Aventura

Sofia e o Sussurro das Dunas

29 de janeiro de 20269 min de leitura9 a 12 anos28 visualizações
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Sofia e o Sussurro das Dunas

Sofia tinha onze anos e uma certeza brilhando na testa como protetor solar recém-passado: ela adorava aventuras. Não qualquer aventura — aventuras “de verdade”, daquelas com fotos incríveis, histórias para contar e, de preferência, um caminho bem marcado no celular.

Quando sua mãe anunciou que passariam alguns dias em Barreirinhas, perto dos Lençóis Maranhenses, Sofia já abriu o aplicativo de mapas, salvou pontos e assistiu a vídeos de “como não se perder nas dunas”. “Tranquilo”, ela disse, como se estivesse indo ao shopping.

No dia do passeio, o sol ainda estava baixo e o vento fazia cócegas na janela da caminhonete que sacolejava na estrada de areia. O guia chamou o grupo para descer e avisou:

— Pessoal, fiquem sempre à vista. Aqui o caminho muda.

Sofia cochichou para a mãe:

— Mudááá? A areia é toda igual. Mas meu GPS não erra.

Foi nessa hora que uma menina da idade dela apareceu perto do guia, carregando uma cordinha com garrafas d’água e um pano dobrado no ombro. Tinha pele morena que parecia feita do mesmo sol que batia no lugar e uma trança comprida que balançava nas costas.

— Eu sou a Jandira — ela disse, firme. — Vou ajudar meu pai hoje.

Sofia sorriu com educação, mas pensou que guia mirim devia ser “fofo”, não necessário.

Quando caminharam até a primeira duna alta, Sofia ficou sem ar — não de cansaço, mas de espanto. O horizonte era um mar branco ondulado, recortado por lagoas de azul tão vivo que pareciam tinta derramada do céu. O vento trazia um cheiro limpo, quase de chuva distante.

Ilustração da história Sofia e o Sussurro das Dunas

— Parece outro planeta… — Sofia murmurou, esquecendo por um segundo de ser “experiente”.

Jandira apontou com o queixo:

— Aquele brilho ali é a Lagoa da Andorinha. Hoje tá funda. Se vocês forem nadar, só onde o pai mandar.

Sofia assentiu, mas seus olhos já procuravam um ângulo perfeito para foto. Enquanto o grupo descia em fila, ela se afastou um pouco para pegar “a imagem mais épica”. Só mais cinco passos. Depois mais três.

— Sofia! — a mãe chamou. — Não sai!

— Tô aqui! — Sofia respondeu, levantando a mão, confiante.

O problema é que, nos Lençóis, “aqui” muda de lugar depressa.

Uma rajada mais forte levantou um véu de areia, e o céu pareceu ficar opaco. O guia apressou o grupo para o outro lado da duna. Sofia, tentando correr e ao mesmo tempo proteger o celular, escorregou um pouco. Quando se levantou, a parede de areia já havia engolido as vozes.

— Mãe? — ela chamou, com a garganta seca.

Nada.

O vento cresceu, assobiando como se alguém soprasse em uma garrafa gigante. Sofia tentou olhar ao redor, mas a areia picava o rosto. Ela apertou o celular, como se aquilo fosse um amuleto.

— Sem pânico — ela repetiu, lembrando de um vídeo. — É só usar o GPS.

A tela acendeu… e ficou rodando, rodando, até mostrar uma mensagem de “sem sinal”. A bateria, que ela jurava estar cheia, caiu para 3%.

— Não, não, não… — Sofia sussurrou, sentindo um medo pesado, daqueles que não aparecem em vídeo.

— Ei! — uma voz atravessou o vento.

Sofia viu Jandira surgindo do nada, agachada, com o pano no rosto.

— Eu vi você indo pro lado — Jandira falou alto. — Vem! A gente precisa se proteger.

Elas se encolheram atrás de uma duna menor, onde o vento batia menos. Jandira amarrou o pano no rosto de Sofia, deixando só os olhos de fora.

— Respira pelo nariz, devagar. Areia no pulmão é o que derruba a gente — Jandira explicou.

Sofia obedeceu, sentindo o coração bater como tambor.

Ilustração da história Sofia e o Sussurro das Dunas

— A gente… se perdeu? — Sofia perguntou, tentando parecer corajosa, mas a frase saiu fina.

Jandira olhou o céu esbranquiçado.

— Não dá pra dizer que tá “perdido” igual cidade. Aqui é mais tipo… “fora do lugar”. Mas a gente consegue voltar.

— Pelo GPS… — Sofia começou.

— Pelo vento — Jandira cortou, sem grosseria. — Agora ele tá soprando do mar. Quando a ventania baixa, a gente vai ver as cristas das dunas. Elas apontam o caminho, se você souber ler.

Sofia engoliu seco.

— Ler areia?

