A Menina do Farol
Uma garota assume o farol do pai durante uma tempestade e descobre a coragem que morava dentro dela.
A MENINA DO FAROL
O vento do litoral soprava cheiro de sal e de algas, como se o mar estivesse contando segredos antigos para as pedras da praia. No alto de um morro em São Miguel do Farol — um pedacinho de vila de pescadores do Nordeste brasileiro — havia uma torre branca e alta, com uma faixa azul pintada no meio. Era o farol.
Lá dentro, subindo os degraus em espiral, morava uma luz enorme, guardada por vidros grossos. E quem cuidava daquela luz era seu Chico, o faroleiro, que dizia com orgulho:
— Farol é como coração: precisa bater direitinho, sempre, pra guiar quem tá longe.
A filha dele, Marina, tinha sete anos e um olhar curioso que parecia sempre procurar uma resposta escondida. Ela gostava de ficar sentada na varanda do farol com as pernas cruzadas, ouvindo as gaivotas e vendo os barcos coloridos balançarem no mar.
— Pai — Marina perguntava, com a voz fininha — e se a luz falhar?
Seu Chico sorria, ajeitando o boné surrado.
— A gente não deixa falhar. Mesmo com chuva, mesmo com vento. O mar é bonito, mas é sério. Quem navega precisa confiar.
Naquele dia, o céu amanheceu diferente. Não era azul; era um cinza esquisito, como pano molhado. As nuvens corriam depressa, e o mar fazia barulho de panela grande fervendo.
Na vila, dona Tereza, que vendia bolo de milho na porta de casa, comentou com a vizinha:
— Hoje tem cara de tempestade daquelas…
Marina sentiu um friozinho no estômago. Ela conhecia esse frio: era o frio do “e se”. E se o vento arrancasse uma telha? E se um barco ficasse perdido? E se…
Seu Chico conferiu o rádio, olhou a bússola, checou o lampião de emergência e as ferramentas.
— Marina, fica por perto. Se o tempo virar de vez, a gente se prepara.
— Eu ajudo, pai! — ela respondeu rápido, querendo mostrar que não era pequena demais.
Ele riu baixinho.
— Ajuda sim. Você é minha assistente oficial.
A tarde chegou e trouxe com ela um barulho de trovão que fez tremer a vidraça do farol. A chuva começou de mansinho e, de repente, virou uma cortina grossa, como se alguém tivesse derramado um balde gigante do céu.
O vento empurrava a porta, e o farol gemia com um “uuuuh” comprido.
Seu Chico pegou o casaco impermeável.
— Vou descer rapidinho até o galpão pegar o gerador reserva. A umidade tá alta. Se a energia cair, a gente liga o gerador.
Marina mordeu o lábio.
— Eu posso ir junto.
— Não, filha. Tá perigoso escorregar. Você fica aqui, tranca a porta, e não abre pra ninguém, tá? Eu volto já.
Ele fez um carinho na cabeça dela e saiu. A porta bateu com força quando o vento empurrou.
Marina ficou sozinha no farol, ouvindo a chuva martelar. Ela tentou respirar devagar, como o pai ensinava quando ela ficava nervosa:
— Puxa o ar… segura… solta…
Ela olhou pela janela. Os barcos na baía pareciam brinquedos sacudidos numa bacia. A água se mexia sem parar, e a espuma branca aparecia em ondas altas.
Então… aconteceu.
A luz elétrica piscou uma vez. Duas. E apagou.
O farol ficou diferente, mais escuro, como se alguém tivesse colocado um cobertor sobre o mundo.
Marina congelou por um segundo. O coração dela fez “tum-tum” rápido.
— Não… não… — sussurrou.
Lá fora, no meio da chuva, ela ouviu um som distante: um apito de barco. Um apito comprido, assustado.
Marina lembrou das palavras do pai: “Farol é coração.” E o coração não pode parar.
Ela engoliu em seco e falou em voz alta, como se estivesse dando ordens para o próprio medo:
— Tá bom, Marina. Você sabe o que fazer.
Ela correu até a prateleira onde ficavam as coisas de emergência. As mãos tremiam, mas ela encontrou a lanterna grande. Acendeu. Um feixe amarelo cortou a escuridão.
