A Árvore que Contava Histórias
Uma jaqueira centenária conta para uma menina as histórias de tudo que já viu, ensinando sobre respeito à natureza.

Numa rua tranquila de Paraty, onde as casas tinham janelas coloridas e o cheiro de maresia se misturava ao perfume doce das flores, morava uma menina chamada **Lia**. Lia tinha sete anos, olhos curiosos e um jeito de fazer perguntas que pareciam pipocar como milho na panela.
Naquela tarde de calor manso, a avó dela, **Dona Zefa**, colocou um chapéu de palha na cabeça da neta e avisou:
— Vamos no quintal pegar umas folhas de hortelã pra fazer chá. Seu vô tá com a garganta arranhando.
Lia foi pulando pelas pedras do caminho, desviando de uma poça aqui, outra ali, como se fosse uma brincadeira. No fundo do quintal, porém, havia um lugar que ela sempre olhava de longe com um misto de respeito e vontade de chegar perto: uma **jaqueira enorme**, velha como as histórias que a avó gostava de contar.
O tronco era tão largo que Lia achava que três adultos de mãos dadas não conseguiriam abraçá-lo. As raízes saíam da terra como dedos grossos, segurando o chão com firmeza. E os galhos… ah, os galhos pareciam braços estendidos, cheios de folhas verdes brilhantes. Vez ou outra, caía uma folha amarela, rodopiando no ar como se dançasse.
— Vó, essa jaqueira é mais velha do que a senhora? — Lia perguntou, olhando para cima até sentir o pescoço doer.
Dona Zefa riu, com um som macio.
— Mais velha que eu, mais velha que seu pai, mais velha que muita gente que já passou por aqui. Dizem que ela tá aqui faz mais de cem anos.
Lia arregalou os olhos.
— Cem anos? Ela viu muita coisa! — sussurrou, como se estivesse diante de alguém importante.
A avó fez um carinho no tronco da árvore, como quem cumprimenta uma amiga.
— Viu sim. E tem gente que diz que ela… conta.
Lia ficou tão quieta que parecia uma estátua.
— Conta o quê?
— Histórias. — Dona Zefa pegou a hortelã e completou: — Mas história a gente escuta com paciência e respeito. Nada de gritaria por aqui, entendeu?
Lia assentiu com força.
Naquela noite, depois do jantar, a curiosidade ficou maior do que o sono. Lia saiu de mansinho, com uma lanterna pequena e o coração batendo igual tambor de festa. O quintal estava fresco. Grilos cantavam. A lua deixava tudo prateado.
Ela parou diante da jaqueira. Chegou perto, encostou a mão no tronco e sentiu a casca áspera.
— Oi… dona jaqueira — ela disse baixinho. — Se a senhora conta histórias… eu queria ouvir uma.
O vento balançou as folhas. Por um instante, Lia achou que era só isso. Até que ouviu um som diferente, como um **sussurro de folhas** virando páginas.
— **Lia…** — a voz parecia vir de todos os galhos ao mesmo tempo. Não era uma voz de gente, mas também não era assustadora. Era profunda, calma, como uma canção antiga.
Lia deu um passo para trás e depois outro para frente, porque o medo e a curiosidade estavam brigando dentro dela.
— A senhora… falou meu nome!
— Eu escuto o quintal inteiro. Escuto seus passos, suas risadas, suas perguntas. E eu guardo lembranças em cada anel do meu tronco. Quer ouvir?
Lia engoliu em seco e sentou numa raiz que parecia um banco.
— Quero!
A jaqueira mexeu as folhas, como quem ajeita a própria roupa antes de contar um segredo.
— Quando eu era jovem, Lia, este quintal era bem diferente. Não tinha muro alto nem telhado vermelho. Era um pedaço de mata com cheiro de terra molhada. Os passarinhos vinham aos montes: sabiás, bem-te-vis, sanhaços. Um dia, um menino plantou uma semente aqui, bem pequenininha. Ele fez um buraco com as mãos e disse: “Cresce, jaqueira, cresce pra dar sombra e comida.”
Lia imaginou um menino com os dedos sujos de terra e sorriu.
— E a senhora cresceu!
— Cresci porque fui cuidada. A chuva me visitava, o sol me aquecia, e as pessoas respeitavam meus galhos. — A voz ficou um pouco mais séria, como quando a avó dava conselho. — Mas nem sempre foi assim.
