrepio bom, como se uma estrelinha tivesse acendido dentro dela.
— Astronautas são pessoas que viajam para o espaço — explicou a professora, apontando para um desenho de foguete. — Eles estudam muito, treinam bastante e aprendem a trabalhar em equipe.
Lívia levantou a mão tão rápido que quase derrubou o lápis.
— Professora, eu posso ser astronauta mesmo morando aqui em Santa Aurora?
A sala ficou em silêncio por um segundinho. Depois veio um risinho de um colega do fundo.
— Astronauta? Aqui só tem boi e milho! — disse o Pedro, meio debochado.
Lívia sentiu as bochechas quentes. Queria desaparecer dentro do caderno.
Mas a professora Patrícia não riu. Ela chegou perto, se agachou ao lado da mesa de Lívia e falou com uma voz firme e doce:
— Pode, sim. Não importa onde você nasceu. Importa o que você faz com o seu sonho. E todo grande sonho começa com um pequeno passo.
Aquela frase ficou martelando na cabeça de Lívia como a batida de uma música.
Quando voltou para casa, ela subiu num banquinho, pegou uma caixa de sapato e começou seu “Centro Espacial do Quintal”. Colou papel-alumínio nas laterais, desenhou botões com canetinha e fez uma janelinha redonda. Para capacete, usou uma tigela de plástico transparente que a avó usava para guardar bolo.
— Vó, olha! — ela apareceu na cozinha parecendo um passarinho com capacete. — Eu sou a comandante Lívia, pronta pra decolar!
A avó levou a mão à boca para segurar uma risada e, em vez disso, aplaudiu.
— Que comandante linda! Mas comandante precisa de combustível. Qual é o combustível do astronauta?
Lívia pensou, franzindo a testa.
— Gasolina…? Fogo…?
— Também. Mas antes disso, o combustível é estudo, coragem e paciência — disse a avó, mexendo o feijão no fogão. — E isso a gente pode colocar um pouquinho todo dia.
Naquela semana, Lívia decidiu que seu primeiro pequeno passo seria aprender mais sobre o céu. Ela começou a anotar num caderno azul tudo que descobria: fases da Lua, nomes de constelações, e até uma palavra difícil que a professora ensinou: gravidade.
Só que nem tudo foi fácil. O pai de Lívia, seu Anselmo, trabalhava cedo na roça e chegava cansado. Às vezes ele via a filha com o caderno aberto na mesa e dizia:
— Ô, Lívia, isso é bonito… mas astronauta é coisa de filme. Melhor pensar em coisa mais… daqui.
Lívia apertava o lápis. Não queria contrariar o pai, mas também não queria guardar o sonho numa gaveta.
— Pai… eu posso pensar em duas coisas. Eu posso ajudar aqui e ainda assim sonhar. Não pode? — ela perguntou, com a voz pequenininha.
Seu Anselmo olhou para o rosto decidido da filha. Ele suspirou.
— Pode… — respondeu, devagar. — Só não quero ver você triste.
— Eu fico triste quando acham que eu não consigo — disse Lívia, olhando nos olhos dele.
O pai coçou a cabeça, como quem tenta entender uma coisa nova.
— Então vamos fazer assim: você me mostra seus pequenos passos. Se eu ver que você tá levando a sério… eu levo junto.
Lívia sorriu como quem ganha um bilhete dourado.
O segundo pequeno passo veio na aula seguinte: a professora anunciou uma Feira de Ciências.
— Cada grupo vai construir algo sobre o Sistema Solar — disse ela. — Pode ser maquete, cartaz, experimento… e vamos convidar as famílias.
Lívia sentiu o coração acelerar. Era sua chance! Ela se juntou com a melhor amiga, Bia, que tinha risadas fáceis e cabelo cheio de molinhas, e com Jonas, que adorava construir coisas com sucata.
— Vamos fazer um foguete de garrafa PET! — sugeriu Jonas, empolgado.
— E um capacete de astronauta de papel machê! — completou Bia.
Lívia respirou fundo.
— E a gente pode explicar que o foguete precisa de pressão pra subir, igual o ar empurrando — disse ela, lembrando de um vídeo que viu na televisão da vizinha.
Nos dias seguintes, o quintal da avó virou oficina. Tinha jornal picado, cola, tinta guache e garrafas espalhadas. A avó Lúcia ajudava com calma.
— Cuidado pra não colocar cola demais, senão escorre — aconselhava.
— Vó, parece que o foguete tá engordando! — brincava Bia.
Jonas montou uma base com pedaços de cano velho e fita adesiva. Lívia pintou estrelas e escreveu “MISSÃO SANTA AURORA” com letras grandes.
Mas, na véspera da feira, aconteceu um desastre.
Caiu uma chuva forte, daquelas que fazem o telhado cantar “toc toc toc” e o quintal virar barro. Um vento danado entrou pela lateral do galpão onde o foguete secava e… PÁ! A base tombou, a garrafa amassou, o papel machê rachou. Quando Lívia viu, seu foguete parecia um passarinho com asa quebrada.
Os olhos dela encheram de água.
— Acabou… — sussurrou. — Eu estraguei tudo.
Bia ficou pálida.
— A feira é amanhã! E agora?
Jonas chutou uma pedrinha, nervoso.
— Não dá tempo de fazer outro…
Lívia se sentou no degrau da varanda. A chuva pingava do cabelo dela, e o caderno azul ficou úmido nas bordas. Ela pensou no Pedro rindo. Pensou no pai dizendo que era coisa de filme. Pensou na frase da professora: “todo grande sonho começa com um pequeno passo”. Mas qual passo alguém dá quando o sonho cai no chão?
