A Canoa Encantada do Rio Amazonas
Duas irmãs embarcam numa canoa mágica que as leva por rios encantados da Amazônia, enfrentando desafios a cada curva.

O sol ainda estava acordando quando a vila ribeirinha de São Beiradinho começou a cheirar a café passado e a tapioca quentinha. As casas de madeira, erguidas sobre palafitas, faziam um barulhinho de rangido com a brisa. Lá embaixo, o Rio Amazonas passava largo e paciente, como se carregasse histórias antigas dentro d’água.
Na última casa da passarela, moravam duas irmãs: **Iara**, de oito anos, que gostava de observar tudo com olhos atentos, e **Lia**, de seis, que vivia com perguntas pulando na boca, como pipoca estourando.
— Iara, será que o rio tem fim? — Lia perguntou, segurando um pedacinho de pão.
— Deve ter… mas é tão grande que parece que não acaba nunca — respondeu Iara, amarrando o cabelo num rabo de cavalo.
Naquela manhã, as duas tinham combinado de ir até uma prainha de areia clara, um pouco depois do igarapé do Tucumã, para procurar conchinhas e pedras brilhantes. A mãe delas, dona Rosa, falou com carinho e firmeza:
— Meninas, podem ir, mas fiquem juntas. Nada de se afastar e nada de mexer com bicho. E, se o céu fechar, voltem.
As duas prometeram com a cabeça, muito sérias. Iara pegou uma cordinha, uma garrafinha de água e um saquinho de pano. Lia levou um chocalhinho de sementes que ela mesma fez.
Elas desceram por uma escadinha e chegaram na beira do rio. Ali, meio escondida sob a sombra de uma sumaúma enorme, havia uma **canoa** que Iara nunca tinha visto. Não era velha nem nova: parecia… diferente. A madeira tinha um brilho morno, como mel ao sol, e havia desenhos fininhos na lateral, parecendo folhas e peixes feitos de luz.
— Iara… essa canoa é daqui? — Lia cochichou.
Iara passou a mão na borda e sentiu uma leve vibração, como se a canoa respirasse.
— Eu não sei. Mas olha… tem um remo só.
Como se tivesse ouvido, o remo deslizou sozinho e parou bem na frente delas. Lia arregalou os olhos.
— Ela quer que a gente entre! — disse Lia, sem conseguir segurar o sorriso.
Iara, que era mais cuidadosa, mordeu o lábio.
— A gente não pode fazer besteira… Mas… também não dá pra ignorar uma canoa que se mexe sozinha.
Nesse instante, uma voz suave pareceu vir do vento entre as folhas:
— **Canoa encantada só leva quem vai junto e cuida do rio.**
Lia segurou a mão da irmã.
— A gente cuida. Eu cuido. Você cuida.
Iara respirou fundo. E as duas entraram.
A canoa balançou, mas não como coisa perigosa: foi um balanço de ninar. Sem ninguém remar, ela se soltou da margem e começou a deslizar, fazendo um “shhh” macio na água.
— Estamos… indo! — Lia disse, metade assustada, metade feliz.
— Então vamos prestar atenção em tudo — Iara respondeu. — Se isso for um sonho, eu quero lembrar.
O rio se abriu em caminhos como se tivesse encruzilhadas. Uma curva à direita parecia mais escura, com árvores inclinadas; outra à esquerda brilhava com reflexos verdes.
A canoa escolheu sozinha a curva brilhante, entrando num igarapé estreito, onde as vitórias-régias pareciam pratos enormes boiando. Algumas tinham flores brancas e rosas, e o ar cheirava a terra molhada.
Logo surgiu o primeiro desafio.
Um **boto-cor-de-rosa** apareceu, pulando perto da canoa, e depois nadou de lado, como quem faz segredo.
— Sigam-me, meninas! — disse o boto, e Iara quase engasgou de surpresa.
— Você fala?! — Lia perguntou, encantada.
— Aqui, no rio encantado, fala quem tem história pra contar — respondeu o boto. — Mas cuidado: a próxima curva está cheia de coisas que não deveriam estar no rio.
Quando viraram, viram: garrafas de plástico, um saco boiando, e até uma lata enferrujada enroscada num galho.