No rádio, só chiado. Ela apertou o botão e tentou chamar:
— Pai… pai… aqui é a Marina…
Nada.
O vento uivou mais alto, como se estivesse zombando.
Marina olhou para a escada em espiral que subia até a sala da luz. Os degraus pareciam mais altos do que nunca. Mesmo assim, ela colocou a lanterna no bolso do casaco, segurou o corrimão com força e começou a subir.
Cada passo fazia o farol ranger. A chuva batia no vidro lá em cima, e o som parecia tambor.
— Um degrau… dois… três… — ela contou, baixinho. Contar ajudava a cabeça a ficar firme.
Quando chegou na sala da lâmpada principal, viu que o mecanismo estava parado. A grande lente, que normalmente girava devagar, estava quieta, como um olho fechado.
Marina lembrou de ter observado o pai muitas vezes. Ele sempre dizia:
— Primeiro, verifica a energia. Segundo, o interruptor de emergência. Terceiro, o acendedor do lampião.
Ela apontou a lanterna para o painel. Havia uma alavanca vermelha: “EMERGÊNCIA”. Marina respirou fundo e puxou.
Nada.
Um trovão estrondou tão perto que ela se agachou. O vidro tremeu. Lá fora, no mar, a escuridão parecia um bicho enorme.
E então ela ouviu de novo: o apito do barco. Mais perto.
— Eles precisam da luz… — Marina falou, e sua voz saiu fina, mas decidida.
Ela correu para o armário de metal e abriu com esforço. Lá dentro, o lampião de querosene, guardado para as piores horas. O pai já tinha mostrado como acender, mas sempre com ele junto.
Marina sentiu o medo tentar subir como uma onda. “E se eu derramar? E se eu fizer errado?”
Mas, por trás do medo, havia outra coisa: a vontade de proteger.
Ela colocou o lampião na mesa, pegou os fósforos e as mãos pararam de tremer um pouco, como se entendessem que não era hora de brincar.
— Com cuidado… — ela murmurou.
Primeiro, abriu o vidro do lampião. Depois, ajustou o pavio, deixando só um pouquinho de fora. Lembrou do pai: “Pavio demais faz fumaça.”
Ela riscou o fósforo. A chama nasceu pequena e viva. Por um segundo, o vento tentou entrar por uma fresta e a chama quase dançou demais.
Marina protegeu com a mão em forma de concha.
— Fica acesa… por favor…
E acendeu o pavio.
A luz do lampião cresceu, amarelinha, tremeluzente, mas firme. Marina colocou o lampião no suporte perto da lente do farol, do jeito que tinha visto.
Só que faltava uma coisa: a lente precisava refletir e enviar a luz para longe.
O mecanismo elétrico estava morto. Então Marina tomou uma decisão que fez o estômago dar um nó.
Ela viu a manivela manual, usada antigamente para girar a lente. Era pesada e tinha cheiro de ferro.
— Se eu girar… a luz vai varrer o mar — ela disse, como se conversasse com a própria coragem.
Ela segurou a manivela com as duas mãos pequenas e puxou.
No começo, não mexeu.
Marina fechou os olhos, imaginou o pai olhando para ela com aquele sorriso orgulhoso e pensou nos pescadores da vila, nas crianças esperando seus pais em casa.
— Eu consigo. Eu consigo! — falou.
Ela puxou de novo, com mais força. O metal rangeu, e a lente começou a se mover, lenta, muito lenta.
E então, como se o farol acordasse, a lente girou um pouco mais.
O feixe do lampião pegou a lente e virou uma faixa brilhante que cortou a chuva lá fora.
Naquele instante, Marina viu, entre as gotas e a espuma, um barco balançando perto das pedras. Uma sombra escura tentando achar caminho.
Ela girou a manivela com tudo o que tinha, sentindo os braços doerem e o suor misturar com a umidade.

A luz do farol, mesmo amarela e tremida, varreu o mar como um dedo apontando a direção segura. O barco respondeu com um apito curto, como se dissesse “obrigado!”, e começou a se afastar do perigo, seguindo a luz.
