Sonhos

A Menina que Queria Ser Astronauta

27 de janeiro de 202615 min de leitura6 a 8 anos2 visualizações

Uma garota do interior sonha em ir ao espaço e descobre que todo grande sonho começa com um pequeno passo.

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Lívia morava em um pedacinho de Brasil onde o céu parecia maior do que em qualquer outro lugar. A cidade se chamava Santa Aurora do Vale, e ficava entre morros verdinhos, plantações de milho e estradinhas de terra que levantavam poeira dourada quando o vento passava. À noite, quando as galinhas já estavam quietinhas no poleiro e os grilos faziam sua cantoria, o céu virava um tapete preto bordado de estrelas.

Lívia tinha sete anos, tranças bem presas com elásticos coloridos e um olhar curioso, daqueles que parecem guardar perguntas dentro. Ela gostava de correr descalça no quintal da avó, sentir o cheiro de terra molhada depois da chuva e ouvir o apito do trem que passava longe. Mas havia uma coisa que ela gostava mais do que tudo: olhar para cima.

— Vó Lúcia… — ela chamava, puxando de leve a barra do avental. — Você acha que dá pra ir lá em cima? Lá no meio das estrelas?

A avó limpava as mãos na toalhinha, sorria com paciência e respondia:

— Dá, sim, minha pequena. O céu é grande, mas o sonho da gente também pode ser.

Na escola municipal, Lívia adorava as aulas de Ciências. A professora Patrícia tinha uma caixa de materiais: planetas de isopor, uma lanterna para fazer “eclipses” e cartazes com nomes grandes: MERCÚRIO, VÊNUS, TERRA. Quando a professora disse a palavra “astronauta”, Lívia sentiu um arrepio bom, como se uma estrelinha tivesse acendido dentro dela.

— Astronautas são pessoas que viajam para o espaço — explicou a professora, apontando para um desenho de foguete. — Eles estudam muito, treinam bastante e aprendem a trabalhar em equipe.

Lívia levantou a mão tão rápido que quase derrubou o lápis.

— Professora, eu posso ser astronauta mesmo morando aqui em Santa Aurora?

A sala ficou em silêncio por um segundinho. Depois veio um risinho de um colega do fundo.

— Astronauta? Aqui só tem boi e milho! — disse o Pedro, meio debochado.

Lívia sentiu as bochechas quentes. Queria desaparecer dentro do caderno.

Mas a professora Patrícia não riu. Ela chegou perto, se agachou ao lado da mesa de Lívia e falou com uma voz firme e doce:

— Pode, sim. Não importa onde você nasceu. Importa o que você faz com o seu sonho. E todo grande sonho começa com um pequeno passo.

Aquela frase ficou martelando na cabeça de Lívia como a batida de uma música.

Quando voltou para casa, ela subiu num banquinho, pegou uma caixa de sapato e começou seu “Centro Espacial do Quintal”. Colou papel-alumínio nas laterais, desenhou botões com canetinha e fez uma janelinha redonda. Para capacete, usou uma tigela de plástico transparente que a avó usava para guardar bolo.

— Vó, olha! — ela apareceu na cozinha parecendo um passarinho com capacete. — Eu sou a comandante Lívia, pronta pra decolar!

A avó levou a mão à boca para segurar uma risada e, em vez disso, aplaudiu.

— Que comandante linda! Mas comandante precisa de combustível. Qual é o combustível do astronauta?

Lívia pensou, franzindo a testa.

— Gasolina…? Fogo…?

— Também. Mas antes disso, o combustível é estudo, coragem e paciência — disse a avó, mexendo o feijão no fogão. — E isso a gente pode colocar um pouquinho todo dia.

Naquela semana, Lívia decidiu que seu primeiro pequeno passo seria aprender mais sobre o céu. Ela começou a anotar num caderno azul tudo que descobria: fases da Lua, nomes de constelações, e até uma palavra difícil que a professora ensinou: gravidade.

Só que nem tudo foi fácil. O pai de Lívia, seu Anselmo, trabalhava cedo na roça e chegava cansado. Às vezes ele via a filha com o caderno aberto na mesa e dizia:

— Ô, Lívia, isso é bonito… mas astronauta é coisa de filme. Melhor pensar em coisa mais… daqui.

Lívia apertava o lápis. Não queria contrariar o pai, mas também não queria guardar o sonho numa gaveta.