Iara fez uma careta.
— Isso machuca os bichos.
Lia apontou para uma tartaruguinha tentando subir na vitória-régia e se atrapalhando por causa do plástico.
— Coitadinha!
O boto balançou a cabeça.
— A canoa só avança se vocês escolherem: passar sem olhar… ou parar e ajudar.
Iara não teve dúvida.
— Vamos ajudar.
Elas pegaram o saquinho de pano e começaram a recolher o que dava. Iara puxou o saco com cuidado, para não assustar a tartaruga. Lia pegou as garrafas menores, fazendo força com as duas mãos.
— Tá pesado! — ela resmungou.
— A gente consegue juntas — disse Iara, firme.
Quando o último pedaço de lixo foi guardado, o igarapé pareceu respirar aliviado. A água ficou mais clara, e as folhas balançaram como se estivessem aplaudindo.
A canoa avançou sozinha.
— Vocês passaram pelo primeiro teste — disse o boto, sorrindo com os olhos. — O rio gosta de quem repara.
E desapareceu com um mergulho brilhante.
Mais adiante, o céu começou a mudar. Nuvens cinzas se juntaram como um cobertor pesado. O vento veio friozinho e rápido.
— Vai chover — Iara falou, lembrando da mãe.
— Mas a canoa ainda tá indo — Lia disse, apertando o chocalhinho.
A canoa entrou num trecho onde as árvores formavam um túnel. A água ficou escura e lisa, espelhando as sombras. De repente, um som de “toc… toc… toc…” ecoou.
— O que é isso? — Lia sussurrou.
Na margem, apareceu uma **antiga placa de madeira**, meio caída, com letras tortas: “CUIDADO: CURVA DO REDOMOINHO”.
Iara sentiu o coração bater mais forte.
— Redemoinho engole canoa.
A água à frente começou a girar devagar, como uma panela mexida com colher. No meio do giro, dava pra ver uma força puxando.
A canoa, como se tivesse medo também, diminuiu a velocidade. Um sussurro correu pelo túnel de árvores:
— **Quem entra sem pensar, não volta.**
Lia apertou a mão da irmã.
— O que a gente faz, Iara?
Iara olhou em volta, procurando uma solução. Viu cipós pendurados, raízes grossas saindo da terra, e um tronco caído que formava uma ponte natural.
— A gente precisa sair do caminho do redemoinho — disse ela. — Mas sem pular na água.
Foi quando Lia, com seus olhos curiosos, apontou para uma fileira de folhas grandes boiando na lateral, como se alguém tivesse colocado de propósito.
— Olha! As folhas estão alinhadas, como um caminho!
Iara percebeu: as folhas não eram aleatórias. Elas formavam uma trilha segura pela borda, longe do centro que puxava.
— A canoa não rema sozinha, mas talvez… ela entenda — Iara falou.
Ela pegou o remo mágico. Lia segurou o chocalhinho e começou a chacoalhar bem baixinho, como se estivesse chamando a canoa pra prestar atenção.
— Canoa… segue as folhas — Lia pediu, com voz doce.
Iara remou com cuidado, só para apontar a direção. A canoa respondeu com um leve tremor, como um “sim”.
A água girava mais rápido agora. O redemoinho fazia um som grave, como se fosse um bicho enorme respirando. A canoa se aproximou demais por um instante, e a borda quase foi puxada.
— Iara! — Lia gritou.
Iara cravou o remo na água com toda a força.
— Segura firme!
A canoa escorregou pela trilha de folhas, mas uma rajada de vento empurrou tudo para o centro. As folhas se espalharam, e a canoa começou a girar.
O mundo rodou: árvores, céu, água, tudo misturado. Lia fechou os olhos e abraçou a irmã.
— Eu tô com medo! — ela chorou.
Iara também estava, mas falou com a voz mais corajosa que conseguiu:
— Eu também… mas a gente vai sair. Juntas.
No meio do giro, Iara viu uma raiz grossa saindo da margem, bem perto. Se alcançassem, poderiam puxar a canoa para fora.
— Lia, quando eu contar até três, você estica o braço e segura naquela raiz! Mas só se estiver perto, tá?