Lia franziu a testa.
— Teve gente que não respeitou?
— Teve. Houve um tempo em que alguns homens quiseram cortar árvores para abrir passagem, sem pensar nos bichos e nas nascentes. Vi um passarinho procurar o ninho e não encontrar. Vi a terra ficar mais seca num verão. Eu quis gritar… mas árvores não gritam como gente. A gente avisa do nosso jeito: folhas caem, frutos mudam, galhos reclamam.
Lia apertou as mãos.
— Isso é triste.
— É. Mas também vi coisas bonitas. Vi crianças fazendo sombra de brincadeira, vi gente dividindo fruta com vizinhos, vi uma moça chorando encostada em mim e depois saindo mais leve, como se eu tivesse segurado um pedacinho da tristeza.
A menina ficou pensativa.
— Eu também posso contar coisas pra senhora? — perguntou.
— Pode. Eu gosto. Assim como gosto quando cuidam de mim.
Nos dias seguintes, Lia passou a visitar a jaqueira sempre que podia. Contava sobre a escola, sobre a amiga Carol que fazia tranças perfeitas, sobre o medo que tinha de prova de matemática.
E a jaqueira contava mais histórias: do dia em que um temporal derrubou um coqueiro vizinho; do gato que tentou pegar um lagarto e levou um susto; da vez em que a rua ficou sem luz e as pessoas cantaram na calçada para espantar a escuridão.
Até que, numa manhã de sábado, Lia ouviu um barulho estranho vindo da frente da casa: vozes adultas, um caminhar pesado e um som metálico.
Ela correu e viu dois homens com prancheta conversando com o pai dela, **Seu Davi**.
— A jaqueira tá muito grande — dizia um deles. — Suja o quintal, cai fruto, pode dar problema. Melhor cortar logo.
Lia sentiu o coração apertar, como se alguém tivesse amarrado um nó por dentro.
— Cortar?! — ela gritou, sem querer.
O pai se virou, surpreso.
— Lia, calma. A gente só tá conversando.
Ela correu pro fundo do quintal, ofegante, e abraçou o tronco da jaqueira com força, como se os braços pequenos dela pudessem virar um escudo.
— Eles querem te cortar! — sussurrou.
As folhas balançaram com um som preocupado.
— Eu ouvi. E não posso correr. Não posso me esconder. Mas você pode pensar, Lia. Você pode falar.
— Eu sou só uma criança…
— Criança pode ser pequena, mas a coragem pode ser grande. E a gentileza também.
Lia respirou fundo. Lembrou da avó dizendo: “História a gente escuta com paciência e respeito.” Então ela decidiu: ia tentar fazer o pai escutar também.
Ela entrou em casa correndo, pegou um caderno, lápis de cor e começou a desenhar. Desenhou a jaqueira enorme, com passarinhos nos galhos, e desenhou também uma torneira pingando água no chão, como se fosse um aviso.
Depois, foi até a cozinha onde Dona Zefa fazia café.
— Vó, me ajuda? Eles querem cortar a jaqueira.
A avó franziu o rosto e largou a colher.
— Cortar? Essa jaqueira é parte da casa. Vamos conversar.
Dona Zefa chamou Seu Davi no quintal. Lia ficou ao lado, segurando o desenho como se fosse uma bandeira.
— Davi — disse a avó, firme, — antes de decidir, olha bem pra essa árvore. Você lembra quando Lia era pequena e dormia na rede aqui embaixo, na sombra dela?
O pai ficou quieto.
— E lembra das jacas que a gente dividiu com a Dona Neide? — continuou Dona Zefa. — E dos passarinhos que vêm todo ano? Uma árvore dessas é como um vizinho antigo.
Seu Davi coçou a cabeça.
— Eu sei, mãe. Mas também tem o risco. Cai fruto pesado.
Lia levantou o desenho.
— Pai, eu pensei numa coisa! — ela disse, tentando não chorar. — A gente pode… cuidar ao invés de cortar.
— Como assim? — ele perguntou.
Lia apontou para a jaqueira.
— Podar os galhos que estão muito baixos. Colocar uma placa pra ninguém ficar embaixo quando as jacas estiverem caindo. E a gente pode pegar as jacas do chão e fazer doação, ou fazer doce com a vó! Assim ela não fica “sujando” tanto.