— Pai… eu posso pensar em duas coisas. Eu posso ajudar aqui e ainda assim sonhar. Não pode? — ela perguntou, com a voz pequenininha.

Seu Anselmo olhou para o rosto decidido da filha. Ele suspirou.

— Pode… — respondeu, devagar. — Só não quero ver você triste.

— Eu fico triste quando acham que eu não consigo — disse Lívia, olhando nos olhos dele.

O pai coçou a cabeça, como quem tenta entender uma coisa nova.

— Então vamos fazer assim: você me mostra seus pequenos passos. Se eu ver que você tá levando a sério… eu levo junto.

Lívia sorriu como quem ganha um bilhete dourado.

O segundo pequeno passo veio na aula seguinte: a professora anunciou uma Feira de Ciências.

— Cada grupo vai construir algo sobre o Sistema Solar — disse ela. — Pode ser maquete, cartaz, experimento… e vamos convidar as famílias.

Lívia sentiu o coração acelerar. Era sua chance! Ela se juntou com a melhor amiga, Bia, que tinha risadas fáceis e cabelo cheio de molinhas, e com Jonas, que adorava construir coisas com sucata.

— Vamos fazer um foguete de garrafa PET! — sugeriu Jonas, empolgado.

— E um capacete de astronauta de papel machê! — completou Bia.

Lívia respirou fundo.

— E a gente pode explicar que o foguete precisa de pressão pra subir, igual o ar empurrando — disse ela, lembrando de um vídeo que viu na televisão da vizinha.

Nos dias seguintes, o quintal da avó virou oficina. Tinha jornal picado, cola, tinta guache e garrafas espalhadas. A avó Lúcia ajudava com calma.

— Cuidado pra não colocar cola demais, senão escorre — aconselhava.

— Vó, parece que o foguete tá engordando! — brincava Bia.

Jonas montou uma base com pedaços de cano velho e fita adesiva. Lívia pintou estrelas e escreveu “MISSÃO SANTA AURORA” com letras grandes.

Mas, na véspera da feira, aconteceu um desastre.

Caiu uma chuva forte, daquelas que fazem o telhado cantar “toc toc toc” e o quintal virar barro. Um vento danado entrou pela lateral do galpão onde o foguete secava e… PÁ! A base tombou, a garrafa amassou, o papel machê rachou. Quando Lívia viu, seu foguete parecia um passarinho com asa quebrada.

Os olhos dela encheram de água.

— Acabou… — sussurrou. — Eu estraguei tudo.

Bia ficou pálida.

— A feira é amanhã! E agora?

Jonas chutou uma pedrinha, nervoso.

— Não dá tempo de fazer outro…

Lívia se sentou no degrau da varanda. A chuva pingava do cabelo dela, e o caderno azul ficou úmido nas bordas. Ela pensou no Pedro rindo. Pensou no pai dizendo que era coisa de filme. Pensou na frase da professora: “todo grande sonho começa com um pequeno passo”. Mas qual passo alguém dá quando o sonho cai no chão?

A avó apareceu com uma toalha seca.

— Vem cá, minha comandante — disse, enxugando o rosto da neta com carinho. — Você lembra o que você me falou sobre foguete?

Lívia fungou.

— Que precisa de pressão.

— E lembra do que eu falei sobre combustível?

— Estudo, coragem e paciência.

A avó apontou para o foguete amassado.

— Então… que tal a gente fazer o pequeno passo de agora: consertar. Astronauta não desiste na primeira turbulência.

Lívia respirou fundo. Ela olhou para Bia e Jonas.

— Vocês… vocês me ajudam?

— Ajudo! — disse Bia na hora, arregaçando as mangas.

— Eu também — falou Jonas. — A gente pode reforçar com fita e fazer uma “versão melhorada”.

A chuva diminuiu um pouco, como se tivesse ouvido.

Eles trabalharam juntos. Jonas prendeu a garrafa com mais firmeza e inventou um suporte com madeira. Bia refez a parte rachada do capacete, colocando mais camadas de jornal. Lívia, com as mãos tremendo de pressa, reescreveu as letras da missão e desenhou de novo as estrelas, uma por uma, com cuidado.