A avó apareceu com uma toalha seca.
— Vem cá, minha comandante — disse, enxugando o rosto da neta com carinho. — Você lembra o que você me falou sobre foguete?
Lívia fungou.
— Que precisa de pressão.
— E lembra do que eu falei sobre combustível?
— Estudo, coragem e paciência.
A avó apontou para o foguete amassado.
— Então… que tal a gente fazer o pequeno passo de agora: consertar. Astronauta não desiste na primeira turbulência.
Lívia respirou fundo. Ela olhou para Bia e Jonas.
— Vocês… vocês me ajudam?
— Ajudo! — disse Bia na hora, arregaçando as mangas.
— Eu também — falou Jonas. — A gente pode reforçar com fita e fazer uma “versão melhorada”.
A chuva diminuiu um pouco, como se tivesse ouvido.
Eles trabalharam juntos. Jonas prendeu a garrafa com mais firmeza e inventou um suporte com madeira. Bia refez a parte rachada do capacete, colocando mais camadas de jornal. Lívia, com as mãos tremendo de pressa, reescreveu as letras da missão e desenhou de novo as estrelas, uma por uma, com cuidado.
No meio da madrugada, o foguete ainda estava úmido, mas de pé. Não era perfeito. Tinha cicatrizes de fita e marcas de tinta borrada. Mesmo assim, era um foguete que contava uma história: a história de quem caiu e levantou.
No dia da Feira de Ciências, o pátio da escola ficou colorido com cartazes e mesas enfeitadas. Cheirava a pipoca e bolo de fubá. Pais e mães conversavam, crianças corriam com olhos brilhando.
Lívia ajeitou o capacete de papel machê. Suas mãos suavam.
— E se rirem do nosso foguete remendado? — ela cochichou.
A professora Patrícia apareceu atrás.
— Remendado não — corrigiu. — Esse foguete tem história. E ciência também é isso: tentar, errar, melhorar.
Quando chegou a hora da apresentação, Lívia viu o pai no meio da plateia. Ele estava com o chapéu na mão, a camisa simples bem passada, e um olhar atento que ela não via sempre.
— Grupo da Missão Santa Aurora! — anunciou a professora.
Lívia engoliu em seco e deu um passo à frente. O coração dela parecia um tambor.
— Oi… eu sou a Lívia — começou, a voz falhando um pouquinho. Ela respirou, lembrando do pequeno passo. — A gente construiu um foguete com garrafa PET. Ontem ele caiu com a chuva e a gente consertou. Isso também é parte da ciência: testar e ajustar.
Jonas explicou a base. Bia falou do capacete e da importância do treinamento. E então chegou o momento do experimento: uma demonstração simples de “decolagem” com ar e água (bem controlada, do jeito que a professora autorizou).
A professora Patrícia ajudou a encher a garrafa e ajustar o bico. Todo mundo se afastou um pouquinho. O silêncio foi tão grande que dava para ouvir um passarinho cantar.
Lívia segurou a contagem no peito.
— Três… dois… um…
E, quando apertaram o mecanismo, o foguete disparou num jato de água para cima, subindo rápido e brilhando ao sol, como se fosse um risco de alegria no ar.

As crianças gritaram “Uau!”, algumas bateram palmas, e até o Pedro ficou de boca aberta. Lívia sentiu um calor bom subindo do estômago para o peito, como se ela mesma tivesse voado.
Quando tudo terminou, seu Anselmo se aproximou. Ele olhou para a filha e para o foguete — agora com umas gotinhas escorrendo e uma fita meio solta.
— Você… você fez mesmo — disse ele, com um sorriso tímido.
— Eu fiz um pequeno passo — respondeu Lívia, segurando o capacete com as duas mãos.
O pai passou a mão no cabelo dela, com cuidado.
— Então tá. Eu não entendo muito de planeta… mas entendo de coragem. Se você quiser estudar mais, a gente dá um jeito. Eu posso pedir pra sua tia da cidade trazer uns livros. E… — ele coçou a garganta — eu posso levar você no observatório que tem lá perto de Uberaba um dia.
Lívia arregalou os olhos.
— Sério?!
— Sério — confirmou ele. — Só promete uma coisa.
— O quê?
— Promete que quando o vento derrubar o foguete… você levanta de novo.
Lívia olhou para o céu, onde uma nuvem branca parecia um algodão viajante.
— Eu prometo.
Naquela noite, de volta ao quintal, ela abriu o caderno azul, que agora tinha páginas onduladas pela chuva e rabiscos de tinta. No final, escreveu com letra caprichada:
“Meu sonho é grande. Mas meus passos podem ser pequenos. Um por dia.”
E, quando a Lua apareceu, redonda e tranquila, Lívia não sentiu que ela estava longe demais. Sentiu que era um convite — e que ela já tinha começado a responder.
✨ Moral da História
“Todo sonho enorme começa quando a gente tem coragem de dar pequenos passos e continuar mesmo depois dos tropeços.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Lívia ficou triste quando o foguete quebrou na chuva?
- 2Que “pequeno passo” a Lívia deu para chegar mais perto do sonho de ser astronauta?
- 3Se você estivesse no lugar da Lívia, o que faria quando o foguete caísse? Pediria ajuda ou tentaria sozinho? Por quê?
- 4Como o pai da Lívia mudou de ideia ao ver a feira de ciências?
- 5Que outra coisa simples você poderia fazer para aprender mais sobre o céu e as estrelas?
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