— Meu avô dizia que duna é livro. Só não tem letra. Tem sinal.

Ficaram ali alguns minutos, economizando água. Sofia, pela primeira vez, percebeu como a própria ansiedade fazia barulho. Quis falar, pedir desculpa, mas não encontrou as palavras.

Quando o vento começou a cansar, o céu clareou um pouco. Jandira ergueu a cabeça e analisou o relevo, como quem observa uma pintura cheia de detalhes.

— Tá vendo aquelas linhas? — ela apontou. — A crista tá virada assim. Se a gente seguir por aqui, chega numa moita de restinga. Tem um abrigo antigo perto. Não é casa, mas dá sombra.

— E se você estiver errada? — Sofia soltou, sem querer.

Jandira a encarou, séria.

— Eu posso errar. Por isso eu não caminho sozinha e não faço pose pra foto. Aqui, a gente aprende a ter humildade. A areia não liga pra quem se acha esperto.

A frase doeu em Sofia, mas não como ofensa — doeu como verdade.

Elas caminharam devagar, subindo e descendo, cuidando para não gastar energia à toa. Jandira marcava o caminho com pequenas pedrinhas escuras, raras naquela imensidão, para o caso de precisarem voltar. Sofia observou, tentando entender. Notou também que Jandira nunca andava em linha reta quando a duna era muito alta; ela fazia um zigue-zague econômico, como se conversasse com o terreno.

Depois de um tempo, encontraram uma faixa de vegetação baixa, resistente, e uma estrutura simples de madeira e palha, quase camuflada.

— Aqui — Jandira disse, aliviada. — Meu pai sabe desse ponto. Se ele procurar, vai vir.

Sofia sentou na sombra e soltou o ar como quem devolve um peso. O celular morreu no bolso, silencioso.

— Jandira… — Sofia começou, encarando a própria sandália cheia de areia. — Eu achei que… eu achei que eu sabia. Eu vi um monte de coisa na internet.

Jandira deu um meio sorriso.

— Internet ajuda. Mas não substitui o chão. Nem quem vive nele.

Sofia respirou fundo.

— Desculpa por ter saído. E por ter duvidado.

Jandira pegou uma garrafa e ofereceu.

— Tá desculpada. Só não repete. Quem repete, dá trabalho pras dunas.

Alguns minutos depois, ouviram um som distante: motor e vozes. Jandira subiu a duna mais próxima com cuidado e fez um sinal amplo com o braço. Sofia subiu atrás, sentindo as pernas tremerem — não só de esforço, mas de alívio.

Do alto, viram a caminhonete e o grupo, pequenos como brinquedos, aproximando-se do abrigo. O guia acenava, e a mãe de Sofia parecia segurar o choro com as duas mãos. O sol já estava mais inclinado, dourando o branco das dunas.

Ilustração da história Sofia e o Sussurro das Dunas

Sofia correu sem pensar quando chegou perto, e a mãe a apertou como se quisesse costurar a filha de volta ao peito.

— Eu… eu me perdi — Sofia disse, com a voz embargada. — Mas a Jandira me achou.

O guia olhou para Jandira com orgulho.

— Sabedoria de casa — ele falou. — Aqui, quem respeita aprende. Quem não respeita… vira história de susto.

Na volta, Sofia não pediu para sentar na janela. Sentou ao lado de Jandira e ficou olhando as marcas que o vento desenhava na areia, como linhas em movimento.

— Você pode me ensinar a “ler” isso? — Sofia perguntou.

Jandira assentiu.

— Posso. Mas primeiro você aprende a regra número um.

— Qual?

— Antes de mostrar o que você sabe, pergunta o que você não sabe.

Sofia sorriu, dessa vez sem pose. E, pela primeira vez, sentiu que a aventura mais importante não tinha sido atravessar dunas — tinha sido atravessar a própria certeza.

Naquela noite, no caderno de viagem, Sofia escreveu: “Lençóis não é lugar de vencer. É lugar de escutar. E escutar dá um tipo de coragem que não aparece em foto.”

✨ Moral da História

Humildade e respeito pelos saberes de quem conhece o lugar podem ser o melhor mapa em qualquer aventura.

Vamos Conversar?

Perguntas para conversar com a criança após a leitura:

  • 1Em que momento a confiança da Sofia virou imprudência, e o que ela poderia ter feito diferente?
  • 2Quais “sinais” a Jandira observou na natureza para tomar decisões? Você conhece algum sinal assim onde você mora?
  • 3Por que aprender com alguém do lugar é diferente de aprender só pela internet ou por vídeos?
  • 4Se você estivesse no lugar da Sofia, o que diria para pedir desculpas e mostrar que aprendeu?
  • 5Qual foi a parte mais corajosa da história: enfrentar a ventania ou admitir que estava errada? Por quê?

O que achou desta história?

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Raposinha

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