O pai olhou para o quintal como se estivesse enxergando tudo de novo. Nesse momento, um bem-te-vi pousou no galho mais alto e cantou alto, como se desse opinião.
— Bem-te-vi! — Lia disse, animada. — Tá vendo? Ele mora aqui.
Um dos homens da prancheta cruzou os braços.
— Podar dá trabalho. Cortar é mais rápido.
Dona Zefa respondeu com calma:
— Nem tudo que é rápido é melhor. E nem tudo que dá trabalho deve ser jogado fora.
Seu Davi respirou fundo e tomou uma decisão.
— Tá. Vamos fazer direito. Nada de cortar agora. Vou chamar um profissional pra podar com segurança e ver como cuidar da árvore. E vamos organizar o quintal.
Lia quase pulou no pescoço do pai.
— Obrigada! Obrigada!
Na mesma tarde, Lia foi correndo contar à jaqueira. O sol estava forte, e o ar cheirava a folhas quentes.
— Eu consegui! Eles não vão te cortar!
A jaqueira balançou os galhos com um som que parecia aplauso.
— Você ouviu minhas histórias e transformou em atitude. Isso é respeito.
Mas a emoção maior ainda estava por vir.
Alguns dias depois, veio um podador experiente, com capacete e cordas. Seu Davi orientou todo mundo a ficar longe. Dona Zefa fez limonada. Lia observava com o coração saltando, porque podar parecia perigoso.
Quando o homem estava no alto, aconteceu um estalo — um galho velho, pesado, rachou mais do que devia. Lia viu a corda esticar, o podador se desequilibrar e o galho começar a cair na direção do canteiro onde a avó havia deixado um balde.
Tudo aconteceu rápido. Lia gritou:
— VÓ, SAI DAÍ!
Dona Zefa virou, assustada. Seu Davi correu. O podador conseguiu se segurar na corda, mas o galho despencou com força.

O galho bateu no chão com um estrondo que fez as folhas voarem como chuva verde. Por um segundo, Lia ficou sem ar. Então viu: a avó estava segura, abraçada pelo pai, um pouco tremendo, mas bem. O podador, pendurado, respirava ofegante.
— Ufa! — Seu Davi disse, com a voz falhando. — Ainda bem que você avisou, Lia.
Lia sentiu as pernas bambas.
— Eu só… eu só vi e gritei.
Dona Zefa se agachou, segurou o rosto da neta com as mãos e falou devagar:
— Você prestou atenção. Você cuidou. Isso é amor em forma de coragem.
O podador desceu com cuidado e disse:
— Essa árvore é antiga, mas tá forte. Precisava mesmo era de manejo certinho. Com calma e respeito.
Depois da poda, o quintal ficou mais claro e organizado. Seu Davi colocou um aviso simples perto do tronco: “**Jaqueira da Casa — Respeite a Natureza**”. Lia ajudou a varrer folhas, juntou jacas caídas com luvas e, junto com a avó, fez **doce de jaca** em panelão, que perfumou a rua inteira.
E em uma tarde especial, Lia e Dona Zefa separaram potes para os vizinhos.
— A jaqueira alimenta a gente — Lia disse. — Então a gente divide.
Naquela noite, Lia voltou ao pé da árvore. Encostou a orelha no tronco.
— Dona jaqueira… obrigada por me contar histórias.
As folhas sussurraram como um cobertor.
— E obrigada por você ter virado parte da minha história, Lia. Lembre-se: quem escuta a natureza aprende a cuidar. Quem cuida, faz o mundo ficar mais bonito.
Lia sorriu no escuro. O vento passou leve. E, bem lá em cima, as estrelas pareciam piscar, como se também estivessem ouvindo.
✨ Moral da História
“Quando ouvimos a natureza com atenção e respeito, aprendemos a cuidar do que parece grande demais — e descobrimos que pequenas atitudes podem proteger grandes vidas.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Lia ficou preocupada quando ouviu os adultos falando em cortar a jaqueira?
- 2Que ideias a Lia teve para cuidar da árvore em vez de cortá-la?
- 3Como você acha que a jaqueira “se sente” quando as pessoas cuidam dela e quando não cuidam?
- 4Se você morasse nessa casa, o que faria para ajudar a manter o quintal limpo sem machucar a árvore?
- 5Qual foi o momento em que a Lia mostrou coragem na história? O que você teria feito nessa hora?
O que achou desta história?
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