Lia abriu os olhos, cheios de água.
— Tá.
— Um… dois… três!

Lia esticou o braço pequenino e, por um segundo, pareceu que não ia alcançar. Mas a canoa, como se ajudasse, deu um pulinho para o lado. A mão de Lia agarrou a raiz com força. Iara segurou Lia pela cintura e puxou junto.
A raiz rangeu, mas aguentou. A canoa saiu do giro, raspando de leve na margem. A água ao redor se acalmou devagar, como se o redemoinho tivesse ficado sem fome.
As duas ficaram ofegantes. Iara abraçou Lia.
— Você foi muito corajosa.
— Eu só fiz porque você falou comigo — Lia respondeu, fungando.
A chuva finalmente caiu, mas não era tempestade brava. Era chuva de cheiro bom, pingos grandes fazendo música nas folhas.
O túnel de árvores se abriu, e elas voltaram ao rio largo. Lá longe, um arco-íris nasceu, meio tímido.
A canoa deslizou até uma prainha conhecida: a mesma que elas queriam visitar. Mas agora o lugar parecia mais bonito, como se tivesse ganhado cor.
Na areia, havia uma **pedrinha verde** brilhando. Iara pegou e viu que tinha um desenho natural, parecido com uma folha.
— Presente do rio — Lia disse.
A canoa encostou na margem e parou, quieta, como quem cumpre missão. O brilho da madeira ficou mais suave.
— Ela vai levar a gente de volta? — Lia perguntou.
Como resposta, o remo se mexeu, apontando para o caminho de casa. As duas entraram de novo.
No retorno, o rio parecia mais calmo. Passaram pelo igarapé das vitórias-régias e viram a tartaruguinha nadando livre, sem plástico por perto. O boto apareceu só para dar um último salto, como despedida.
Quando chegaram à sumaúma, a canoa encostou exatamente onde tinha começado. Iara e Lia desceram com cuidado. Antes de irem, Lia acariciou a borda brilhante.
— Obrigada, canoa.
A canoa fez um “toc” baixinho, como se respondesse.
Em casa, dona Rosa estava na porta.
— Meninas! Já ia chamar o tio pra procurar vocês!
Iara e Lia se entreolharam. Iara falou a verdade que parecia sonho:
— Mãe… a gente… encontrou uma canoa diferente. A gente viu um redemoinho e… limpou lixo do rio.
Dona Rosa olhou para o saquinho cheio de plástico e lata. Depois, viu o rosto das filhas, sério e cansado.
— Então vocês voltaram diferentes — ela disse, mais calma. — Venham cá.
Ela abraçou as duas bem forte.
Naquela noite, sentadas na varanda, ouvindo os grilos e o rio correndo ao longe, Iara colocou a pedrinha verde na palma da mão.
— Sabe, Lia… a canoa encantada não era só magia.
— Não? — Lia perguntou, bocejando.
— Era um jeito do rio ensinar a gente. Que tem hora de parar e ajudar. E tem hora de pensar antes de seguir.
Lia encostou a cabeça no ombro da irmã.
— E que juntas a gente é mais forte.
Iara sorriu, olhando para o escuro do rio, que parecia cheio de estrelas escondidas.
E, em algum lugar sob a sombra da sumaúma, como quem cochila depois de uma grande aventura, a canoa encantada aguardou silenciosa… pronta para levar, um dia, outras crianças que soubessem cuidar do caminho das águas.
✨ Moral da História
“Quem cuida do caminho e pensa antes de agir descobre que a coragem cresce quando estamos juntos.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que Iara e Lia decidiram parar para recolher o lixo em vez de seguir direto pelo igarapé?
- 2Quando o redemoinho apareceu, que pistas ajudaram as meninas a encontrar um caminho mais seguro?
- 3Como você acha que Lia se sentiu quando precisou alcançar a raiz? E como Iara se sentiu naquele momento?
- 4Se você estivesse na canoa, o que levaria na mochila para uma aventura no rio? Por quê?
- 5O que a família e a comunidade podem fazer para manter o rio limpo, como as meninas fizeram?
O que achou desta história?
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