Marina quase chorou, mas não parou. Continuou girando, porque sabia que uma luz não ajuda só uma vez: ela ajuda o tempo todo.
— Vai… vai… vai… — ela repetia, no ritmo do braço.
Lá embaixo, a porta bateu e uma voz conhecida atravessou a escada:
— Marina! Filha!
Era seu Chico, encharcado, com o rosto preocupado. Ele subiu correndo os degraus, escorregando um pouco, e quando chegou viu a cena: a filha pequena girando a manivela, o lampião aceso, a lente brilhando e o mar lá fora sendo guiado.
Seus olhos ficaram grandes. Ele não falou por um segundo, como se estivesse guardando aquela imagem no coração.
— Marina… você…
— A energia caiu, pai — ela disse ofegante. — Eu tentei a alavanca. Não foi. Aí eu acendi o lampião. E… e girei aqui. Tinha um barco perto das pedras.
Seu Chico se aproximou e segurou a manivela junto com ela, ajudando a manter o giro.
— Você salvou gente hoje, minha filha.
Marina sentiu as bochechas quentes.
— Eu tava com medo.
— Coragem não é não ter medo — ele respondeu, com a voz firme e macia. — Coragem é fazer o certo mesmo com medo.
Os dois ficaram ali um tempo, girando e observando. Aos poucos, o barulho do apito se afastou. O barco tinha encontrado o caminho.
Quando a tempestade começou a diminuir, a energia voltou com um estalo. A lâmpada grande do farol acendeu, forte, branca, e o mecanismo voltou a girar sozinho.
Seu Chico desligou o lampião com cuidado.
— Você foi minha assistente oficial de verdade — ele disse, abraçando Marina bem apertado.
Marina sentiu o cheiro do casaco molhado do pai, misturado com sal e querosene. Era um cheiro que, naquele dia, significava segurança.
Na manhã seguinte, o céu parecia lavado, azul claro, e o mar estava calmo como um lençol esticado. Na vila, a notícia correu de boca em boca.
Seu Raimundo, pescador de mãos grossas, foi até o farol e tirou o chapéu.
— Seu Chico, diga pra sua menina que aquela luz salvou meu barco. A gente quase encostou nas pedras. Mas vimos o feixe e seguimos.
Marina apareceu atrás do pai, meio tímida.
— Foi você, Marina? — perguntou seu Raimundo.
Ela apertou os dedos.
— Eu só… eu só fiz o que precisava.
Dona Tereza entregou um pedaço de bolo de milho embrulhado em guardanapo.
— Pra fortalecer essa coragem aí, menina do farol.
Marina riu, e dessa vez o riso saiu leve, como gaivota voando.
Naquela noite, antes de dormir, ela subiu com o pai até a varanda. O farol piscava lá em cima, girando bonito.
— Pai — ela disse — a coragem… ela fica onde?
Seu Chico olhou para o mar e depois para a filha.
— Às vezes ela dorme quietinha, igual peixe escondido na pedra. Mas quando a gente precisa, ela aparece. E quanto mais a gente usa, mais ela aprende a nadar.
Marina segurou a mão do pai e sentiu dentro do peito um calor bom. Não era barulho de tempestade. Era uma luz.
E assim, em São Miguel do Farol, todo mundo passou a chamar Marina de “A Menina do Farol”. Não porque ela mandava na torre, nem porque era a mais forte, mas porque, numa noite escura e difícil, ela descobriu a coragem que morava dentro dela — e acendeu uma luz para os outros.
✨ Moral da História
“A coragem aparece quando fazemos o que é certo, mesmo com medo, para cuidar de quem precisa.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Marina decidiu subir sozinha até a sala do farol mesmo estando com medo?
- 2O que poderia ter acontecido com o barco se a luz do farol não tivesse voltado a aparecer?
- 3Qual foi a parte mais difícil para a Marina: acender o lampião ou girar a manivela? Por quê?
- 4Se você estivesse no lugar da Marina, que ideia teria para se acalmar e pensar no que fazer?
- 5Quem ajudou a Marina no final, e como você acha que ela se sentiu quando viu o pai de novo?
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