No meio da madrugada, o foguete ainda estava úmido, mas de pé. Não era perfeito. Tinha cicatrizes de fita e marcas de tinta borrada. Mesmo assim, era um foguete que contava uma história: a história de quem caiu e levantou.

No dia da Feira de Ciências, o pátio da escola ficou colorido com cartazes e mesas enfeitadas. Cheirava a pipoca e bolo de fubá. Pais e mães conversavam, crianças corriam com olhos brilhando.

Lívia ajeitou o capacete de papel machê. Suas mãos suavam.

— E se rirem do nosso foguete remendado? — ela cochichou.

A professora Patrícia apareceu atrás.

— Remendado não — corrigiu. — Esse foguete tem história. E ciência também é isso: tentar, errar, melhorar.

Quando chegou a hora da apresentação, Lívia viu o pai no meio da plateia. Ele estava com o chapéu na mão, a camisa simples bem passada, e um olhar atento que ela não via sempre.

— Grupo da Missão Santa Aurora! — anunciou a professora.

Lívia engoliu em seco e deu um passo à frente. O coração dela parecia um tambor.

— Oi… eu sou a Lívia — começou, a voz falhando um pouquinho. Ela respirou, lembrando do pequeno passo. — A gente construiu um foguete com garrafa PET. Ontem ele caiu com a chuva e a gente consertou. Isso também é parte da ciência: testar e ajustar.

Jonas explicou a base. Bia falou do capacete e da importância do treinamento. E então chegou o momento do experimento: uma demonstração simples de “decolagem” com ar e água (bem controlada, do jeito que a professora autorizou).

A professora Patrícia ajudou a encher a garrafa e ajustar o bico. Todo mundo se afastou um pouquinho. O silêncio foi tão grande que dava para ouvir um passarinho cantar.

Lívia segurou a contagem no peito.

— Três… dois… um…

E, quando apertaram o mecanismo, o foguete disparou num jato de água para cima, subindo rápido e brilhando ao sol, como se fosse um risco de alegria no ar.

Ilustração da história A Menina que Queria Ser Astronauta

As crianças gritaram “Uau!”, algumas bateram palmas, e até o Pedro ficou de boca aberta. Lívia sentiu um calor bom subindo do estômago para o peito, como se ela mesma tivesse voado.

Quando tudo terminou, seu Anselmo se aproximou. Ele olhou para a filha e para o foguete — agora com umas gotinhas escorrendo e uma fita meio solta.

— Você… você fez mesmo — disse ele, com um sorriso tímido.

— Eu fiz um pequeno passo — respondeu Lívia, segurando o capacete com as duas mãos.

O pai passou a mão no cabelo dela, com cuidado.

— Então tá. Eu não entendo muito de planeta… mas entendo de coragem. Se você quiser estudar mais, a gente dá um jeito. Eu posso pedir pra sua tia da cidade trazer uns livros. E… — ele coçou a garganta — eu posso levar você no observatório que tem lá perto de Uberaba um dia.

Lívia arregalou os olhos.

— Sério?!

— Sério — confirmou ele. — Só promete uma coisa.

— O quê?

— Promete que quando o vento derrubar o foguete… você levanta de novo.

Lívia olhou para o céu, onde uma nuvem branca parecia um algodão viajante.

— Eu prometo.

Naquela noite, de volta ao quintal, ela abriu o caderno azul, que agora tinha páginas onduladas pela chuva e rabiscos de tinta. No final, escreveu com letra caprichada:

“Meu sonho é grande. Mas meus passos podem ser pequenos. Um por dia.”

E, quando a Lua apareceu, redonda e tranquila, Lívia não sentiu que ela estava longe demais. Sentiu que era um convite — e que ela já tinha começado a responder.

✨ Moral da História

Todo sonho enorme começa quando a gente tem coragem de dar pequenos passos e continuar mesmo depois dos tropeços.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Por que a Lívia ficou triste quando o foguete quebrou na chuva?
  • 2Que “pequeno passo” a Lívia deu para chegar mais perto do sonho de ser astronauta?
  • 3Se você estivesse no lugar da Lívia, o que faria quando o foguete caísse? Pediria ajuda ou tentaria sozinho? Por quê?
  • 4Como o pai da Lívia mudou de ideia ao ver a feira de ciências?
  • 5Que outra coisa simples você poderia fazer para aprender mais sobre o céu e as estrelas?

O que achou desta história?

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Raposinha

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